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Templarismo


Índice dos Arquivos do Site Cavaleiro Templário


es. Esoterismo

Publicado em:28.12.08

Palavras Iniciais

Abaixo veremos alguns conceitos segundo a visão de Pietro Ubaldi, que bem explicam o "como" e o "por quê" de serem como são. Como todos sabem, Pietro Ubaldi era um dos raríssimos "Médiuns" que conseguiam a sintonia com o Mestre Jesus Cristo.



Hereditariedade e Personalidade

Há qualidades individuais, cuja presença a hereditariedade pais-filhos, antepassados- descendentes, não basta para explicar. Todo o processo evolutivo não pode ficar confiado somente à transmissão do organismo físico, pelo fato de que a reprodução se faz na juventude, quando os pais possuem um mínimo de experiência adquirida, enquanto, para que a evolução possa assegurar a sua continuidade e acumular os frutos de seu trabalho, a reprodução deveria realizar-se na velhice, ao fim da vida, quando os pais possuem o máximo de sabedoria a transmitir.

(P. Ubaldi - Princípios de uma nova Ética)

Existe, pois, o fato de que o efeito deve ser proporcionado à causa e ser da mesma natureza. Ora, matéria e espírito são de estrutura diversa, e um funcionamento cerebral não é proporcionado aos efeitos mentais que o transcendem em potência e em qualidade. Um caso semelhante é o representado pela impossibilidade de admitir que o tipo de personalidade seja o produto dos cromossomos e genes que o nascituro encontra nas células germinais dos genitores. Deveremos, ao contrário, admitir que a personalidade não derive do desenvolvimento desses elementos, causa da formação do seu tipo, que deles seria o efeito, mas que é preexistente ao nascimento e que, segundo o seu tipo já definido nas células germinais dos genitores, escolhe os elementos que mais lhe são adaptados, os que mais se lhe assemelham, para continuar a desenvolver-se consoante o próprio tipo. Isto acontece por afinidade e sintonia. Só assim a evolução pode seguir um desenvolvimento lógico, não confiado ao acaso como tentativa.


(P. Ubaldi - Um Destino Seguindo Cristo)



Publicado em:21.12.08

Palavras Iniciais

Na sequencia das Meditações do Budismo Tibetano.



CAPÍTULO III: Da Aplicação

 

Como os dias que passaram se foram para sempre, e os dias futuros poderão não chegar a ti no estado presente de teu ser, cabe a ti, ó homem! fazer uso do estado presente sem lamentar a perda do que já passou e sem depender demais do que ainda virá; pois nada podes saber de teus futuros estados, exceto o que tuas ações de agora disponham para eles.

Este momento é teu; o momento seguinte encontra-se no ventre do futuro e não sabes o que te pode trazer; a maturidade do que não nasceu está na observância da Lei.

Cada estado futuro é aquilo que crias no presente.

Tudo que decidires fazer, realiza-o imediatamente. Não deixes para a tarde o que puderes realizar pela manhã.

A indolência é a mãe da carência e da dor; mas o trabalho pelo Bem gera prazer.

A mão da diligência derrota a necessidade;a prosperidade e o sucesso acompanham o homem industrioso.

Quem é aquele que adquiriu riqueza, que elevou-se ao poder, ataviou-se com honras, de quem toda a cidade fala com louvor e que se coloca diante do rei em seu Conselho? Somente aquele que expulsou a indolência de sua casa e disse: "Ociosidade, és minha inimiga."

Ele cedo deixa o leito e tarde se recolhe; exercita a mente pela contemplação, o corpo pela ação e preserva a saúde de ambos.

O homem ocioso é uma carga para si próprio, as horas lhe pesam na cabeça; ele perambula e não sabe o que fazer.

Seus dias passam como a sombra de uma nuvem; ele não deixa nenhum sinal que o recorde.

Seu corpo adoece por falta de exercício e, embora deseje agir, não tem poder para mover-se; sua mente está obscurecida; seus pensamentos, confusos; ele aspira pelo conhecimento mas não tem diligência.

Gostaria de comer a amêndoa mas detesta o trabalho de quebrar sua casca.

Sua casa está em desordem, seus servos desperdiçam e tumultuam, e ele caminha para a ruína; vê tudo isto com seus olhos, ouve com seus ouvidos, sacode a cabeça e deseja, mas não tem resolução; e assim a ruína cairá sobre ele como um turbilhão, e a vergonha e o arrependimento descerão com ele ao túmulo.

Contudo, chegará o dia em que tua Alma retornará dos Céus, juntará o pó e o animará.




Publicado em:14.12.08

Palavras Iniciais

Para ampliar um pouco mais nosso conhecimento esotérico.



A Iniciação de Ulysses

A Essência do Mito

O Mito é a alma das acções humanas; estimulante oculto, ele é o depositário das sementes do devir individual e colectivo, é uma verdade velada por alegorias psicológicas.

O mito não fala ao intelecto, mas antes toca o mundo do sentimento ordenando-o segundo a planificação da inteligência superior. O mito recolhe melhor dos móbiles evolutivos e conduz-nos, por etapas, até ao divino arquétipo (Ideal).

Semelhante à memória do homem que salvaguarda do tempo, unicamente, os impactos da sua consciência, o mito é a memória da humanidade. O inconsciente colectivo é o património de experiências que nos falta actualizar; por esta mesma razão existem os mitos que são os agentes ocultos da repetição de verdades psicológicas inerentes à evolução do homem.

Poesia: Corpo e Essência da Linguagem Mítica

A forma poética da epopeia homérica vai recordar-nos a importância da mensagem nela inserida. Abordando verdades essenciais ao homem universal, a mitologia deverá revestir-se do entusiasmo divino. A sua expressão será, então, o canto poético. A etimologia da palavra poesia tem uma origem fenícia e deriva do vocábulo "Phobe": palavra, e de "Ish": divino, que poderemos traduzir por “linguagem superior”. O seu berço etimológico teria sido a Trácia cuja palavra significa “espaço etéreo” ou “terra de luz”.. A poesia seria, assim, uma forma de comunicação com o divino, uma linguagem sagrada, ponte entre o celeste e o terrestre.

A poesia é composta por uma Essência (Intuição, Mensagem de Luz) e um Corpo (organização dos sons e silêncios através do ritmos). Os versos mais utilizados chamavam-se Hexametros, constituídos por 6 pés rítmicos. Um pé equivale a 2 tempos constituídos por 2 longas ou então por 1 longa e duas breves. A duração de um verso equivalia a 12 tempos.

Não devemos confundir o espírito com o corpo da poesia pois apesar de um estar dependente do outro, um corpo sem alma é como um recipiente sem água; a essência justifica a forma; um poema sem conteúdo não passa de vãs palavras resultantes de uma sábia demonstração técnica.

As três expressões clássicas da Poesia estão relacionadas com os ciclos da manifestação: nascimento, vida e morte. Inspiração, exaltação e expiração são os 3 tempos da “respiração” poética.

O nascimento traduz-se pela

EUMOLPEIA – Espírito – Nous

A vida traduz-se pela

EPOPEIA – Alma – Psyché

A morte traduz-se pelo

DRAMA – Corpo – Soma

A EUMOLPEIA representa a inspiração divina; entre os Mestres deste género contam-se Orfeu e Hesíodo.

A EPOPEIA (turbilhão, envolvimento, exaltação do sentimento) terá por mestre Homero.

O DRAMA (humanização), possui, como tal, 2 máscaras:

- TRAGÉDIA – Ex. Ésquilo

- COMÉDIA – Ex. Aristófanes

Com a EUMOLPEIA o homem inspira-se, com a EPOPEIA o homem exalta-se; com o DRAMA o homem mortifica-se: chora com a tragédia, e quando já não tem lágrimas para verter no seu interior, então ri com a comédia. Quando nasce o drama uma civilização apaga-se.

Estudo do Contexto Épico

Homero (séc. VIII a. C.) terá extraído os seus relatos do santuário de Tiro (Líbano, antiga Fenícia). Vidente dos Mistérios, irá velar com alegorias os seus poemas épicos, subtraindo ao olhar físico o seu conteúdo psicológico e simbólico. Aqui poderia residir o facto de associar Homero ao poeta cego, aquele que oculta a visão do mistério.

A Ilíada de Homero vai situar-nos num tempo histórico; a veracidade desses altos feitos pôde ser comprovada por Schliemann na sua descoberta de Tróia.

A Odisseia vai transportar-nos num tempo psicológico vivido no interior do homem.

O herói, ou ser semi-divino, serve de ponte entre o Céu e a Terra (Espírito e Matéria). Como símbolo da Alma humana, o herói unifica a dualidade pelo seu desejo de transcender a condição de mortal.

Se o herói aspira a subir ao céu, os Deuses homéricos descem até aos homens. O herói está sempre irmanado a um deus, seu duplo celeste: Ulisses-Atena, Páris-Apolo, Aquiles-Tétis, Helena-Afrodite. O movimento do herói produz a mudança de posição dos deuses que, por analogia com o zodíaco, podem entrar em relação de amizade ou de discórdia, de exaltação ou de queda.

Assim, Ulisses atrai a cólera de Poseidon, os conselhos de Atena, a ciência de Hermes.

Os deuses estão solidários com o destino humano, inclinam mas não forçam. Os obstáculos são as relações dos efeitos acumulados pela marcha do homem até Deus, e aquele deverá queimar os seus efeitos pela exaltação do seu desejo de imortalidade.

A descida dos Olímpicos representa os agentes do destino (Karma), que equilibram a balança das virtudes e das fraquezas a fim de orientarem a marcha da Humanidade.

A Ilíada – Breve Análise

Esta primeira parte da epopeia homérica representa a guerra entre os gregos e os troianos. Esta guerra, que durará 10 anos, número sagrado da tétraktys pitagórica, toma um aspecto simbólico, falando-nos do rapto de Helena (do fenício: Hellen que significa luz, glória, esplendor, associada a Selene ou Lua em grego). Helena é o símbolo da Alma e da Sabedoria. Páris significa em fenício: geração, extensão; Menelau, marido de Helena, significa: regra, medida.

Assim, a Ilíada apresenta-se como um jogo psicológico em que Menelau é um elemento limitativo –aquele que está limitado pela razão–, Páris –aquele que vai contra a regra do jogo e que permite uma modificação das posições conservadoras–, Helena –o anzol do jogo, é aquela que liberta dos condicionalismos da personalidade-. Assim, a Sabedoria (Helena), irá ser raptada por Páris que concede a si mesmo esta recompensa por ter favorecido Afrodite, preferindo ao amor do poder: Hera, ao amor do conhecimento: Atena, o amor da mais bela mulher: Afrodite..

Vemos, então, a Sabedoria afastar-se de Menelau pois esta não pertence a ninguém; a Sabedoria é uma constante conquista do homem (ver a lenda de Sir Lancelote que deixa passar diante de si o Santo Graal enquanto dormia).

Um pacto de aliança retinha todos os antigos pretendentes de Helena, e cada um deles devia responsabillizar-se pela defesa do feliz eleito e da sua conquista.

Após o rapto de Helena os grandes reis e senhores do Ática unir-se-ão por esta causa digna.

Aquiles, Ajax, Agamémnon, Hestor, Ulisses, Menelau, combatem pelo lado grego; Páris, Heitor, filhos do rei Príamo, são os grandes heróis troianos. TODOS ASPIRAM À SABEDORIA.

A Ilíada é o jogo das virtudes e defeitos, da coragem e fraqueza humana; é o jogo da vida em que, para ganhar a coroa da Sabedoria, duras provas deverão ter de ser sublimadas; a inteligência deve ser superior à força, a humildade ao orgulho, a coragem à raiva.

Se Aquiles não atingiu a imortalidade devido unicamente ao seu calcanhar vulnerável, também a guerra de Tróia não está ganha antecipadamente, pois nenhum dos intervenientes é invulnerável e, por conseguinte, não pode ser favorito: todos podem jogar os dados...

A Ilíada termina com o regresso de Menelau, Helena, Agamémnon e Ulisses. A Odisseia começa quando Ulisses, por ter irritado o grande Poseidon, é desviado da sua trajectória por uma violenta tempestade. Ulisses, símbolo da paz e da inteligência que rege a evolução do homem, vai ser seleccionado por Homero para encerrar o ciclo épico.

Ulisses ama a sua ilha Ítaca. Ele vive em paz com Penélope e Telémaco, seu filho, até ao momento em que Menelau recorda-lhe o seu compromisso de salvaguardar a sabedoria (Helena). Ulisses prefere, inicialmente, enganar a sua consciência, fingindo-se esquecido e louco. Semeia pedras de sal na areia do mar; porém, Menelau não se deixa enganar e coloca diante da charrua de Ulisses o filho deste, Telémaco. Ulisses é obrigado a desmascarar o seu jogo, desviando a sua charrua e seguindo, por fim, com Menelau para Tróia.

Ulisses é aquele que aspira à paz, mas esta paz não pode ser cultivada egoístamente; mais vale uma guerra digna do que uma paz indigna: eis aqui um dos mais belos arquétipos da Odisseia ou seja, a paz assente na justiça, Ulisses é o protagonista; Penélope, duplo feminino de Ulisses, representa a virtude que se constrói com muito tempo e paciência. Fiel ao seu esposo, ela irá fazer face a uma torrente de pretendentes insaciáveis que cobiçam Ítaca, a ilha da paz, para ususfruirem os seus múltiplos tesouros.

Penélope preparará uma armadilha aos seus pretendentes: só se casaria de novo após ter terminado o lençol funerário que estava a tecer para Laertes, pai de Ulisses. Tecia de dia e desfazia de noite mantendo numa interminável espera os seus cobiçosos pretendentes, enquanto aguardava o regresso de Ulisses. Penélope representa a paciência e a esperança e alimenta-se com tempo; é o dia a noite, a ilusão do mundo sensível.

A Viagem de Ulisses

A primeira escala será a ilha dos Lotófagos: os seus habitantes alimentam-se de flores de lótus. Esta ilha representa o olvido – a alma humana esquece rapidamente o seu objectivo; aqueles que preferem uma vida sem preocupação, sem esforço, ficarão nesta ilha. Aqui Ulisses deixará alguns companheiros e continuará a sua rota. Esta primeira prova representa a vitória sobre a inércia (terra: étero-físico).

A Ilha dos Cíclopes: representa a prova da inteligência prevalecendo sobre a força brutal, indistintiva (domínio do veículo energético: água). Aqui Ulisses irá vencer Polifemo, o cíclope. Polifemo fechou Ulisses e seus companheiros numa gruta. Após ter devorado dois companheiros de Ulisses, este embriaga o cíclope a fim de o cegar. Para saírem da caverna, Ulisses e seus companheiros agarraram-se ao ventre das ovelhas de Polifemo e, assim, puderam escapar apesar da vigilância do cíclope. Constatando a perda dos reféns, Polifemo chamou os seus irmãos para bloquearem a passagem de Ninguém (nome pelo qual Ulisses se tinha prudentemente apresentado). Julgando-o louco, os outros cíclopes votaram o infeliz ao seu fado. A ilha dos cíclopes representa a vitória da energia mental sobre a força física.

A ilha de Éolo: o rei Éolo é aquele que governa os ventos. Receberá cordialmente Ulisses, oferencendo-lhe um saco contendo os maus ventos. Ulisses aceita com prudência esta oferta mas os seus companheiros, ávidos de riqueza, abrem o saco julgando encontrar aí um tesouro. Levanta-se, então, uma terrível tempestade e o barco naufraga junto à ilha de Lestrígones, habitada por um povo canibal, onde Ulisses perderá mais um dos seus companheiros.

Esta terceira etapa da viagem de Ulisses corresponde à superação do elemento Ar: a tormenta psíquica. Mesmo dominando o seu corpo astral (ar/emoção), Ulisses deverá, contudo, aprender a suportar os ventos que vêm do exterior; saber caminhar com ou contra os ventos, é uma arte própria dos Mestres de Sabedoria.

Quarta etapa: a ilha de AEA (Fogo).

Aqui Ulisses terá de enfrentar os encantamentos de Circe, feiticeira que metamorfoseava os homens em animais. Com o apoio de Hermes que lhe concederá uma protecção contra a magia de Circe, Ulisses obterá os segredos da feiticeira, vivendo com ela durante vários anos.

Esta quarta etapa representa a vitória sobre o elemento Fogo. É a inteligência de desejos, a qual retém o homem à sua natureza inferior (animal). Graças a Hermes, símbolo da transmutação, Ulisses iniciar-se-á na arte da Magia sem se deixar escravizar por ela. Dos dois caminhos da Magia, negra – egoísta, branca – a que liberta o homem da condição animalesca – Ulisses escolhe o segundo permitindo que os seus companheiros reencontrem a sua condição de homens, e continua a sua rota, agora esclarecido sobre qual o caminho a seguir.

Quinta etapa: seguindo o conselho de Circe, Ulisses desce aos infernos para consultar o adivinho Tirésias. Esta etapa representa Antakarana, o fio que une a alma ao corpo. Após ter, prudentemente, oferecido sangue fresco de cordeiro às almas errantes do Hades (única maneira de as manter afastadas) poderá, então, aproximar-se do adivinho e obter dele o segredo que lhe permite conhecer o caminho de regresso a Ítaca.

Ulisses volta dos infernos iluminado acerca do seu Destino. Sem perder tempo nesse mundo transitório, ele continua a sua rota. Evitará o canto das sereias tapando os ouvidos dos seus companheiros com cera e fazendo-se amarrar ao mastro do barco.

Esta armadilha representa as vozes do desejo que despertam no homem a ambição do poder. As sereias, monstros alados com cabeça de mulher, encantavam os marinheiros com as suas vozes lânguidas, conduzindo-os assim à morte. Aquele que pudesse ouvi-las sem ser por elas captivido, marcaria o fim de suas existências. Ulisses, amarrado pela vontade, irá resistir às forças da paixão. O herói da Odisseia representa a inteligência (Manas) unida à vontade (Eu Superior / Atma) que faz calar as vozes melosas da ilusão. Após a vitória de Ulisses, as sereias serão transformadas em rochedos.

Em seguida, o seu navio aportou na ilha de Trinácia. Aqui, os esfomeados marinheiros cometeram a imprudência de comer os bois de Hélios. Zeus fulminou os ímpios e aniquilou o navio por meio de uma tempestade. Ulisses, que respeitara a ilha sagrada, foi o único sobrevivente. O homem deve respeitar a Lei; quem não sabe obedecer não pode, por sua vez, ser respeitado.

Ulisses finalizará a sua viagem iniciática na ilha da ninfa Calipso que o retém prisioneiro durante 7 anos. Apaixonada pelo herói, Calipso irá propor-lhe a imortalidade, mas Ulisses, que não aspira ao repouso da sua Alma sem primeiro ter cumprido o seu destino, recusará. Sob as ordens dos Deuses poderá reencontrar a sua liberdade aportando, por fim, na Ilha de Ítaca.. (Esta prova da ilha de Calipso simboliza a renúncia do Paraíso pelo amor aos homens).

Envelhecido e esfarrapado, Ulisses vai imaginar, graças aos conselhos de Atena, uma artimanha para libertar Ítaca e Penélope dos seus ataques de promiscuidade. Com a ajuda de Telémaco, seu filho, ele preparará um estratagema: aquele que entre todos os pretendentes lançasse com o arco de Ulisses uma flecha através de 12 círculos de fogo, tornar-se-ia marido de Penélope. Ulisses, munido do seu arco, lança uma flecha directa ao alvo e destrói, assim, todos os pretendentes à ilha de Ítaca. Reconhecido pelos seus familiares, reencontra Penélope e a paz de Ítaca.

O Regresso de Ulisses

O regresso de Ulisses simboliza o regresso da Sabedoria à Pátria dos homens. Os sábios não conhecem o repouso da alma sem terem, primeiro, salvaguardado o destino dos mortais. Tal como no Mito da Caverna de Platão em que o Filósofo, após ter contemplado o Fogo da Verdade, volta a descer na caverna para inspirar e conduzir os prisioneiros, assim Ulisses renuncia à imortalidade que lhe foi oferecida pela ninfa Calipso. Ele guarda a memória de Ítaca, a ilha da paz, e deseja defender a virtude (Penélope) das suas indignas cobiças.

A paz indigna não existe no coração dos heróis. Estes não apreciam a guerra em si, mas não recusam nenhuma batalha para defenderem os valores superiores do Homem. A Odisseia de Homero é a exaltação das virtudes transcendentes. Os mitos são a memória dos altos feitos da humanidade, permitindo-nos redescobrir que os ideais de bondade, justiça e paz são inerentes ao Homem Eterno. O caminho que nos leva até Eles não é um caminho fácil: duras provas aguardam o aspirante. Lutamos porque existe no fundo de cada um de nós esse sonho de perfeição. Cada um de nós possui um pouco da força de Aquiles, um pouco da tenacidade de Ajax, um pouco da inteligência de Ulisses e um pouco da virtude de Penélope. Todos estes heróis habitam em nós e exortam as nossas consciências a despertarem de suas prisões de carne.

http://www.nova-acropole.IniciacaodeUlisses 



Publicado em:07.12.08

Palavras Iniciais

Dentro da sequencia quinzenal a que nos propusemos publicar alguns temas para reflexão dentro do Budismo Tibetano, abaixo o 2 de 14.



CAPÍTULO II: Da Modéstia

Quem és tu, ó homem! que te orgulhas de tua própria sabedoria? Por que te gabas daquilo que adquiriste?

O primeiro passo para a sabedoria é saber que nasceste mortalmente ignorante; para que não sejas julgado insensato na opinião dos demais, rejeita o desatino de te julgares sábio em tua própria mortalidade.

Assim como um vestuário simples adorna melhor uma mulher formosa, também o comportamento modesto é o maior ornamento da sabedoria interior.

A fala do homem modesto dá lustro à verdade, a modéstia de suas palavras absorve seu erro.

Ele não confia em sua mortal sabedoria; pesa bem os conselhos de um amigo e deles colhe benefício.

Afasta seus ouvidos do louvor a si mesmo e nele não crê; é o último a descobrir suas próprias perfeições.

Contudo, como o véu que realça a formosura, suas virtudes são destacadas contra a sombra que sua modéstia sobre elas projeta.

Mas contempla o homem vaidoso, observa o arrogante; ele se cobre com ricos atavios, caminha pela via pública, lança os olhos ao redor e corteja a observação dos demais.

Ele ergue orgulhosamente a cabeça e menospreza os pobres; trata seus inferiores com insolência e seus superiores, por outro lado, riem de seu orgulho e sua insensatez. 

Ele despreza o julgamento dos outros; confia em sua própria opinião e se confunde.

Está cheio da vaidade de sua imaginação; seu deleite está em falar e ouvir falar de sua pessoa o dia inteiro.

Engole com avidez os louvores e o adulador por sua vez o devora.



Publicado em:30.11.08

Palavras Iniciais

Embora bastante martelado o tema, vale sempre relembrar essa Verdade espiritual que muitos ainda relutam em aceitar. Sobre o assunto, veja também nos Arquivos - História e Pesquisa, de 19.10.08.



VOCÊ E A REENCARNAÇÃO

Ernest O’Brien

A reencarnação é o retorno da alma à Terra, repetidas vezes, no corpo humano. Sòmente essa doutrina explica a aparentes injustiças da vida. É a verdade eterna.
Na sucessão dos nascimentos, o homem adquire experiência e conhecimento acerca de si mesmo e do seu destino. Pela reencarnação aprende-se que “o homem colhe aquilo que semeia”.
Toda vida é eterna. A lei da justiça é infalível. Não há um pensamento, uma palavra ou uma ação que não tenha o seu eco. Para possuir, dê. Você tem de saber disso. O homem cria as causas e a lei cármica ajusta os efeitos. Você tem liberdade de escolher entre o bem e o mal.
Portanto, o melhor esforço está no aperfeiçoamento próprio. É isso que importa, afinal de contas? A instrução é o tesouro da alma. Mas, que aproveita ao homem possuir um tesouro e não usa-lo em boas ações?
O desenvolvimento da nossa acuidade espiritual faz brilhar a luz dentro de nós. Não basta ao homem espiritualizar-se. Ele deve aplicar e demonstrar a sua espiritualização. Viver é dar. Deus enviou-nos, a cada um de nós, para ser um trabalhador do Seu Reino. O fruto da cultura é semeado em obras para a generosidade de Deus no mundo.
De outro lado, o conhecimento é como a semente; a que cai no coração aberto, produz o fruto da perfeição.
Se a nossa fé em Deus for suprema, Deus retribui na mesma medida. A justiça o exige e, assim, o entendemos. Destinamo-nos à felicidade aqui ou além se, acima de tudo, proporcionarmos felicidade ao nosso semelhante. Essa é a lei de causa e efeito – renascimento.
De que serve o conhecimento inativo?
Dê amor à Humanidade e Você receberá amor, em todas as suas manifestações.
Todo ser humano é rodeado de oportunidades sem fim e de infinitas possibilidades. A lei cármica retribui a Você do modo como Você a recebe. Procure conhecer-se e praticar as boas ações sempre. Experimente.

(Nova Iorque, N.I., E.U.A, 14, Julho, 1965.)

Mensagens Recebidas em Língua Inglesa, tradução de Hermínio Corrêa de Miranda
Livro “Entre Irmãos de Outras Terras” – Psicografia Francisco C. Xavier e Waldo Vieira.



Publicado em:23.11.08

Palavras Iniciais

Inicio hoje uma série de 8 temas para reflexão extraídos do Livro "A Vós Confio", que vem a ser uma versão do Livro da Sabedoria do Budismo Tibetano, revista e elaborada pela AMORC dos Estados Unidos e Traduzida pela do Brasil.

O primeiro tema é sobre a "Ponderação". Ao longo dessa série serão vistos os comportamentos e atitudes necessárias para aqueles que querem se elevar espiritualmente.



DAS OBRIGAÇÕES RELATIVAS AO HOMEM COMO INDIVÍDUO

 

CAPITULO I: Da Ponderação

 

COMUNGA contigo mesmo, ó homem! e considera por que foste criado.

Contempla teus poderes, contempla tuas necessidades e tuas relações; desta forma descobrirás os deveres da vida e serás orientado em todos os teus caminhos

Não comeces a falar ou agir antes que tenhas pesado tuas palavras e examinado a direção de cada passo que pretendes dar; assim, a desgraça fugirá de ti, e em tua casa a vergonha será desconhecida; o arrependimento não te visitará, nem a tristeza pousará em tua face nesta vida e em muitas outras vidas futuras.

O homem irrefletido não refreia sua língua; fala a esmo e se embaraça na insensatez de suas próprias palavras.

Assim como aquele que corre apressadamente e salta por cima de uma cerca pode cair num fosso que talvez haja do outro lado e ele não tenha visto, assim ocorre com o homem que se lança bruscamente à ação sem ter considerado suas conseqüências e a compensação que a Lei exige.

Escuta, portanto, a voz da Ponderação; suas são as palavras da sabedoria, e seus caminhos te conduzem à segurança e à verdade.




Publicado em:16.11.08

Palavras Iniciais

Confirmando comentário anterior de que mediunidade é um dom físico, médico compara o 'médium' a um aparelho telemóvel (celular), e leva sua pesquisa ao que há de mais atual no campo das energias e forças (física quântica, teoria das cordas...).
Nota : O grifo é nosso.



Médico psiquiatra investiga mediunidade

Sérgio Filipe de Oliveira

Sérgio Felipe de Oliveira é médico. Licenciado pela Universidade de São Paulo (USP), é Doutor em Ciências pela USP, director clínico do Pineal-Mind Instituto de Saúde de São Paulo. Além disso, actua nas áreas de Psiquiatria e Clínica Médica. É ainda coordenador e professor responsável do Curso de Pós-Graduação Latu-Sensu de Psiquiatria Transpessoal, disponibilizado pela Universidade de São Paulo (USP). Presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo, aqui fica a entrevista com um dos mais respeitados médicos psiquiatras e investigadores da actualidade.

Nos seus cursos, como introduz às pessoas o estudo da mediunidade?

Sérgio Felipe de Oliveira – De início, é necessário apresentar os conceitos de Universos Paralelos e a Teoria das Supercordas (1), porque essas hipóteses científicas buscam a unificação de todas as forças físicas conhecidas e pressupõem a existência de 11 dimensões, coincidindo com a revelação espírita sobre os diversos planos da vida espiritual. Temos de estudar também outros temas científicos importantes, tais como a energia flutuante quântica do vazio (2), prevista por Einstein e desenvolvida por Paul Dirac, o teorema de Godel (3), e discutir um pouco acerca do tipo de matéria que participa da constituição dos corpos subtis do espírito, e recorremos ainda à área da Psicologia Transpessoal (4). Assim poderemos entender melhor como se produz a comunicação entre os espíritos encarnados e desencarnados.

Como é vista a mediunidade pela medicina?

SFO – O Código Internacional de Doenças (CID) n.º 10 (F 44.3), de certa forma, já o admite. Do mesmo modo que o Tratado de Psiquiatria de Kaplan e Sadock, no capítulo sobre as teorias da Personalidade, quando se refere ao estado de transe e a possessão por espíritos. Carl Gustav Jung, por sua vez, estudou uma médium possuída por espíritos. Enfim, já há total abertura para discutir o tema sob a óptica meramente científica.

No contexto fisiológico, o que é a mediunidade?

SFO – A mediunidade é uma função de senso-percepção. É igual a uma outra qualquer função deste tipo. Para exercê-la é necessário que haja um órgão que capte e outro que interprete. Na nossa hipótese de trabalho, a glândula pineal é o órgão sensorial da mediunidade; como um telemóvel, capta as ondas do espectro electromagnético que provêm da dimensão espiritual e o lóbulo frontal faz o juízo crítico da mensagem, auxiliado por outras áreas encefálicas.


A glândula pineal altera-se com a idade?

SFO – De facto, ocorre a biomineralização da glândula pineal, ela calcifica-se. Enfim, na minha tese de mestrado na USP, investiguei os cristais de apatita da pineal, mediante a difracção dos raios-X, utilizando ainda a tomografia computadorizada e a ressonância magnética. Tive a oportunidade de observar nesses cristais uma microcirculação sanguínea que os mantêm metabolicamente activos e vivos. Penso que são estruturas diamagnéticas que repelem ligeiramente o campo magnético, e isso faz com que a onda caminhe em “ricochete” de um cristal ao outro. Assim se produz o sequestro do campo magnético pela glândula pineal. Quanto mais cristais tem um indivíduo mais possibilidades terá de captar ondas electromagnéticas. Os médiuns ostensivos revelam possuir mais cristais.

Que sintomas poderiam derivar deste facto?

SFO – Variam dependendo do tipo de mediunidade. Nos fenómenos espíritas, como é o caso da psicofonia, psicografia, possessão etc., há captação pelos cristais da glândula pineal e sua activação é adrenérgica, quer dizer que pode ocorrer taquicardia, aumento de fluxo renal, circulação periférica diminuída, etc. No fenómeno anímico, em que a alma do encarnado se desprende do corpo, ou seja nos estados de desdobramento, os sintomas são outros; podemos ter distúrbios de sono, sonambulismo, terror nocturno, ansiedade, fobia, etc. Encaixam aqui também os fenómenos de cura e ectoplasmia. Nos anímicos ocorrem mais fenómenos colinérgicos; aumento de actividade do aparelho digestivo, diminuição da pressão arterial etc.

Quer dizer que a mediunidade não se manifesta sempre como fenómeno paranormal?

SFO – Nem sempre. Uma boa parte das vezes se expressa mediante alterações do comportamento psicobiológico. Explico: a glândula pineal é um órgão sensorial, capta as ondas do espectro magnético provenientes de universos paralelos; a percepção seria enviada ao lóbulo frontal que a interpretaria. Mas para isso é necessário experiência e sobretudo estudo e também transcendência, senão não se desenvolve nessa área.

E se o indivíduo não consegue essa transcendência?

SFO – Nesse caso, as ondas do espectro magnético vão influir directamente sobre as áreas do hipotálamo e as estruturas adjacentes sem passar pelo juízo crítico do lóbulo frontal ou sem seu comando. O indivíduo perde o controlo do comportamento psicobiológico ou orgânico. É o que se passa em muitos casos de obesidade, quando a pessoa come sem necessitar, ou pode ter dificuldades nas relações sexuais. Se o impacto se produz na área da agressividade, pode exacerbar a autoagressividade do indivíduo, e desencadear depressão e fobia, ou a heteroagressividade, que expressa violência para com os outros. Se se acciona o sistema reticular ascendente, que é o responsável pelos estados de sono e vigília, podem ocorrer distúrbios nessa área. Nos casos citados ocorrem sintomas sem desenvolvimento mediúnico, com alterações hormonais, psiquiátricos, orgânicos. Se não se controla o lóbulo frontal, predominam as áreas mais primitivas. O indivíduo não usa a capacidade de transcendência. São hipóteses que recolhi nas investigações e nos elementos clínicos.

O problema é espiritual ou orgânico, o que diz?

SFO – Não existe uma coisa separada da outra. Eu parto da hipótese de que a pessoa é o espírito. Assim, a influência espiritual tem repercussões biológicas e os comportamentos psicorgânicos influem sobre o espírito.

Como integrar ciência e espiritualidade?

SFO – O cérebro está embriologicamente previsto no coração. Não existe raciocínio sem emoção. Somente o desenvolvimento da capacidade de amar constrói a verdadeira identidade das pessoas. Enquanto não existir uma união definitiva entre ciência e espiritualidade, a humanidade não encontrará a paz e o amor.

Faz as suas pesquisas exclusivamente com investigadores espíritas?

SFO – Não. Fazemos com espíritas e não espíritas, já que ambos temos os mesmos objectivos.

Actualmente tem algum projecto?

SFO – Sim, a Universidade do Espírito é um projecto universitário para o ensino e investigação em pós-graduação para profissionais das áreas da medicina, psicologia, pedagogia, sociologia, biologia, física, cosmologia e outras. Contará com salas de aula, laboratórios, biblioteca, administração, arquivos, ambulatórios e um centro informático. Este nosso projecto conta com o apoio de várias instituições estatais, como a própria USP e privadas, além de vários profissionais em diversas áreas científicas. Deste modo, a Universidade do Espírito funcionará como elemento centralizador da rede de formação de hospitais espíritas, que no Brasil são cerca de 100. Também contará com um núcleo de estudiosos espíritas da USP, que reunirá professores, cientistas e investigadores espíritas desta universidade, sem excluir outros cientistas estrangeiros, como o vosso eng.º Luís de Almeida, que foi por nós convidado para ingressar neste projecto.

NOTAS (por Luís de Almeida):

1) Teoria das Supercordas, é uma teoria cosmológica que descreve as partículas como ondulações de cordas, unificando assim a "mecânica quântica" e a "relatividade generalizada", ou seja os seus objectos fundamentais não são as partículas que ocupam um único ponto no espaço, mas sim objectos (cordas) unidimensionais. No total existem 5 teorias das cordas, que foram unificadas numa só, a Teoria-M.

2) Estado de menor energia de um sistema quântico, que está presente no espaço cosmológico aparentemente vazio.

3) Teorema da Incompletude de Gobel, afirma que em qualquer sistema formal de axiomas (exemplo, a matemática actual) é possível fazer afirmações cuja a veracidade ou falsidade não podem ser demonstradas usando apenas os axiomas que definem o sistema, demonstrando matematicamente que há problemas que não podem ser resolvidos por meio de nenhum conjunto de regras ou procedimentos, impondo desta forma limites fundamentais e destruindo assim a crença generalizada de que a matemática era um sistema coerente e completo com uma base lógica única.

4) É uma ciência holística que busca transcender os aspectos pessoais do ser, elevando-o a uma condição totalmente espiritual. Está baseada na física moderna subatômica, cujo modelo quantum-relativístico busca apresentar um ponto de vista integrado da teoria de quantum e relatividade, onde o Universo todo (matéria/energia) é uma entidade dinâmica em constante mudança num todo indivisível.
 
Texto oferecido pelo autor, que é membro do CECA, publicado no "Jornal de Espiritismo” da ADEP – Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal.

Texto: Cristina Carvalho



Publicado em:09.11.08

Palavras Iniciais

Conhecendo um pouco melhor a Tradição Judaica, vale lembrar que Cabala é o último estágio da Iniciação Judaica e que quer dizer "o que é recebido".



Torá

Fonte:
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Rabino David A. Cooper

Existe um certo número de definições para a palavra Torá. Em geral ela se refere ao próprio documento composto pelos cinco livros (Pentateuco) de Moisés: Gênese, Êxodo, Levítico Números e Deuteronômio.

Em uma definição mais ampla, algumas pessoas a expandem, incluindo os livros do Profetas e os Textos Sagrados. Os livros dos Profetas incluem, por exemplo, Josué, Juízes, Samuel, Reis, Jeremias, Ezequiel e outros. Os textos sagrados incluemos Salmos, Provérbios, Jó, Cânticos dos Cânticos, Ruth, Lamentações, Eclesiastes, Esther, Daniel e outros. Isso tudo é comumente chamado de Livro do Antigo Testamento. Mais precisamente, estas escrituras compiladas são denominadas Tanakh que vem das letras hebraicas tnkh, que representam Torá, Nevi’m (Profetas) e Kettuvim (Textos Sagrados).

A Torá é a lei escrita. Entretanto, uma leitura cuidadosa da mesma revela certos trechos que parecem se contradizer ou então são ambíguos. Estas inconsistências sugerem que precisamos de mais informações para entender o verdadeiro significado da Lei. Diz-se que Moisés explicou o sentido da lei escrita por meio da comunicação oral. A Lei Oral é a base para a solução de muitas dificuldades que aparecem no texto. Na verdade, as questões mais complicadas referentes à lei são as vezes respondidas com a frase: “Isto procede diretamente de Moisés, no Sinai.”

Além das dificuldades apresentadas no significado da própria lei escrita, temos um outro problema. Os cinco livros de Moisés foram originalmente escritos em hebraico, sem vogais assim como os pergaminhos da Torá são escritos até os dias de hoje.

O idioma hebraico é construido de tal forma que a substituição de uma vogal por outra pode alterar completamente o significado de uma palavra. Geralmente, conseguimos entender o significado de uma palavra na Torá pelo contexto na qual ela é utilizada, mas algumas frases pode nos deixar intrigados. Isto é o que os cabalistas fazem, pois eles sempre buscam além do óbvio. Tudo é visto como uma metáfora para os ensinamentos ocultos de sabedoria.

Muitos significados da Torá Escrita, decodificados e explicados em vários níveis, estão incluidos no conjunto de ensinamentos de sabedoria conhecido como a Tradição Oral ou Lei Oral. Isto tambem é entendido como Torá. Quando alguem perguntava aos sábios talmúdicos Shammai e Hillel “quantas Torás voces teêm?”, ambos respondiam: “Duas; uma escrita e outra oral.”

A Torá Oral foi transmitida, durante mil anos, verbalmente, de mestre para aluno. A forma utilizada para memorizar ensinamentos orais era a repetição contínua. Em hebraico, o verbo que significa “repetir” é shanah; então, a Lei Oral veio a ser denominada de Mishnah. Acredita-se que na antiguidade, graças às técnicas utilizadas, havia pessoas de memória prodigiosa capaz de memorizar a Torá inteira, incluindo os Profetas e os textos Sagrados. Conta-se que a memória dos sábios era tão precisa que eles eram testados da seguinte maneira: Muitas páginas de um livro eram furadas com uma agulha. O sábio ficava sabendo qual era a palavra que a agulha tinha furado na primeira página e então deveria dizer, sem olhar, quais as palavras que tinha sido afetadas pela agulha nas páginas subsequentes.

Os sábios memorizavam tambem inúmeras leis (halachá) ensinavam histórias (agadá), o que aumentava o conjunto do material escrito. Em suma, eles memorizavam, detalhadamente, centenas de livros.

Entretanto, por volta de 2.000 anos atrás, os alunos começaram a perder este dom. A terra Santa foi conquistada por Pompeu, e o Império Romano trouxe um novo nível de comércio para a Terra, que, por sua vez, provocou mudanças na cultura e tambem uma nova maneira de perceber as coisas. Em tais condições, a qualidade dos estudos superiores se deteriorou, e a Torá Oral estava em perigo de se perder para sempre. Por isso, a Mishnah foi escrita por Judah ha-Nasi, no inicio do século III.

Pelo fato de a Mishnah ser um corpo de leis designadas a ser memorizado, é muito crítica. De cada frase, podemos extrair uma série de associações.

Até a época de Judah ha-Nasi, mais de mil anos se tinham passado desde a entrega da Torá Escrita. Muita confusão foi gerada a respeito de associações e significados de comentários essenciais da Lei Oral. Diferenças de opinião surgiram quanto à interpretação de certos enunciados da Mishnah. Muitos centros de estudos foram fundados, cada um com a sua própria visão sobre como entender o texto. Discussões e debates a respeito das diferentes interpretações ocorreram em várias academias e, assim, um novo conjunto de comentários surgiu. Essa coletânia de comentários foi escrita no século VI, e é o que denominamos Talmud da Babilônia, que é o Talmud principal usado nos dias de hoje. Uma versão anterior menos aceita, o Talmud de Jerusalem, foi compilada nos séculos III ou IV.

Dessa forma, o Talmud representa o conjunto dos comentários que explicam a Mishnah – a Lei Oral.

O Talmud é enciclopédico em sua abrangencia. Questiona o significado das palavras, analisa o motivo pelo qual algumas palavras estão fisicamente perto de outras, por que algumas são soletradas de uma certa maneira, por que algumas são repetidas, por que certos eventos têm lugar numa ordem determinada, o que representam realmente certos nomes de pessoas e lugares, qual era o verdadeiro significado e intenção de uma determinada lei, e assim por diante. Dois terços do Talmud da Babilônia tratam das leis judaicas; um terço relata histórias e prédicas, estas tambem consistem em material para indagações subsequentes.

A maior parte da lógica utilizada no raciocínio talmúdico não é aristotélica, o tipo de lógica que empregamos normalmente em nossa forma de pensar habitual.

A lógica aristotélica é formada de silogismos. Se A é maior que B, e B é maior que C, então A é maior ou menor que C? Certamente, diríamos maior. Nossas mentes são condicionadas a pensar dessa forma.

No entanto, o raciocínio talmúdico utiliza uma forma de lógica chamada hermenêutica, um conjunto complicado de princípios que levam em consideração elementos como colocação, repetição ou significado das palavras. Se preto relaciona-se com branco em algum trecho, e preto relaciona-se à palavra casa em outro, dever existir uma conexão entre branco e casa. Isto não é lógico segundo as leis de Aristóteles, mas é um método habitual de raciocínio hermenêutico. De acordo com o rabino Adin Steinsaltz, que empreendeu a tarefa gigantesca de traduzir o Talmud, escrito principalmente em aramaico, para o hebraico e inglês, existem centenas de regras para esse tipo de raciocínio.

Por essa razão, o Talmud leva o estudioso a outros estados mentais, a diferentes maneiras de encarar as coisas. A Cabalah vai mais alem, muitas vezes usando metodologia intuitiva, que transcende até mesmo a lógica hermenêutica. Portanto, todas as vias de análise estão abertas para os estidiosos da Torá, oferecendo um vasto potencial para a compreensão mística. Por essa razão, muitas pessoas estudam a Torá e o Talmud, muitas vezes revendo o mesmo texto, ano após ano, sem sequer chegar perto de esgotar a riqueza do material disponível.

Além disso, um gênero exclusivo de literatura rabínica foi desenvolvida em consequencia do estudo intensivo dos textos bíblicos. Esta literatura é chamada Midrash, palavra que vem da raiz hebraica drsh que significa “procurar” ou “investigar”. Em virtude dessas explorações terem seguido diferentes vias de pesquisas, muitos ensinamentos do Midrash são contraditórios entre sí.

A intenção, no entanto, não era desenvolver um ponto de vista coerente sobre os significados ocultos da Torá, mas aumentar, da forma mais ampla possível, a variedade das interpretações possíveis a um ensinamento.

O misticismo judaico conta com todas estas fontes . Tanto o Tanakh quanto o Mishnah, o Talmud e o Midrash constituem as fontes pricipais de onde os manuscritos cabalísticos evoluiram. A Cabalah trouxe uma nova perspectiva, e métodos diferentes para a compreensão desta literatura. Se tornou um novo gênero da literatura judaica.



Publicado em:02.11.08

Palavras Iniciais

     Os mitos, contos e lendas de um modo geral nos transmitem uma mensagem subjacente que é imperceptivel ao nosso intelecto, que fala diretamente, através dos símbolos e das imagens que formamos em nossas mentes, com o nosso inconsciente, com nossos sentimentos mais puros, com o nosso "eu" mais íntimo. É o que nos mostra a brilhante pesquisa.



TRISTÃO - MITO E SÍMBOLOS

Por: Délia Steinberg Guzmán

ANTIGUIDADE DA GESTA DE TRISTÃO

É difícil encontrar as raízes deste mito-história que se dilui no tempo e que bem conhecemos, pois converteu-se numa das tradições poéticas mais espalhadas na Europa da Idade Média, tendo inspirado narrativas e romances nas Ilhas Britânicas, França Alemanha, Espanha, Noruega, Dinamarca e Itália. São numerosas as versões literárias (apoiadas umas nas outras, ampliadas ou diversificadas) que aparecem nos séculos XI, XII e XIII, que se inserem na tradição cavaleiresca, cortesã e trovadoresca ou que apontam para autênticas obras de grande envergadura literária.
Em todas elas, o destino dum amor trágico parece ser o fulcro da história, mas na sua essência a história fala-nos da trajectória infeliz de um cavaleiro que, após enfrentar toda a espécie de riscos e desafios, consegue demonstrar o fundamental da questão, isto é, a sua perfeição e a sua integridade em todos os aspectos que vão desde o combate físico até à possessão do amor imortal. O culto à dama dos "Minnesinger", dos trovadores e cantores de gestas cavaleirescas em geral, expressa-se aqui simbolicamente como o culto à própria alma imortal e à pureza dos ideais de honra e lealdade.
São inúmeras as relações com outros mitos, cuja antiguidade é de igual modo difícil de desvendar como o mito de Tristão. Destacaremos dois fundamentais em que possamos apoiar-nos nas comparações simbólicas, como por exemplo: a saga do rei Artur e a demanda do Graal, e o mito grego de Teseu que enfrenta o Minotauro, graças ao auxílio de Ariadne. Ao desenrolar a trama dos acontecimentos e o significado dos seus personagens, iremos fazendo alusões às várias semelhanças.
O certo é que existe uma assaz complexa e riquíssima fusão de elementos históricos, míticos e lendários, folclóricos regionais e internacionais que dificultam o trabalho de investigação.
Para alguns, a origem celta é indiscutível, sobretudo no que se refere aos elementos mágicos e crenças primitivas que encerra, muito anteriores ao século XII.
Para outros, o vínculo mitológico-simbólico entronca-se com o astrológico, e assim há quem veja em Tristão um personagem lunar, um "deus-Lua" enquanto que outros o interpretam como o destino do Sol.
Não falta também quem se centre exclusivamente no conteúdo psicológico da narrativa, destacando o drama humano que vivem as suas personagens. Surpreende o facto de que, na época em que a literatura lança esta aventura, não se encontra nenhum sentimento religioso nos protagonistas, entendendo-se por "religioso" que não haja qualquer arrependimento pela respectiva conduta, muito pelo contrário, os amantes sentem-se inocentes e até amparados por Deus e pela natureza. Existe, no entanto, nos acontecimentos algo que situa os protagonistas "para além do bem e do mal".
Diversos autores falam da possibilidade duma origem oriental, já de alguns episódios ou do conjunto da obra. Segundo esta teoria, a lenda teria sido transplantada do Oriente para o Ocidente pelos árabes da Península Ibérica.
Por outro lado, há quem insista na repetição reiterada da lenda em todo o litoral atlântico europeu, o que a faria retroceder a uma origem ário-atlante, anterior aos celtas.
O que se depreende de quase todas as análises é que, seja qual for o sua procedência, seja qual for o seu grau de antiguidade, deve ter existido uma fonte comum e arcaica de inspiração, uma lenda prévia com mais ou menos detalhes, que serviu de suporte a todos os romances, com todas as suas variantes feitas sobre o tema de Tristão.

O ARGUMENTO

A seguinte síntese, ainda que não concordando em todos os pormenores com a conhecida obra de Richard Wagner, ajudar-nos-á a apreciar melhor uma série de significados simbólicos desta gesta. Tristão é um jovem príncipe que vive na corte de seu tio, o rei Marcos da Cornualha. Num combate terrível vence Morold da Irlanda, a quem Marcos deveria pagar anualmente um tributo de cem donzelas. Em resultado deste combate, Tristão fica gravemente ferido por uma flecha envenenada. Abandona a corte e deixa-se levar pela corrente numa barca, sem remos, nem velas, nem sequer leme, levando consigo apenas a sua lira. Por fim chega duma forma prodigiosa às terras da Irlanda, onde a loira Isolda, hábil em artes médicas e mágicas, tal como fora sua mãe, consegue curar-lhe a ferida. Tristão apresenta-se sob falsa identidade, usando o nome de Tantris, mas Isolda reconhece-o como vencedor de Morold, ao comparar a falha da sua espada com um fragmento de metal que havia extraído do crâneo do vencido. Por isso, e também levada pela compaixão ou talvez por uma nascente atracção, atende o ferido. De regresso à corte, o tio de Tristão encarrega-o de procurar a mulher com quem deseja casar-se, mas de quem só possui um fio de cabelo louro que uma andorinha deixou cair do bico.
Tristão reconhece que o cabelo pertence à loira Isolda, e depois de diversas proezas consegue conquistá-la para o tio, sendo a sua gesta mais importante a de enfrentar e matar uma monstruosa e terrível serpente que devastava a Irlanda e atemorizava os mais valentes cavaleiros.
Durante a viagem da Irlanda para a Cornualha, a aia de Isolda muda de lugar o recipiente que continha poções mágicas que a princesa levava consigo, e quando Isolda, com a razão obscurecida pelo ressentimento, oferece a Tristão o licor da Morte, os dois bebem o filtro do Amor, que provoca em ambos uma paixão avassaladora.
Celebram-se as bodas de Isolda e Marcos, mas a rainha e Tristão, por entre angústias e torturas, continuam vivendo um amor ardente até que o rei os descobre. A partir daí são vários os desenlaces, segundo as diversas versões.
Uma delas conta que um cavaleiro do rei Marcos fere mortalmente Tristão que se retira para o palácio que o viu nascer para aí esperar a morte... mas acrescenta que entretanto Isolda chega e que novamente o salva. De facto, Isolda chega numa barca, mas é seguida pelo rei Marcos e seus cavaleiros. O desenlace é trágico porquanto todos morrem à excepção do rei que fica como testemunha muda de todo o drama. Tristão e Isolda despedem-se da vida com um canto de Amor Transcendental que tem muito mais de glorioso do que de doloroso.
Noutras versões, o rei Marcos logo que descobre os amantes, desterra-os da corte e eles vão viver solitários num bosque (ou numa gruta dum bosque) até que um dia Marcos os surpreende adormecidos, se bem que com a espada de Tristão entre ambos, como símbolo de inocência e castidade. Então o rei perdoa a sua esposa e leva-a consigo, enquanto que Tristão é desterrado para a Armórica, onde se casa com a filha do duque da região, chamada Isolda das Brancas Mãos, embora a recordação da sua amada o mantenha distanciado de sua esposa.
Uma vez mais Tristão é gravemente ferido ao defender um amigo e manda buscar a loira Isolda, a única que o poderá curar. Para saber se ela vem, o barco enviado para a trazer ostentará velas brancas em caso afirmativo, e negras se não conseguir trazê-la. Quando o barco aparece no horizonte, Isolda das Brancas Mãos, levada pelo ciúme, diz a Tristão que as velas são negras. Com isto morre a última esperança de Tristão e a sua vida apaga-se, enquanto a loira Isolda, ao ver o sucedido, deita-se a seu lado e deixa-se morrer também.

PERSONAGENS: SEUS NOMES E CARACTERÍSTICAS

Tristão (às vezes escrito Tristan ou Tristant): nome de origem celta; Drostân e Trystân são diminuitivos do nome Drost ou Drust, usado por alguns reis pictos durante os séculos VII e IX. Mas este nome também se relaciona com "tristeza", aludindo ao facto de sua mãe ter morrido quando o deu à luz, pouco tempo depois da morte do pai. É filho de Rivalén, rei de Leonis, e de Brancaflor, irmã do rei Marcos da Cornualha. Tristão é o "herói sem par, maravilha dos reinos e refúgio da glória".
Tantris: é o nome usado por Tristão ao chegar à Irlanda pela primeira vez quando gravemente ferido por Morolt, sem rumo e entregue nas mãos do destino, e também pela segunda vez quando vai para conquistar a mão de Isolda, para logo ter de a entregar a seu tio Marcos. Em ambos os casos é um nome com profundo significado, não apenas pela inversão das sílabas, mas também dos valores: já não é o brilhante cavaleiro, mas, sim, o "necromante tântrico" que busca auxílio junto da maga Isolda, ou que engana Isolda para a entregar a outro homem. Isolda (Iseut, Isaut, Isolt, Isalde, Isotta): é também um nome celta que remonta até o Essylt cimbro, mas o mais provável é derivar do germânico Ishild ou Iswalda.
Mario Roso de Luna relaciona a etimologia do nome com Isa, Isis, Elsa, Elisa, Isabel, Isis-Abel... inclinando-se para a imagem de Isis como a alma pura que dá alento a todos os homens.
É filha da rainha da Irlanda e sobrinha de Morolt (às vezes dizem-na sua prometida ou sua irmã); é mestra nas artes mágicas da cura, o que permite aparentá-la com Medeia e com Ariadne no mito de Teseu.
Isolda, a das Brancas Mãos: filha de Hoel, rei ou duque de Armórica ou da pequena Bretanha;é uma personagem que a maioria dos autores considera posterior e acessória ao mito original. Morolt (Morholt, Morhot, Amoroldo, Morlot, Maroldo): é o cunhado do rei da Irlanda, um homem gigantesco que se apresenta anualmente na Cornualha para reclamar o tributo das cem donzelas.
Na versão wagneriana é o prometido de Isolda, que foi vencido por Tristão e o seu cadáver arrojado para uma ilha deserta, enquanto a sua cabeça foi espetada em terras da Irlanda. "Mor" significa em celta "mar", mas também "alto", "grande". É, em síntese, o monstro que Tristão-Teseu deve abater, pois simboliza a velha humanidade em contraposição com a juventude promissora do nosso herói.
Marcos (Marc, Marcos, Marke, Marco, Mars, Mares): rei da Cornualha, tio de Tristão e esposo de Isolda é, de acordo com Roso de Luna, a personificação do "Karma", a lei do destino. É o único que sobrevive à catástrofe final do drama, sendo a causa pela qual se desencadeiam todos os efeitos.
Brangania (Brangel, Brengain, Brenguen, Brangêne, Brangaene): é a fiel aia de Isolda que, segundo as versões, confunde - intencionalmente ou não - os recipientes onde se encontram os filtros que Tristão e Isolda hão-de beber. Na obra de Wagner, Brangania é a escolhida para servir o filtro da Morte a Tristão e Isolda, mas, ou por medo ou confusão, dá-lhes em seu lugar o filtro do Amor.

EPISÓDIOS SIMBÓLICOS

O MITO DE TESEU E DO MINOTAURO

São numerosas as coincidências com o mito de Teseu e o Minotauro. Tristão, tal como Teseu, tem de vencer um monstro: o gigante Morolt que exigia o tributo das donzelas, ou o dragão que assolava as terras da Irlanda. Por vezes estes dois episódios acham-se claramente diferenciados e outros vezes ambas as personagens, Morolt e o dragão, misturam-se, formando um único ser monstruoso.
Seguindo as pegadas de Teseu, Tristão conquista Isolda, mas não para si: Teseu entrega Ariadne a Dionísio, e Tristão entrega Isolda a seu tio, o rei Marcos.
No final do relato surge um barco cujas velas, brancas ou negras, são significativas do regresso de Teseu (e a morte de seu pai num caso) e da chegada de Isolda e da morte de ambos os amantes no outro caso. As velas fazem as vezes dum estandarte especial; para Wagner, Isolda aproxima-se com um pavilhão no mastro que é "a alegria luminosa, mais luminosa que a própria luz".

OS ARGUMENTOS ARTURIANOS

A uma dada altura, Wagner chega a pensar em unir os argumentos de Tristão e Parsifal: "... Tracei o esquema dos três actos, nos quais pensava encerrar a acção do argumento inteiro de Tristão. No último acto introduzi um episódio que eliminei mais tarde: era a visita de Parsifal, errante em demanda do Graal, a Tristão jazendo moribundo no seu leito. Tristão, ferido de morte e agonizante, identificava-se no meu espírito com a personagem de Amfortas da novela do Graal".
Amfortas era o rei guardião do Graal, que havia sido ferido com uma lança mágica por um conhecido necromante, ferida destinada a nunca mais se fechar. E algo semelhante sucede com Tristão que por duas ou três vezes sofre ferimentos incuráveis que só Isolda pode sarar. O factor mágico, necromântico, é indiscutível: Tristão é ferido por Morolt e/ou pelo dragão, e Isolda possui as artes necessárias para fazer retroceder o mal. Tristão ferido é Tantris, é a magia negra que o toma, e Isolda é a maga que sabe anular esses efeitos malignos. Adicionemos a estes aspectos quase atlantes, a última cura de Isolda: já não procura um remédio que retenha a vida física do seu amado, mas procura, sim, ela mesma seguir também o caminho da morte como única salvação e transfiguração.
Outra semelhança ocorre ao recordar o encontro de Marcos com os amantes adormecidos na floresta (ou a gruta nirvânica?) com a espada no meio de ambos. O rei Artur vive circunstâncias parecidas quando encontra Ginebra e Lancelot que haviam fugido para o bosque por não poderem ocultar o seu mútuo amor.
Mas, mais ainda, no cancioneiro galaico-português menciona-se que Tristão e Isolda vivem num castelo que lhes foi emprestado por Lancelot. Logo, Tristão decide tomar parte na conquista do Graal acompanhado da sua arpa e do seu escudo verde, como era uso dos jovens cavaleiros de então. Daí os nomes do "cavaleiro da verde espada" ou "o cavaleiro do verde escudo".
A morte de Tristão varia conforme as versões. Temos o episódio do barco e das velas que mencionámos. Temos também o ferimento que Tristão recebe quer do rei Marcos ou de um dos seus cavaleiros, quando é descoberto com Isolda nos jardins do palácio. E há diversas variantes, incluindo a do próprio Wagner. Mas é quase sempre Marcos o que empunha a espada ou a lança mortalmente envenenada que havia sido expressamente enviada por Morgana para eliminar o cavaleiro.
A questão dos filtros: Deixando de lado o argumento habitual do filtro do amor que a rainha da Irlanda tinha preparado para a boda de sua filha, e o engano que leva Tristão e Isolda a bebê-lo, podem propôr-se outras possibilidades.
Se, à maneira do mito grego de Teseu, Tristão é o símbolo do homem e Isolda o da alma, é natural que haja união e amor entre ambos antes de beberem o filtro. Mas as circunstâncias da vida fazem com que o homem olvide a sua alma e se separe dela, negando-a ou desconhecendo-a. Então a alma reage. Isolda pensa que é melhor a morte que a traição e prefere que ambos morram a que vivam separados; assim, convida Tristão a beber o falso "Filtro da Reconciliação" que na realidade é o Filtro da Morte. Mas acaso não é a morte a única que pode reconciliar o homem com a sua alma? Há um engano, os filtros misturam-se e ambos bebem o do Amor: novamente união, reconciliação, mas desta vez em vida e com todas as dificuldades inerentes.
E é aqui que entramos nos argumentos filosóficos, muitos deles de carácter platónico. Tristão é o homem crucificado entre o mundo dos sentidos e o mundo do espírito, entre os prazeres e as conquistas terrenas e a visão da Beleza eterna que só pode alcançar depois da morte (ou domínio) da sua personalidade.
Se em nenhum momento sente culpa pelo seu amor, sente, pelo contrário, culpa de ter cometido o pecado do orgulho, cedendo à sua ânsia de glória e poder terrenos em vez de alcançar a sua própria imortalidade. E se para isso tem que entregar a sua alma, não hesita em deixar que Isolda se case com Marcos.
A imortalidade de Tristão vem com a sua morte: a morte é para ele a redenção libertadora; é ali que começa a sua renovação, a sua passagem definitiva do mundo da dor e das sombras para o mundo da luz e da felicidade. A morte é vencida pela imortalidade; o canto trovadoresco é substituído pelo canto da Ressurreição; a lira e a rosa do amor transformam-se na espada resplandecente da Vida e da Morte. Encontrou o seu Graal.
Nem sequer falta o tema das almas gémeas, pois os protagonistas vão alcançando gradualmente uma perfeição que supera a paixão humana para transformar-se em possessão plena e recíproca, na identificação de um com o outro, na transubstanciação de um no outro.

CONCLUSÃO

Muitos são os símbolos que se entrelaçam nesta narrativa. O herói Tristão, expressão duma humanidade jovem e heróica, guerreiro e músico (5ª raça?) e a maga Isolda que vela constantemente por esta nova humanidade representada por Tristão, reflectem arcaicos segredos que tocam o homem: Mente e Sexo, Vida e Morte, Amor e Guerra.
A dualidade Mente-Sexo remonta a longínquas tradições esotéricas, nas quais se explica o momento crucial atravessado pela humanidade quando, uma vez separados os sexos, surge a centelha mental. Homem e mulher (cavaleiro e dama na literatura de corte) tiveram que enfrentar uma separação dolorosa e, ao mesmo tempo, atraente, com uma mente ainda incapaz de compreender o problema. Daí que o Amor sofreu então a dor e a atracção do sexo, e pouco ou nada do idealismo da mente clarificada.
Eis outras dualidades: Vida e Morte, Amor e Guerra. Tentaremos explicá-las a partir das características logóicas que, em seu triplo aspecto, influem nas condições humanas. Tristão inicia o seu périplo de experiências a partir do aspecto Inteligência-Forma do 3º Logos. Ele é o cavaleiro inteligente que colhe glórias no mundo da forma: vencedor de batalhas, no entanto não conhece a Guerra; galanteador de donzelas, todavia não conhece o Amor; cantor e requintado harpista, é um músico que, no entanto, não conhece a Beleza; sensível perante a presença de Isolda, todavia não possui a sabedoria que o leve a reconhecer a sua própria alma.
É a Morte que o leva à fase seguinte: A Morte abre-lhe a porta do 2º Logos: Energia-Vida, Amor-Sabedoria. A morte da sua forma-corpo coloca-o perante o mistério da Energia-Vital que é a seiva do Universo e a razão da imortalidade. Pela Morte entende a Vida; pela Morte entende finalmente o Amor: a sua inteligência converteu-se em Sabedoria. Agora trava a Grande Guerra, a grande batalha que, tal como aparece no milenário Bhagavad Gita, enfrenta o homem com a possessão da sua alma, com a possessão de si mesmo.
Neste momento, o músico e o amante transmuta-se num ser sábio: agora conhece a Arte e o Amor, os aspectos essenciais da Beleza.
Um passo mais, e eis o êxtase da Morte por Amor, aquilo que o conduz à visão suprema: o Belo que é em si mesmo o Bom e o Justo.

Inteligência: triunfos mundanos, mas distantes da sua alma.
Forma: a música dos sons terrenos.
Energia-Vida: conhecimento da morte na sua forma precisa.
Amor-Sabedoria: Arte e Beleza conquistadas na Guerra pela sua própria possessão.
Lei: o Belo, o Bom, o Justo.
Vontade: superação de todas as provas, sublimação do desejo.

TRISTÃO

É o perfeito protótipo que o neoplatónico Plotino nos propõe como via dialéctica de ascensão à verdade.
Tristão é o amante e o músico: tem a sua Isolda e a sua harpa; mas a paixão do mundo transforma o seu amor numa rosa vermelha de sangue e espinhos, e a sua lira numa espada que fere mortalmente.
Então chega ao mundo das ideias: o músico e o amante compreende e vê. Navegou por águas trágicas, protegido pelo seu escudo e pela sua alma, até chegar ao porto do Homem Novo, de uma nova forma de vida.
Este é o caminho do verdadeiro músico: das formas às ideias, do desejo à vontade, do guerreiro ao Homem.
E, para resumir o processo, nada melhor que as palavras de Richard Wagner, descrevendo as vivências do Amor que une o que a ignorância separa, mostrando Tristão e Isolda imersos "na insaciável vaga do Desejo, vaga que, nascendo da tímida confissão, cresce aguçada pelo suspiro vacilante através da esperança, do lamento e do deleite, do gozo e do sofrimento, até que, chegando no paroxismo do seu impulso à dor frenética, encontra a brecha por onde o coração se derrama no oceano das infinitas delícias do Amor... Mas tal embriaguez é em vão. O coração, impotente para resistir, desfalece de novo para se consumir no desejo inexequível, posto que todo o desejo satisfeito é o germen de outro mais ávido ainda, até que no último desfalecimento desponta na alma desgarrada o pressentimento do deleite supremo: a delícia da morte e do não-ser, a definitiva redenção, só conseguida no maravilhoso reino de que mais nos distanciamos, quanto mais e com mais impetuosa força nos obstinamos em penetrá-lo... Poderemos chamar a isso morrer? Ou é antes aquele obscuro mundo do Mistério do qual surgiram a hera e a vide estreitamente entrelaçadas sobre a sepultura de Tristão e Isolda, como nos conta a lenda?..."



Publicado em:26.10.08

Palavras Iniciais

Na matéria que segue, um manual de bem-viver, pensar e agir, adaptável a todas às Tradições. Não só ao Budismo.
Quando será que atingiremos plenamente tal estágio?
Como diz a própria sabedoria oriental: "se o problema é muito grande, não tentemos resolvê-lo todo de uma vez só. Dividamos em pequenas partes e resolvamos uma de cada vez".



Os Quatorze Preceitos do Ser Integrado
Escola Mestre Zen Vietnamita Thich Nhat Hanh

1. Não idolatrar nenhuma doutrina, teoria ou ideologia, seja qual for, incluindo o Budismo. Os sistemas de pensamento budistas deveriam ser considerados como guias para a prática e não como a verdade absoluta.

2. Não imaginar-se possuidor de um saber imutável ou da verdade absoluta. Deve-se evitar a estreiteza mental e o apego aos próprios pontos de vista. Aprender e praticar a estrada do desapego com o propósito de permanecer aberto aos pontos de vista dos outros. A verdade só pode ser encontrada na vida e não nos conceitos. É fundamental estar disposto a continuar aprendendo durante toda vida e observar a vida em si mesmo no mundo.

3. Não forçar os outros, incluindo as crianças, a adotar nossos pontos de vista por quaisquer meios sejam quais forem: autoridade, ameaça, dinheiro, propaganda ou educação. Respeitar as diferenças entre os seres humanos e a liberdade de opinião de cada um. Saber, porém, usar o diálogo para ajudar aos outros a renunciar ao fanatismo e à estreiteza de espírito.

4. Não evitar o contato com o sofrimento nem fechar os olhos ante ele. Não perder a plena consciência da existência do sofrimento no mundo. Encontrar meios de aproximação dos que sofrem, seja por contatos pessoais, visitas, imagens, sons... Despertar em si e nos demais a consciência da realidade do sofrimento no mundo.

5. Não acumular dinheiro nem nenhum bem ambiciosamente enquanto milhões de seres sofrem fome. Não converter a glória, o lucro, a riqueza ou os prazeres sensuais em metas de vida. Viver simplesmente e compartilhar o tempo, a energia e seus recursos pessoais com aqueles que estão na necessidade.

6. Não conservar a raiva ou o ódio em si. Aprender a examinar e a transformar a raiva e o ódio quando eles ainda não são nada mais que sementes nas profundezas da consciência. Quando a raiva e o ódio se manifestarem, devemos enfocar a atenção na respiração e observar de maneira intensa com o propósito de ver e compreender a natureza desta raiva ou ódio, assim como também a natureza das pessoas que supostamente são a sua causa. Aprender a olhar os seres com os olhos da compaixão.

7. Não perder-se deixando-se levar pela distração ou pelos acontecimentos externos. Praticar a respiração consciente e enfocar a atenção no que está acontecendo neste momento presente. Entrar em contato tudo aquilo que seja maravilhoso, pleno de vigor e de frescor. Semear em a si as sementes da paz, de felicidade e da compreensão com o propósito de ajudar o processo de transformação nas profundezas da consciência.

8. Não pronunciar palavras que possam semear a discórdia e causar a desarmonia da comunidade. Por palavras serenas e com atos apaziguadores, fazer todo o esforço possível para reconciliar e resolver todos os conflitos, por menores que sejam.

9. Não dizer falsidades para preservar o próprio interesse ou impressionar a outrem. Não pronunciar palavras que semeiem a divisão e o ódio. Não difundir notícias sem a segurança de que elas estão certas. Não criticar nem condenar aquilo sobre o que não se está seguro. Sempre falar com honestidade e de um modo construtivo. Ter a coragem de dizer a verdade sobre as situações injustas mesmo que nossa própria segurança esteja ameaçada.

10. Não usar a comunidade religiosa para o interesse pessoal nem transformá-la em partido político. A comunidade em que se vive deve sem embargo ter uma posição clara contra a opressão e a injustiça e esforçar-se para alterar a situação sem comprometer-se em conflitos partidários.

11. Não exercer profissões que possam causar dano para os seres humanos ou à natureza. Não investir nas companhias que exploram os seres vivos. Escolher uma ocupação que ajude a realizar o próprio ideal de vida com compaixão.

12. Não matar. Não permitir que outros matem. Procurar todos os meios possíveis para proteger a vida e prevenir a guerra. Trabalhar para o estabelecimento da paz.

13. Não querer possuir qualquer coisa que pertença a outrem. Respeitar os bem dos outros, mas procurar impedir qualquer enriquecimento à custa do sofrimento de outros seres vivos.

14. Não maltratar o corpo. Aprender a respeitá-lo. Não considerá-lo unicamente como um instrumento. Preservar a energia vital (sexual, respiratória e do sistema nervoso) pela prática do Caminho. A expressão sexual não se justifica sem amor profundo e sem compromisso. Concernente às relações sexuais, tomar consciência do sofrimento que pode ser causado a outras pessoas no futuro. Para preservar a felicidade dos outros é necessário respeitar seus direitos e compromissos. Ser completamente consciente da própria responsabilidade no momento de decidir trazer para o mundo uma nova vida. Meditar sobre o mundo para o qual nós trazemos estes seres.



Publicado em:19.10.08

Palavras Iniciais

              Texto que merece ser lido e relido, pois que também trata de temas abordados pelos Evangelhos não reconhecidos pela Igreja (Apócrifos), toca no gnosticismo, na doutrina dos Essênios, que era a seguida pelos primeiros Cristãos, além da sustentação do tema ser bastante coerente com a doutrina da reencarnação.



Repassando...de Iasmin Amorim..Gr.Xamanismouniversal
Adaptado por João Baptista Neto(MST), para:
http://br.groups.yahoo.com/group/mahavayumarga e
http://www.cavaleirotemplario.net

Se V. gosta de Templarismo, visite o site da TempleBrasil - Assoc. de Estudos e Formação Templária

Polaridade Sexual

Autor:Hermínio C. Miranda

Já que nos encontramos na temática das dicotomias, parece oportuno examinar mais uma delas, a da polaridade sexual macho/fêmea, homem/mulher, sobre a qual a abundância de referências nos textos gnósticos revela o interesse que o problema suscitava entre eles.

A Dra Pagels, por exemplo, consagra ao assunto todo o capítulo terceiro de seu livro, lembrando que, "em lugar de descrever um Deus monístico e masculino, muitos desses textos falam de Deus como uma díade que inclui tanto 'elementos masculinos como femininos'".

Torna-se às vezes difícil penetrar com as estrutura cultural da mente moderna e, ainda por cima, ocidental, certos aspectos esotéricos da mística daqueles tempos, ou de qualquer tempo mais remoto em relação ao nosso. É certo, contudo, que encontramos em várias fontes gnósticas, como assinala a Dra Pagels, a sugestão de que o Espírito constituiria o elemento feminino da Trindade. Daí porque ao desenvolver-se a doutrina do nascimento virginal, nos primórdios da teologia cristã, Jesus, considerado o filho, foi tido como gerado em Maria pelo Espírito Santo, o que leva o autor de O Evangelho de Felipe a ridicularizar aqueles que estavam interpretando o texto ao pé da letra, dado que uma mulher (o Espírito) não poderia fecundar a outra (Maria).

As sutilezas e enigmas da dicotomia homem/mulher denunciam insuspeitadas profundidades e conotações ainda por explorar no gnosticismo, de vez que passagens em que surgem esses aspectos oferecem inusitadas dificuldades interpretativas. Os gnósticos certamente dispunham de chaves adequadas para abrir essas portas secretas e de luzes suficientes para iluminar o que hoje nos parece obscuro.

No logion 114 do Evangelho de Tomé, encontramos uma dessas dificuldades. Evidencia-se ali decidida rejeição de Pedro em relação a Madalena, o que, aliás, se reitera no Evangelho de Maria, como vimos alhures. Segundo o texto, Pedro teria proposto a exclusão de MAdalena do grupo apostólico, dado que "as mulheres não são dignas da Vida".

Aparentemente Jesus é levado a concordar com essa posição, dado que ele se declara disposto a guiar Maria "para fazer dela homem, a fim de que ela também se torne um espírito vivo, semelhante a vocês, homens". Não é isso, porém.

Mais do que a mera expressão de vulgar 'machismo', há que supor no texto um sentido oculto transcendente, mesmo decontando-se o critério vigente à época que mantinha a mulher em posição subalterna, como se lê com certa insistência em Paulo, por exemplo. Lembra, contudo, a Dra Pagels, citando o Prof Wayne Meeks, que, na Epístola aos Gálatas (3,28), o apóstolo escreve que "em Cristo... não há homem nem mulher". Pagels acrescenta que Paulo aprova aí o trabalho das mulheres e "até saúda uma delas, destacada no seu apostolado, hierarquicamente superior a ele próprio no movimento".

Para discussão mais ampla do assunto, deve o leitor recorrer ao livro da Dra Pagels, que pode ser lido em português por aqueles que não tiverem acesso ao original inglês.

Seja como for, textos como o do logion 114, não devem ser tomados à letra ou seriam incongruentes no âmbito do próprio gnosticismo, que pressupõe para todos, sem exclusão da mulher, um largo ciclo que vai da queda ou separação ao retorno à unidade. No meu entender, é preciso separar, no debate do assunto, a condição da mulher na sociedade antiga, que era inegavelmente secundária, do conceito filosófico-religioso do princípio feminino no ser humano, de vez que o problema da sexualidade em geral, tanto quanto o da sua polarização, constituem aspectos relevantes no pensamento gnóstico, como assinala o Prof Puech, que considera a questão 'ponto capital', dado que 'a teoria- ética e, mais ainda, metafísica- da salvação é comandada pela atitude a tomar e a observar em face da sexualidade'.

A observação eminente especialista é profunda e merece algum desdobramento preliminar antes de prosseguirmos no exame de suas idéias a respeito. Ao distinguir ou conjugar o aspecto ético com o metafísico da sexualidade, ele abre algum espaço para nossas próprias meditações. Aproveitemos a oportunidade oferecida.

A postura filosófica do gnosticismo perante a sexualidade é de discreta reserva, para dizer o mínimo, como se o mecanicismo reprodutor da espécie fosse, de certa forma, responsável pela detenção do espírito na prisão celular da matéria. Aí é que a centelha divina mais se isola e se esquece de suas origens, em estado comparável ao da embriaguez ou da cegueira, em vez de devotar-se ao reaprendizado da vida para alcançar o quanto antes sua reunificação com a divindade. Nesse contexto, a mulher parecia figurar inevitavelmente como cúmplice do esquema limitador, ou pelo menos um dos seus principais instrumentos.

Aliás, é precisamente o que está dito em O Diálogo com o Salvador, no qual se atribui a Mateus uma advertência que lhe teria sido transmitida pelo próprio Cristo, que recomendava “orar onde não houvesse mulher”. O texto prossegue, ainda reproduzindo o pensamento do Cristo, nesses termos:

Destrua as obras da feminilidade, não porque não haja outra maneira de nascer, mas porque elas cessarão de parir.

Nada disso ocorria enquanto a dualidade funcionava em equilíbrio, num único ser, segundo a doutrina gnóstica. É o que se lê, por exemplo, no Evangelho de Felipe, ao ensinar que:

Quando Eva estava ainda em Adão, a morte não existia. Quando ela se separou dele, surgiu a morte. Se novamente ele tornar-se completo e recompuser seu antigo ser, a morte terá sido extinta.

Estejamos atentos ao fato de que é necessário atribuir ao conceito morte sua conotação gnóstica, como mergulho na ignorância, no esquecimento, no estado algo sonambúlico imposto pela matéria densa; é importante, contudo, observar que o gnosticismo entendia a dicotomia macho/fêmea ou homem/mulher como espécie de desajuste proveniente da queda da centelha divina na matéria. Quanto menos isso acontecesse, melhor para o processo evolutivo da criatura. Daí as explícitas restrições acerca das práticas sexuais, especialmente as abusivas. Não há como deixar de perceber certa contradição nessa maneira de colocar as coisas, dado que a criatura precisa da vivência na carne para recuperar o conhecimento perdido que a levaria de volta às suas origens.

Seja como for, o ideal de castidade ou mesmo de abstinência consolidou-se no gnosticismo e parece ter coincidido com o pensamento de Paulo, que admite o casamento como alternativa menos indesejável para aquele que não consegue dominar o impulso animal. É o que ele ensina, ao conceder que é melhor “casar do que abrasar”.

Fica claro, portanto, que a prática sexual é concessão ao componente animal da criatura, um dos mais poderosos engodos ou armadilhas da matéria à centelha divina aprisionada, cabendo ao ser humano que aspira à perfeição, de onde provém, desvencilhar-se de tais liames tão rápido quanto possível. De certa forma, esse modo de ver propagou-se às estruturas do pensamento teológico e sobreviveu na milenar exigência do celibato sacerdotal.

Como lembra Puech, contudo, a ‘dualidade sexual’ projeta-se, ainda, como relevante questão metafísica, aspecto que ele aprecia com brilho e competência, ao analisar o logion 22 do Evangelho de Tomé, no qual Jesus recomenda que somente estariam aptos para o Reino dos Céus aqueles que fizessem “do masculino e do feminino uma só coisa, de sorte que o masculino não seja masculino e o feminino não seja feminino”.

O comentário de Puech faz até lembrar a romântica alquimia das almas gêmeas, na plasticidade do seu didático francês que lamento precisar traduzir:

...eles (homem/mulher) cessarão, tanto um como o outro, de ser o que eram um perante o outro, nas suas relações ou nas suas oposições mútuas. Não constituirão mais do que um, serão considerados e se considerarão como sendo indistintamente um e outro, como formando e representando, um com o outro ou cada um por si, uma só e mesma coisa, uma realidade única e indiferenciada, de natureza e tipo idênticos.

O que leva a imaginar que certa polaridade persiste na unidade, mas em estado de equilíbrio na sua interação, como se um fosse também o outro e vice versa. Mais que isso, porém, esse novo ‘modo de ser’, como ensina Puech, não seria “nem feminino, nem masculino, mas uma realidade neutra, indiferente a toda qualificação ou distinção sexual”.

Isso nos remete ao conceito de androgenia, também referido com certa insistência nos escritos gnósticos, não envolvido em conotação bissexual ou assexuada, mas naquilo que Puech considera como “sublimação da sexualidade”.

A sublimação da sexualidade constitui, dessa forma, sinal relevante da redenção espiritual e, por conseguinte, um retorno às origens, ao ponto de partida, ao princípio. Ao discorrer sobre a Divindade como ‘o Poder bissexual’, a Dra Pagels lembra o estado de androgenia em Adão, cujo princípio feminino nele imanente teria sido separado para personificação em Eva. Criado, segundo a alegoria bíblica, à imagem e semelhança de Deus, Adão seria também bissexual, ou melhor, em posição íntima de perfeito equilíbrio masculino/feminino.

Encontramos, em várias oportunidades nos textos gnósticos, a imagem mística da câmara nupcial, onde se daria a reunião integradora, segundo a qual os dois se tornam um só. Isso significa que alcançado o patamar evolutivo em que o ser restabelece em si mesmo a condição que poderíamos denominar pré-sexual, estaria reintegrado em Deus, de onde partiu ao dividir-se, desdobrando suas polaridades.

Imagino defensável a conexão desse enfoque gnóstico com uma enigmática passagem em Mateus (19,3-12), na qual, questionado a propósito do divórcio (separação, portanto, entre homem e mulher), o Cristo responde que Moisés teria concordado com o repúdio “por causa da dureza de vossos corações”, mas que “no princípio não era assim”, ou seja, nas suas origens, o princípio masculino teria sido inseparável do feminino, como Deus os fez. Sintomaticamente o texto informa que “o Criador os fez homem mulher” e não homem e mulher. Prossegue o texto dizendo que dessa maneira “já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu”.

Como em outras passagens evangélicas, também esta serviu de apoio a interesses específicos da Igreja, empenhada na consolidação de seu poder civil, em vista da opção quantitativa a que se refere a Dra Pagels. Nesse caso particular, ficou o texto como apoio à doutrina da indissolubilidade do casamento, mas as implicações revelam-se aqui mais profundas e amplas do que se supõe, dado que, na continuação, os discípulos contestam a postura, declarando que, a ser assim, então “não vale a pena casar-se”. Percebendo que não tinham os circunstantes alcançado o sentido transcendente da sua observação, Jesus declara precisamente isso, ou seja, que “nem todos são capazes de compreender essa palavra, mas só aqueles a quem é concedido”.
E acrescenta, ainda enigmático:

Com efeito há eunucos que nasceram assim, desde o ventre materno. E há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus.

Mais uma vez, contudo, ele percebe que sua palavra está acima do entendimento dos ouvintes, porque arremata:

Quem tiver capacidade para compreender, compreenda!

Parece, pois, legítimo depreender, com apoio nos postulados gnósticos, que o termo eunuco representa, nos canônicos, a concepção gnóstica do andrógino, ou melhor, aquele ser que, no dizer de Puech, sublimou a sexualidade, transcendeu-a, voltando a ser um com o pai, como o próprio Cristo. Se, por contingência de tarefa missionária, ou mandato divino, um ser desse nível hierárquico precisa retomar pela reencarnação a condição humana, ele vai diferir dos demais desde o nascimento, ao passo que os outros eunucos/andróginos resultam da mutilação física provocada pelos homens ou se comportam como eunucos impondo-se a renúncia, dominando os impulsos da sexualidade, a fim de se prepararem para a conquista da felicidade última.

O problema da sexualidade, contudo, não se esgota com o mero alinhamento dessas reflexões. Interrogados sobre se os espíritos têm sexo, os instrutores da doutrina espírita responderam a Allan Kardec da seguinte maneira:

Não como o entendeis, porque os sexos dependem da constituição orgânica. Há entre eles, amor e simpatia, mas baseados na afinidade de sentimentos.

Como se observa, a sexualidade nos espíritos não é negada, pelo contrário, é confirmada, não porém, da maneira pela qual a entendemos como um relacionamento meramente carnal. A constituição orgânica, portanto, é a instrumentação por meio da qual o espírito encarnado expressa as energias psíquicas correspondentes, segundo a polaridade programada para aquela existência específica. Isso porque o espírito pode renascer, optativamente, em corpo feminino ou em corpo masculino, segundo a programação que pretenda desenvolver em cada uma de suas vidas e o jogo sutil de relacionamentos que deseje ou precise estabelecer com outras entidades que se preparam para renascer junto dele.

A informação de que os espíritos dispõem dessa faculdade de escolher o sexo em que vão renascer poderia ter sido impactante e até controvertida ao ser formulada em meados do século XIX, na França, ao Prof. Rivail (Kardec). Decorrido um século, porém, ela conta com indiscutíveis apoios cientificamente pesquisados e consolidados.

Nas suas inúmeras experiências regressivas, a Dra Helen Wambach declara em livro de 1979 não ter encontrado uma só pessoa que se sentisse inteiramente masculina ou feminina. A realidade observada é a do dualismo com a eventual predominância de um ou e outro aspecto da permanente dicotomia masculino/feminino.

Isso nos leva de volta às especulações do Prof. Puech examinada há pouco neste mesmo capítulo. Ao comenta-las, mencionei o romântico arquétipo das almas gêmeas, ponto, aliás, que tem suscitado apaixonantes debates doutrinários no meio espírita e alhures. Propõem alguns a distinção entre almas gêmeas e metades eternas. As primeiras teriam apenas roteiros paralelos a percorrer, ao passo que as outras só se completariam de fato depois de refundidas ou reunificadas, ao cabo de longuíssimo período de dolorosas separações retificadoras. Na realidade, porém, a imagem arquetípica pode representar apenas o repouso no equilíbrio após multimilenares experimentações com as oscilações entre os pólos da dicotomia homem/mulher. Alcançado esse estágio, a energia psíquica, que durante todo esse tempo fora canalizada para a sua expressão sexual, passaria a ser utilizada no puro âmbito do espírito, sem qualquer conotação biológica ou envolvimento com a matéria. Nesse caso, não deixaria de ter suas razões o eminente Prof Freud ao propor o termo libido para caracterizar essa manifestação energética que, em si e por si mesma, não tem de ser necessariamente sexual, embora possa também sê-lo.

Seja como for, a postura dos gnósticos perante a sexualidade em geral e a mulher em particular afigura-se um tanto deformada na sua inusitada severidade, de vez que, durante o longo período em que a centelha divina vive número indeterminado de existências, em sua indispensável experiência na carne, ela necessita da instrumentação do corpo físico e, por conseguinte, precisa dispor de condições biológicas para reproduzir-se, a fim de perpetuar as oportunidades de renascimento para si mesma e para outros.

Isso se torna particularmente relevante quando se leva em conta o fato de que o envolvimento com a matéria e o estado de relativo torpor que os gnósticos denominavam embriaguez, cegueira ou esquecimento, acaba arrastando o indivíduo ao enredamento em erros de comportamento que, por sua vez, irá exigir dele prolongado e difícil trabalho de reparação e correção, somente viável no âmbito da matéria, no qual os equívocos foram cometidos.

Os textos gnósticos mostram-se perfeitamente alertados para esses aspectos, ao se referirem aos riscos que envolve o mergulho na matéria, com todo o seu séqüito de mordomias que apelam para os sentidos e, por conseguinte, para o prazer, sem contar a ânsia pelo poder, cuja satisfação não está vinculada especificamente aos sentidos físicos, mas é manjar saboroso para aquele que se deixa seduzir por ela. Reconhecem, ainda, como se pode ver em inúmeras referências, que o ser somente alcança a reintegração na unidade divina depois de conseguir deixar para trás todo o séqüito de suas paixões. Este ponto, aliás, é lugar comum a todas as estruturas ético-religiosas respeitáveis que têm sido elaboradas. A plenitude da felicidade constitui prêmio e meta àquele que se purifica, que se desfaz das sombras que o envolvem, retoma o estado de inocência que se presume na criança e, entre os gnósticos, aquele que recupera no conhecimento perdido que possuía em suas remotas origens.

A esse propósito, lembra o Prof MacGregor que o longo processo da purificação pelo conhecimento, como propõe a gnose, desdobra-se em tempo “longo demais para ser alcançado numa única existência”.

Como esse também é o nosso entendimento, o mecanismo das vidas sucessivas ou reencarnação foi trazido para o contexto dessa discussão. Voltaremos a esse aspecto, no local próprio desse livro.

*Esse é o capítulo de número oitavo do livro O Evangelho de Tomé, de Hermpinio C. Miranda.

A mente é como um pára-quedas - só funciona quando aberta. (Thomas Dewar)



Publicado em:14.09.08

Palavras Iniciais

Dando sequencia à matéria pulicada semana passada.



Do Livro: “Tratado sobre Fogo Cósmico”, pelo
Mestre Tibetano Djwhal Khul – Canal por Alice Bailey
Extraído do site: http://www.tibetano.miarroba.com/
Trad. e org. por João Baptista Neto (MST), para:
http://br.groups.yahoo.com/group/mahavayumarga

O QUE É A EVOLUÇÃO E COMO SE DESENVOLVE

(2 DE 2)

Se nos detivermos a considerar cuidadosamente os objetivos mencionados, veremos que cada um ocupa seu lugar no plano e que o termo evolução se emprega para expressar o desenvolvimento gradual em tempo e espaço, da capacidade inerente de um ser humano, de um Homem celestial e de um grande Homem dos Céus. Deve-se ter em conta o lugar e a posição que todos e cada um ocupam com relação a outro ou outros, pois nenhum pode se desenvolver sem os demais. Portanto, que temos?

  • a. O Filho, o grande Homem dos Céus. Se manifesta por meio do Sol e dos sete planetas sagrados, cada um dos quais personifica um de Seus sete princípios, da mesma maneira que Ele, em sua totalidade, personifica um dos princípios de uma Entidade cósmica maior.
  • b. Um Homem celestial. Se manifesta por meio de um planeta, personificando um dos princípios do Filho, o Logos, e se desenvolve semelhantemente por meio de sete princípios, fonte de Sua unidade essencial com os demais Homens celestiais. Em sentido cósmico, o filho está desenvolvendo ao princípio de um Ser cósmico maior, o princípio denominado amor-sabedoria, característica fundamental que tem de desenvolver durante seu ciclo de vida. Por conseguinte, cada Homem celestial personifica predominantemente um princípio subsidiário do fundamental. Possui semelhantemente seis princípios subsidiários, como o Filho.
  • c. Um Ser Humano, o Homem. Se manifesta no plano físico por meio da forma e possui também sete princípios; em cada ciclo de vida trabalha para desenvolve-los; tem ainda uma coloração primária, que depende do princípio fundamental personificado pelo Homem celestial que é sua fonte de origem. Temos assim:

O LOGOS

Pai-Espírito + Mãe-Matéria

que produzem

O Filho ou grande Homem dos Céus,
o Ego logóico consciente
que evolui por meio do
Sol e dos sete planetas sagrados,
cada um personifica
Um princípio cósmico, com seis diferenciações,
pelo método de:

  • 1. Expansão, estímulo vibratório, interação magnética ou a lei de atração e repulsão.
  • 2. Progressão cíclica, repetição rotatória, conjuntamente com ascensão em espiral, e desenvolvendo:
    • a. A qualidade de amor-sabedoria, utilizando a forma por meio da inteligência ativa.
    • b. Plena auto-consciência.
    • c. Um perfeito sistema solar ou forma, adequado às necessidades do espírito imanente.

A mesma classificação se poderia aplicar para demonstrar a similitude do processo no caso do Homem celestial e do ser humano. Se se pergunta porque há dez esquemas e, de fato, dez planetas (sete sagrados e três ocultos), nos será dito que os sete planetas sagrados no devido tempo se fundem nos três e finalmente os três em um. Isso tem sua analogia nos sete Raios. Os sete Raios, que na manifestação são distintos, com o tempo se sintetizam. Diz-se que os quatro menores se fundem em um terceiro maior, e finalmente os três maiores em um raio sintético, Raio de Amor-Sabedoria (o Dragão de Sabedoria, a serpente oculta mordendo sua cauda) de acordo com HPB. Temos, portanto, três raios principais, mas se vêem sete durante o processo evolutivo. Com respeito aos Homens celestiais que atuam por meio dos planetas, temos, por conseguinte, três planetas que poderíamos considerar sintetizadores e e quatro que oportunamente são fundidos, até que os três tenham absorvido a essência dos quatro; finalmente se absorve a essência dos três, e assim se completa o trabalho. Esse processo terá lugar dentro de um espaço de milhões de anos; se desenvolverá durante o inevitável período da obscuridade gradual de nosso sistema. Quatro dos Homens celestiais encontram seus opostos magnéticos mesclando-se e fundindo-se. Primeiramente realizam entre Eles, fundindo e mesclando o Raio negativo e o positivo, a seguir os quatro se transformam em dois. Depois os dois se fundem formando assim uma unidade, e o um resultante se funde com o terceiro raio maior, o aspecto Inteligência – raio que em nossa Hierarquia planetária é representado pelo Mahachohan. A fusão continuará até que se alcance finalmente a unidade do sistema, e o Filho haja realizado Seu propósito, Amor-Sabedoria perfeitos; Sua luz resplandece cosmicamente; Seu raio magnético toca a periferia de Seu oposto cósmico, concluindo-se o matrimônio do Filho. As duas unidades cósmicas se fundem.

Se perguntarmos, como é lógico, que unidade cósmica constitui nosso oposto solar, nos será respondido que por ora é um enigma, ainda que se ache insinuado na Doutrina Secreta e em outros livros sagrados. Uma insinuação velada se encontra na relação que existe com as Plêiades de nossa terra; mas quando avançar mais a precessão dos equinócios se verá claramente qual é a relação exata envolvida.



Publicado em:07.09.08

Palavras Iniciais

Como já tive oportunidade de falar, não sou muito de acreditar em "canalizações", principalmente depois que virou moda, o que não é o caso da presente matéria.

Alice Bailey, guardadas as devidas proporções, seguia a mesma linha de paranormalidade de H.P.Blavatsky, e o Tibetano - Mestre Ascenso Djwal Khul, que atuava com HPB, encontrou em Alice Bailey a sintonia que necessitava para continuar transmitindo seus ensinamentos.



Do Livro: “Tratado sobre Fogo Cósmico”, pelo
Mestre Tibetano Djwhal Khul – Canal por Alice Bailey
Extraído do site: http://www.tibetano.miarroba.com/
Trad. e org. por João Baptista Neto (MST), para:
http://br.groups.yahoo.com/group/mahavayumarga

O QUE É A EVOLUÇÃO E COMO SE DESENVOLVE?

(1 de 2)

1. Ciclos de Vida.

Limitar-me-ei aqui a tratar sucintamente o processo evolutivo e a informar que o método de evolução consiste simplesmente em ajustar o aspecto material ao aspecto Espírito, a fim de que o primeiro seja adequado como corpo de expressão para o segundo. O ciclo de vida do Filho é de cem anos de Brahma, assim como o ciclo de vida do homem é de certo numero de anos, o qual depende de seu carma. Durante seu ciclo de vida o homem expressa em sua etapa específica tudo o que adquiriu, desenvolvendo-o gradualmente desde o período pré-natal em que o Eu influi sobre o aspecto matéria, até o período em que esse Eu superior toma plena possessão da forma já preparada. Esta etapa varia em cada indivíduo. A partir desse momento o homem procura desenvolver com maior plenitude a auto-consciência e (se progride normalmente) a se expressar com mais propriedade por meio da forma. Em cada ciclo menor de vida, dentro do grande ciclo do Ego ou Eu, se completa mais essa expressão, controla mais a forma e desenvolve uma realização consciente do Eu, até que chega a um ciclo final de vidas em que o Eu interno domina rapidamente e assume plena autoridade. A forma chega a ser plenamente adequada; se produz a total fusão dos dois pólos, Espírito e matéria, e a luz (fogo) e o calor (irradiação) se vêem e se sentem em todo o sistema. Então se utiliza a forma conscientemente com fins específicos ou se abandona, e o homem se libera. O fogo elétrico e o fogo por fricção se fundem e o conseqüente fogo solar resplandece com radiante glória.

Estendamos essa idéia a partir do homem, como unidade individualizada de consciência, até os grandes Homens celestiais, em um de cujos corpos o homem é uma célula. O corpo de expressão de cada Homem celestial é um dos planetas sagrados; perseguem o mesmo objetivo que o homem: conseguir em Seus próprios níveis a plena expressão e o desenvolvimento de Seus veículos de consciência, a tal grau, que o Espírito resplandeça como luz divina e calor. Este calor se irradia conscientemente e com intensa atração magnética entre os sete grupos do sistema ou esquemas planetários. Seu campo magnético de ação compreenderá o raio planetário de todos e cada um deles. Estendamos essa idéia mais ainda até incluir o Filho e a todo o sistema solar que Ele anima; Sua intenção é expressar-se plenamente dentro dele, para que com o tempo e conscientemente se veja Sua luz e se sinta Seu calor ou radiação magnética, mais além de Sua influência, o “desse círculo não passarás” logóico. A luz e o calor do Filho se devem sentir no pólo cósmico oposto, essa constelação que é o oposto magnético de nosso sistema.

2. Objetivo das Unidades de Consciência.

A idéia de união e de fusão subjaz em todo o plano evolutivo; o Homem, os Homens celestiais e o Homem cósmico (o Filho do Pai e da Mãe) hão de :

  • a. Irradiar calor mais além de seu próprio “desse círculo não passarás” individual.
  • b. Resplandecer esotericamente e demonstrar luz ou objetividade ígnea.
  • c. Expandir-se até abarcar o que está mais além de suas próprias esferas imediatas.
  • d. Fundir e mesclar os dois fogos para produzir perfeitamente o fogo central, fogo solar.
  • e. Fundir Espírito e matéria para produzir um corpo que expresse adequadamente o Espírito.
  • f. Fundir a essência da forma, esotericamente qualificada durante a evolução, com a essência de todas as formas – em sentido humano, planetário e cósmico.
  • g. Alcançar amadurecimento humano, sistemático e cósmico.
  • h. Dominar os três planos do sistema solar, falando em sentido humano.
  • i. Dominar os cinco planos do sistema solar, no que diz respeito ao Homem celestial.
  • j. Dominar os três planos cósmicos, no que diz respeito ao Cristo cósmico, o Filho ou Logos ao manifestar-se objetivamente.

3. Unidades de Consciência em Manifestação.(85)

85 – Deve-se recordar que Matéria constitui a totalidade da Existência do Cosmos em qualquer dos planos de possível percepção. DS II, 214.
Ditas Existências poderiam ser enumeradas da seguinte maneira:

1. Os sete Homens celestiais. Em conjunto formam o Corpo do grande Homem dos Céus, o Logos
Outros nomes aplicados a estes seres são:

  • a. Os sete Logos planetários ou Espíritos.
  • b. Os Prajapatis.
  • c. Os sete Senhores dos Raios.
  • d. Os Dyhan Chohans.
  • e. Os sete Espíritos perante o Trono.
  • f. Os sete Arcanjos
  • g. Os sete Logos.
  • h. Os sete Construtores

DS I, 135, 147, 166; II, 191-192

São as entidades que dão forma ao Raio divino, Raio do segundo Logos, mais ou menos no mesmo sentido em que Fohat e seus Sete Irmãos constituem a totalidade do Raio Primordial. DS I, 123, 129, 168

  • a. A Matéria é fecundada pelo Raio Primordial de Inteligência. Este é a anima mundi, a alma do mundo.
  • b. O Raio Primordial constitui o veículo do Raio divino de Amor-Sabedoria. O objetivo da evolução consiste na fusão de ambos.
  • c. O Raio divino é sétuplo. Introduz sete Entidades.
  • d. Estas são:
    • 1. O Logos de Vontade ou Poder
    • 2. O Logos de Amor e Sabedoria
    • 3. O Logos de Atividade.
    • 4. O Logos de Harmonia
    • 5. O Logos de Ciência Concreta
    • 6. O Logos de Devoção ou Idealismo Abstrato.
    • 7. O Logos de Lei Cerimonial ou Ordem.

2. Os Homens, a Mônada, as Unidades de Consciência. Em sua totalidade constituem os corpos dos sete Homens celestiais. Cada Mônada pertence a um dos Sete Raios. DS I, 204, 278; II, 267; III, 90, 170,, 187-188.

3. Devas. DS I, 297; III, 108-109.

Ditos Devas, por exemplo, são:

  • a. Senhor dos devas de um plano. A esfera de seu corpo constitui todo o plano.
  • b. Grupos de devas construtores.

4. Entidades envolvidas nos reinos mineral, vegetal e animal. DS 1, 215, 289.

  • a. A vida do terceiro Logos – átomo da matéria.
  • b. A vida do segundo Logos – grupo de átomos com os quais se constroem as formas vegetal e animal.
  • c. A vida do primeiro Logos – formas nas quais mora o Espírito superior

5. O espírito de um planeta DSI, 188; XII, 236-237; IV, 45-46. A soma total das inumeráveis vidas evolutivas que se acham sobre um planeta.

6.. O átomo. DS II, 263, 264-266.

Resumo: Referente ao propósito e a mente veja-se DS I, 97-98, 149

Se nos detivermos a considerar cuidadosamente os objetivos mencionados, veremos que cada um ocupa seu lugar no plano e que o termo evolução se emprega para expressar o desenvolvimento gradual em tempo e espaço, da capacidade inerente de um ser humano, de um Homem celestial e de um grande Homem dos Céus. Deve-se ter em conta o lugar e a posição que todos e cada um ocupam com relação a outro ou outros, pois nenhum pode se desenvolver sem os demais. Portanto, que temos?

a. O Filho, o grande Homem dos Céus. Se manifesta por meio do Sol e dos sete planetas sagrados, cada um dos quais personifica um de Seus sete princípios, da mesma maneira que Ele, em sua totalidade, personifica um dos princípios de uma Entidade cósmica maior.
b. Um Homem celestial. Se manifesta por meio de um planeta, personificando um dos princípios do Filho, o Logos, e se desenvolve semelhantemente por meio de sete princípios, fonte de Sua unidade essencial com os demais Homens celestiais. Em sentido cósmico, o filho está desenvolvendo ao princípio de um Ser cósmico maior, o princípio denominado amor-sabedoria, característica fundamental que tem de desenvolver durante seu ciclo de vida. Por conseguinte, cada Homem celestial personifica predominantemente um princípio subsidiário do fundamental. Possui semelhantemente seis princípios subsidiários, como o Filho.
c. Um Ser Humano, o Homem. Se manifesta no plano físico por meio da forma e possui também sete princípios; em cada ciclo de vida trabalha para desenvolve-los; tem ainda uma coloração primária, que depende do princípio fundamental personificado pelo Homem celestial que é sua fonte de origem. Temos assim:

O LOGOS

Pai-Espírito + Mãe-Matéria

que produzem

  • O Filho ou grande Homem dos Céus,
  • o Ego logóico consciente
  • que evolui por meio do
  • Sol e dos sete planetas sagrados,
  • cada um personifica
  • Um princípio cósmico, com seis diferenciações,
  • pelo método de:

  • 1. Expansão, estímulo vibratório, interação magnética ou a lei de atração e repulsão.
  • 2. Progressão cíclica, repetição rotatória, conjuntamente com ascensão em espiral, e desenvolvendo:

  • a. A qualidade de amor-sabedoria, utilizando a forma por meio da inteligência ativa.
  • b. Plena auto-consciência.
  • c. Um perfeito sistema solar ou forma, adequado às necessidades do espírito imanente.

A mesma classificação se poderia aplicar para demonstrar a similitude do processo no caso do Homem celestial e do ser humano. Se se pergunta porque há dez esquemas e, de fato, dez planetas (sete sagrados e três ocultos), nos será dito que os sete planetas sagrados no devido tempo se fundem nos três e finalmente os três em um. Isso tem sua analogia nos sete Raios. Os sete Raios, que na manifestação são distintos, com o tempo se sintetizam. Diz-se que os quatro menores se fundem em um terceiro maior, e finalmente os três maiores em um raio sintético, Raio de Amor-Sabedoria (o Dragão de Sabedoria, a serpente oculta mordendo sua cauda) de acordo com HPB. Temos, portanto, três raios principais, mas se vêem sete durante o processo evolutivo. Com respeito aos Homens celestiais que atuam por meio dos planetas, temos, por conseguinte, três planetas que poderíamos considerar sintetizadores e e quatro que oportunamente são fundidos, até que os três tenham absorvido a essência dos quatro; finalmente se absorve a essência dos três, e assim se completa o trabalho. Esse processo terá lugar dentro de um espaço de milhões de anos; se desenvolverá durante o inevitável período da obscuridade gradual de nosso sistema. Quatro dos Homens celestiais encontram seus opostos magnéticos mesclando-se e fundindo-se. Primeiramente realizam entre Eles, fundindo e mesclando o Raio negativo e o positivo, a seguir os quatro se transformam em dois. Depois os dois se fundem formando assim uma unidade, e o um resultante se funde com o terceiro raio maior, o aspecto Inteligência – raio que em nossa Hierarquia planetária é representado pelo Mahachohan. A fusão continuará até que se alcance finalmente a unidade do sistema, e o Filho haja realizado Seu propósito, Amor-Sabedoria perfeitos; Sua luz resplandece cosmicamente; Seu raio magnético toca a periferia de Seu oposto cósmico, concluindo-se o matrimônio do Filho. As duas unidades cósmicas se fundem.

Se perguntarmos, como é lógico, que unidade cósmica constitui nosso oposto solar, nos será respondido que por ora é um enigma, ainda que se ache insinuado na Doutrina Secreta e em outros livros sagrados. Uma insinuação velada se encontra na relação que existe com as Plêiades de nossa terra; mas quando avançar mais a precessão dos equinócios se verá claramente qual é a relação exata envolvida.

NOTA: DS = Doutrina Secreta de H.P.Blavatsky


Publicado em:31.08.08

Palavras Iniciais

                Reforçando um pouco mais os conceitos de Dharma já mencionados semanas atrás, abaixo reproduzimos um texto bastante esclarecedor - O DHARMA INTERIOR.



Do livro: “A Expansão da Mente”, de
Tarthang Tulku – Ed. Pensamento – SP
Organizado por João Baptista Neto(MST), para:
http://br.groups.yahoo.com/group/mahavayumarga

O DHARMA INTERIOR

Pelo espaço de muitas vidas, ignoramos nosso potencial para despertar e, em vez disto, seguimos as exigências do nosso ego. Há um momento, porém, em que fica claro que as nossas ocupações egoístas nos levaram unicamente ao tédio, à ansiedade e à frustração. Pode ser, então, que comecemos a procurar por uma satisfação mais duradoura, e essa busca pode nos levar ao Dharma, aos ensinamentos do Buda.
Contudo, nosso interesse inicial pelo ensinamento freqüentemente tem um lado egoísta. Talvez esperemos poder, de alguma maneira, aliviar nosso tédio e nossa frustração ao adotar um modo de vida "exótico", ou talvez contemos que o Dharma vá resolver nossos problemas, nos fazer felizes e nos libertar de confusões e depressões. Assim, muitas vezes ficamos decepcionados quando nossa vida não se torna subitamente repleta de felicidade e realização.

Visto que temos inúmeras expectativas em relação ao Dharma, é fácil perder o interesse quando não há resultados imediatos.., descobrimos que perseverar no caminho da iluminação é algo que requer esforço. Somos facilmente atraídos para longe de nossa busca, por amigos, família, e por nossos próprios desejos. É fácil ficarmos presos entre os nossos desejos de prazeres e as nossas tentativas de seguir os ensinamentos e fortalecer a nossa prática. Por essa razão, quando encontramos um ensinamento que possa nos ajudar, é importante ficar com ele, mergulhar no Dharma tanto quanto pudermos. Ao fazer isto, passamos a compreender a verdadeira natureza dos ensinamentos, e verificamos que o Dharma é um modo de vida em que desejos egoístas não têm atração ou significado algum.
Certa ocasião, o Buda instruiu seu primo, Nanda, para estudar e praticar o Dharma mais a fundo, mas Nanda se recusou, dizendo que não tinha tempo.

"Quero poder estar com a mulher que amo. Além disso, não gosto de estudo nem de disciplina."

0 Buda, então, respondeu:

"Bem, então venha fazer uma viagem curta comigo; há um lugar que eu gostaria que você visse."

Nanda concordou com a viagem, desde que não se ausentasse por muito tempo. E, assim, o Buda levou Nanda, voando, para um dos reinos celestiais. Então, deixou que seu primo fosse dar uma volta, enquanto ele próprio foi meditar num bosque próximo.
Por toda parte que Nanda olhava, havia palácios que cintilavam com as cores do arco-íris. Homens principescos acompanhados de mulheres encantadoras passeavam aqui e ali, dançando, ouvindo ensinamentos e caminhando por jardins prazerosos, onde tocavam menestréis. Quando olhou para cima, Nanda viu donzelas celestiais voando pelo ar. Ele estava tão arrebatado pela beleza do lugar que nem notou que muitas horas haviam se passado. Porém, não deixou de notar que, enquanto todos os outros tinham uma companhia, ele estava só, observando do lado de fora. Então, reparou que cinco donzelas, mais belas do que todas as outras coisas juntas, estavam entrando num palácio. Não havia homem nenhum à vista, de modo que ele se aproximou delas e disse:

"Vocês são as únicas mulheres desacompanhadas que eu vi. Estou curioso; quem são vocês?"

E elas responderam:

"Ah, estamos esperando um certo jovem que está se interessando pela prática do Dharma. Como ele está criando carma positivo, irá nascer aqui."
"Quem é este homem de sorte?", perguntou ele. "0 primo do Buda", elas responderam.

Nanda ficou tão entusiasmado com a resposta que correu de volta para onde o Buda estava meditando e pediu para ser aceito como aluno.
Como nós, Nanda, de início, não se sentia atraído pelo Dharma em si mesmo; seu interesse estava naquilo que pudesse tornar sua vida mais agradável. Mais tarde, porém, à medida que desenvolveu sua prática, descobriu que a profundidade e a beleza do Dharma ultrapassavam a glória dos reinos celestiais. Depois de haver transmutado seus apegos mundanos, ele se iluminou.
Praticar o Dharma é mais difícil para nós, porque vivemos em tempos mais difíceis. Hoje em dia, como todos lutam para ter prazeres, dinheiro, poder ou posição, há muitas coisas para nos dispersar. Seguir o Dharma requer paciência, esforço e disciplina; desenvolver compreensão e habilidade na meditação é algo que requer tempo. Mesmo quando temos motivação para praticar, podemos não ter tempo ou oportunidade. Ou, talvez, não encontremos um mestre no qual possamos confiar. Restam alguns mestres verdadeiros nesta época sombria da Kali Yuga, mas há muitos outros que podem desperdiçar o nosso tempo. Eles podem nos dar o que pensamos ser ensinamentos, ou mesmo poderes, muito impressionantes, mas que talvez, no final das contas, não tenham nenhum valor efetivo.
Há uma história sobre um homem que tomava conta de cabras para ganhar a vida. Seu trabalho era árduo e sempre lhe parecia que nunca tinha o suficiente para comer, de modo que adquiriu o hábito de roubar leite das cabras antes de levar os animais para casa, para serem ordenhados por seu dono. Ele sempre se certificava de que estava pegando mais do que o suficiente, para que não fosse ficar com fome mais tarde. Todos os dias, tirava o leite das cabras, bebia o que podia e jogava o resto num rio que corria ao lado da caverna em que se abrigava.
Bem, havia uma família de Nagas que morava no rio, e as Nagas adoram leite de cabra. O rei das Nagas pensou que quem quer que oferecesse assim tanto leite precioso deveria ter um motivo, e, portanto, uma noite, apareceu para o guardador de cabras e perguntou:

"Por que motivo você nos oferece este alimento maravilhoso?" Disse o guardador: "Sou um homem mui¬to grandioso; por isso eu as alimento." A Naga respondeu: "Caro amo, o que então posso lhe oferecer? Posso lhe dar todos os poderes que desejar." 0 guardador, entusiasmado, disse: "Eu gostaria de ser capaz de sentar no ar; aí, poderia atrair muitos discípulos por causa desta habilidade." A Naga respondeu: "Está bem. Vou conseguir isto para você, se continuar a me fornecer leite de cabra. Sempre que for transmitir ensinamentos, você poderá sentar-se sobre as minhas costas, mas eu estarei invisível para todas as outras pessoas."


A notícia da capacidade do guardador de cabras sentar-se no ar espalhou-se, e muitos aldeões vieram receber ensinamentos dele. Embora os ensinamentos não fizessem muito sentido, muitas pessoas passaram a venerá-lo, devido ao seu "poder".
Então, o grande pândita Nagarjuna ouviu falar desse guardador e veio vê-lo. A Naga, percebendo que um mestre consumado como Nagarjuna seria capaz de enxergá-la, logo se pôs a correr, deixando que o guardador despencasse no chão. Desiludidos e desgostosos, os discípulos foram todos embora.
Como o guardador de cabras, podemos dar a impressão, por um determinado tempo, de estarmos ganhando certos poderes e capacidades, mas não podemos contar com um poder que venha de uma outra pessoa. 0 poder verdadeiro é a capacidade de controlar a nossa mente e as nossas emoções, e isso somente pode ser conseguido por meio dos nossos próprios esforços.
Dado que a experiência real da iluminação apenas pode vir através das nossas próprias ações, precisamos fazer com que todas as nossas atividades contribuam para o nosso crescimento. Mesmo atividades corriqueiras, como o trabalho na cozinha ou numa fábrica, oferecem oportunidades para desenvolvermos nossa atenção plena e nossa disposição para servir os outros. Nunca falta oportunidade para nos testarmos, nos olharmos de frente, sermos honestos e sinceros. Devoção, confiança e aceitação verdadeiras começam nos nossos próprios corações. Mais tarde, quando tivermos que enfrentar situações difíceis, não iremos esquecer os ensinamentos da nossa compreensão interna; essas dificuldades irão transformar-se em novas oportunidades para crescermos e despertarmos interiormente.
Havia uma vez um jovem monge chamado Paka Trubangwa. Ele não sabia ler e, por isso, seu mestre lhe disse para passar os dias limpando o templo. Em vez de estudar os textos, ele passou anos limpando e limpando e limpando. Haviam-lhe dito para repetir, enquanto limpava: "o pó se vai; o cheiro se vai." Um dia, pensou: "0 que é o pó?" Naquele momento, compreendeu que o pó verdadeiro são as emoções que nos agrilhoam. Quanto mais repetia estas palavras, mais compreendia a natureza da existência.
É a nossa motivação, a nossa concentração, a nossa presença mental que é importante; podemos transmutar tudo o que fa¬zemos; transformar o pó em ouro. Na maioria dos casos, se alguém nos dissesse para não fazer nada, exceto limpar um templo, iríamos nos ressentir. Porém, quando aceitamos todos os aspectos da vida, vemos que podemos aprender com qualquer situação. 0 Dharma, na verdade, se torna uma parte nossa, e nós nos tornamos uma parte do Dharma. Força vem, então, seguida de encorajamento e de confiança.
0 lama tibetano do século XVIII Jigmay Lingpa certa vez disse:

"Embora possamos ter adquirido grande conhecimento e sabedoria, em decorrência de anos de estudo e prática, e embora possamos ter aprendido a ser pacientes e a praticar meditação com vigor, ainda assim podemos estar longe de alcançar a iluminação. Só se pode alcançar a compreensão última por meio de sincera devoção e total confiança nos ensinamentos e no mestre."

Confiança e devoção, quando combinadas com uma consciência da responsabilidade que temos em relação aos outros, levam à verdadeira compaixão para com todos os seres vivos, e, portanto, à iluminação. Devoção e compaixão complementam-se mutuamente e dão suporte à nossa prática. Quando nossa compaixão é forte o suficiente, ela inspira nossa devoção; e quando temos tanto devoção quanto compaixão - uma abertura amorosa para todas as formas sensíveis da vida - há equilíbrio e harmonia.
É muito simples. A devoção e a compaixão podem nos levar muito próximo da realidade absoluta. A devoção abre o coração, onde reside nossa energia essencial ou atenção plena, manifestando-se como nosso guia interno. Devoção significa entregarmo-nos a esta energia superior, a esta atenção plena e pura. A entrega requer abertura, para permitir que o Dharma alcance os nossos corações. A compaixão serve de porta.
Uma vez que consigamos nos abrir, todos os conceitos dualistas se dissolvem, como nuvens. Aceitamos cada parte de nossa experiência, porque tudo é visto como adequado e harmônico. Pode ser que ainda tenhamos que enfrentar muitos obstáculos, mas aprendemos a aceitar nossas deficiências com docilidade. Quando aprendemos a nos abrir por meio do Dharma, vemos que o Dharma, ele próprio, é o guia em quem podemos confiar, nosso amigo e companheiro de todas as horas. Ao nos abrirmos, reconhecemos os ensinamentos do Buda em toda a nossa experiência. Tudo, então, faz parte do Dharma. Quando o Dharma entra em nossa mente, em nosso coração e nossos sentimentos, e circula por nossa corrente sangüínea, nós somos o Dharma vivo. Esta compreensão é o Dharma interior; não há paredes entre nós e o Dharma. Isto, descobrimos é uma entrega à nossa própria e verdadeira natureza.


Publicado em:24.08.08

Palavras Iniciais

                Ratificando a opinião que aqui já manifestei quando afirmei que o Vedantismo Advaita não é Politeísta [Advaita = não dual] apesar de seu Panteão conter milhares de "Deuses" e "Semideuses", abaixo publico mais um excelente artigo do Sr. José Manuel Anacleto - Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural, onde discorre sôbre a Idolatria que se verifica ainda nos dias de hoje em algumas tradições Cristãs.



Deuses, Ídolos e Demônios

Deuses, Ídolos e Demónios

Quase todos nós fomos educados na convicção de que, com a única exceção, e mesmo assim parcial, dos judeus, todos os povos da Antiguidade pré-cristã eram idólatras. É-nos ensinado que adoravam falsos deuses e que acreditavam que os ídolos de pedra (ou de representação pictórica) eram as próprias divindades. É deste modo que se nos apresentam os antigos gregos, os antigos romanos, os antigos egípcios, os antigos caldeus e todas as civilizações arcaicas (e é assim que, ainda hoje, alguns pretendem, grosso modo, caracterizar as subsistentes religiões orientais). Depois, acrescenta-se, veio a luz claríssima do Cristianismo, completando a promessa do Antigo Testamento e trazendo a religião perfeita, e desapareceu a idolatria, bem como a superstição e as crenças insensatas e cruéis.
Mas… terá sido mesmo assim?

Idolatria de Ontem e de Hoje

Não podemos, certamente, negar que, na Antiguidade, pessoas incultas e irreflectidas tenham acreditado em superstições absurdas ou abomináveis. O mesmo se verifica nos nossos dias, tanto nos países católicos, como nos de maioria dita “protestante”, como na mescla que são os Estados Unidos da América; na Índia como no Islão; na China, como em África ou na América do Sul - ou onde quer que habitem seres humanos. A zoolatria, por exemplo, existiu e existe; mas, perguntamos, que diferença existe em cultuar ou reverenciar o cordeiro e a pomba dos cristãos ou a vaca, a íbis, o gato ou… as serpentes-dragões? Na verdade, a nosso ver, inexiste qualquer diferença. A única distinção relevante é a de se entenderem - ou não - os símbolos que subjazem a cada uma dessas formas animais incluídas nas religiões ou mitologias dos povos. Compreendidos, revelam um mundo maravilhoso e sapientíssimo de significados; de outro modo, são objecto de crenças e cultos sem sentido ou de explicações superficiais de quem é incapaz de decifrar os mistérios que velam.
Voltemos, entretanto, à questão: eram os povos da Antiguidade simples idólatras, que acreditavam que, por exemplo, estátuas de pedra eram elas-mesmas divindades? A nossa resposta só pode ser esta: não eram mais (talvez fossem menos) idólatras (no sentido que a palavra adquiriu) do que milhões de cristãos do nosso tempo, cujas igrejas estão repletas de imagens.

Ídolos, Imagens…

Imagens… Ah, sim, pode dizer-se: mas nas Igrejas cristãs há imagens e ninguém pensa que essas imagens são o próprio Deus, Jesus, Maria, os santos, os anjos. São unicamente imagens representativas.
Na realidade, em tantos casos, não é assim: estátuas e outras representações são tocadas para obter favores, desde a boa fortuna ao casamento ou à gravidez. Fixemo-nos, contudo, na ideia de simples imagens representativas.
Assim sendo, os ídolos dos Antigos não eram mais nem menos do que isso. A nossa palavra “ídolo” vem do latim Idólus, que, por sua vez, deriva do Grego Eidolon. E o que significava Eidolon? Justamente… imagem 1.
Os crédulos e irreflectidos daquele tempo tomavam - e continuam hoje a tomar - a imagem representativa pela própria realidade. Os mais sábios e conscientes sempre reprovaram a superstição, acima da qual procuravam elevar os outros. As palavras de Xenófanes ou de Platão, nesse sentido, são alguns entre muitos exemplos da postura dos grandes Conhecedores da Antiguidade.
Satiricamente, escrevia Xenófanes:
“Há um Deus Supremo acima de todos os deuses,
mais divino que os mortais /
Cuja forma não é parecida com a dos homens, como também não é semelhante a sua natureza; /
Mas os fúteis mortais imaginam que, como eles mesmos, os deuses são procriados /
Com sensações humanas, com voz e membros corpóreos. /
Dessa forma, se os bois ou os leões tivessem mãos e pudessem trabalhar à moda dos homens, /
E pudessem esculpir com cinzel ou pintar a sua concepção da divindade, /
Então os cavalos retratariam os deuses como cavalos, os bois os representariam como bois, /
Cada tipo de animal representaria o Divino, com a sua forma, e dotado com a sua natureza” 2.
O Divino reconhecido por Xenófanes, “esta única divindade, identifica-se com o Universo, é um deus-tudo” 3.
Para Platão 4 “… a pior aberração é a superstição dos que crêem que a divindade possa ser propiciada com dons e ofertas: esses põem a divindade a par dos cães que, amansados com presentes, deixam depredar os rebanhos, e até abaixo dos homens comuns, que não atraiçoam a justiça aceitando presentes oferecidos com intenção delituosa” 3.
Entretanto, os monoteístas 5 fanáticos pisotearam o conhecimento dos sábios da Antiguidade 6 e colaram-lhes o selo da ignorância, fingindo desconhecer que a compreensão desses sábios era bem diferente da superstição dos homem crédulos (de todos os tempos). Para o engrandecimento das novas “fés” - cujos seguidores eram e continuam a ser tão ignorantes, supersticiosos e manipuláveis como o povo inculto da Antiguidade -, afirmaram capciosamente que, para os “pagãos”, os eidola (ídolos) não eram simples imagens ou representações mas, sim, a(s) própria(s) divindade(s). Essa falsidade continua a ser repetida incessantemente até hoje.

Demónios?

O mesmo aconteceu com os daemones. Com a sua cegueira e intolerância (essa, sim, demoníaca no pior dos sentidos), os fanáticos do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo só puderam ver entidades diabólicas nos daemon ou daimónion dos sábios dos tempos áureos da Grécia Antiga (e de Alexandria, dos neoplatónicos, etc.). “Demónio” deriva, justamente do grego daimónion, da raiz daemon. No entanto, daemon não significava (necessariamente) uma entidade maligna. Mais frequentemente aludia a um ser diáfano, de formas mais subtis e consciência mais elevada - e, para os mais esclarecidos, o próprio ser espiritual, a natureza mais excelsa do Homem. É em conformidade com esta acepção que, por exemplo, Plutarco, no seu ensaio “Sobre o Daemon de Sócrates”, escreveu: “O nous de Sócrates era puro e não estava misturado com o corpo mais do que a necessidade exigisse. Toda a alma possui alguma parcela de nous, de razão; um homem não pode ser um homem sem ela (…). Cada alma não se mistura de uma única maneira; algumas mergulham no corpo e, assim, durante essa vida, os seus corpos são corrompidos pelo desejo e pela paixão; outras estão parcialmente misturadas mas a parte mais pura [nous] permanece sempre fora do corpo. Ela não mergulhou no corpo mas paira 7 acima dele e cobre 8 a parte mais extrema da cabeça do homem; ela cumpre o efeito de uma corda que sustentaria e dirigiria a parte rebaixada da alma, enquanto esta for obediente e não se deixe dominar pelos desejos da carne. A parte que mergulhou no corpo é chamada de alma; mas a parte incorruptível é chamada nous, e o vulgo pensa que ela está neles, como também imagina que o ser cuja imagem se reflecte num espelho está realmente naquele espelho. No entanto, os mais inteligentes, que sabem que ele está fora, chamam-no Daemon.” - “um deus, um espírito” 9.
Valerá a pena aqui referir que o notável filósofo judeu Filon, em “Sobre os Gigantes”, era bem mais lúcido do que “legiões” de fanáticos das religiões ocidentais, ao escrever que “Aos seres que os filósofos de outros povos distinguem pelo nome de â??demóniosâ?™ [i.e., daemones], Moisés chamava â??anjosâ?™”. De facto, Filon tinha nascido em Alexandria e estava imbuído de concepções pitagóricas, platónicas e estóicas, ainda que moldando-as à religião judaica…

Conclusão

Concluímos que é geralmente sinal de ignorância tomar uma religião ou uma cultura em particular como se fosse um modelo universal, e diabolizar aquilo que outras culturas, filosofias e religiões cultuam como divino ou a que prestam reverência e reconhecem razão de ser. Pelo contrário, seria bom que reconhecêssemos a Ciência Espiritual onde quer que ela se tenha manifestado e que expandíssemos os horizontes da nossa compreensão. Entretanto, para que tal aconteça plenamente, é preciso descartar a ideia de que alguma religião (por exemplo, o Cristianismo) é um caso único e especial, uma Revelação pura vida do próprio Deus - se tal Deus pessoal existira… -, sem linhagem e sem conexão com todo o património da Sabedoria Universal.
Nesta mesma revista, em outro artigo 10, falaremos da colectividade de potências criadoras ou deuses (ou Dhyan-Chohans) que constituem o Demiurgo do Universo. Referindo-se-lhes (e tendo em consideração o universo sublime, mas com imperfeições, que construíram), escreveu Helena Blavatsky: “… por muitas que sejam as provas de existir uma Inteligência directora por trás do véu, nem por isso deixa de haver defeitos e lacunas, remontando muitas vezes em insucessos evidentes; segue-se que nem a Legião colectiva (Demiurgo), nem qualquer das Potências que actuam, individualmente consideradas, comportam honras e cultos divinos. Todos têm, no entanto, direito à reverência e gratidão da Humanidade; e o homem deve sempre esforçar-se por ajudar a evolução divina das Ideias 11, tornando-se, na medida dos seus recursos, um colaborador da Natureza na sua tarefa cíclica. Só o incognoscível Karana, a Causa sem Causa de todas as causas, deve ter o seu santuário e o seu altar no recinto sagrado e inviolável do nosso coração; invisível, intangível, inominado, salvo pela â??voz tranquila e silenciosaâ?™ da nossa consciência espiritual”.

José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural


1 Cfr. “Termos Filosóficos Gregos”, de F. E. Peters. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2a ed., 1983
2 Este trecho de Xenófanes foi preservado por Clemente de Alexandria, um dos melhores e mais ilustrados dos cristãos dos primeiros séculos da nossa Era, na sua obra “Sromata”. Clemente incorporou no Cristianismo muitos elementos da filosofia grega (o seu pendor era neoplatónico), chamou-se a si mesmo um ecléctico - foi discípulo do grande Amónio Saccas -, mencionou respeitosamente Buddha e, naturalmente, foi em certos momentos atacado como herege. Quanto a Xenófanes (c. 580 a 488 A.C.), foi o iniciador da escola eleática, em que se vieram a destacar o grande Parménides e Zenão, e pôs grande parte da sua tónica na unidade do Ser.
3 Cfr. “História da Filosofia, Vol. I”, de Nicola Abbagnano (Editorial Presença, Lisboa, 1976)
4 Embora possa ser vulgar, numa cultura medíocre, menosprezar Platão (428-347 A.C.) - seja pela via da alusão ao “amor platónico”, num sentido banal que aquele filósofo nunca lhe pretendeu dar, seja considerando-o como destituído de objectividade -, a história tem-no justificado continuamente. Esperamos, em próximo artigo, demonstrar como, desde a Renascença até aos modelos interpretativos da Ciência contemporânea, o fio da tradição pitagórica e platónica provou as suas extraordinárias potencialidades. Foi redescobrindo essa tradição, nomeadamente na sua ênfase matemática e geométrica, que a pintura e a arquitectura progrediram colossalmente nos Sécs. XIV e XV; que a ciência moderna surgiu à luz do dia (Copérnico, Kepler e Galileu, por exemplo, inspiraram-se nesse legado. Aliás, muito antes, Arquimedes, Aristarco de Samos e Eratóstenes haviam feito o mesmo. Permita-se-nos recomendar o livro de Alexandre Koyré “Galileu e Platão”, Gradiva, Lisboa); que os mais notáveis filósofos da Idade Moderna deixaram as suas obras grandiosas - veja-se Giordano Bruno, um mártir da Liberdade, do Bem e da Verdade, veja-se Spinoza, com a sua “Ética… demonstrada à maneira dos geómetras”, veja-se o respeito e o interesse de Leibniz, Descartes e Kant pela matemática. As portas da Academia Platónica só eram franqueadas a quem conhecesse geometria; os pitagóricos haviam desenvolvido a matemática. E esta é hoje o grande instrumento da Física nas suas investigações e formulações de leis. Muito antes ainda, os neoplatónicos e neopitagóricos constituíram as luzes maiores da Era Cristã, pelo menos nas chamadas (sem muito rigor) civilização e cultura ocidentais. Recordemos que Platão se imbuiu de grande parte das ideias pitagóricas e que estas têm as suas raízes no Egipto e na Índia. Há um fio dourado de Sabedoria que perpassa todos os tempos e latitudes, mesmo nas circunstâncias mais adversas.
5 Também fomos normalmente educados no pressuposto da superioridade das religiões ditas monoteístas: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Na realidade, foram e são estas as mais intolerantes, separatistas, tantas vezes sanguinárias e que, constituindo réplicas mais ou menos desvirtuadas de outras com maior antiguidade, perderam em inúmeros aspectos as referências originais de onde ramificaram. Aliás, não é rigorosa esta divisão, comum na vigente catalogação cultural, entre religiões monoteístas e politeístas. Em boa verdade, qualquer religião digna desse nome é ambas as coisas (monoteísta e politeísta): também são monoteístas as religiões arcaicas, com o Uno inominável acima de todas as potências criadoras e operantes (deuses), e também são politeístas o Judaísmo, o Cristianismo e até o Islamismo com os seus anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, etc. (e, no caso do Judaísmo, com o Jeová ciumento dos outros deuses), para já não falar nos santos e na Virgem Maria, tão semelhante, na formulação dogmática católica, à deusa egípcia Ísis, a Devaki (Mãe de Krishna), à rainha Maha-Maya, mãe de Buddha, e a todas as mães divinas da Antiguidade. O Ocultismo congraça o Monoteísmo e o Politeísmo, afirmando que “Há uma só vida, que integra inúmeras Vidas” ou “Tudo quanto existe, existe num Ser maior”. Sobre este tema, cfr. o que escrevemos no o 10 da Biosofia na secção “Entre o Céu e a Terra” e o artigo “Demiurgo” na presente edição.
6 Sobre a destruição da grande parte do património da Sabedoria acumulada (e precipitada em obras) por gerações sucessivas de sábios da Antiguidade, destruição essa perpetrada pelos fanatismos “cristão” e “islâmico”, cfr. os os 15 e 16 (sobretudo este último) da “Biosofia”, especificamente no artigo “Cristo”.
7 Para tornar mais claras as afirmações de Plutarco à luz da Sabedoria Oculta, nada melhor do que as palavras contidas nas “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” (Ed. Teosófica, Brasília, 2001): “… Nem Atman nem Buddhi jamais estiveram dentro do homem - um pequeno axioma metafísico que você pode estudar com proveito em Plutarco e Anaxágoras. Este último fez do seu Nous autokrates o espírito poderoso por si mesmo, o nous que era o único a reconhecer noumena, enquanto Plutarco ensinava, com base em Platão e Pitágoras, que o demonium ou este Nous sempre permanecia fora do corpo…”, etc. Lembremos que, no septenário dos princípios humanos, Buddhi (Intuição, Razão Pura) e Atman (Espírito, Vontade Espiritual), contando desde baixo, são, respectivamente, o 6o e o 7o Princípios - isto é, os dois superiores. No mesmo sentido, cfr. ainda o livro “Luzes do Oculto” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1a ed.,1998; 3a ed., 2001), especificamente a resposta o 15.
8 No sentido do adombrer francês.
9 Esta oportuna adição explicativa às palavras de Plutarco foi feita por Helena Blavatsky, na sua magnífica obra “Ísis Sem Véu” (Vol. III da edição brasileira; Ed. Pensamento, S. Paulo, 1990), ao citar aquele autor.
10 “Esoterismo de A a Z”.
11 Helena Blavatsky faz aqui uma alusão à filosofia platónica, que ela tanta apreciava, como expressamente escreveu, desde logo, no início do seu primeiro livro (o já citado “Ísis sem Véu”). Segundo Platão, a criação demiúrgica era feita em obediência aos modelos das Ideias ou formas (Eide, plural de Eidos), existentes na Mente Cósmica, no Universo Inteligível (Kosmos Noetos). Dizia ele que os deuses eram “amigos dos eide”.
12 In “A Doutrina Secreta, Vol. I” (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973).

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Publicado em:17.08.08

Palavras Iniciais

Reproduzo abaixo matéria que publiquei em 2004 na Lista Mahavayumarga a respeito de expansão da mente. Publico por estar tal matéria muito ligada à Meditação, assunto que vimos tocando com bastante frequencia.



Do livro: “A Expansão da Mente”, de
Tarthang Tulku – Ed. Pensamento – SP
Organizado por João Baptista Neto (MST), para:
http://br.groups.yahoo.com/group/mahavayumarga

O LÕTUS DO SONHO

Nos sonhos, podemos fazer o impossível - podemos transformar nosso corpo, usar de telepatia e até voar. Nosso estado de sonho é como sondar as profundezas do oceano, ao passo que nosso estado de vigília é como navegar na superfície do mar. Como os sonhos não são elaborados de forma consciente, mas brotam espontaneamente, conseguem se desviar dos filtros existentes em nossa consciência do estado de vigília. Nossos sonhos podem nos levar a um conhecimento inalcançável em estado desperto.
Todavia, nem sempre é fácil trabalhar com o estado de sonho, pois ainda precisamos usar nossos conceitos comuns para entrar em contato com as experiências oníricas. Há formas, porém, de nos sintonizarmos com a densidade e o ritmo do padrão dos sonhos, e, assim, explorarmos essa fonte de conhecimento. Uma delas é praticar certas visualizações logo antes de irmos dormir.
A fim de favorecer este tipo de visualização, o ideal é criar uma qualidade de sentimento adequada, relaxando-nos de modo profundo, imediatamente antes do sono. Em especial, relaxe. a cabeça e os olhos, os músculos do pescoço e as costas, e, por fim, relaxe todo o seu corpo. Solte toda a tensão e, limpando a mente tanto quanto possível, simplesmente fique deitado e respire de forma muito lenta e suave. Deixe seu corpo e sua mente sentirem a qualidade leve e reconfortante do relaxamento.
Em seguida, conduza a mente da maneira delicada como você, talvez, conduziria uma criança pequena. A mente gosta muitíssimo de sentimentos; por isso, faça-a assentar-se com sen¬timentos calorosos, alegres e tranqüilos. A mente pára de ficar pulando de um lugar para outro; suas preocupações e conceitos vão desaparecendo e você será capaz de relaxar profundamente. Agora, você está em condição de visualizar de modo eficaz.

Quando você estiver se sentindo bem calmo e sereno, visualize uma flor de lótus linda e suave, em sua garganta. O lótus tem pétalas rosa-claro que se curvam ligeiramente para dentro; e, no centro deste lótus, há uma chama luminosa de cor laranja-avermelhado, que é clara nas bordas, passando a uma tonalidade mais escura no centro. Olhando com bastante suavidade, concentre-se na ponta da chama, e continue a visualizá-la tanto tempo quanto puder.
Esta chama representa a atenção pura, que tem a mesma qualidade luminosa da energia do sonho. As experiências da nossa vida no sonho e no estado desperto têm características diferentes. Mas, visto que sua estrutura é essencialmente a mesma, a atenção plena de um estado pode passar desimpedida para o outro.

Continue a manter a imagem do lótus e da chama. À medida que você faz isto, observe como os pensamentos surgem e como a imagem visual do lótus se entrelaça com eles. Note como esses pensamentos e imagens refletem as suas próprias associações, passadas e presentes, bem como as suas projeções futuras. Observe este processo, mas continue a se concentrar no lótus, de modo que sua visualização permaneça clara.
Pode ser que outras imagens continuem a entrar em sua mente, e talvez você sinta que não possa conservar a mente livre de pensamentos nem por um minuto. Não se preocupe com eles; apenas observe o que acontece, seja o que for. Embora outras imagens e pensamentos apareçam na mente, enquanto o fio da visualização permanecer intato, ele vai se transpor para o sonho. Todavia, tentar interpretar ou "pensar sobre" sua visualização quebrará este fio. Cria-se um hiato entre o estado de vigília e o do sonho, e sua visualização e sua atenção pura se perdem; sua atenção pura vai se perder no sonho. Portanto, tome cuidado para não forçar a visualização; apenas deixe que ela aconteça, mantendo, porém, sua concentração no lótus.
Deixe que a forma se reflita sobre sua atenção pura até que sua atenção e a imagem se tornem uma só coisa. Então, não haverá espaço para pensamentos - esta é a contemplação plena. Quando a concentração é completa, sujeito, consciência, objeto, imagens -, todos se tornam uma só coisa.

De início, quando você passa para o estado dos sonhos e as imagens aparecem, talvez você não se lembre de onde elas vieram. Porém, sua atenção pura irá naturalmente se desenvolver, até que você seja capaz de ver que está sonhando. Quando observar com muito cuidado, será capaz de ver toda a criação e a evolução do sonho. As imagens do sonho, que a princípio são borradas e difusas, vão se tornando claras e abrangentes.
Esta atenção clara é como ter um órgão especial de consciência que nos possibilita ver o estado de vigília a partir do estado de sonho. Por meio desta prática, podemos ver uma outra dimensão da experiência, e ter acesso a uma outra forma de conhecimento de como a experiência surge. Isso é importante, pois, quando sabemos isto, podemos moldar nossas vidas. As imagens que emergem da atenção pura no sonho irão intensificar nossa atenção pura no estado de vigília, permitindo-nos ver melhor a natureza da existência.

Com prática continuada, vemos cada vez menos diferença entre o estado de vigília e o estado de sonho. Nossas experiências na vida acordada se tornam mais vívidas e diversificadas, como resultado de uma atenção plena mais leve e refinada. Não ficamos mais limitados pelas concepções convencionais de tempo, espaço, forma e energia. Dentro dessa perspectiva mais vasta, podemos também verificar que os assim chamados feitos e lendas sobrenaturais dos grandes ioguins e mestres não são mitos ou milagres. Quando a consciência une os vários pólos da experiência e passa além dos limites do pensamento convencional, poderes ou habilidades psíquicos são, na verdade, naturais.
Este tipo de atenção plena, baseada na prática com sonhos, pode ajudar a criar um equilíbrio interno. A atenção plena alimenta a mente de um modo que nutre todo o nosso organismo. A atenção plena lança luz sobre facetas da mente até então não vistas, e ilumina o caminho para que exploremos dimensões sempre novas da realidade.


Comentário

O Budismo Tibetano se vale muito da técnica de visualização para obtenção da atenção plena. Vale a pena tentar.



Publicado em:10.08.08

Palavras Iniciais

                Como mencionado na semana passada, abaixo publico matéria de autoria de Sr. José Manuel Anacleto, Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural, a respeito da Construção do Universo, que para melhor entendê-la publiquei anteriormente "As Estâncias de Dzyan", constantes do livro "A Doutrina Secreta", de H.P.Blavatsky.

                Como verão, trata-se de uma investigação tomando por base fundamentos Ocultistas, já que em nenhum momento recorre a qualquer dogma estabelecido por qualquer tradição.

                Excelente matéria. Vale a pena ser lida.



Demiurgo - Construtor(es) do(s) Universo(s)

Demiurgo - Construtor(es) do(s) Universo(s)

A palavra Demiurgo significa “Construtor, Artífice” e é habitualmente referida, em termos cosmogónicos, relativamente ao surgimento e formação dos Universos. Foi usada por antigos e notáveis filósofos gregos, nomeadamente por Platão e, a partir daí, por diferentes escolas e autores, com maior ou menor propriedade. Visto que Platão expôs, na medida do possível, e sob os necessários véus, partes relevantes da Ciência Espiritual, é normal que, na exposição da Cosmogonia Oculta, se recorra por vezes a essa palavra.
Poder-se-á imediatamente pensar que “Demiurgo” designa, então, o Deus-Pai Criador de tudo quanto existe; porém, essa é uma formulação simplista e incorrecta, que não pode, sem mais, ser subscrita pela Sabedoria Esotérica. Há imensas questões e vertentes a ponderar. Certamente, não poderíamos (ainda que o soubéssemos) expô-las todas. No entanto, não vamos iludir algumas das principais.
A dor e a imperfeição do mundo
Toda a Humanidade é digna de compaixão; contudo, individualmente considerados, somos ainda, muitas vezes, mesquinhos. Grande parte dos seres humanos assemelham-se assim a bonecos de corda. A imagem pode parecer algo dura mas tenta ilustrar uma atitude muito vulgarizada: as pessoas surgem neste mundo, mexem-se muito, fazem e dizem muitas coisas (um considerável número das quais, talvez, completamente inúteis); entretanto, nunca se questionaram por que e para que estão aqui; que é isso que nelas palpita como vida, lhes permite movimentar-se, pensar, ter sentimentos; que sentido real e profundo deve ter as suas existências. Quando o fazem, em grande parte dos casos rapidamente se entregam nos braços de alguma crença mais ou menos simplista ou, quando mais pertinazes, tornam-se fanáticos desta ou daquela Igreja (ou de qualquer outro sucedâneo). É infelizmente raro o genuíno investigador, que busca incessantemente a verdade, que não tem medo de enfrentar as questões e ver o mundo tal qual ele é, que exige respostas profundas, firmes e consistentes.
Não obstante, e até por entendermos que os leitores da “Biosofia”, pelo tipo de temáticas em que mostram interesse, serão dados à reflexão, pensamos que não constitui nenhum exagero afirmar que, decerto, cada um de nós, ao menos uma vez na vida, experimentou a sensação de dor, de sofrimento, de vulnerabilidade ou de verdadeira tristeza. Isto sucede particularmente em momentos mais críticos, quando somos assaltados por uma doença, por um problema pessoal, pela morte (desencarne) de algum ente querido; também, quando observamos os horrores do mundo que nos cerca, especialmente no século que findou (e que também já se indiciam no recém-iniciado), em que a humanidade vem realizando grandes conquistas científicas e tecnológicas mas em que, com isso, construiu meios de destruição autenticamente assombrosos, e em que, aqui e ali, se cometeram iniquidades que nos fazem quase desfalecer de horror ao delas tomarmos conhecimento; quando constatamos o oceano de dor e de loucura em que a humanidade em geral está imersa; quando, enfim, “apenas” sentimos aquela angústia, aquela insatisfação, aquele vazio fundamental que tantas vezes nos acompanha no dia a dia…
Nessas ocasiões, em alguma fase da nossa vida, seguramente nos teremos interrogado se não existe um Deus no “Céu” ou, se ele existe, por que permite que tais coisas possam acontecer no mundo.
O problema do mal
Mais ainda, aliás: quando vemos que não apenas a nós, humanos, nos toca a dor e a miséria, mas que o sofrimento pode ser tão cruento e brutal entre os animais, na sua luta pela sobrevivência e não só; quando vemos que até no reino vegetal há destruição; quando observamos que, na Natureza, há tentativas falhadas, insucessos ou mesmo (aparentes?) aberrações; quando constatamos que todo e qualquer ser que conheçamos é limitado e, portanto, imperfeito; quando, enfim, nos confrontamos com o problema do mal 1 - da existência evidente do mal no Universo -, verificamos como têm plena razão de ser as poéticas palavras do Buddha Gautama: “Não te iludas, Ananda, toda a existência está plena de dor. Assim, chora a criança desde que nasce.”. E acrescentava Ele, face a tudo o que tentámos aludir: “Se Deus permite tais coisas, não pode ser bom; ou então, não tem o poder de evitá-las, e não pode ser Deus” 2.
De facto, se existe - se existisse - um Deus simultaneamente Absoluto, Criador, Todo-Poderoso e infinitamente Bom, como é que não quis ou não pôde fazer um mundo muito mais perfeito (aliás, infinitamente perfeito) e feliz (aliás, infinitamente feliz, bem-aventurado) do que este? 3.
Respostas incoerentes
A teologia das Igrejas Cristãs ufana-se - literalmente 4! - de ter uma resposta para esse problema. Sintetizando, a sua posição é esta: Deus é uma Pessoa - que é também três pessoas 5 - distinta do mundo, que criou do nada (concepção teísta), da mesma forma como cria as almas humanas (porque os animais, por exemplo, não teriam alma) cada vez que é concebido um corpo a que se vão associar. Deus criou o homem para ser feliz neste mundo, embora sempre numa limitada condição. Demoniacamente tentados a serem idênticos a Deus, para tanto comendo da Árvore do Conhecimento do bem e do mal, remotos antepassados nossos teriam cometido o pecado original, motivo pelo qual temos de sofrer - e muito! - neste mundo (assim interpreta o primeiro livro da Bíblia). Alguns milhões de anos depois, Deus enviou o seu Filho (que é Ele mesmo?!) para redimir (os que nâ?™Ele crerem) do pecado que assim entrou no mundo e para os “conduzir à vida eterna”.
Dificilmente alguma vez se concebeu uma ideia tão incoerente, disparatada e ofensiva do mínimo sentido de justiça e de lógica! Se não, vejamos:
1) Existindo um Deus pessoal, infinitamente justo, criador e governante moral do Universo, onde intervém sempre que e como lhe parece conveniente 6 - que é o que sustentam tais teologias -, de que modo podemos entender e aceitar que milhares e milhares de gerações de seres humanos, muitos e muitos milhares de milhões de homens e mulheres continuem a sofrer as consequências de um facto para o qual não contribuíram, visto não existirem no momento em que esse facto foi - por outros - praticado (lembremos que as Igrejas Cristãs não aceitam a ideia da preexistência das Almas, da Reencarnação e, basicamente, do Karma)? Alguém acharia justo que um juiz nos aplicasse uma pena de prisão e uma multa (com juros e correcção monetária, já agora.) por um delito cometido por um antepassado nosso que viveu há - mero exemplo - 100 000 anos atrás? Se tal acontecesse, qualquer cidadão no seu perfeito juízo sentiria a mais profunda revolta, indignação e sentimento de estar a ser alvo de uma injustiça colossal. Decerto, consideraria o juiz (ou, então, o legislador) iníquo, estúpido, monstruoso. Com grande probabilidade, haveriam manifestações de protesto, desacatos, violência. Como, então, admitir que o Legislador e Juiz divino, infinitamente justo e sábio, pudesse ter tal iniquidade, insensatez e monstruosidade? E como se poderia, ainda assim, dirigir-Se-lhe louvores (como os que, supostamente se fazem ou deveriam fazer a um tal Deus)?
Muitas vezes nos interrogámos como é que tais “explicações” podem ser concebidas e aceites, e só encontramos duas razões: o fanatismo retorcido e mal informado de alguns (os inventores de tal história) e a indiferença real do cidadão comum perante qualquer espiritualidade profunda, que de facto não leva a sério e que por isso não questiona - como o faria se estivessem em causa, por exemplo, valores monetários que o afectassem. Aí, e porque a questão lhe importaria, logo vislumbrava a imensidão da injustiça…
2) Se Deus é omnipotente e infinitamente bom e faz todas as criaturas como quer, por que concebeu um ser limitado como o ser humano, mesmo no seu estado original de graça? E por que cria seres, como os animais, condenados também ao sofrimento - e, segundo tal teologia, à extinção -, não obstante terem sensibilidade à dor, emoções, sentimentos e até inteligência?
3) A isto, acresce uma infinidade de questões, de que só suscitaremos algumas, e, ainda assim, limitando-nos a deixar as perguntas sem mais comentários: deveria o ser humano permanecer infantilmente sem discernimento próprio, sem ciência (do bem e do mal)? O original do livro do Génesis 7 fala em um Deus ou em os Elohim (uma pluralidade, uma hierarquia)? E por que, no mesmo livro, ora se fala nos Elohim ora em Jeová (e, ainda, no meio, em Elohim-Jeová)? E a primeira palavra bíblica, ainda no Genesis, palavra essa que é Berasit ou Berasheth significa no princípio (no sentido de, no início, no começo) ou significa Sabedoria (na qual foram criados os Céus e a Terra, etc.)? E como poderia ser Deus infinito e absoluto, se fez surgir mundos e criaturas do nada, (o que quereria dizer) de algo que não Ele próprio? E, por qual explicável e aceitável razão - visto que a Humanidade tem já uma Idade tão longa - Deus não teria desencadeado imediatamente o Seu plano de salvação, e só há apenas dois milénios (depois de incontáveis outros terem decorrido), o Seu Filho veio à Terra (lembremos que os menos de 4000 anos de Judaísmo e os 2000 anos de Cristianismo são uma ínfima fracção da História da Humanidade)? Enfim, por que existem textos cosmogónicos e antropogenéticos muito mais antigos do que o Genesis e de que este é um simples resumo mais ou menos confuso?
O segundo Deus
O fato é que existe dor, limitação e falhanços no Universo. Por alguma boa razão, os gnósticos cristãos de há cerca de dois milénios atrás - infelizmente considerados como hereges pelo Cristianismo deturpado que depois triunfou - consideravam Jeová como demiurgo de um mundo inferior, imperfeito, recusando a sua identificação com o Pai Celestial referido por Jesus e, menos ainda, com o Absoluto. Pretendiam, esses gnósticos - como Simão, Marcion, Valentino, Basílides e, de algum modo, o próprio S. Paulo -, cortar a ligação com o Jeová ciumento e vingativo que aparece em tantas páginas do Antigo Testamento. (Alguns gnósticos referiam-se a Ilda-Baoth como o criador do nosso globo físico, i.e., a Terra, como se poder ver no Codex Nazareus - o Evangelho dos Nazarenos e Ebionitas, de que falámos no o 16 da Biosofia - e identificavam-no com Jeová. Ilda-Baoth é o “filho das Trevas”, num péssimo sentido. Para mais desenvolvimentos, cfr. “Ísis sem Véu” e “Glossário Teosófico”, de Helena Blavatsky). Por herético que este conceito hoje possa parecer, é difícil negar que ele encontra acolhimento no Evangelho segundo S. João. Lembremos partes do seu 1o Capítulo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus… Ele estava no princípio junto de Deus… Ninguém jamais viu a Deus”. Ora, este Deus Supremo, que “ninguém jamais viu”, não pode ser o Jeová visto e descrito no Velho Testamento.
“Pronunciou Jesus, alguma vez, o nome de Jeová? Alguma vez pôs ele em confronto o seu Pai com esse Juiz severo e cruel; o seu Deus de misericórdia, amor e justiça, com o génio judeu da retaliação? Jamais! Desde o memorável dia em que pregou o seu Sermão da Montanha, um imensurável vazio se abriu entre o seu Deus e aquela outra divindade que fulminava os seus mandamentos de uma outra montanha - o Sinai” 8 9.
Em qualquer caso, sempre os filósofos mais ilustrados se recusaram a identificar o Demiurgo com a Divindade Suprema, tendo ficado célebre a denominação que lhe foi dada por Filon : o segundo Deus.
O problema do mal acima mencionado tem perturbado alguns dos mais notáveis pensadores - veja-se, por exemplo, a preocupação de Leibniz 10 em tentar demonstrar que Deus tudo fez da maneira mais desejável, não podendo ter feito melhor.
Ainda o referido problema acabou por conduzir mesmo alguns honestos buscadores da Verdade a uma posição de ateísmo (ou, pelo menos, de agnosticismo).
A Ciência Oculta reconhece a incompatibilidade entre o facto de existir um Universo sublime e extraordinariamente ordenado, mas imperfeito, e a ideia de que tenha sido criado por um Deus Absoluto. Sustenta, aliás, que o Absoluto não poderia conceber nem criar (pelo menos, directamente) o relativo e condicionado e, menos ainda, algo de externo a si; a Criação a partir do nada, suporia acrescentar algo ao Absoluto, o que é insustentável. Não obstante, o Ocultismo não é agnóstico (é por isso que é Ciência) e tão pouco é ateísta - excepto no sentido de rejeitar as concepções antropomórficas do Divino.
Várias acepções de divino
O Esoterismo associa a ideia de Divindade a três níveis fundamentais, que indicamos em seguida, de forma sucinta:
I). Um Princípio Universal, Impessoal, Ilimitado, Inominado e Inefável, absoluto Ser e não-Ser (bem como Consciência absoluta, e absoluta Inconsciência de qualquer coisa limitada), porque o seu único atributo é Ele mesmo. É Causa incausada, infinita e eterna; a Realidade Una e Absoluta, anterior e transcendente a tudo o que é manifestado ou condicionado.
Estamos perante o Parabrahman (ou, ainda, o Brahman Supremo, o Brahman Indiviso ou o Brahmam Nirguna, i.e., sem atributos) dos vedantinos, o Ain Soph dos cabalistas, o Deus Supremo Ignoto dos antigos gregos, o Deus Imanifestado ou Transcendente de uma teosofia cristã. Em última instância, porém, o uso da palavra “Deus” (mais a mais, atendendo ao sentido que vulgarmente lhe é dado) é equívoca. Aquilo a que se alude aqui não é a O â??Deusâ?™ ou a um Deus mas sim ao Espaço Infinito e Ilimitado, de onde tudo desponta, o Grande “Contenedor”, o Arik-Anpin (o nome dado, neste sentido, ao Universo pelos cabalistas) - aquilo que Sempre é, foi e será, ainda que todos os mundos existentes desapareçam 11 12.
II) A 2a proposição da Doutrina Secreta 11 refere-se aos “Universos inumeráveis manifestando-se e desaparecendo… como o fluxo e o refluxo periódico das marés”.
Temos, deste modo, os LogoÃL;? Criadores que, emanando ou radiando da Realidade Una e Imanifesta, se tornam a Divindade Manifestada e Imanente de um Universo - desde o Ser Supremo do Cosmos total aos LogoÃL;? Solares ou, ainda, aos LogoÃL;? Planetários. Cada um destes Seres pode ser considerado o Deus, o Brahman Inferior ou o Brahman Saguna (i.e., com qualidades) ou Ishvara do Seu próprio Universo, do qual é o mais elevado Espírito. Cada um destes Seres é o Demiurgo na esfera do Seu próprio Cosmos.
Entretanto, a referência a o Logos ou Demiurgo é, também ela, uma simplificação. O Logos é o mais elevado Hierarca de um Sistema ou Cosmos 13, i.e., o vértice superior de uma Hierarquia, de uma Legião, de um vasto conjunto de Criadores.; o Demiurgo expressa uma colectividade abstracta de Construtores.
A “Doutrina Secreta”, diz Helena P. Blavatsky, “admite um Logos, ou um â??Criadorâ?™ colectivo do Universo; um Demiurgo, no mesmo sentido em que se fala de um â??Arquitectoâ?™ como â??Criadorâ?™ de um edifício; muito embora o Arquitecto nunca houvesse tocado em uma pedra sequer, mas simplesmente elaborado o plano, deixando todo o trabalho manual ao cuidado dos operários. No nosso caso foi, o plano, traçado pela Ideação do Universo, e a obra de construção entregue às Legiões de Forças e Potestades inteligentes. Mas aquele Demiurgo não é uma Divindade pessoal, isto é, um Deus extra-cósmico imperfeito, e sim a colectividade dos Dhyân-Chohans e das demais forças”.
Esta era igualmente a concepção de Platão. Ao referir-se ao Demiurgo, não pensava ele em um ou o Deus (ainda que, por vezes, certas traduções e interpretações, incapazes de se apartar dos preconceitos culturais e religiosos de hoje, pareçam fazer supor que sim). Com efeito, “Há que sublinhar o carácter politeísta do conceito de divindade que Platão nos apresenta no Timeu: a divindade é participada por vários deuses, cada um dos quais tem uma função e domínio próprios, sendo o demiurgo tão só o seu chefe hierárquico”; “Não há aqui qualquer sinal de monoteísmo: na crença da divindade está a crença nos deuses: a divindade é participada igualmente por um número indefinido de entes divinos, dos quais os mais elevados têm nos astros os seus corpos visíveis (Leis, 899-a-b)” 14.
A distinção entre o Divino Imanifestado e o surgimento do Demiurgo no plano de transição do Imanifestado/Imanifestado 15, justificam a sua já referida designação como “Segundo Deus”, que “é a Sabedoria do Deus Supremo” 16.
O Demiurgo forma o Cosmos do Caos. É o vórtice que actua na Substância Pré-Cósmica (na Raiz da Substância, ou Mulaprakriti, como a denominam os vedantinos) e que a activa, despertando-a para a existência Cósmica. O Eterno Pensamento Divino Absoluto, no Imanifestado, volve-se em Ideação Cósmica, com o Plano concreto para um Universo. A Mente Cósmica vem então à existência - passa da potência ao acto -, porque despertam os Ah-Hi 17, os Dhyan-Chohans 18, os deuses, as Potências Criadoras, os Filhos Radiantes da Aurora Manvantárica, as Estrelas que exsurgem das Trevas Primordiais e que passam a ser a substância e o continente dessa Mente Cósmica 19 ou Alma Universal 20 ou Sofia ou Ennoia-Ofis 21 ou Binah 22 …
Damos novamente a palavra a Helena Blavatsky, em dois excertos da sua obra principal: “O Caos, segundo Platão e os pitagóricos, tornou-se a â??Alma do Mundoâ?™. O Â?Primogénitoâ?™ 23 da Divindade Suprema nasceu do Caos e da Luz Primordial, o Sol Central. Esse â??Primogénitoâ?™ não era, contudo, senão o agregado da Legião dos Construtores, que as teogonias antigas chamavam de Antepassados, nascidos do Abismo ou Caos e do primeiro Ponto”; “As diferentes cosmogonias mostram que a Alma Universal era considerada por todas as nações arcaicas como a Mente do Demiurgo criador; e que era chamada a Mãe, Sofia ou a Sabedoria feminina, pelos gnósticos; Sephira pelos Judeus e Sarasvati ou Vâch pelos hindus - sendo também o Espírito Santo um princípio feminino.”
O Universo é construído de acordo com os modelos dos Eide ou Ideias a que se referia Platão, e das quais o Demiurgo - a colectividade de Inteligências Espirituais que o integram - se serve para ordenar a Substância e transformar o Caos em Cosmos. Assim, o Demiurgo é o agente das Leis Divinas que regem o Universo.
III) Cada um dos Dhyâni Chohans, Inteligências Divinas, Potências Criadoras - ou deuses, por outras palavras - que, como dissemos, integram colectivamente o Demiurgo, o Logos, o Verbo Criador do Pensamento Divino, colaborando na construção, sustentação e direcção de todo o Universo objectivo, de cada uma das suas formas, de cada um dos seus átomos. Assim, todas as Entidades, no seu próprio plano de raiz divina - como deuses -, integram uma das grandes Hierarquias Criadoras, em que as Mónadas Humanas, os Homens Divinos se incluem. O Universo existe (ou é) trans-temporalmente no Pensamento Divino mas vai-se executando num longo devir, através do concurso de todas as unidades de vida divinas (as realidades íntimas de todas as existências) que vão progredindo, em graus cada vez mais elevados, através da activação da sua inteligência criadora latente. E todos somos co-responsáveis em tornar o Universo mais perfeito.
Os Dhyâni-Chohans ou Hierarquias Criadoras são mencionados nas tradições mais ocidentais (e, sem muito rigor, chamadas “monoteístas”) como Filhos de Deus, Homem Primordiais, Elohim, Anjos (diferentes dos lamentáveis e abusivos tratamentos que lhes são dados em literatura recentemente muito vulgarizada), Arcanjos, Tronos, Virtudes, Potestades, Dominações, Principados, Querubins, Serafins, Potências, Degraus, Anuphaim, Sete Espíritos diante do Trono, Anciãos, etc.
O Demiurgo e a Substância
O Ocultismo afirma a eternidade da Matéria, ou antes, da Substância, ou melhor ainda, do Espaço que é a sua matriz e essência supersensível. “A matéria é tão indestrutível e eterna como o próprio espírito imortal, mas (…) não como formas organizadas”(11). Reproduzimos aqui perguntas endereçadas a dois grandes Sábios e as respostas que estes deram: “Qual é a única coisa eterna no universo, independente de outras coisas? O Espaço. Que coisas são co-existentes com o espaço? (I) A duração. (II) A matéria. (III) O movimento, porque este é a vida imperecível (consciente ou inconsciente, conforme o caso) da matéria, mesmo durante o Pralaya 24″ 25. Deve salientar-se, pois, que, para o Ocultismo, não existe tal coisa como Matéria morta. A Vida Una e Omnipresente “… não só penetra mas é a essência de cada átomo da Matéria; e, portanto, ela não apenas tem correspondência com a Matéria mas possui também todas as suas propriedades…” 25. Como também já referimos inúmeras vezes, na concepção Esotérica, a Matéria não é apenas a Substância física que os nossos sentidos apreendem e que as ciências experimentais estudam, visto que existem níveis de substancialidade imensamente mais subtis, numa hierarquia septenária de Planos. Existe, por exemplo, substância ou matéria do Plano Mental… e de outros ainda mais elevados, habitualmente ditos Espirituais (em todos os Planos existem os dois pólos, Espírito e Matéria, interrelacionados, embora em diferentes condições e peso relativo). O que, afinal, a Ciência Oculta afirma é que nada é destituído de substância; que tudo tem, necessariamente, um substratum ontológico; e que o Ser, no nível primevo do Cosmos, é a Essência Una tanto do pólo Espírito, como do pólo Matéria.
Assim, o Demiurgo forma o Universo a partir de uma matéria prima já existente, porque eterna - a chamada criação ex nihil (a partir do nada) não faz sentido, porque nada pode ser nada, porque o nada não pode existir, excepto se dermos à palavra nada o sentido de “sem atributos”. Nos níveis inferiores da existência universal a matéria é mais densa, e as Ideias, de acordo com as quais os mundos são formados e evoluem, manifestam-se menos cristalinamente e também são menos elevadas e perfeitas as Potências Criadoras operantes. Como já referira Platão no “Timeu” (a sua principal obra cosmogónica), o Demiurgo não é omnipotente: produz o Cosmos tão bom “quanto possível” (30-b) e tem de conformar-se com os efeitos contrários da “necessidade” (47e-48a) - da necessidade da existência condicionada e da necessidade Kármica.
A importância da Cosmogénese Ocultista
Embora, haja quem possa entender árido e inútil abordar as questões mais subtis e profundas da Cosmogénese, a sua compreensão tem implicações incontornáveis nos paradigmas culturais, científicos, religiosos vigentes e que condicionam o mundo.
Por exemplo: a clara noção de uma Ser-dade (Be-Ness, na expressão de H. Blavatsky), como Princípio Absoluto, Incriado e Incriador (de qualquer coisa relativa) e, distintamente, do Logos ou Demiurgo, como “agregado colectivo de todas as inteligências espirituais criadoras” - mas não absolutas nem perfeitas, por isso que se manifestam no espaço e no tempo relativos , evoluindo para patamares cada vez mais amplos e elevados 26, permite encarar o já referido - e dramático - “problema do mal”; torna evidente a realidade da justiça no Universo, já que ele depende do querer colectivo de todos os Filhos do Divino; responde satisfatoria e plenamente à pergunta dos cientistas: “Se o Universo é obra de um Deus perfeito e Omnipotente, como é que a Natureza parece revelar tentativa e erro, ou seja, tentativas falhadas?” (V., exemplificativamente, “Cosmos”, de C. Sagan); põe termo às perguntas “Deus existe?”, “Crê em Deus ou não?” e “Se Deus criou tudo, quem é que criou Deus?”, porque a resposta seria evidente e as perguntas descabidas e sem sentido: O Ser (o Espaço no sentido mais radical e profundo) é eterno e necessário.
 
José Manuel Anacleto
Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural
 
1 Seja o mal físico, metafísico ou moral.
2 O Senhor Buddha Siddharta Gautama referia-se aqui, naturalmente, a uma Divindade pessoal ou distinta do Universo, concepção que rejeitava. Porém, tinha TAT - O Absoluto Incognoscível em si mesmo - como pressuposto incontornável. O Budismo é às vezes considerado ateísta (somente) por recusar a existência de um Deus mais ou menos antropomórfico; e, nesse sentido, tal recusa é bem compreensível e louvável.
3 Parte do que aqui escrevemos havia por nós sido expresso na série de conferências que deu origem ao livro “Para um Mundo Melhor” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1997).
4 A título meramente exemplificativo, cfr. “História da Filosofia” de Humberto Padovani e Luís Castagnola, obra com Nihil Obstat, Imprimi Potest e Imprimatur.
5 As três “Pessoas” da Santíssima Trindade. Confunde-nos muitíssimo a frase muito repetida, nas Igrejas Cristãs, que Deus é uma Pessoa. Uma Pessoa!!!…
6 Se intervém, se precisa de intervir, é (seria) porque a Ordem que dispôs não é perfeita…
7 O primeiro da Bíblia.
8 In “Ísis sem Véu”, de Helena Blavatsky (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1990).
9 Nem a autora destas palavras nem nós deixamos, entretanto, de ter profundo respeito pelo conhecimento oculto - cabalístico - existente no seio do Judaísmo.
10 Cfr. “Discurso de Metafísica”. Leibniz (1646-1716) foi indiscutivelmente uma das maiores inteligências da moderna civilização ocidental. Como faz notar Helena Blavatsky, conciliando o seu sistema com o de Spinoza (e abstraindo dos eufemismos a que a ditadura ideológica da época os obrigava), têm-se muitas das noções fundamentais do Ocultismo.
11 Cfr. “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1973).
12 Tratámos também desta temática, mais amplamente do que neste artigo, no nosso livro “Transcendência e Imanência de Deus” (Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2001).
13 No pequeno Cosmos que é o homem, o (seu) Logos é o 7o Princípio (Atman; o Espírito, a Vontade Espiritual); Cfr. “Consciencia e Inmortalidad”, de Subba Row (Ed. Kier, Buenos Aires, 1994).
14 “História da Filosofia, Vol. I” de Nicola Abbagnano (Ed. Presença, Lisboa, 1976)
15 . Nível ou momento por vezes identificado com o 2o Logos. Cfr. “The Divine Plan”, de Geoffrey Barborka (Theosophical Publishing House, Adyar, 1964) e “Transactions of the Blavatsky Lodge” (The Theosophy Company, Los Angeles, 1987).
16 Filon, “Quoest, et Solut”.
17 Ah-Hi - Dragões da Sabedoria ; Dhyan-Cohans.
18 Dhyan-Chohans - “Senores da Luz” ou “Senhores da Meditação Profunda”. As Inteligências Divinas encarregues da construção e superintendência do Cosmos.
19 Mahat, em sânscrito.
20 Ou Anima Mundi.
21 Entre alguns Gnósticos, nomeadamente Basílides e os Ofitas.
22 Binah - Uma das Três Supremas da Árvore da Vida. Entendimento, Inteligência, Leis regentes do Universo. Chamada o Grande Mar e a Mãe Suprema ou Grande Mãe e equivalente a Sofia.
23 Quando São Paulo falava de Cristo como o “primogénito” referia-se ao Logos, ao Cristo Cósmico. Há uma analogia precisa entre o Macro e o Microcosmo. O Homem Espiritual vem a ser o Logos dos seus veículos. Lembremos outra frase de Paulo: “Cristo em nós, esperança de glória”.
24 Pralaya - um Período de noite ou repouso cósmico, total ou relativo. O contrário de Manvantara (período de actividade cósmica).
25 “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” (Ed. Teosófica, Brasília, 2001)
26 Sobre esta questão, cfr. o que escrevemos nos o 10 - artigo “Ordem e Inteligência do Cosmos” - e 15 - artigo “A Matéria na Perspectiva do Ocultismo” - da Biosofia.

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Publicado em:03.08.08

Palavras Iniciais

Publico a matéria abaixo, extraída do Livro "A Doutrina Secreta", de H.P.Blavatsky, para melhor entendimento da matéria que será publicada em 10.08 - Demiurgo - Construtor do Universo, de José Manuel Anacleto.



A EVOLUÇÃO CÓSMICA NAS SETE ESTÂNCIAS DO LIVRO DE DZYAN

ESTÂNCIA I

1-O Eterno Pai, envolto em suas Sempre Invisíveis Vestes, havia adormecido uma vez mais durante, Sete Eternidades.
2-O Tempo não existia, porque dormia no Seio Infinito da Duração.
3-A Mente Universal não existia, porque não havia Ah-hi para contê-la.
4-Os Sete Caminhos da Felicidade não existiam. As Grandes Causas da Desgraça não existiam, porque não havia ninguém que as produzisse e fosse por elas aprisionado.
5-Só as trevas enchiam o Todo Sem Limites, porque Pai, Mãe e Filho eram novamente Um, e o Filho ainda não havia despertado para a Nova Roda e a Peregrinação por ela.
6-Os Sete senhores Sublimes e as Sete Verdades haviam cessado de ser; e o Universo, filho da Necessidade, estava mergulhado em Paranishpanna, para ser expirado por aquele que é e todavia não é. Nada existia.
7-As Causas da existência haviam sido eliminadas; o Visível, que foi, e o Invisível, que é repousavam no Eterno Não-Ser – o Único Ser.
8-A Forma Una de Existência, sem limites, infinita, sem causa, permanecia sozinha, em um Sono sem Sonhos; e a Vida pulsava inconsciente no Espaço Universal, em toda a extensão daquela Onipresença que o Olho Aberto de Dangma percebe.
9-Onde, porém, estava Dangma quando o Alaya do Universo se encontrava em Paramârtha, e a grande Roda era Anupâdaka?

ESTÂNCIA II

1-...Onde estavam os Construtores, os Filhos Resplandescentes da Aurora do Manvantara?... Nas Trevas Desconhecidas, em seu Ah-hi Paranishpanna. Os Produtores da Forma, tirada da Não-Forma, que é a Raiz do Mundo, Devamâtri e Svabhâvat, repousavam na felicidade do Não-Ser.
2- ...Onde estava o Silêncio? Onde os ouvidos para percebê-lo? Não; não havia Silêncio nem Som: nada, a não ser o Incessante Alento Eterno, para si mesmo ignoto.
3- A Hora ainda não havia soado; o Raio ainda não havia brilhado dentro do Germe; a Matripâdma ainda não entumecera.
4- Seu Coração ainda não se abrira para deixar penetrar o Raio Único e fazê-lo cair em seguida, como Três em Quatro, no Regaço de Mâyâ.
5- Os Sete não haviam ainda nascido do Tecido de Luz. O Pai-Mãe, Svabhâvat, era só Trevas; e Svabhâvat jazia nas Trevas.
6- Estes Dois são o Germe, e o Germe é Uno. O Universo ainda estava oculto no Pensamento Divino e no Divino Seio.

ESTÂNCIA III

1- ...A última Vibração da Sétima Eternidade palpita através do Infinito. A Mãe entumece e se expande de dentro para for a, como o Botão de Lótus.
2- A Vibração se propaga, e suas velozes Asas tocam o Universo inteiro e o Germe que mora nas Trevas; as Trevas que sopram sobre as adormecidas Águas da Vida.
3- As Trevas irradiam a Luz, e a Luz emite um Raio solitário sobre as Águas e dentro das Entranhas da Mãe. O Raio atravessa o Ovo Virgem; faz o Ovo Eterno estremecer, e desprende o Germe não Eterno, que se condensa no Ovo do Mundo.
4- Os Três caem nos Quatro. A Essência Radiante passa a ser Sete interiormente e Sete exteriormente. O Ovo Luminoso, que é Três em si mesmo, coagula-se e espalha os seus Coágulos brancos como o leite por toda a extensão das Profundezas da Mãe: a Raiz que cresce nos abismos do Oceano da Vida.
5- A raiz permanece, a Luz permanece, os Coágulos permanecem; e, não obstante, Oeaohoo é Uno.
6- A raiz da Vida estava em cada Gota do Oceano da Imoralidade, e o Oceano era Luz Radiante, que era Fogo, Calor e Movimento. As Trevas se desvaneceram, e não existiram mais: sumiram-se em sua própria Essência, o Corpo de Fogo e Água, do Pai e da Mãe.
7- Vê, ó Lanu! O Radiante Filho dos Dois, a Glória refulgente e sem par: o Espaço Luminoso, Filho do Negro Espaço, que surge das Profundezas das Grandes Águas Sombrias. É Oeaohoo, o mais Jovem, o ***. Ele brilha como o Sol. É o Resplandecente Dragão Divino da Sabedoria. O Eka (1) é Chatur, e Chatur toma para si Tri, e a união produz Sapta, no qual estão os Sete, que se tornam o Tridasha, as Hostes e as Multidões. Contempla-o levantando o Véu e desdobrando-o de Oriente a Ocidente. Ele oculta o Acima, e deixa ver o Abaixo como a Grande Ilusão. Assinala os lugares para os Resplandecentes, e converte o Acima num Oceano de Fogo sem praias, e o Uno Manifestado nas Grandes Águas.
8- Onde estava o Germe, onde então se encontravam as Trevas? Onde está o Espírito da Chama que arde em tua Lâmpada, ó Lanu? O Germe é Aquilo, e Aquilo é a Luz, o Alvo e Refulgente Filho do Pai Obscuro e Oculto.
9- A Luz é a Chama Fria, e a Chama é o Fogo, e o Fogo produz o Calor, que dá a Água – a Água da Vida na Grande Mãe.
10- O Pai-Mãe urde uma Tela, cujo extremo superior está unido ao Espírito, Luz da Obscuridade Única, e o inferior à Matéria, sua Sombra. A Tela é o Universo, tecido com as Duas Substâncias combinadas em Uma, que é Svabhâvat.
11- A Tela se distende quando o Sopro do Fogo a envolve; e se contrai quando tocada pelo Sopro da Mãe. Então os Filhos se separam, dispersando-se, para voltar ao Seio de sua Mãe no fim do Grande Dia, tornando-se de novo uno com ela. Quando Esfria, a Tela fica radiante. Seus Filhos se dilatam e se retraem dentro de Si mesmos e em seus Corações; elas abrangem o Infinito.
12- Então Svabhâvat envia Fohat para endurecer os Átomos. Cada qual é uma parte da Tela. Refletindo o "Senhor Existente por Si Mesmo" como um Espelho, cada um vem a ser, por sua vez, um Mundo.

ESTÂNCIA IV

1- ...Escutai, ó Filhos da Terra. Escutai os vossos Instrutores, os Filhos do Fogo. Sabei: não há nem primeiro nem último; porque tudo é Um Número que procede do Não-Número.
2- Aprendei o que nós, que descendemos dos Sete Primeiros, nós que nascemos da Chama Primitiva, temos aprendido de nossos Pais…
3- Do Resplendor da Luz – o Raio das Trevas Eternas – surgem no Espaço as Energias despertadas de novo; o Um do Ovo, o Seis e o Cinco. Depois o Três, o Um, o Quatro, o Um, o Cinco, o duplo Sete, a Soma Total. E estas são as Essências, as Chamas, os Construtores, os Números, os Arûpa, os Rûpa e a Força ou o Homem Divino, a Soma Total. E do Homem Divino, a Soma Total. E do Homem Divino emanaram as Forças, as Centelhas, os Animais Sagrados e os Mensageiros dos Sagrados Pais dentro do Santo Quatro.
4- Este foi o Exército da Voz, a Divina Mãe dos Sete. As Centelhas dos Sete são os súditos e os servidores do Primeiro, do Segundo, do terceiro, do Quarto, do Quinto, do Sexto e do Sétimo dos Sete. Estas Centelhas são chamadas Esferas, Triângulos, Cubos, Linhas e Modeladores; porque deste modo se conserva o Eterno Nidâna – o Oi-Ha-Hou.
5- O Oi-Ha-Hou – as Trevas, o Sem Limites, ou o Não-Número, Âdi-Nidâna, Svabhâvat, o O:
     I – O Âdi-Sanat, o Número; porque ele é Um.
     II – A Voz da Palavra, Svabhâvat, os Números; porque ele é Um e Nove.
     III – O "Quadrado sem Forma".

    E estes Três, encerrados no O, são o Quatro Sagrado; e os Dez são o Universo Arûpa. Depois vêm os Filhos, os Sete Combatentes, o Um, o Oitavo excluído, e o seu Sopro, que é o Artífice da Luz.
6- ...Em seguida, os Segundos Sete, que são os Lipika, produzidos pelos Três. O Filho excluído é Um. Os "Filhos-Sóis" são inumeráveis.

ESTÂNCIA V

1- Os Sete Primordiais, os Sete Primeiros Sopros do Dragão de Sabedoria, produzem por sua vez o Torvelinho de Fogo com os seus Sagrados Sopros de Circulação giratória.
2- Dele fazem o Mensageiro de sua Vontade. O Dzyu converte-se em Fohat; o Filho veloz dos Filhos Divinos, cujos Filhos são os Lipika, leva mensagens circulares. Fohat é o Corcel, e o Pensamento, o Cavaleiro. Ele passa como um raio através de nuvens de Fogo; dá Três, Cinco e Sete Passos através das Sete Regiões Superiores e das Sete Inferiores. Ergue a sua Voz para chamar as Centelhas inumeráveis e as reúne.
3- Ele é o seu condutor, o espírito que as guia. Ao iniciar a sua obra, separa as Centelhas do Reino Inferior, que se agitam e vibram de alegria em suas radiantes moradas, e com elas forma os Germes das Rodas. Colocando-as nas Seis Direcções do Espaço, deixa uma no Centro: a Roda Central.
4- Fohat traça linhas espirais para unir a Sexta à Sétima – a Coroa. Um Exército dos Filhos da Luz situa-se em cada um dos ângulos; os Lipika ficam na Roda Central. Dizem eles: "Isto é bom." O primeiro Mundo Divino está pronto; o Primeiro, o Segundo. Então o "Divino Arûpa" se reflete no Chhâyâ Loka, a Primeira Veste de Anupâdaka.
5- Fohat dá cinco passos; e constroi uma roda alada em cada um dos ângulos do quadrado para os Quatro Santos... e seus Exércitos.
6- Os Lipika circunscrevem o Triângulo, o Primeiro Um, o Cubo o Segundo Um e o Pentágono dentro do Ovo. É o Anel chamado "Não Passarás", para os que descem e sobem; para os que, durante o Kalpa, estão marchando para o Grande Dia "Sê Conosco"... Assim foram formados os Arûpa e os Rûpa: da Luz Única, sete Luzes; de cada uma das Sete, sete vezes Sete Luzes. As Rodas velam pelo Anel...

ESTÂNCIA VI

1-Pelo poder da Mãe de Misericórdia e Conhecimento, Kwan-Yin – a Trina de Kwan-Shai-Yin, que mora em Kwan-Yin-Tien – Foaht, o Sopro de sua Progênie, o Filho dos Filhos, tendo feito sair das profundezas do Abismo inferior a Forma Ilusória de Sien-Tchan e os Sete Elementos.
2- O Veloz e Radiante Um produz os Sete Centros Laya, contra os quais ninguém prevalecerá até o grande Dia "Sê Conosco"; e assenta o Universo sobre estes Eternos Fundamentos, rodeado Sien-Tchan com os Germes Elementais.
3- Dos Sete – primeiro Um manifestado, Seis ocultos, Dois manifestados, Cinco ocultos; Três manifestados, Quatro ocultos; Quatro produzidos, Três ocultos; Quatro e Um Tsan revelados, Dois e Meio ocultos; Seis para serem manifestados, Um deixado à parte. Por último, Sete Pequenas Rodas girando; uma dando nascimento à outra.
4- Ele as constrói à semelhança das Rodas mais antigas, colocando-as nos Centros Imperecíveis.
5- Na Quarta, os Filhos recebem ordem de criar suas Imagens. Um Terço recusa-se Dois Terços obedecem.
6- As Rodas mais antigas giravam para baixo e para cima… Os frutos da Mãe enchiam o Todo. Houve combates renhidos entre os criadores e os destruidores, e combates renhidos pelo Espaço; aparecendo e reaparecendo a Semente continuamente.
7- Faze os teus cálculos, ó Lanu, se queres saber a idade exacta da Pequena Roda. Seu Quarto Raio “é” nossa Mãe. Alcança o Quarto Fruto da Quarta Senda do Conhecimento que conduz ao Nirvana, e tu compreenderás, porque verá...

ESTÂNCIA VII

1- Observa o começo da Vida informe senciente.
     Primeiro, o Divino, o Um que procede do Espírito-Mãe; depois, o espiritual; os Três provindos do Um, os Quatro do Um, e os Cinco de que procedem os Três, os Cinco e os Sete. São os Triplos e os Quádruplos em sentido descendente; os Filhos nascidos da Mente do Primeiro Senhor, os Sete Radiantes. São eles o mesmo que tu, eu, ele, ó Lanu, os que velam sobre ti e tua mãe, Bhumi.
2- O Raio Único multiplica os Raios menores. A Vida precede a Forma, e a Vida sobrevive ao último átomo. Através dos Raios inumeráveis, o Raio da Vida, o Um, semelhante ao Fio que passa através de muitas contas.
3- Quando o Um se converte em Dois, aparece o Triplo e os Três são Um; é o nosso Fio, ó Lanu! o Coração do Homem-Planta, chamado Saptaparma.
4- É a Raiz que jamais perece; a Chama de Três Línguas e Quatro Mechas. As Mechas são as Centelhas que partem da Chama de Três Línguas projectada pelos Sete – dos quais é a Chama – Raios de Luz e Centelhas de uma Lua que se reflete nas Ondas moventes de todos os Rios da Terra.
5- A Centelha pende da Chama pelo mais ténue fio de Fohat. Ela viaja através dos Sete Mundos de Mâyâ. Detém-se no Primeiro, e é um Metal e uma Pedra; passa ao Segundo, e eis uma Planta; a Planta gira através de sete mutações, e vem a ser um Animal Sagrado. Dos atributos combinados de todos esses, forma-se Manu, o Pensador. Quem o forma? As Sete Vidas e a Vida Una. Quem o completa? O Quíntuplo Lha. E quem aperfeiçoa o último Corpo? O Peixe, o Pecado e Soma...
6- Desde o Primeiro Nascido, o Fio que une o Vigilante Silencioso à sua Sombra torna-se mais e mais forte e radiante a cada Mutação. A Luz do Sol da manhã se transformou no esplendor do meio-dia...
7- "Eis a tua Roda atual" – diz a Chama à Centelha. "Tu és eu mesma, a minha imagem e minha sombra. Eu me revesti de ti, e tu és o Meu Vâham até o dia "Sê Conosco", quando voltarás a ser eu mesma, e os outros tu mesma e eu." Então os Construtores, metidos em sua primeira Vestimenta, descem à radiante Terra, e reinam sobre os homens – que são eles mesmos…

    (Assim termina o Fragmento da narração arcaica, obscura, confusa, quase incompreensível. Tentaremos agora iluminar essas trevas, para extrair o significado dos aparentes absurdos.)

(1) EKA= Um, Chatur = Quatro, Tri = Três, Sapta = Sete. Tri x Dasha (dez) = Tridasha = três dezenas, ou uma hoste.

A EVOLUÇÃO CÓSMICA NAS SETE ESTÂNCIAS DO LIVRO DE DZYAN
A história da Evolução Cósmica, tal como figura nas Estâncias, é, em certo sentido, a fórmula algébrica abstracta da mesma evolução. Não deve o leitor, por isso, esperar que nelas se encontre a explicação de todas as fases e transformações verificadas desde os primeiros passos da Evolução Universal até o nosso estado actual. Dar semelhante explicação seria tão impossível ao escritor quanto incompreensível àqueles que se não acham ainda em condições de penetrar, sequer, a natureza do plano de existência ao em que tem, por enquanto, confinada a sua consciência.
As Estâncias oferecem uma fórmula abstracta que se aplica mutatis mutandis a toda evolução: à de nossa diminuta Terra; à da Cadeia Planetária a que pertence a Terra; à do Universo Solar no qual se integra esta Cadeia; e assim sucessivamente, em escala ascendente, até onde a nossa mente se vê compelida a deter-se, exausta em sua capacidade.
As Sete Estâncias expostas neste volume representam os sete termos dessa fórmula abstracta. Referem e descrevem os sete grandes estádios do processo evolutivo, que os Purânas mencionam como as "sete criações" e a Bíblia como os "dias da Criação".

    A Estância I descreve o estado do TODO UNO durante o Pralaya, antes do Primeiro movimento da Manifestação em seu despertar.

    Basta reflectir um momento para compreender que tal estado não pode ser expresso senão simbolicamente, pois é impossível defini-lo. E até mesmo o símbolo tem que ser negativo; porque, em se tratando do estado do Absoluto per se, não pode comportar nenhum dos atributos que nos servem para descrever os objectos em termos positivos. Daí a razão por que tal estado só pode ser sugerido por meio da negação de todos aqueles atributos mais abstractos, que os homens mais pressentem do que propriamente percebem, como o limite máximo a que pode chegar o seu poder de concepção.

A Estância II refere-se a um estado que para a inteligência ocidental é quase tão idêntico ao descrito na primeira Estância que a explanação das diferenças exigiria, por si só, um tratado. Convém portanto, deixar à intuição e às faculdades superiores do leitor o assimilar, até onde seja possível, o significado das frases alegóricas que ali se encontram. Em verdade, deve-se ter presente que estas Estâncias falam mais às faculdades íntimas que à inteligência ordinária do homem físico.

A estância III descreve o despertar do Universo para a vida após o Pralaya. Mostra o emergir das Mônadas do seu estado de absorção no UNO; é o primeiro e o mais alto estádio na formação dos Mundos -podendo aplicar-se o termo Mônada tanto aos vastos Sistemas Solares como ao átomo íntimo.

A Estância IV expõe a diferenciação do "Germe" DO Universo na Hierarquia Setenária de Poderes Divinos conscientes, que são as manifestações activas da Suprema Energia Una. São eles os construtores e modeladores, numa palavra os criadores de todo o Universo manifestado, no único sentido em que se faz inteligível o nome de "Criador"; dão forma ao Universo e o dirigem; são os Seres inteligentes que ajustam e controlam a evolução, encarnando em si mesmos aquelas manifestações da Lei Una que conhecemos como "Leis da Natureza". Genericamente são chamados Dhyân Chohans, embora cada um dos diversos grupos tenham sua denominação própria na Doutrina Secreta.

A Estância V apresenta o processo da formação do mundo. Em primeiro lugar, Matéria Cósmica difusa; depois o "Torvelinho de Fogo", primeiro estádio da formação de uma nebulosa. A nebulosa se condensa e, depois de passar por várias transformações, forma um Universo Solar, uma Cadeia Planetária ou um simples Planeta, conforme o caso.

A Estância VI indica as fases subsequentes da formação de um "Mundo", descrevendo a evolução deste Mundo até o seu quarto grande período, que corresponde àquele em que vivemos presentemente.

A Estância VII dá prosseguimento à história, e traça a descida da vida até o aparecimento do homem; e assim termina o livro primeiro de A Doutrina Secreta.

O desenvolvimento do "Homem", desde que surgiu sobre a Terra, na presente Ronda, até o estado em que hoje, se encontra, constitui a matéria do livro segundo.

(Este excerto foi tirado do livro "A DOUTRINA SECRETA" de H.P.Blavatsky)


Publicado em:27.07.08

Palavras Iniciais

                Aprofundando um pouco mais os conceitos sobre Dharma aqui publicados na semana passada, abaixo reproduzo o entendimento de I.K.Taimni, Membro da Sociedade Teosófica na Índia.



O indivíduo e seu Dharma

Por:I.K. Taimni

O homem, em sua mais íntima natureza divina, é essencialmente Uno com a Realidade sustentadora do Universo e faz parte dela. Trataremos aqui da relação entre a Vontade Divina e a vontade humana. Posto que o homem é essencialmente divino, sua vontade é um fator importante no drama universal que está se desenvolvendo. É certo que o exercício de sua vontade está limitado pelo seu grau de evolução, mas sua vontade afeta em maior ou menor medidas a corrente de sucessos vinculados com a vida humana.

Ainda que os seres humanos não intervenham na elaboração do grandioso drama que está sendo representado em escala universal, parece que desempenham algum papel na determinação do curso dos sucessos relacionados com a evolução humana. O papel que desempenham por meio do exercício do seu livre-arbítrio, em sua limitada esfera, parece insignificante em comparação com a grandiosidade do Universo. Isto se deve ao fato de que olhamos o homem como um simples animal, com mente subdesenvolvida, e não como um ser divino que possui ilimitadas potencialidades.

O curso do desenvolvimento do Universo está determinado pela interação da Vontade Divina com as vontades das Mônadas individuais associadas a um sistema em evolução. Talvez seja mais correto dizer que é o resultado desta interação. Nas primeiras etapas de evolução as Mônadas apenas são capazes de exercer uma influência insignificante neste drama universal, mas nas etapas mais adiantadas sua influência é enorme.

De fato, à medida que ascendemos na escala da evolução e se faz mais perfeita a fusão da consciência, tanto mais difícil é localizar a linha divisória entre a Vontade Divina e a vontade monádica. Será tão correto dizer que a Vontade Divina se expressa sem impedimentos por meio das Mônadas, como dizer que à vontade das Mônadas se tornou livre e autodeterminada. Isto é inevitável porque as Mônadas derivam da diferenciação dessa Realidade Única a que chamamos o Absoluto e, portanto, não pode haver diferença essencial entre as duas vontades.

Se há livre-arbítrio no indivíduo e no curso da evolução humana, coletiva e individual, é devido à interação da Vontade Divina com a vontade individual. Mas, em que lei se fundamenta esta interação? É evidente que nas etapas iniciais a lei que governa a evolução humana, permitindo que o indivíduo exerça seu livre-arbítrio, é a lei do Karma em seu aspecto mais amplo.

O homem é um ser espiritual, e um ser espiritual pode desenvolver suas potencialidades divinas não pela imposição de um código de conduta exterior, mas aprendendo a fazer o que é justo e estando de acordo com a Vontade Divina por livre escolha, porque vê que isso promove o bem de todos, inclusive dele mesmo.

O indivíduo, ao contemplar a própria natureza do Universo como uma expressão da Ideação Divina apoiada na Vontade Divina, deduz que a meta suprema da evolução e o despertar de sua natureza espiritual dependem de que ele viva e atue em perfeita harmonia com a Vontade Divina. Esta dedução o leva a corresponder-se com o Plano Divino, de maneira harmoniosa e perfeita, para cumprir bem seu próprio destino.

Aqueles que entenderam bem a doutrina do Karma sabem que o homem aprende a agir bem, não por compulsão externa, mas por decisão interna. Quando pratica o mal tem experiências dolorosas que relaciona com o mal feito. Quando faz algo de bom recebe a recompensa em forma de experiência gratificante e feliz. Assim, associa naturalmente o que é bom com o prazer e a felicidade, e o que é mau, com a dor e a infelicidade e, de maneira lenta, mas incontidamente, evita fazer o mal praticando sempre o bem, ainda que isto lhe cause dificuldades temporais.

É certo que pode tomar-lhe centenas de vidas aprender a levar uma existência justa e ter fé cega na retidão; mas é tal a natureza desta Lei que terá de assimilar esta lição cedo ou tarde. E somente quando a tiver aprendido em plenitude e estiver firmemente estabelecido na retidão, quando estará preparado para embarcar na viagem da própria descoberta. A retidão é a base indispensável da vida espiritual.

Isto nos leva á perguntar: "Como determinar o que é ação justa dentro do jogo das circunstâncias, ação que esteja em harmonia com a Vontade Divina ou Rta?" O homem ignora, no início de sua evolução, que existe uma Lei Divina e que só o viver em perfeita harmonia com essa Lei é que podem assegurar-lhe plenitude e verdadeira felicidade. Assim, vive de acordo com os ditames de seus desejos, resignado a colher os frutos doces e amargos que o Karma possa trazer como resultado. Como a má ação lhe acarreta dor e a boa, prazer, vai aprendendo a evitar a má ação e a evitar as tendências que o levam a fazer o mal.

Deste modo, sua mente vai se libertando da carga de más tendências, o que aumenta sua cota de felicidade e permite, além disso, que a luz de Buddhi (intuição) se infiltre gradualmente em sua mente como fruto deste despertar de Viveka (discernimento) e ele começa a perceber a natureza ilusória da vida nos planos inferiores e a futilidade em continuar aliado a interesses mundanos, de poder ou prazer temporais. Começa a intuir que até os prazeres e gozos da existência post-mortem serão temporais e ilusórios, e o manterão atado á roda de nascimentos e mortes com todas as suas limitações, ilusões e misérias.

Gradualmente desperta em sua mente a compreensão de que existe um estado no campo da Realidade, acima do prazer e da dor. E assim nasce em seu coração o ideal de alcançar aquela consciência espiritual pela qual toma conhecimento de sua natureza divina, que está além das limitações e ilusões da vida inferior.

É nesse momento que deve encarar o problema de saber o que é justo e o que está de acordo com a Vontade Divina. Já tem plena fé na necessidade e na eficácia da retidão; já está determinado a levar uma vida justa;mas ainda experimenta constante confusão entre o bem e o mal, e não sabe com certeza o que fazer em certas circunstâncias. Para este homem, uma vida justa não é a vida religiosa comum, que consiste em professar a fé em certos dogmas, mas sim a adoção de uma atitude completamente impessoal, e uma conduta que esteja em perfeita harmonia com a Vontade Divina a todo o momento. Elevou-se acima do campo da moral vigente; já não está seguindo um rígido código externo de conduta, mas obedece a lei de seu próprio ser baseado em seu Dharma.

Esse tipo de ação, onde estão eliminados completamente o elemento pessoal e as preferências pessoais, e conhecido como Niskama-Karma, que significa ação que se executa sem nenhum desejo pessoal senão o de cumprir o Plano Divino e de fazer o que for necessário, de acordo com a sua individualidade e as capacidades que possui.

Pois no Cosmos nada ocorre por casualidade, e se nos encontramos em certas circunstâncias não é só porque temos que colher nosso Karma, mas também porque temos um Dharma, ou uma função a cumprir nessas tais circunstâncias. Essa função pode ser importante ou não, significativa ou não, do ponto de vista externo; mas existe, e impõe ao individuo uma obrigatoriedade em cumpri-la. Ele pode escolher não cumpri-la ou fazê-lo inadequadamente, sendo que isto acarretará desvantagens e novas complicações para si mesmo e para outros.

Não podemos intervir no cumprimento do Plano Divino com nossa ignorância, assim como um peixe não pode intervir na correnteza de um rio nadando contra ela. O Plano Divino s cumprirá de qualquer forma, ainda que seja por um caminho alternativo; mas o individuo que não colabora cria complicações para si mesmo e aumenta suas dificuldades no progresso espiritual. Na realidade, a vontade do indivíduo comum é tão débil e seu livre-arbítrio é tão limitado, que sua capacidade de opor-se á Vontade Divina pode ser considerada quase nula. Entrou  na corrente da vida a irá desempenhar o pequeno papel que lhe foi designado, queira ou não, apropriada ou inadequadamente.

Se todos nós estamos cumprindo o Plano Divino e, inconscientemente,estamos cumprindo a vontade de Deus, então que necessidade tem de adotar uma vida de retidão e de sermos agentes conscientes da Vontade Divina? Que vantagem tem o homem que está estabelecido no justo, sobre o homem comum que segue os ditames de seus desejos?

A vantagem é enorme, mas necessitamos discernimento (Viveka) para vê-la. Enquanto o homem não estiver firmado na retidão, seu Buddhi (intuição) permanecerá nublada, seus olhos espirituais fechados, e nem sequer estará em condições de entrar para a senda do desenvolvimento espiritual que leva á realização de sua verdadeira natureza. Poderá até ser capaz de conquistar alguns dos poderes psíquicos inferiores, mas as portas do mundo da Realidade permanecerão absolutamente fechadas para ele. Nem sequer saberá que existe uma Realidade oculta por trás dos mundos inferiores nos quais sua consciência e seus poderes estão aprisionados.

E de grande importância para o individuo levar uma vida de retidão, além de que exercerá uma grande influência sobre a vida de toda a Humanidade. Um homem justo auxilia os que o rodeiam de duas maneiras:uma, criando um centro de harmonia através do qual podem fluir forças dos planos sutis aos mundos inferiores, e assim ajudar a Humanidade, ainda que ele não esteja sempre consciente disto; outra, tornando possível, para si mesmo, o transcender das limitações e ilusões dos mundos inferiores, e assim criar, com o tempo, um outro canal de comunicação entre o mundo Real e os irreais. Todo individuo que consegue criar este canal converte-se não só num agente da Vida Divina,mas também num guia dos que aspiram desenvolver sua natureza espiritual. E quando tiver alcançado a liberação, será capaz de atender ás verdadeiras necessidades espirituais da Humanidade, ainda que passe desapercebido pelo mundo externo.

Freqüentemente confundimos a espiritualidade verdadeira com a vida religiosa formal, e pensamos que seguindo as formas externas da religião e um código de ética artificial, estamos levando uma vida espiritual. Mas aqueles que galgam o discernimento podem ver facilmente a vasta lacuna que separa as duas coisas, e não se deixam enganar com o palavreado e a roupagem imponente da religião com que a ortodoxia encobre sua pobreza de espírito.

Tornando á pergunta do que vem a ser a reta ação sob todas ascircunstâncias, a resposta é: fazer sempre o correto no momento correto, do modo correto e por razões corretas, até onde saibamos. Pode ser que, apesar de todos os nossos esforços, não consigamos fazer sempre o correto, mas se houver a motivação e a determinação necessária, gradualmente a presença de Buddhi (intuição) nos capacitará para ver oprocedimento correto, e para segui-lo sem vacilar.

A habilidade para discernir e fazer o certo só pode ser adquirido fazendo, em cada circunstância, o que nos parece mais justo e observando seu resultado. Assim, se estabelece um círculo virtuoso, até nos firmarmos na retidão; então cessa todo esforço e luta, e a vida flui fácil e naturalmente do centro de nossa consciência espiritual, no cumprimento do Plano Divino.

Mas é conveniente assinalar que somente o desejo vago e débil de fazer o correto não pode produzir semelhante transformação no caráter. Muitos aspirantes reconhecem, na teoria, a necessidade de adotar uma vida justa, e começam a fazer o correto, sempre que não interfere com seus interesses e tendências pessoais. Certamente, isto já representa uma melhora na atitude do homem comum, que nem sequer reconhece a necessidade de uma vida adequada e que atua corretamente por medo de cair nas mãos da justiça ou de criar complicações para si.

Mas o indivíduo não pode estabelecer-se na retidão tendo fé no justo e fazendo o bem somente quando lhe convém ou lhe favoreça. Terá que aprender a fazer o bem em todas as circunstâncias, mesmo que possa causar-lhe perdas ou sofrimentos. Para isto, terá que estar constantemente alerta, com agudo discernimento e resolvido, serena e inflexivelmente, a fazer o correto em todas as ocasiões.

Isto, provavelmente, implicará em dificuldades e angústias, porque tão logo decidimos viver com retidão, começam a surgir como que a nos pôr a prova, todo tipo de tentações e obstáculos. Temos que suportar estas provações sem ceder, se realmente somos sérios. Somente parecerão assustadoras e dolorosas quando houver debilidade interna e tendência a vacilar, sinais de que o discernimento ainda está parcialmente nublado.
O homem verdadeiramente justo entrega até a própria vida, se necessário, sem agitação ou pesar, como o testemunham mártires, santos e grandes homens.

O que foi dito mostra ao estudante a relação entre Rta e o Dharma individual, cujas idéias fundamentais podem ser resumidas assim: Rta é a Grande Lei sustentadora do Universo que se desenvolve no tempo e no espaço. A forma Real e espiritual deste Universo existe na Mente Divina, e a forma irreal e temporal que temos segue e aproxima-se, como uma sombra, da forma Real e espiritual.

Neste Universo em evolução, que se projeta a partir da Mente Divina, estão imersas incontáveis Mônadas, em diversas etapas de desenvolvimento. Cada uma dessas Mônadas é parte integrante da Realidade, e tem sua própria unicidade e papel individual no longuíssimo drama que se desenvolve no cenário do Universo. Tem uma personalidade e uma individualidade que opera nos mundos inferiores, a fim de desenvolver as potências divinas que trás em seu interior, e mostrar sua singularidade individual.

A personalidade e a individualidade, por um lado, são meras sombras da Mônada e, por outro, são instrumentos para o seu desenvolvimento. Este aperfeiçoamento não é casual; está dirigido, num sentido, pela unicidade individual da Mônada, e noutro, pelo lugar que ocupa no Plano Divino.
Estas duas forças ocultas em sua natureza eterna guiam o processo de evolução e determinam em grande parte o modelo geral de suas vidas nos planos inferiores. Representam a Vontade Divina e o Plano Divino no tocante á Mônada.

Nosso Dharma individual, no sentido mais amplo do termo, consiste em nos ajustar a este modelo e seguir a senda marcada para cada um de nós.
Mas no decorrer deste desenvolvimento, desviamo-nos devido a nossa ignorância e aos nossos anseios egoístas, convertendo assim o Karma individual e coletivo num outro fator importante que deve ser considerado. Portanto, o Dharma básico de cada indivíduo fica condicionado sempre pelas necessidades e circunstâncias de cada encarnação, e pelo ambiente onde age, em razão do Karma vigente que deve exaurir em cada encarnação particular.

Já dissemos que a Vontade Divina não atua de uma maneira determinante na evolução, mas deixa em liberdade as Mônadas para agirem e aprenderem, ainda que com os seus próprios erros. Portanto, é óbvio que o Dharma de um individuo, dentro de certas circunstâncias, é o resultado da interação de diferentes tipos de forças que atuam sobre ele. Daí não existe um conjunto de regras rígidas a cumprir mecanicamente para levar uma vida de retidão.

O único método para conhecer nosso Dharma, e determinar a linha de ação que temos que seguir nas diferentes situações e circunstâncias é manter imaculada a luz interna da intuição (Buddhi). Mas não devemos confundir esta luz com o que nos pede a mente embotada pelos desejos e preconceitos religiosos, que a toma equivocadamente como a voz de Deus, e que os políticos inescrupulosos qualificam de "chamamentos do dever". O conhecimento do nosso verdadeiro Dharma vem pela percepção espiritual, é como uma clara compreensão e não como um mero pensar. Resulta da purificação da mente de toda sorte de desejos inferiores, e da libertação do servilismo ao eu inferior.

O estudante verá que esta retidão não difere muito de Niskãma-Karma. Em ambos os casos, o reto atuar é a base de todos os aspectos da vida. Niskãma-Karma também significa a ação livre de motivação e desejos pessoais; e o que orienta é o Divino em nós, e não a personalidade. A personalidade cede à direção interna, e até se oferece prazerosa e inteligentemente para servir o Eu superior... e esta vida de retidão está aberta a todos!

(Extraído do livro Estúdios sobre la Psicología de la Yoga, de I.K.Taimni, editado pela Federação Teosófica Interamericana, Buenos Aires, 1982; pp. 224-235.)

Tradução e Seleção: Cláudia Bozza.



Publicado em:20.07.08

Palavras Iniciais

                Queira ou não, todo aquele que está envolvido com Esoterismo volta e meia se vê obrigado a pesquisar o que significa o termo "tal" ou "qual" de origem Védica.

                Assim, atendendo essa necessidade, passarei a publicá-los, iniciando com "Sanatana Dharma", explicado por Rajindra e colocado na Internet por Sara.



SANATANA DHARMA - O que vem a ser?

Sanatana Dharma, também é conhecida como a religião dos hindus e é muito mais que uma religião, é uma orientação de vida que cobre a jornada da alma antes e após seu nascimento em corpo físico, bem como após a chamada morte. É o oceano para o qual todas as religiões fluem como rios que saciam a sede da humanidade. É tão antiga quanto a humanidade.

É sabedoria superior revelada aos homens e consolidada nos Vedas que são as escrituras sagradas da Índia que tratam de todos os ramos do conhecimento. Não é estática, ao contrário é tão dinâmica, que se adapta naturalmente as necessidades dos tempos.

Revela um saber tão profundo sobre a psique humana que a ciência atual mal consegue tocar sua superficialidade. Para aqueles que possuem a chave de seus códigos disponibiliza os ramos mais ocultos do conhecimento que leva à liberação do homem.

O conceito sobre o qual repousa o Sanatana Dharma é o do sat – chit – ananda (conhecimento/sabedoria – existência/vida –/felicidade/bem aventurança), que é característico da divindade. Agrupa as leis eternas da criação divina, dirigem o homem no sentido da realização da natureza humana e da natureza divina intrínsecas à sua individualidade em particular e à humanidade em geral.

O Sanatana Dharma ensina que da mesma forma que o calor faz parte da natureza do fogo e o frio faz parte da natureza da água a felicidade é nossa qualidade natural.

O sofrimento é uma qualidade adquirida como o calor é adquirido pela água quando esta é aquecida. Quando o calor desaparece da água quente esta readquire sua qualidade de frescor. De forma semelhante quando o sofrimento desaparece de nossas vidas a qualidade natural de alegria retorna a nós.

Outro aspecto que fundamenta o sanatana dharma, se refere a questão da vida e da morte e diz que para qualquer objeto vivente a vida é natural e não a morte, que é por causa disso todos anseiam fortemente pela vida e temem a morte.

Vida ou existência é consciência e o conhecimento está intimamente associado a ela. A compreensão desse conhecimento conduz à mais alta expressão da verdade e do amor, que se traduz na vida cotidiana de cada ser humano como uma profunda e contínua percepção da sua unidade com todos os seres conscientes e não conscientes.

Neste estágio o homem se torna realmente humano entendendo que não existe dor ou alegria, vida ou morte de nada nem de ninguém, que não faça parte de sua dor, alegria, vida e morte. Assim está aberto o caminho para sua divinização, que a tradição védica, ao contrário da tradição ocidental, considera que é o caminho natural, mais fácil e mais rápido para alcançar a felicidade É como o esforço necessário para nadar a favor da correnteza no rio da vida.

Sanatana Dharma não é o mesmo que hinduismo, embora normalmente se confunda com ele. Essa confusào acontece frequentemente porque a base do hinduismo - ou seja da religião dos hindus - está nos Vedas e o alicerce dos Vedas é o Sanatana Dharma.

Todavia Sanatana Dharma está acima de todas as religiões e filosofias, é a lei cósmica que rege o ser humano e todos os outros seres, que rege o planeta, o sistema solar, a galaxia e o universo.

Não é antigo, nem novo, é absolutamente atemporal. É a essência da vida: na criação, manutenção e destruição de tudo o que se move e o que não se move em todos os universos.

É o Babaji se manifestando como maha shakti ( a grande energia, a grande deusa), a grande lei.

Bhole Baba Ki Jay!

Rajindra - Devota de SRI 1008 MAHAVATAR BABAJI
O deus que habita e mim saúda o deus que que habita em você.

Sara



Publicado em:13.07.08

Palavras Iniciais

               Como já tive oportunidade de falar aqui a respeito dos dotes espirituais da Sra. H.P.Blavatsky, de que não se tratava de uma 'Médium' e sim de uma Paranormal com qualidades excepcionais, não é de se estranhar que tenha sido alvo das mais duras e acirradas críticas e acusações, pois suas duas Obras Magnas - 'Isis sem Véu' e 'Doutrina Secreta'- ofuscaram todas as demais até então em evidência. Foi também falado a respeito da bibliografia utilizada e das citações mencionadas, cuja extensão não daria para ser lida em sua breve vida esotérica. Por fim, que, obviamente, houve "ajuda" de entidades espirituais na elaboração de tais Obras - os "Mahatmas da Grande Fraternidade Branca".

               Na época, a 'novidade' despertou o interesse de milhares de 'esotéricos' que queriam se afiliar à Loja Teosófica de Londres para adquirir os novos ensinamentos. Uns por mero modismo, outros por pura vaidade, além daqueles que só queriam adquirir os poderes paranormais, e uns poucos sinceros e honestos estudiosos do esoterismo.

               A fim de conter tal avalanche de solicitação de afiliação, foi que publicou em sua Revista "Lúcifer" (O Portador da Luz) o artigo que reproduzo abaixo, traduzido e adaptado pela Loja Koot Hoomi, de Salvador - BA, extraído do site da Sociedade Teosófica no Brasil.



OCULTISMO VERSUS ARTES OCULTAS

 Helena Petrovna Blavatsky
 
            Suas concepções dos poderes que o Ocultismo confere ao homem, e dos meios necessários para consegui-los, são tão variados quanto fantasiosos. Alguns imaginam que tudo que necessitam para tornar-se um Zanoni, é um mestre na arte para indicar o caminho. Outros crêem que se tem apenas de atravessar o Canal de Suez e ir até a Índia para transformar- se num Roger Bacon ou mesmo num Conde St. Germain. Muitos adotam Margrave como seu ideal, com sua juventude sempre a se renovar, e pouco se importam com a alma como o preço a ser pago por isso. Muitos confundem “Feitiçaria”, pura e simples, com Ocultismo - “através do sumidouro da Terra, a partir das trevas do rio Estige(3), subi, fantasmas descarnados, para regiões de luz” - e desejam, com a força deste feito, ser tratados como Adeptos de plena grandeza. “A Magia Cerimonial”, de acordo com as regras irreverentemente apresentadas por Eliphas Levi, constitui um outro alter ego imaginário da filosofia dos antigos Arhats. Em suma, os prismas através dos quais o Ocultismo aparece, para aqueles inocentes da filosofia, são tão multicoloridos e variados como lhes pode tornar a fantasia humana.

            Será que esses candidatos à Sabedoria e ao Poder sentir-se-iam muito indignados se lhes fosse contada a verdade pura e simples? Não é apenas útil, mas agora se tornou necessário desiludir a maioria deles, e antes que seja tarde demais. Esta verdade pode ser dita em poucas palavras: Não há, no Ocidente, entre as centenas de pessoas fervorosas que se dizem “Ocultistas”, nem mesmo meia dúzia que tenham sequer uma idéia aproximadamente correta da natureza da ciência que eles procuram dominar. Com umas poucas exceções, estão todos no caminho que leva à Feitiçaria. Que eles restabeleçam um pouco de ordem no caos que reina em suas mentes antes de protestarem contra esta afirmativa. Deixemos que primeiro aprendam a verdadeira relação entre Artes (4) Ocultas e Ocultismo, e a diferença entre ambos, e então se enfureçam se ainda se acharem com razão. Enquanto isso, deixemos que aprendam que o Ocultismo difere da Magia e das outras Artes (5) Secretas como o glorioso Sol difere de uma luz fugidia, assim como o imutável e imortal Espírito do Homem - o reflexo do TODO Absoluto, sem causa e incognoscível - difere do barro perecível - o corpo humano.

            Em nosso Ocidente altamente civilizado, onde as línguas modernas têm evoluído e novas palavras têm sido cunhadas sob o influxo de novas idéias e pensamentos - como tem acontecido com todas as línguas - quanto mais estes pensamentos se tornam materializados na fria atmosfera do egoísmo ocidental e sua busca incessante pelos bens deste mundo, tanto menos se sente qualquer necessidade para a produção de novos termos que expressem aquilo que se considera implicitamente como absoluta e desacreditada “superstição”. Tais palavras poderiam apenas responder a idéias que dificilmente se suporia um homem culto pudesse abrigar em sua mente.

            “Magia” é um sinônimo para prestidigitaçã o; “Feitiçaria”, um sinônimo para ignorância crassa; e “Ocultismo”, os tristes restos mortais de perturbados filósofos medievais do Fogo, dos Jacob Boehmes e os St. Martins, expressões que se acredita mais que amplamente suficientes para cobrir todo o campo da “falcatrua”. São termos de desprezo, e geralmente usados apenas com relação à escória e aos resíduos das idades das trevas e dos períodos de eons de paganismo que os precederam. Por isso, não possuímos ter­mos na língua portuguesa (6) para definir e matizar a diferença entre tais poderes paranormais e as ciências que levam à posse deles, com a refinada precisão que é possível nas línguas orientais - preeminentemente no sânscrito. O que palavras como “milagre” e “encantamento” (palavras afinal idênticas em significado, já que ambas expressam a idéia de produzir coisas maravilhosas transgredindo as leis da Natureza, como explicado pelas autoridades reconhecidas) , significam àqueles que as ouvem ou as pronunciam? Um cristão acreditará piamente em milagres - não obstante “transgridam as leis da Natureza” - porque se diz terem sido produzidos por Deus através de Moisés; por outro lado, rejeitará os encantamentos produzidos pelos mágicos do Faraó ou irá atribuí-los ao demônio. É este último que nossos pios inimigos associam ao Ocultismo, enquanto seus ímpios desafetos, os infiéis, riem-se de Moisés, dos Mágicos, e dos Ocultistas, e enrubesceriam se tivessem que dedicar um pensa­mento sério a tais “superstições”. Isto porque não existe qualquer termo para mostrar a diferença; não há palavras para expressar as luzes e sombras e desenhar a linha demarcatória entre o sublime e verdadeiro, em relação ao absurdo e ridículo. Os últimos são interpretações teológicas que ensinam “a transgressão das leis da Natureza” pelo homem, por Deus, ou pelo diabo; os primeiros - os “milagres” científicos e os encantamentos de Moisés e dos Magos de acordo com as leis naturais, ambos tendo sido aprendidos em toda Sabedoria dos Santuários, que eram as “Sociedades Reais” daqueles dias - e no verdadeiro OCULTISMO. Esta última palavra certamente se presta a equívocos, traduzida como foi da palavra composta Gupta-Vidyâ, “Conhecimento Secreto”. Mas conhecimento de quê? Alguns dos termos sânscritos nos podem ajudar.

            Há quatro nomes (dentre muitos outros) para designar os vários tipos de Conhecimento ou Ciência Esotéricos, mesmo nos Purânas exotéricos. Há (1) Yajña-Vidyâ(7), conhecimento dos poderes ocultos despertados na natureza pela realização de certas cerimônias e ritos religiosos. (2) Mahâvidyâ, o “grande conhecimento” , a magia dos cabalistas e da adoração Tântrica, geralmente Feitiçaria da pior espécie. (3) Guhya-Vidyâ, conhecimento dos poderes místicos residentes no Som (Éter), conseqüentemente nos Mantras (preces cantadas ou encantamentos) , que dependem do ritmo e da melodia usados; em outras palavras, uma performance mágica baseada no conhecimento das Forças da Natureza e suas correlações; e (4) ÂTMA-VIDYÂ, um termo que é traduzido simplesmente como “Conhecimento da Alma”, Sabedoria verdadeira pelos orientalistas, mas que significa muitíssimo mais.

            Âtma-Vidyâ é, assim, o único tipo de Ocultismo que qualquer teósofo que admirasse Luz no Caminho (8), e que fosse sábio e altruísta, deveria esforçar-se por alcançar. Tudo o mais é apenas algum ramo das “Artes (9) Ocultas”, i.e., artes baseadas no conhecimento da essência última de todas as coisas nos reinos da Natureza - tais como minerais, vegetais e animais - portanto das coisas pertencentes à esfera da natureza material, por mais que aquela essência possa ser invisível, e tenha escapado até agora à compreensão da Ciência. A Alquimia, a Astrologia, a Fisiologia Oculta, a Qui­romancia existem na Natureza, e as Ciências exatas - assim chamadas talvez porque elas sejam julgadas o inverso disso, nesta era de filosofias paradoxais - já descobriram não poucas das artes acima. Mas a clarividência, simbolizada na Índia como o “Olho de Shiva”, ou chamada “Visão Infinita” no Japão, não é hipnotismo, o filho ilegítimo do mesmerismo, e não pode ser adquirida por tais artes. Todas as outras podem ser dominadas e se pode obter resultados, sejam bons, maus, ou indiferentes; mas são de pouco valor do ponto de vista de Âtma-Vidyâ. Âtma-Vidyâ inclui todas elas e pode até mesmo usá-las eventualmente, para propósitos benéficos, mas não sem antes purificá-las de sua escória, e tomando o cuidado de destituí-las de todo elemento de motivação egoísta. Deixe-nos explicar: Qualquer homem ou mulher pode pôr-se a estudar uma ou todas das “Artes Ocultas” acima especificadas sem qualquer grande preparação prévia, e mesmo sem adotar qualquer modo de vida demasiado restritivo. Poder-se-ia até mesmo prescindir de qualquer padrão elevado de moralidade. No último caso, certamente, as probabilidades são de dez para um que o estudante iria se transformar num tipo de feiticeiro razoável, e prestes a cair abruptamente na magia negra. Mas o que pode isso importar? Os Vodus e os Dugpas comem, bebem e se divertem com as hecatombes de vítimas de suas artes infernais. E assim também os afáveis cavalheiros vivisseccionistas e os “Hipnotizadores” diplomados das Faculdades de Medicina; a única diferença entre as duas classes é que os Vodus e Dugpas são feiticeiros conscientes, e os seguidores de Charcot-Richet são feiticeiros inconscientes. Assim como ambos têm que colher os frutos de seus trabalhos e feitos na magia negra, os praticantes ocidentais não deixarão de conseguir lucros e satisfações sem receber a punição e a reputação correspondentes a tais práticas; repetimos, portanto, que o hipnotismo e a vivissecção, como praticados em tais escolas, são feitiçaria pura e simples, privados do conhecimento do qual desfrutam os Vodus e Dugpas, e que nenhum Charcot-Richet pode obter por si mesmo em cinqüenta anos de intenso trabalho e observação experimental. Deixe­mos, então, aqueles que querem intrometer-se na magia - quer eles entendam sua natureza ou não, mesmo que considerem as regras impostas aos estudantes muito difíceis e por isso ponham de lado Âtma-Vidyâ ou Ocultismo - seguirem sem esse conhecimento. Deixemos que se tornem magos de qualquer maneira, mesmo que se tornem Vodus e Dugpas pelas próximas dez encarnações.

            Mas o interesse de nossos leitores estará provavelmente centrado naqueles que são inexoravelmente atraídos para o “Oculto”, embora nem façam idéia da verdadeira natureza daquilo a que aspiram, nem se tenham tornado livres das paixões, e muito menos, verdadeiramente altruístas.

            Então, o que dizer a respeito destes desventurados, nos perguntarão, que desse modo são dilacerados pelo meio por forças conflitantes? Pois já foi comentado por demais para que se precise repetir, e o fato em si é obvio a qualquer observador, que uma vez que o desejo pelo Ocultismo tenha realmente despertado no coração de um homem, não lhe resta qualquer esperança de paz, nenhum lugar para descanso ou conforto em todo o mundo. Ele é impelido para os locais selvagens e desolados da vida por um incessante tormento e uma inquietude que não consegue apaziguar. O seu coração está demasiado cheio de paixão e desejo egoísta para lhe permitir passar pelo Portal de Ouro; ele não consegue encontrar descanso ou paz na vida comum. Terá ele então de cair inevitavelmente na feitiçaria e na magia negra, e através de muitas encarnações acumular para si um carma terrível? Não há outro caminho para ele?

            Certamente que há, respondemos. Que ele não aspire a mais do que aquilo que se sinta capaz de realizar. Que ele não escolha carregar um fardo pesado demais para si. Sem nem mesmo exigir dele que se torne um Mahatma, um Buda ou um Grande Santo, deixe-se que estude a filosofia e a “Ciência da Alma”, e ele poderá tornar-se um dos modestos benfeitores da Humanidade, sem qualquer dos poderes “super-humanos” . Os Siddhis (ou os poderes do Arhat) são reservados unicamente para aqueles que são capazes de consagrar sua vida, sujeitar-se aos terríveis sacrifícios exigidos por um tal treinamento, e sujeitar-se a eles ao pé da letra. Que eles saibam de uma vez por todas e lembrem sempre que o verdadeiro Ocultismo ou Teosofia é a “Grande Renúncia ao eu”, incondicional e absolutamente, tanto em pensamento como em ação. É ALTRUÍSMO, e também lança aquele que o pratica totalmente para fora do cômputo das fileiras dos vivos. “Não para si, mas para o mundo, ele vive”, tão logo tenha comprometido a si mesmo com a obra. Muito é perdoado durante os primeiros anos de provação. Mas tão logo seja ele “aceito”, sua personalidade tem de desaparecer, e ele tem de se tornar uma mera força benéfica da Natureza. Depois disso, só há dois pólos opostos perante ele, duas sendas, e nenhum lugar intermediário para descanso. Ou ele ascende trabalhando com afinco, degrau por degrau, geralmente através de numerosas encarnações e sem intervalo para repouso no Devachan, à escada de ouro que leva à condição de Mahatma (a condição de Arhat ou Bodhisattva), - ou ele se permitirá escorregar escada abaixo ao primeiro passo dado em falso, e despencar até a condição de Dugpa...

            Tudo isso ou é desconhecido ou totalmente deixado de lado. Na realidade, aquele que é capaz de seguir a evolução silenciosa das aspirações preliminares dos candidatos, com freqüência descobre estranhas idéias que vão mansamente tomando posse de suas mentes. Há aqueles cujas faculdades de raciocínio foram tão distorcidas por influências estranhas, que imaginam que as paixões animais podem ser de tal modo sublimadas e elevadas que sua fúria, força e fogo podem, por assim dizer, ser dirigidas para dentro; que elas podem ser armazenadas e reprimidas em seu peito, até que sua energia seja, não-expandida, mas direcionada para propósitos mais elevados e mais sagrados: isto é, até que sua força coletiva e não-expandida permita ao seu possuidor entrar no verdadeiro Santuário da Alma e lá permanecer na presença do Mestre - o EU SUPERIOR. Em nome deste propósito, eles não lutarão com suas paixões nem as matarão. Eles simplesmente, por um forte esforço de vontade, acalmarão as violentas chamas e as manterão encerradas dentro de suas próprias naturezas, permitindo ao fogo arder sob uma fina camada de cinzas. Eles se submetem jovialmente à tortura do menino espartano que preferiu permitir à raposa devorar suas entranhas a desfazer-se dela. Oh, pobres visionários cegos!

            Seria o mesmo que esperar que um bando de limpadores de chaminés bêbados, exaltados e sujos por causa de seu trabalho, pudessem ser encerrados num Santuário coberto com o linho mais puro e branco, e que, em vez de com sua presença sujar e transformar o lugar num monte de retalhos imundos, eles se tornassem mestres do recinto sagrado, e que finalmente de lá saíssem tão imaculados quanto o próprio recinto. Por que não imaginar que uma dúzia de can­gambás aprisionados na atmosfera pura de um Dgon-pa (mosteiro) possam sair dali impregnados com todos os perfumes e incensos lá usados?... Estranha aberração da mente humana. Poderia isto ser possível? Investiguemos.

            O “Mestre”, no Santuário de nossas Almas, é “o Eu Superior” - o espírito divino cuja consciência está baseada na Mente e apenas dela deriva (tal ocorre, de qualquer modo, durante a vida mortal do homem na qual ela se encontra cativa), e à qual convencionamos chamar de Alma Humana (sendo a “Alma Espiritual” o veículo do Espírito). Por sua vez, aquela (a alma pessoal ou humana) é, na sua forma mais elevada, um composto de aspirações espirituais, volições e amor divino; e em seu aspecto inferior, de desejos animais e de paixões terrestres que lhe são transmitidas por sua associação com o seu veículo, a sede de tudo isso. Ela desempenha o papel, portanto, de um elo e um meio entre a natureza animal do homem, a qual sua razão superior tenta subjugar, e a sua natureza espiritual divina em direção à qual ela gravita, sempre que obtiver vantagem em sua luta com o animal interior. Este último é a instintiva “Alma animal”, e é o antro daquelas paixões que, como acabamos de mostrar, são acalentadas em vez de aniquiladas, e que alguns entusiastas imprudentes mantêm encerradas em seu peito. Será que eles ainda esperam desse modo transformar a corrente imunda do esgoto animal nas águas cristalinas da vida? E onde, em que terreno neutro, podem elas ser aprisionadas de modo a não afetarem o homem? As violentas paixões do amor e da luxúria ainda estão vivas, e ainda se lhes permite permanecer no lugar de seu nascimento - aquela mesma alma animal; pois tanto as porções superior e inferior da “Alma Humana” ou Mente rejeitam semelhantes companhias, ainda que não possam evitar ser maculadas por tais vizinhos. O “Eu Superior” ou Espírito é tão incapaz de assimilar tais sentimentos como o é a água de se misturar com o óleo ou impurezas líquidas gordurosas. Assim, é apenas a mente - o único vínculo e meio entre o homem da terra e o Eu Superior - que é a única sofredora, e que está em constante perigo de ser tragada por aquelas paixões, que podem ser reavivadas a qualquer momento, e perecer no abismo da matéria. E como pode ela alguma vez se afinar com a divina harmonia do Princípio superior, quando aquela harmonia é destruída pela mera presença de tais paixões animais, dentro do Santuário em preparação? Como pode a harmonia prevalecer e vencer quando a alma está maculada e distraída pelo turbilhão das paixões e pelos desejos terrenos dos sentidos do corpo, ou mesmo pelo “homem Astral”?

            Pois este “Astral” - o “duplo” sombrio (tanto no animal como no homem) - não é o companheiro do Ego divino, mas do corpo terrestre. É o vínculo entre o eu pessoal, a consciência inferior de Manas, e o Corpo, e é o veículo da vida transitória, não da vida imortal. Tal qual a sombra projetada pelo homem, ele segue seus movimentos e impulsos servil e mecanicamente, apoiando-se assim na matéria sem jamais ascender ao Espírito. Somente quando o poder das paixões estiver totalmente morto, e elas tiverem sido esmagadas e aniquiladas na retorta de uma vontade inquebrantável; quando não apenas toda luxúria e desejos da carne estiverem mortos, mas também quando o reconhecimento do eu pessoal tiver sido aniquilado, e o “Astral”, conseqüentemente, tiver sido reduzido a zero, é que pode ocorrer a União com o “Eu Superior”. Assim, quando o “Astral” refletir apenas o homem conquistado, o que ainda vive mas que não mais deseja, a personalidade egoísta, então o brilhante Augoeides, o EU divino, pode vibrar em harmonia consciente com ambos os pólos da Entidade humana - o homem de matéria purificada, e a sempre pura Alma Espiritual - e erguer-se na presença do EU SUPERIOR (10) , o Cristo dos Gnósticos místicos, congraçado, imerso, unido com ELE para sempre. (11)

            Como, então, poderia ser possível conceber que um homem entrasse pela “porta estreita” do Ocultismo quando seus pensamentos, a cada dia e hora, estão presos a coisas mundanas, desejos de posse e poder, à luxúria, à ambição, e aos deveres que, embora honrosos, são ainda da terra, terrenais? Mesmo o amor pela esposa e a família - a mais pura e mais altruísta das afeições humanas - é uma barreira ao verdadeiro Ocultismo. Pois se tomarmos como exemplo o sagrado amor de uma mãe por seu filho, ou o de um marido por sua esposa, mesmo nestes sentimentos, quando analisados em profundidade, e examinados criteriosamente, ainda há egoísmo no primeiro, e um egoïsme a deux(12) no segundo exemplo.

            Que mãe não sacrificaria, sem hesitar sequer um instante, centenas e milhares de vidas pela vida do seu filho do coração? E que amante ou marido digno deste nome não destruiria a felicidade de qualquer outro homem ou mulher ao seu redor para satisfazer o desejo daquela a quem ele ama? Mas isso é natural, dirão. Certamente, do ponto de vista das afeições humanas; mas não à luz do princípio daquele amor divino universal. Pois, enquanto o coração estiver cheio de pensamentos voltados para um pequeno grupo de eus, que nos são próximos e caros, que valor terá o resto da Humanidade em nossas almas? Que percentagem de amor e cuidado permanecerá para dispensar à “grande órfã” (13)? E como a “ainda pequenina voz” far-se-á ouvida numa alma totalmente ocupada por seus próprios inquilinos privilegiados? Que espaço resta ali onde possam as necessidades da Humanidade imprimir-se em bloco, ou mesmo receber uma rápida resposta? E ainda assim, aquele que poderia lucrar com a sabedoria da mente universal tem que alcançá-la através do todo da Humanidade sem distinção de raça, cor, religião ou posição social. É o altruísmo e não o egoísmo, mesmo em sua concepção mais nobre e legal, que pode levar o indivíduo a fundir o seu pequeno eu no Eu Universal. É para estas necessidades e para esta obra que o verdadeiro discípulo do verdadeiro Ocultismo tem de se devotar se quiser alcançar a teosofia, a Sabedoria e o Conhecimento Divinos.

            O aspirante tem de escolher absolutamente entre a vida do mundo e a vida do Ocultismo. É inútil e vão empenhar-se em unir os dois, pois ninguém pode servir a dois mestres e satisfazer a ambos. Ninguém pode servir ao seu corpo e à Alma superior, e cumprir com suas obrigações familiares e deveres universais, sem privar um ou outro de seus direitos; pois ou ele dará ouvidos à “ainda pequenina voz” e falhará em ouvir os apelos de seus pequeninos, ou ouvirá apenas os desejos destes e permanecerá surdo à voz da Humanidade. Isso seria uma luta incessante e enlouquecedora para quase todo homem casado que estivesse procurando o verdadeiro Ocultismo prático, em vez de sua filosofia teórica. Pois ele encontrar-se- ia sempre hesitante entre a voz impessoal do divino amor pela Humanidade, e a do amor terreno, pessoal. E isso só poderia conduzi-lo a falhar em um ou outro, ou talvez em ambas as obrigações. Pior do que isto. Pois, quem quer que seja indulgente, uma vez que tenha comprometido a si mesmo com o OCULTISMO, na gratificação de luxúria e amor terrenos, sentirá quase imediatamente um resultado: será irresistivelmente arrastado do estado impessoal divino para o plano inferior da matéria. A autogratificaçã o sensual, ou mesmo mental, envolve a perda imediata dos poderes de discernimento espiritual; a voz do MESTRE não pode mais ser distinguida daquela das paixões pessoais, ou mesmo da voz de um Dugpa; o certo do errado; a firme moralidade do mero casuísmo. O fruto do Mar Morto assume a mais gloriosa aparência mística, apenas para se tornar cinzas nos lábios e fel no coração, resultando em:“Profundeza mais que profunda, treva mais que escura;
A insensatez pela sabedoria, a culpa pela inocência;
A angústia pelo êxtase, e pela esperança, o desespero.”

            E uma vez estando enganados e tendo agido segundo seus erros, a maioria dos homens recusa-se a reconhecer os seus erros, e assim descem, afundando-se cada vez mais baixo na lama. E muito embora seja a intenção que determina primariamente se a prática é de magia branca ou negra, ainda assim os resultados, mesmo da feitiçaria involuntária e inconsciente não deixarão de produzir mau carma. Muito já se falou para mostrar que feitiçaria é qualquer tipo de influência maléfica aplicada em outras pessoas, fazendo com que sofram ou façam outras pessoas sofrerem, por conseqüência. O carma é uma pedra pesada lançada sobre as plácidas águas da vida; e tem de produzir círculos cada vez mais amplos, que se expandem mais e mais, quase . Tais causas, uma vez produzidas, terão de gerar efeitos, e estes evidenciam-se nas justas leis de Retribuição.

            Muito disso poderia ser evitado se as pessoas apenas se abstivessem de partir para práticas cuja natureza ou importância elas não compreendem. Não se espera que alguém carregue um fardo além de suas forças e capacidades. Existem “magos de nascença”; Místicos e Ocultistas de nascimento, por direito de herança direta de uma série de encarnações e eons de sofrimentos e fracassos. Estes são “à prova de paixões”, por assim dizer. Nenhum fogo de origem terrena pode inflamar quaisquer de seus sentidos ou desejos, nenhuma voz humana pode encontrar resposta em suas almas, exceto o grande clamor da Humanidade. Apenas estes podem ter certeza do sucesso. Mas somente podem ser encontrados em lugares distantes e ermos, e eles passam pelas estreitas portas do Ocultismo porque não carregam qualquer bagagem de sentimentos humanos transitórios consigo. Livraram-se do sentimento da personalidade inferior, paralisaram desse modo o animal “astral ”, e assim a porta de ouro, conquanto estreita, se abre ante eles. Tal não ocorre com aqueles que ainda precisam carregar por várias encarnações os fardos dos pecados cometidos em vidas prévias, e mesmo em suas vidas atuais. Para esses, a não ser que prossigam com grande cuidado, a porta de ouro da Sabedoria pode ser transformada na porta larga, “o espaçoso caminho que conduz à perdição” (14), e por isso “muitos são os que entram por ele”. Esta é a Porta das Artes Ocultas, praticadas por motivos egoístas e sem contar com a moderadora e benéfica influência de ÂTMA-VIDYÂ! . Estamos no período de Kali Yuga, e sua influência fatal é mil vezes mais poderosa no Ocidente do que no Oriente; daí as presas fáceis dos Poderes da Idade das Trevas neste conflito cíclico, e as muitas ilusões com as quais o mundo está agora labutando. Uma destas, é a relativa facilidade com que os homens fantasiam poder alcançar o “Portal” e atravessar o umbral do Ocultismo sem qualquer grande sacrifício. É o sonho da maioria dos teósofos, sonho inspirado pelo desejo de poder e pelo egoísmo pessoal, e não são tais sentimentos que poderão conduzi-los à meta desejada. Pois, como bem enunciado por aquele que se crê ter sacrificado a si mesmo pela Humanidade - “estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz à vida eterna”, e portanto “poucos são os que o encontram” (15).  Tão apertado na realidade, que à simples menção de algumas das dificuldades preliminares, os apavorados candidatos ocidentais viram as costas e recuam tremendo...

            Que parem por aqui e não façam mais tentativas em sua grande fraqueza. Pois, se enquanto viram as costas à porta estreita eles são arrastados por seu desejo pelo Oculto, um passo que seja na direção da Porta espaçosa e mais convidativa daquele mistério dourado que brilha na luz da ilusão, pior para eles! Só podem ser levados aos domínios inferiores do estado de Dugpa, e certamente logo encontrar-se-ã o naquela Via Fatale do Inferno, por sobre cujos portais Dante gravou essas palavras:

“Per me si va nella città dolente
Per me si va nell’eterno dolore
Per me si va tra la perduta gente...”
(16)

Notas

(1)Diz a Nota Introdutória do livro Ocultismo Prático (pag. 91): “H. P. Blavatsky (1831-1891), precursora do Ocultismo Moderno e uma das fundadoras da Sociedade Teosófica (S. T.), foi também considerada fundadora da Nova Era (vide o livro Helena P. Blavatsky; A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno, de Sylvia Cranston, Brasília, Ed. Teosófica, 1997. p.558), publicou o artigo Ocultismo Prático (que ali ela define como ‘Ciência Oculta’) na revista Lúcifer (literalmente: ‘O Portador da Luz’) de abril de 1888, cuja repercussão foi tal que necessitou outro artigo - Ocultismo Versus Artes Ocultas - publicado no mês seguinte, na citada revista, para oferecer maiores explanações sobre o tema. (...)”
(2)Sciences, no original em inglês. (N. Ed. brasileira).
(3) Rio da Mitologia Grega que separava o mundo dos vivos e dos mortos. (N. Ed. brasileira).
(4)Sciences, no original em inglês. (N. ed. brasileira).
(5) Idem.
(6)tongue, no original em inglês. (N. ed. brasileira).
(7) “O Yajaña”, dizem os Brahmans, “existe desde a eternidade, pois procede do Ser Supremo... no qual subjaz latente desde o ‘não-princípio’. É a chave para o TRAIVIDYÂ, a ciência três vezes sagrada contida no Rig Veda, que ensina os Yagas ou mistérios sacrificiais ‘O Yajña’ existe como algo invisível o tempo todo; é como o poder latente da eletricidade, que para ser liberado num dínamo, necessita apenas da operação de um aparato adequado. Diz-se que se estende desde o Ahavaniya ou fogo sacrificial até os céus, formando uma ponte ou escada por meio da qual o oficiante do sacrifício pode se comunicar com o mundo dos deuses e espíritos, e até mesmo ascender, enquanto vivo, até suas moradas” - Aitareya Brahmana, de Martin Haug.Este Yajña é novamente uma forma de Âkâsa; é a palavra que o invoca, pronunciada pelo Sacerdote Iniciado, é a Palavra Perdida impulsionada pelo PODER DA VONTADE” - Ísis Sem Véu, Vol. I,. Intr. Veja Aitareya Brahamana, de Haug.
(8) Vide COLLINS, Mabel. Luz no Caminho. Brasília, Ed. Teosófica, 1999. (N. ed.bras.).
(9)Sciences, no original em inglês. (N. ed. brasileira).
(10)Master, no original em inglês, podendo também significar o Mestre Interno. (N. ed.bras.).
(11) Aqueles que se sentissem inclinados a ver três EGOS em um homem mostrar-se-iam incapazes de perceber o sentido metafísico. O homem é uma trindade composta de Corpo, Alma e Espírito; mas o homem, apesar de tudo é uno, e certamente não é o seu corpo. Este último é apenas a propriedade, a vestimenta transitória do homem. Os três “EGOS” são o HOMEM em seus três aspectos nos planos ou estados astral, intelectual (ou psíquico), e Espiritual.
(12) Em francês: egoísmo a dois. (N. ed.bras.).
(13) A autora está referindo-se à “Humanidade”. (N. ed.bras.).
(14) Mateus, 7:13.
(15) Mateus, 7:14.
(16) ALIGHIERE, Dante. A Divina Comédia. Canto 3: “Por mim se entra no reino das dores; por mim se chega ao padecer eterno; por mim se vai à condenada gente”. 1999 (N. ed.bras.).

            Tradução de Edvaldo de Souza Batista (membro da S. T. pela Loja Koot Hoomi, de Salvador-BA) ; revisão técnica de Ricardo Lindemann (membro da S. T. pela Loja Dharma, de Porto Alegre-RS).



Publicado em:06.07.08

Palavras Iniciais

          Matéria de autoria de "sou_maguinha", extraída da Lista "Seitas Secretas" do Yahoo.

          Acredito que a matéria seria melhor entendida se o título fosse "Paralelos entre Centros e Canais de Energia Telúrica e do Corpo Humano.



Centros de Poder e Magia - Linha Ley

Sempre que um local tenha tido orações e desejos concentrados direcionados a ele, forma-se um vértice elétrico que atrai para si uma força e que se torna por um tempo um corpo coerente que pode ser sentido e utilizado pelo homem. É ao redor desses corpos de força que templos, locais de culto e, posteriormente, igrejas são erigidos; são Cálices que recebem um derramamento Cósmico focalizado em cada local específico.
Dion Fortune, Aspects of Occultism

Centros de poder ou magia são encontrados tanto na Terra quanto no corpo humano. Nos Ensinamentos Wiccanos, a própria Terra é uma criatura viva e consciente. Em outras palavras, é habitada por um ser espiritual, do mesmo modo que nossos corpos são habitados por uma alma. A Terra se alimenta da radiação de outros corpos planetários ao seu redor.

Sua natureza física é como a natureza física das criaturas que nela vivem. Está sujeita a doenças, envelhecimento e declínio. Hoje, os rios, córregos e oceanos (sistema sangüíneo) estão cheios de toxinas criadas pelos seres humanos (do mesmo modo como vírus e bactérias criam toxinas em nossos próprios corpos). A Terra está muito adoentada e pede para ser curada.

De acordo com os Ensinamentos Wiccanos, a Terra possui centros de chakra, exatamente como o corpo humano. Segue-se uma lista desses centros, como compiladas pelos Ocultistas Ocidentais:

1. A colina sagrada de Arunachala, no sul da Índia.
2. A região trans-himalaia do deserto de Gobi.
3. Cairo, Egito.
4. Uma montanha a cerca de 100 milhas do litoral do Peru, na região dos Andes, imediatamente oposta a Aranachala.
5. Glastonbury, na Inglaterra.
6. Antigo local da Suméria, no Baixo Eufrates.
7. Monte Shasta, na Califórnia.


LINHAS LEY

Assim como o corpo humano, que possui um sistema de sensores e relês nervosos, também a Terra os possui. De acordo com os Ensinamentos Wiccanos, as antigas civilizações ergueram locais de culto para assinalar o plexo de tais pontos no corpo da Terra. A energia que flui de ponto a ponto (seu relê nervoso) é conhecido atualmente como Linha Ley.

Há muitos desses antigos locais sobre a superfície da Terra, erguidos para amplificar suas emanações espirituais. Posteriormente, outros locais foram erguidos para modificar e redirecionar tais emanações.

Na Grã-Bretanha, encontramos o que os pesquisadores de linhas ley chamam de trilhas-diretas ou cursus, geralmente associados a montes neolíticos e túmulos longos.

Nos Ensinamentos Wiccanos, essas linhas ley foram criadas para conectar os mortos às energias dos Grandes Megalitos e outras antigas estruturas. Desse modo, a Consciência Coletiva da raça era preservada pelas pedras erguidas, que absorviam a energia que fluía pela linha ley. Em outras palavras, as linhas ley associadas com montes e monumentos foram criadas para assegurar a sobrevivência das memórias ancestrais.

As linhas ley são também conhecidas como trilhas das fadas, as quais aprofundam as associações entre fadas e o Culto aos Mortos. Os padrões geométricos encontrados nas Ilhas Britânicas são um resquício dos padrões semelhantes empregados pelos etruscos na organização de suas cidades, estradas, tumbas, fazendas e outras estruturas.

Padrões geométricos são associados ao xamanismo, estados de transe e ao uso mágico de drogas psicotrópicas (todos ligados aos espíritos e ao Culto do Mortos). As chamadas imagens alucinatórias descobertas no teste encaixaram-se em categorias de formas chamadas treliça, teia, túnel e espiral.

Tais formas eram constantes e universais entre os participantes do estudo, e aparentemente indicavam uma reação neurológica à privação sensorial dentro do sistema visual do cérebro. Até mesmo uma simples olhadela nos desenhos neolíticos em obras como Goddesses and Gods of Old Europe (Gimbutas) revelam a presença das mesmas imagens reveladas nos estudos sensoriais.


Os Centros de Poder No Corpo Humano

A Tradição Oculta afirma que o corpo humano possui vários centros do poder.

O primeiro deles é o Centro de Energia, também chamado de Centro de Fogo ou Centro da Serpente (operando na região genital). Esse é o assento de poder onde residem energias vitais concentradas e energias psíquicas.

É, essencialmente, um centro de transmissão ligado ao plano astral, na verdade um tipo de portal. Como todos os centros psíquicos, ele é influenciado pelas emanações lunares associado às quatro fases da Lua. O próprio Centro da Serpente está associado à lua nova, cuja energia é procriativa, potencial, latente. Os estimuladores estelares desse centro são encontrados nos signos astrológicos de Peixes, Câncer ou Escorpião. Assim, a utilização mágica do Centro da Serpente é mais profunda quando a Lua ocupa esses signos zodiacais.

O segundo centro, conhecido como Centro Pessoal, é tanto receptivo como transmissivo. Sua função é lidar com a condensação e a manifestação das energias astrais. Trata-se de um dos muitos portais através dos quais o corpo astral do indivíduo pode deixar a carne física. Grandes quantidades de energia podem ser atraídas e enviadas por essa área, que é extensivamente utilizada em práticas xamânicas. As influências estelares que auxiliam esse centro na solidificação do material astral são os signos de terra: Touro, Virgem e Capricórnio.

O terceiro centro, o Centro de Poder, também é a um tempo transmissivo e receptivo, e lida com as energias vitais. Por ele alimentamos tanto o corpo físico quanto o astral. Esse centro está ligado à lua cheia, cujo período torna-o mais poderoso. Os signos associados a ele são os signos de fogo: Áries, Leão e Sagitário. É o fogo mágico dos alquimistas, que transforma tanto a matéria quanto o espírito. Entre os bruxos italianos, esse agente mágico está presente na chama espiritual (Ways of the Strega).

O quarto centro é conhecido como Centro Emocional. É essencialmente receptivo, mas também transmite. O Centro Emocional lida com os sentimentos e a ética humanos. Associado ao elemento criativo da água, este centro nos permite sentir outra pessoa num nível emocional. É mais eficientemente empregado com fins mágicos quando a Lua ocupa um dos signos de água: Peixes, Câncer ou Escorpião.

O quinto centro é o Centro Vibracional. É transmitivo por natureza e trata da causa de ações e reações. O mais físico dos centros não-físicos, este centro está associado ao elemento criativo do ar. O ar é o meio que transporta as vibrações e influi em sua eficácia. Este centro é mais eficaz, em termos de magia, quando a Lua ocupa um dos signos de ar: Aquário, Gêmeos ou Libra.

O sexto centro, Centro Psíquico, é basicamente receptivo, mas também funciona de modo transmissivo. Ele é também chamado de Terceira Visão e Centro da Pureza. Trata-se de um centro psíquico muito ativo e mais um ponto de saída para o corpo astral. Por também interpretar padrões e vibrações de energia etérea, é ainda associado aos signos zodiacais do elemento criativo do ar. Assim sendo, a utilização mais eficaz desse centro com fins mágicos ocorre quando a Lua está em um dos signos zodiacais associados ao elemento criativo do ar.

O sétimo centro é o Centro Divino. Receptivo e transmissivo, ele lida com a “Consciência das Deidades”. É nosso self mais elevado e ponto de nossa união com o que nos criou. É visto como externo ao corpo e, portanto, não se limita às associações atribuídas aos outros centros de poder do corpo. Ele também dá vida aos outros centros e oferece uma natureza mais elevada a cada um deles. Essa vibração superior emana de sua conexão com a luz divina. Dessa forma, a aura do corpo é um campo de energia formado pelas emanações de cada centro de poder sob influência do Centro Divino.

No nível físico, esses centros funcionam para manter o corpo e seus órgãos. O Centro de Energia rege os órgãos reprodutivos. O Centro Pessoal gera a saúde de modo geral e mais especificamente o fígado, o pâncreas e o baço. O Centro de Poder gere as glândulas supra-renais. O Centro Emocional gere o timo. O Centro Vibracional gere a glândula tireóide. O Centro Psíquico gere a glândula pineal. O Centro Divindo influencia tanto a glândula pituitária quanto a pineal.

Há duas correntes de energia, as correntes do deus e da deusa, a fluir através desses centros do corpo. As correntes se originam do Centro de Energia e se cruzam no Centro Emocional, cruzando-se novamente no Centro Psíquico. Elas influenciam diretamente nossa sexualidade e preferências sexuais através da “freqüência” de seus padrões de energia, e devfinem nossa natureza interior.

Nas culturas judaico-cristãs, geralmente apenas uma dessas correntes é plenamente funcional, tornando o indivíduo heterossexual ou homossexual. Quando ambas as correntes operam de modo equilibrado, elas alinham o indivíduo ao estado natural bissexual. É interessante notar que o símbolo médico do caduceu, representando a saúde perfeita, é em si mesmo um símbolo das correntes do deus e da deusa fluindo em equilíbrio por toda a coluna.


Glândulas e o Sistema Endócrino

Nos Ensinamentos Misteriosos, o sistema endócrino é um sistema glandular associado a sete grupos de glândulas; essas glândulas, por sua vez, são associadas aos sete centros de poder do corpo humano. Nesse sistema, vemos a relação entre o corpo físico e o etéreo. O sistema endócrino tem como função produzir e liberar vários hormônios na corrente sangüínea, necessários para o perfeito funcionamento do corpo, Secreções endócrinas regulam a atividade corporal, controlam o crescimento e coordenam a relação entre os impulsos nervosos e as respostas no corpo como um todo.

No nível metafísico, as glândulas servem para dissipar as emanações astrais e divinas canalizadas pelo Centro Divino a cada um dos centros de poder. A função oculta das glândulas pineais é regular as emanações recebidas de luz etérea do Centro Divino coletadas no interior de cada centro de poder. No nível metafísico, as glândulas pineais servem ainda para regular a energia que o corpo etéreo retira de cada centro (para manter sua própria forma).

A tireóide regula a sensibilidade a sensações físicas, psíquicas e etéreas. O timo e o pâncreas coordenam o fluxo e a resposta a correntes de energia associadas ao plexo solar. Esse plexo funciona como uma teia de energia sentindo o estímulo das energias sobre ele, e é regulado pelo baço. As supra-renais mantêm a relação entre os instintos básicos e os princípios espirituais mais elevados.

Quando estimulados, somos inundados por sinais para atacar ou fugir. Reagimos a isso de acordo com nossa natureza espiritual. As gônadas influenciam as relações entre nossos desejos físicos e psíquicos. A energia desse centro, portanto, afeta nossa criatividade tanto de natureza física como mental.

É interessante notar que os ocultistas associam o plexo solar à clarividência. Através desse centro, o corpo é alimentado com energia etérea do Sol, da Lua e das estrelas. Acredita-se que o corpo astral esteja conectado à carne pelo fígado.

O fígado serve para filtrar elementos da corrente sangüínea e também das energias que passam por seu equivalente etéreo. Por essa razão os antigos utilizavam o fígado em suas adivinhações. Anormalidades no fígado refletiam os padrões contidos na energia cósmica que flui através do corpo astral.

No ocultismo, todas as manifestações no plano físico acontecem antes no plano astral. Assim, a aparência física do fígado refletia padrões astrais ainda não manifestos. Os estrucos, talvez mais do que qualquer outra civilização, elevaram esse tipo de adivinhação a uma arte, da qual eram mestres."



Publicado em:29.06.08

Palavras Iniciais

            Já que vimos falando de Meditação durante algumas semanas, abaixo exponho o pensamento de Jidhu Krishnamurti a respeito, onde estabelece um paralelo com a Mente religiosa, o que ele considera Mente religiosa, o que vem a ser o intelecto e do que é composto.


A MENTALIDADE RELIGIOSA

Saanen - IX - Krishnamurti

Durante estas palestras, estivemos tratando de muitos assuntos e penso que deveríamos considerar nesta manhã o que é a mente religiosa. Desejo examinar esta questão com certa profundeza, porque creio que essa mente pode resolver os nossos problemas, não só os problemas políticos e econômicos, mas também os problemas mais fundamentais existência humana. Antes de começarmos, acho oportuno repetir que já dissemos noutra ocasião, ou seja, que a mente séria é a mente que está decidida a penetrar até à raiz das coisas, para descobrir o que, nelas, há de verdadeiro e de falso; a mente que não se detém meio caminho e não se deixa distrair por considerações de outra ordem. Espero que nesta concentração tenha ficado suficientemente demonstrado existirem pelo menos uns poucos que são ardorosos e capazes disso.
Estamos todos bem familiarizados com a presente situação mundial, sendo desnecessário que nos falem dos embustes, da corrupção, das desigualdades sociais e econômicas, do perigo de guerras, da perene ameaça do Oriente contra o Ocidente, etc. Para se compreender toda esta confusão e produzir a claridade, deve haver uma radical transformação da mente em si, e não apenas uma reforma de remendos ou mero ajustamento. Para abrirmos caminho através dessa confusão existente não apenas no exterior, mas também dentro em nós; para enfrentarmos eficazmente as crescentes tensões e exigências, necessitamos de uma revolução radical na própria psique, de uma mentalidade inteiramente nova.
Para mim, revolução é sinônimo de religião. Com a palavra “revolução” não me refiro a imediatas reformas econômicas ou sociais, porém a uma revolução na própria consciência. Todas as outras formas de revolução, seja comunista, seja capitalista, seja qual for, são puramente reacionárias. Uma revolução na mente — que significa total destruição do que foi, para que a mente se torne capaz de ver sem deformação e sem ilusão o que é verdadeiro — essa é a ação própria da religião. Penso que a mente real, a verdadeira mente religiosa, existe, pode existir. E ela pode ser descoberta por quem nisso penetrou com profundeza. A mente que deitou abaixo, que destruiu todas as barreiras, todas as mentiras que lhe impôs a sociedade, a religião organizada, o dogma, a crença, e passou além para descobrir o verdadeiro, essa é a verdadeira mente religiosa.
Consideremos, pois, em primeiro lugar, a questão da experiência. Nosso intelecto resulta de experiência secular; o intelecto é o depósito da memória. Sem essa memória, sem essa acumulação de experiência e conhecimento, ser-nos-ia completamente impossível funcionar como entes humanos. A experiência, a memória, são obviamente necessárias num certo nível. Mas, por igual me parece óbvio que toda experiência baseada no condicionamento pelo saber, pela memória, é necessariamente limitada. Por conseguinte, a experiência não é fator de libertação. Não sei se já pensastes nisso.
Toda experiência é condicionada pelas precedentes. Portanto, não há experiência nova, porque cada experiência traz sempre o colorido do passado. No próprio processo de experimentar existe a deformação proveniente do passado, sendo o passado: conhecimento, memória, várias experiências acumuladas, não só as individuais, mas também as da raça, da coletividade. Ora, é possível rejeitarmos toda essa experiência? Não sei se já considerastes a questão da rejeição, o que significa rejeitar uma coisa. Significa capacidade para rejeitar a autoridade do conhecimento, rejeitar a autoridade da experiência, rejeitar a autoridade da memória, rejeitar sacerdotes, igrejas, tudo que foi imposto à psique. Para a maioria de nós, só há duas maneiras de rejeitar — por meio do saber ou por meio de reação. Rejeitais a autoridade do sacerdote, da igreja, da palavra escrita, do livro, ou porque estudastes, investigastes, acumulastes outros conhecimentos, ou porque não gostais da coisa e reagis contra ela. Mas a verdadeira rejeição significa rejeitar sem saber o que acontecerá depois, sem esperanças para o futuro. Dizer: “Não sei o que é verdadeiro, mas isto é falso”, isso, decerto, representa a única rejeição verdadeira, porquanto não provém do conhecimento calculista nem de reação. Afinal de contas, se sabeis de antemão o resultado de vossa rejeição, trata-se então de mera troca, mera transação; por conseqüência, isso não é de modo nenhum a verdadeira rejeição.
Acho necessário compreender isso um pouco, examiná-lo com certa profundeza, porquanto desejo averiguar, por meio de rejeição, o que é a verdadeira mente religiosa. Tenho para mim que por meio da rejeição se pode descobrir o que é verdadeiro. Não se pode descobrir o que é verdadeiro por meio de asserção. É preciso limpar completamente a lousa de tudo o que é conhecido, antes que se possa descobrir o verdadeiro. Vamos, pois, averiguar o que é a mente religiosa, por meio da rejeição, isto é, por meio da negação, por meio do pensar negativo. E, evidentemente, não há investigação negativa quando a rejeição se baseia no conhecimento, na reação. Espero esteja bem claro isso. Se rejeito a autoridade do sacerdote, do livro ou da tradição, porque não gosto dela, isso é mera reação, porquanto substituo por outra coisa aquilo que rejeitei; e se rejeito porque possuo suficientes conhecimentos, fatos, informações, etc., nesse caso o meu saber se torna o meu refúgio. Mas existe uma rejeição que não é produto do conhecimento, porém proveniente da observação, do perceber uma coisa como é, o fato que ela é; e essa é a rejeição verdadeira, porquanto deixa a mente purificada de todas as suposições, ilusões, autoridades, desejos. É possível, pois, rejeitar a autoridade? Não me refiro à autoridade do policial, da lei do país, etc.; rejeitá-la seria estúpido, infantil, e nos levaria à prisão. Refiro-me, sim, à rejeição da autoridade imposta pela sociedade à psique, à consciência, muito profundamente; rejeitar a autoridade de toda experiência, todo conhecimento, de modo que a mente fique num estado de não saber o que acontecerá, sabendo apenas o que não é verdadeiro.
Se penetrardes até aí, isso vos dará um extraordinário sentimento de integração, de não vos estardes debatendo entre desejos contraditórios, em conflito. Ver o que é verdadeiro, o que é falso, ou ver o verdadeiro no falso, isso vos dá um sentimento de percepção real, vos dá clareza. Está a mente então numa posição uma vez que destruiu todas as seguranças, temores, ambições, vaidades, visões, propósitos, tudo — num estado em que se acha completamente só, não influenciada.
Por certo, para encontrar a realidade, encontrar Deus — ou o nome que preferirdes — a mente deve estar só, livre de influências, porque ela é então uma mente pura; e uma mente pura pode prosseguir. Ao ocorrer a destruição completa de todas as coisas que a mente criou em si mesma, como segurança, como esperança e como resistência contra a esperança — que é o desespero — etc., surge então, seguramente, um estado de destemor no qual a morte não existe. A mente que está só, está vivendo integralmente e nesse viver há um morrer a cada minuto; por conseguinte, para essa mente não existe a morte. Isso é realmente extraordinário para quem penetrou nesse estado; descobris, então, por vós mesmo, que a morte não existe. Existe, tão-só, aquele estado de austeridade pura, da mente que está só.
Essa solidão não é isolamento; não é fuga para uma torre de marfim; não é abandono. Tudo isso ficou para trás, foi esquecido, dissipado, destruído. Essa mente, por conseguinte, sabe o que é destruição; e precisamos conhecer a destruição, senão não poderemos achar nada novo. E que medo temos de destruir tudo o que acumulamos!
Há um ditado sânscrito: “As idéias são os filhos das mulheres estéreis”. E parece que a maioria de nós gosta de se entreter com idéias. Podeis estar considerando estas nossas palestras como uma troca de idéias, “processo” de aceitar idéias novas e abandonar idéias velhas, ou “processo” de rejeitar idéias novas e conservar as velhas. Não nos estamos ocupando com idéias, absolutamente. Estamos-nos ocupando com fatos. E quando estamos interessados nos fatos, não há ajustamento; ou aceitamos o fato, ou o rejeitamos. Podeis dizer: “Não gosto destas idéias, prefiro as velhas, e continuarei a viver no meu próprio padrão” — ou podeis aceitar o fato. Não podeis transigir, não podeis ajustar. Destruição não é ajustamento. Ajustar, dizer: “Devo ser menos ambicioso, não devo ser tão invejoso” — isso não é destruição. E devemos, decerto, perceber a verdade de que a ambição, a inveja, é feia, estúpida, e que é necessário destruir todos esses absurdos, O amor nunca ajusta. Só o desejo, o medo, a esperança, ajustam. Eis por que o amor é uma coisa destrutiva, pois se recusa a adaptar-se, a ajustar-se a qualquer padrão.
Começamos, pois, a descobrir que, havendo destruição de toda autoridade que o homem criou para si mesmo, no desejo de se pôr em segurança interiormente, há criação. Destruição é criação.
Em seguida, se abandonastes as idéias, e não vos estais ajustando a vosso próprio padrão de existência ou a um novo padrão que, pensais, este orador está criando — se alcançastes esse ponto, descobrireis que o intelecto pode e deve funcionar unicamente em relação às coisas exteriores, corresponder tão-só às exigências exteriores; por conseqüência, o intelecto se torna completamente tranqüilo. Isso significa que a autoridade de suas experiências terminou e, portanto, é incapaz de criar ilusões. E descobrir o que é verdadeiro, isso é essencial, para que termine o poder de criar a ilusão, em qualquer forma que seja. E o poder de criar a ilusão é o poder do desejo, do desejar ser isto e não desejar ser aquilo.
O intelecto, pois, deve funcionar neste mundo com raciocínio, com sanidade, com clareza; mas, interiormente, ele deve estar completamente quieto.
Dizem os biologistas que o cérebro levou milhões de anos para evolver até o seu estado atual, e levará outros milhões de anos para evolver mais. Mas a mente religiosa não depende do tempo para sua evolução. Eu gostaria que compreendêsseis isto. O que desejo transmitir é que quando o cérebro, o intelecto — que deve funcionar com suas reações à existência externa — se torna quieto interiormente, não existe mais o mecanismo de acumulação de experiência e conhecimento e, por conseguinte, o intelecto está completamente quieto, porém plenamente vivo e pode então saltar por sobre milhões de anos.
Vemos, pois, que para a mente religiosa o tempo não existe. Só existe o tempo quando um estado de continuidade passa para outro estado de continuidade e de realização. Quando a mente religiosa destruiu as autoridades do passado, as tradições, os valores que lhe foram impostos, é ela então capaz de existir sem o tempo. Está então plenamente desenvolvida. Porque, ao negarmos o tempo, negamos todo o desenvolvimento através do tempo e do espaço. Notai, por favor, que isto não é uma idéia; não é uma coisa para com ela nos entretermos. Se passastes por isso, sabeis o que é o amor, achai-vos naquele estado; mas, se não passastes por isso, podeis então apossar-vos destas idéias e entreter-vos com elas.
Vedes, pois, que destruição é criação; e na criação não existe o tempo. A criação é aquele estado em que o intelecto, tendo destruído todo o passado, está completamente quieto e, portanto, no estado em que não existe tempo nem espaço, para crescer, expressar-se, “vir a ser”. E esse estado de criação não é a criação de uns poucos indivíduos prendados — pintores, músicos, escritores, arquitetos. Só a mente religiosa pode encontrar-se num estado de criação. E a mente religiosa não é aquela que pertence a certa igreja, crença, dogma — essas coisas só podem condicionar a mente. Ir à igreja todas as manhãs e render culto a este ou àquele não vos torna uma pessoa religiosa, embora a sociedade respeitável possa considerar-vos como tal. O que faz a pessoa religiosa é a destruição total do conhecido.
Nessa criação há um sentimento de beleza; uma beleza não construída pelo homem; uma beleza que transcende o pensamento e o sentimento. Afinal, o pensamento e o sentimento são puras reações; e a beleza não é reação. Possui a mente religiosa aquela beleza — que não é a mera apreciação das montanhas graciosas, da torrente impetuosa, porém um sentimento bem diferente da beleza — e de par com ela está o amor. Não se me afigura possível separar a beleza do amor. Como sabeis, para a maioria de nós o amor é coisa dolorosa, porque é sempre acompanhado do ciúme, do ódio e dos instintos de posse. Mas esse amor de que falamos é um estado em que se acha presente a chama sem fumo.
A mente religiosa, pois, conhece essa destruição completa, total, e sabe o que significa achar-se num estado de criação, estado que não se pode comunicar. E nela existe o sentimento da beleza e do amor, que são inseparáveis. O amor não é divisível em amor divino e amor físico. É Amor. E não é necessário dizer que ele se acompanha, naturalmente, de um sentimento de paixão. Não se pode ir muito longe sem paixão — paixão, que é intensidade. Não a intensidade do desejar alterar algo, fazer algo, a intensidade que tem causa, de modo que se se remove a causa a intensidade desaparece. Não é um estado de entusiasmo. A beleza só pode existir quando há a paixão, que é austera; e a mente religiosa encontrando-se nesse estado, tem uma força de qualidade peculiar. Sabeis que, para nós, força é o resultado da vontade, de muitos desejos entrelaçados que formam a corda da vontade. E essa vontade, para a maioria de nós, significa resistência. O processo de resistir a uma coisa ou de buscar um resultado desenvolve a vontade e essa vontade é geralmente chamada força. Mas a força a que nos referimos nada tem em comum com a vontade. E força sem causa. Não pode ser utilizada, mas sem ela nada pode existir.
Assim, quando uma pessoa penetrou profundamente no descobrimento de si mesma, existe a mente religiosa; e esta não pertence a um dado indivíduo. Ela é a mente, a mente religiosa, separada de todas as humanas lutas, exigências, ânsias e compulsões individuais, etc. Estivemos apenas descrevendo a totalidade da mente, que poderá parecer dividida pelo emprego de diferentes palavras; mas ela é uma coisa total, na qual tudo se contém. Por conseguinte, essa mente religiosa pode receber aquilo que não é mensurável pelo intelecto. Essa coisa é indenominável; nenhum templo, nenhum sacerdote, nenhuma igreja, nenhum dogma pode conter. Rejeitar tudo isso e viver naquele estado, essa é que é a verdadeira mentalidade religiosa.

PERGUNTA: Pode a mente religiosa ser adquirida pela meditação?

KRISHNAMURTI: A primeira coisa que se deve compreender é que ninguém pode adquiri-la, ninguém pode obtê-la, e que ela não pode ser produzida pela meditação. Nem virtude, nem sacrifício, nem meditação, nada sobre a Terra pode comprá-la. O senso de alcançar, realizar, adquirir, comprar, deve cessar totalmente, para que ela seja. Não se pode fazer uso da meditação. A coisa de que estive falando é a meditação. Descobrir a cada momento da vida diária o que é verdadeiro e o que é falso, isso é meditação. A meditação não é uma certa coisa para a qual fugimos, uma certa coisa em que se nos dão visões e toda sorte de sensações; isso é auto-hipnose, infantilidade. Mas observar cada momento do dia, ver como o vosso pensamento está funcionando, ver o mecanismo de defesa em ação, ver os temores, ambições, a avidez, a inveja — observar tudo isso, investigá-lo a todas as horas, isso é meditação, ou faz parte dela. Sem se lançar a base adequada, não há meditação, e o lançamento da base adequada consiste em ser livre de ambição, inveja, avidez e todas as coisas que criamos em defesa própria. Não precisais procurar ninguém para dizer-vos o que é a meditação ou para receberdes um método. Posso descobrir com muita simplicidade, pela observação de mim mesmo, quanto sou ou não sou ambicioso. Ninguém me precisa dizer; eu o sei. Extirpar a raiz, o tronco, o fruto da ambição, vê-la e destruí-la totalmente — eis o que é absolutamente necessário. Vede, queremos ir muito longe, sem darmos o primeiro passo. E vereis, se derdes o primeiro passo, que ele é também o último passo — não há outro passo.

PERGUNTA: É verdade que não podemos servir-nos da razão para descobrir o que é verdadeiro?

KRISHNAMURTI: Senhor, que se entende por razão? A razão é pensamento organizado, como a lógica são idéias organizadas, não é exato? E o pensamento, por mais inteligente, por mais vasto, por mais erudito que seja, é limitado. Todo pensamento é limitado. Podeis observá-lo vós mesmos; isso não é novidade. O pensamento nunca pode ser livre. O pensamento é reação, reação da memória; é “processo” mecânico. Ele poderá ser razoável, poderá ser são, poderá ser lógico, mas é limitado. É como os computadores eletrônicos. E o pensamento nunca pode descobrir o que é novo. O intelecto adquiriu, acumulou, através de séculos, experiências, reações, lembranças; e quando essa coisa pensa, está condicionada e, portanto, não pode descobrir o novo. Quando, porém, esse intelecto compreendeu todo o processo da razão, da lógica, do investigar, do pensar — não rejeitou, mas compreendeu — então ele se torna quieto. E, então, esse estado de quietude pode descobrir o que é verdadeiro.
Senhor, a razão vos diz que deveis ter líderes. Tendes tido líderes políticos ou religiosos. Eles não vos conduziram a parte alguma, a não ser a mais sofrimento, mais guerras, maior destruição e corrupção... E se, interiormente, percebo o inteiro significado da autoridade, se a estudo, observo, examino, nunca rejeitando, nunca aceitando, porém vendo, cai então por si a autoridade.

Krishnamurti - 13 de agosto de 1961
Do livro: O PASSO DECISIVO – Ed. Cultrix


Publicado em:22.06.08

Palavras Iniciais

          Abaixo reproduzo o depoimento de Liliana Ferreira, Doutora em Física da Radiação, entre outros Títulos, pela Universidade de Coimbra-PT, sobre sua experiência com o Esoterismo em paralelo com sua atividade científica.

Além de muito bem fundamentado, contribui para que se eliminem as barreiras preconceituosas que existem por parte de alguns "cientistas", classificando o Esoterismo como ciência embora não seja sujeito a experiências fisicamente comprováveis, a não ser a própria experência e vivência.

Vale a pena ser lido e relido.


Esoterismo de Verdade

Ciência e Esoterismo uma vivência pessoal

Algumas pessoas têm manifestado certa estranheza pelo fato de conciliarmos um trabalho profissional de docência e investigação na área da ciência experimental (principalmente) no campo da Física com a colaboração em atividades que têm um pano de fundo de assumida filosofia/ciência esotérica. Pareceu-nos, assim, útil clarificar o modo como tal conciliação é possível. Para o efeito, colocaremos e tentaremos responder a algumas perguntas com que sou confrontada, seja explicita ou implicitamente.
Será que existe antagonismo entre trabalhar na área da Ciência e, ao mesmo tempo, aprofundar o conhecimento do Esoterismo?
Não, de modo algum. A Ciência não tem resposta para as questões mais fundamentais do homem: “por que existimos?”, “por que sofremos?”, “por que existe o mal e a injustiça?”, “por que morremos?”… Há âmbitos que estão fora da possibilidade de esclarecimento da Ciência actual e que, contudo, levantam interrogações profundas e essenciais ao ser humano. Por isso, julgo natural que quem procura o sentido da vida em todas as suas implicações, o tente fazer por diferentes caminhos; e, pelo menos hoje, a Ciência, claramente, não preenche todos os requisitos necessários. Não podemos encolher os ombros e, simplesmente porque a Ciência não nos dá respostas, aceitar que elas não existem. Como também não devemos somente quedar-nos satisfeitos com a possibilidade de, num longínquo dia, a Ciência poder vir a ter resposta para todas essas questões (mesmo desejando que tal aconteça). “Quem pede, recebe; quem procura, encontra; ao que bate, abrir-se-á. 1″ Se queremos respostas, devemos procurá-las!
Por que procurei no Esoterismo a resposta a essas questões?
Bem, na verdade, a minha procura não começou pelo Esoterismo. Esse tem sido um encontro muito profícuo mas relativamente recente; tem 10 anos apenas, embora os últimos 5 tenham sido especialmente intensos. A minha procura consciente começou na adolescência e seguiu a via que me era mais fácil e acessível, a experiência religiosa, nomeadamente católica, e o estudo da teologia. Estive muitos anos ligada a movimentos católicos bastante exigentes em termos de estudo, reflexão e serviço. Foi uma caminhada muito bela em vários aspectos mas que acabou por me levar a perceber, com muita angústia e perplexidade, que a Religião Católica, a teologia e de um modo geral as “doutrinas” religiosas vigentes, são visões muito parciais, limitadas, circunscritas geográfica e culturalmente e, de facto, incapazes de dar respostas aceitáveis às questões mais profundas da humanidade.
No meio da perturbação e do desgoverno em que me sentia, tive a ventura de conhecer o Centro Lusitano de Unificação Cultural. Os livros e revistas editados pelo Centro, juntamente com outra literatura esotérica valiosa a que esta associação tem dado grande relevo e divulgação e, ainda, nos últimos anos, a realização de cursos de Esoterismo a que podem ter acesso todas as pessoas interessadas, abriram-me as portas para uma experiência de conhecimento e serviço absolutamente ímpar, de uma enorme profundidade e seriedade, e permitiram que começasse a trilhar o caminho de uma verdadeira compreensão do sentido da vida em toda a sua complexidade.
Então a Ciência e o conhecimento científico não são de grande ajuda nessa procura, uma vez que, pelo menos por agora, não nos esclarecem sobre as nossas questões mais fundamentais?!
Pelo contrário, julgo que são de uma grande ajuda e utilidade. Primeiro, porque a atitude da Ciência (digamos assim) face à Natureza constitui um exemplo importante a seguir. É que a Ciência busca constantemente conhecer e compreender a razão das coisas e dos fenómenos. Ela aceita partir de qualquer hipótese válida mas não se contenta com qualquer explicação ou teoria. Investiga incansavelmente, tentando explorar todas as facetas do universo físico, e reformula constantemente a sua compreensão do mesmo, actualizando-a de acordo com as evidências experimentais que vai descobrindo. De modo análogo, quem se questiona profundamente sobre a razão de ser da vida e de tantas coisas “aparentemente” inexplicáveis, não se deve contentar com meias respostas, com explicações toscas e “mal amanhadas”, com justificações “obscuras” e sem regra.
Outro aspecto muito importante é que a Ciência nos tem revelado que a Natureza não é, nem funciona, de forma “arbitrária”; pelo contrário, os efeitos (fenómenos, acontecimentos, etc.) que se observam têm causas que os originam e explicam, e esses efeitos repetem-se quando se dão as mesmas circunstâncias causais. A Natureza rege-se por leis, por mais estranhas que, por vezes, elas possam parecer aos nossos sentidos comuns. Não é por acaso que se consegue fazer voar uma máquina tão pesada como um Boeing 747. É porque se conhecem bem as leis e as forças que actuam sobre os corpos físicos e se sabe trabalhar e manipular correctamente as energias e as forças de acordo com esse conhecimento. Tudo o que até agora se descobriu na Natureza segue leis e causas explicáveis. Deste modo, não me parece que haja razão para acreditarmos que o que ainda desconhecemos seja arbitrário e possa ser manipulado “a belo prazer” de quem quer que seja. A actividade científica propõe-nos, portanto, um tipo de abordagem do “desconhecido” onde, com rigor e profundidade, se procura a causa, a explicação, a lei, sabendo que a ignorância é terra fértil para o engano, a manipulação, o abuso e a exploração.

Mas não há, logo à partida, um certo mal estar entre Ciência e Esoterismo, uma espécie de desconfiança mútua?

Se existe algum mal estar, creio que não é entre o Esoterismo e a Ciência. Existe, de facto, bem enraizado dentro de nós próprios, uma inquietude que nos vem de estarmos habituados a separar, em compartimentos completamente estanques, o que aprendemos e conhecemos com base na Ciência, por um lado, e, por outro lado, aquilo em que nos limitamos a acreditar, geralmente ligado à nossa experiência religiosa ou espiritual (talvez melhor: devocional), sem nos questionarmos sobre a sua razoabilidade. Na verdade, esta divisão entre o que compreendemos e aquilo em que acreditamos, tem sido muito cultivada no ocidente, sobretudo ao longo dos últimos séculos, tanto pela religiosidade comum como pela própria Ciência, de certa forma para permitir que ambas pudessem seguir caminhos independentes. Uma coisa é a fé, que não procura ou não precisa de justificação científica, seja porque é mera crença, seja porque é uma vivência muito profunda e, até certo ponto, intransmissível e indescritível; outra coisa é o conhecimento, de natureza diferente da fé/crença/vivência religiosa interior e, esse sim, totalmente dependente da verificação experimental ou de comprovação.
Ora, pode acontecer que, por ignorância (por exemplo, julgando que o Esoterismo é uma religião) ou, mesmo, por má fé, quem trabalhe na área da Ciência defenda a mesma divisão relativamente ao Esoterismo; no entanto, o Esoterismo sério não cultiva de todo essa atitude relativamente à Ciência. Muito pelo contrário! O que, aliás, constituiu para mim, no início, uma grande surpresa, admiração e, claro, satisfação.
O que descobri no Esoterismo que me leve a dizer isso?
Quem se aproxima do Esoterismo sério (que é muito diferente do que muita gente, até pelo que vê na televisão, supõe ser) não constata qualquer espécie de desconsideração pela Ciência ou de “menorização” da actividade científica. Depara-se, em vez disso, com o reconhecimento da sua importância e valorização. E mais ainda: ao contrário das religiões vigentes, ou melhor, da postura generalizada das Igrejas, o Esoterismo como que puxa pela própria Ciência, na medida em que a considera como um caminho indispensável para a evolução da humanidade (até por ajudar a desenvolver um pensamento rigoroso e exigente em termos de verdade e de exactidão). Julgo que este aspecto é de extrema importância e gostaria de o sublinhar vivamente, pois mostra que não existe, entre Esoterismo e Ciência, um muro muito alto como o que tem vindo a separar Ciência e Religião: é que para o Esoterismo a verdade deve ser procurada com a Ciência, não apesar da Ciência e muito menos sem ou contra a Ciência.
A actividade científica, que já se justificava inteiramente pela vontade e pela satisfação de desbravarmos o universo, contém também, segundo o Esoterismo, a nobreza de ser uma actividade humana incontornável para o progresso intrínseco (e não meramente tecnológico, pois) da humanidade. Isto dá um sentido muito mais profundo e belo a todo o esforço de conhecimento realizado no âmbito da Ciência e, em termos pessoais, deu um sentido novo às minhas tarefas profissionais, e deu firmeza e confiança à determinação de aprofundar o sistema esotérico.
Mas não há uma clivagem entre a investigação e compreensão do universo que a Ciência traduz em leis e uma postura que, por impossibilidade de verificação directa das afirmações do Esoterismo, acaba por cair numa espécie de crença?
A postura que é pedida a um estudante de Esoterismo não é de modo algum a crença nas afirmações do Esoterismo. O Esoterismo tem uma abarcância colossal quando comparada com o objecto da Ciência actual. A Ciência, como sabemos, estuda apenas o universo físico e as relações entre seres e fenómenos cuja manifestação se dá no contexto material/energético em que vivemos, desde o nível intra-atómico até ao das estruturas galácticas. A filosofia esotérica engloba definidamente esse pequeno subconjunto que ocupa a Ciência e estende-se muito para além dele, apresentando todo um sistema hierarquizado de planos de diferente materialidade ou frequência vibratória, com universos dentro de universos existindo em ritmos, ciclos e com correlações e correspondências que respondem a leis de equilíbrio e rigor extraordinárias. A Natureza é muito mais completa e complexa do que sonha a Ciência actual mas tudo na Natureza é regido por leis que devem ser objecto de estudo, investigação e verificação experimental! A um estudante de Esoterismo não se pede crença; pede-se, sim, estudo, investigação, conhecimento - e, em suma, compreensão!
Nesse caso, se tanto a Ciência como o Esoterismo afirmam a existência de leis e da investigação como meio de aprofundamento, a diferença está só no objecto de estudo?
Não, não: as metodologias também são substancialmente diferentes. O método científico parte do particular para o geral, dos efeitos que podemos observar, quer directamente, quer através de instrumentos de medida cada vez mais potentes, para a descoberta das suas causas. Fá-lo adaptando modelos à realidade e testando-os até à formulação de leis gerais que traduzem os fenómenos observados. Pelo contrário, no fundamental, o Esoterismo parte do geral para o particular, da causa para o efeito, das grandes leis para as suas consequências no mundo dos fenómenos. A Ciência usa o método empírico: vai da observação de muitos factos experimentais para a compreensão global dos fenómenos e para a formulação de leis. O Esoterismo usa o método sintético: parte de grandes leis e afirmações gerais, e a sua compreensão e comprovação vai-se desdobrando e desenvolvendo em múltiplas matizes e consequências em cada plano de materialidade ou, se quisermos, em múltiplos sistemas ou vidas. Assim, o objecto de estudo da Ciência, o mundo material/energético físico, corresponde ao nível de desdobramento ou existência mais denso de todos os planos ponderados pelo vastíssimo sistema esotérico.
Mas como é que pode haver estudo, investigação e comprovação de leis em âmbitos que estão muito além das nossas capacidades de verificação experimental?
A compreensão desse ponto é de vital importância. Repare-se que a investigação e a comprovação de leis estabelecidas está intimamente relacionada com a natureza dos factos que estamos a ponderar e também com o seu grau de abrangência e complexidade. Cada caso específico exige a linguagem e os conhecimentos adequados. Dou um exemplo. Se quisermos provar que num triângulo rectângulo o comprimento da hipotenusa está relacionado de um modo matemático preciso com o comprimento dos catetos, é necessário estudarmos a linguagem e alguma axiomática da matemática. Mas não é necessário tirarmos um curso superior de matemática. E também não tem sentido usarmos a axiomática de outro ramo da Ciência. Se quisermos agora demonstrar uma lei mais geral da Natureza, por exemplo, a lei da gravidade, que reina em todos os cantos do universo por nós explorado, já o assunto se torna mais complexo. Neste caso há muito mais implicações a ponderar e, embora seja uma lei que, literalmente, nos faz “tropeçar” muitas vezes, só quem estuda física e matemática em profundidade pode chegar a demonstrá-la. E mesmo assim, é fácil verificar experimentalmente a validade desta lei no planeta Terra mas muito poucos a experimentaram na Lua e mais ninguém em qualquer outro planeta do universo - sendo, contudo, considerada como uma lei universal. Ou seja, quanto mais complexa e abarcante é a lei ou a realidade envolvida, mais profundo e continuado tem que ser o estudo e a investigação e menos imediata e directa é a sua comprovação.
Agora apliquemos ao caso do Esoterismo. As suas afirmações, pela natureza englobante e causal que possuem, não podem por nós ser demonstradas por evidência directa (o que, atenção, é muito diferente de dizer que nunca chegaremos ao seu conhecimento por se tratar de um “mistério”!). Segundo o Esoterismo, a Natureza segue o mesmo tipo de evolução desde o universo até ao mosquito, para usar uma expressão consagrada, de acordo com um axioma importantíssimo “como é em cima, é em baixo”, como é no macrocosmos é no microcosmos, como é nos planos mais internos, é nos mais externos e densos. Assim, as suas leis e afirmações devem ser objecto de um estudo continuado e perseverante, em que os grandes axiomas são ponderados e desdobrados nas suas múltiplas consequências até atingirmos, sempre por correspondência, os planos e subplanos de manifestação acessíveis à nossa experiência directa, enquadrando-se aí os muitos factos e experiências da nossa vida cujo sentido buscamos.
Não é uma tarefa muito difícil?…
É, sobretudo, uma experiência arrebatadora, não sendo propriamente de carácter emotivo, pelo menos no sentido mais superficial. Na verdade, à medida que vamos aprofundando o nosso conhecimento do sistema esotérico através do estudo e da reflexão, a nossa consciência vai-se expandindo e adquirindo uma capacidade notável para abarcar e compreender realidades cada vez mais profundas e internas, permitindo que elas se vão estabelecendo de modo gradual mas firme na nossa mente. Não há aqui crença, nem tiques visionários, nem golpes de magia. Há determinação, estudo e ponderação.
Não será abusivo falar-se em Ciência Esotérica ou Conhecimento Oculto?
Não, não, de modo algum. É uma verdadeira ciência pois resulta do estudo exaustivo, experimental e muito aprofundado da Natureza, em toda a sua complexidade e diversidade, e que vem sendo realizado desde há “eras incontáveis”, como diz a tradição oculta. E está encoberto por um véu que se irá dissipando apenas e justamente na medida em que a humanidade seja capaz de atingir o nível de consciência, de elevação ética e de serviço que lhe permitam saber usar correctamente esse conhecimento.
Como é que apareceu todo o manancial de conhecimento de que o Esoterismo dispõe?
O ensinamento esotérico tem raízes multimilenares, perdidas no tempo. Contudo, esse ensinamento tem sido reafirmado e actualizado na sua formulação, tanto a oriente como a ocidente, por seres humanos mais avançados na caminhada evolutiva e por outros seres que, tendo já ultrapassado a etapa humana, têm tido a especial tarefa de ajudar a humanidade terrena no seu processo evolutivo.
Esse aspecto, da existência de seres superiores ou Mestres, não é uma “pedra de tropeço” para o Esoterismo, tanto na sua relação com a Ciência como com as outras religiões e mesmo com filosofias liberais?
Por vezes, talvez seja, sim, mas a esse propósito gostaria de chamar a atenção para uns quantos aspectos. Primeiro, todos sabemos que alguns seres humanos são mais evoluídos que outros. Têm capacidades extraordinárias como músicos, pintores, cientistas, bailarinos, escritores, etc. e, por vezes, possuem também uma notável estatura ética, o que os torna realmente singulares. Por outro lado, a humanidade não é o único grupo de seres existentes no planeta e não vejo razão, nem nenhuma religião ou filosofia me convenceu até hoje do contrário, para que a evolução dos seres terrenos termine no homem e não haja patamares evolutivos superiores ao do reino humano. Como pessoa ligada ao trabalho e reflexão científica, do mesmo modo que admito a hipótese de existência de vida noutros cantos do universo, enquanto tal não for claramente refutado, também me parece razoável que a evolução da Natureza conduza a humanidade a estados superiores de evolução, estados esses que já terão sido atingidos por alguns, cujo estatuto evolutivo leva a serem reverenciados como Mestres ou Irmãos Maiores.
No entanto, devo dizer que em nenhuma página da mais séria literatura ocultista li qualquer referência a realizar-se “culto” a esses Mestres. Coisa muito diferente, e em voga, é o que está a acontecer em algumas seitas, grupos espíritas e de “nova era”, que chamam mestres “a torto e a direito” (perdoe-se-me a crueza da expressão) a seres encarnados e desencarnados mas ainda bem vinculados à etapa humana e, portanto, necessariamente limitados. Em Esoterismo, só existe o culto pela verdade. Os autênticos Mestres, esses Irmãos Maiores que já atravessaram a etapa humana, são admirados e reverenciados pelo seu extraordinário exemplo, por serem possuidores de um conhecimento muito mais profundo e abarcante e por continuarem a disponibilizar toda a ajuda à humanidade.
Colaborar com um grupo de vertente esotérica não é colaborar com seitas?
As seitas são associações (religiosas, políticas ou outras) onde “verdades muito parciais”, limitadas e separatistas, são defendidas sem ciência, sem questionamentos, por pura “crença” e onde o sentido de fraternidade se restringe aos membros da própria associação.
Um grupo de vertente esotérica é necessariamente um grupo de estudo e aprofundamento das leis e das causas que estão por detrás de todas as manifestações de vida mas é também um grupo de serviço à causa da fraternidade universal, tanto mais quanto mais consciente é da raiz e razão de ser dessa fraternidade. Trata de aprofundar a grande Sabedoria Milenar, e essa Sabedoria integra, dá fundamento e ao mesmo tempo sintetiza a multiplicidade de expressões religiosas, filosóficas, éticas, estéticas e científicas que têm caracterizado a diversidade da actividade e dos anseios da humanidade desde sempre.
Mas aceita que o mundo do espiritualismo está povoado por pessoas crédulas, frustadas, incultas, mal informadas e que gostam da exibição sensacionalista e afirmações cheias de ligeireza?
Infelizmente, essa é uma triste realidade. Nos dias de hoje, proliferam e propagandeiam-se as mais variadas experiências de fenómenos “paranormais” (sendo a maioria pura charlatanice), onde se induzem estados psíquicos de modo a controlar o emocionalismo das pessoas e obter certos resultados (aliás muito previsíveis, se reflectirmos bem) e se trabalham “energias cósmicas” (!) com um palavreado muito “científico” (pseudo-científico, claro). É pena que, por desconhecimento e ignorância da opinião pública e dos meios de comunicação social, essas experiências sejam muitas vezes denominadas de “esotéricas”. Na verdade, nada têm a ver com Esoterismo, são um tristíssimo engano, e quem as pratica pouco ou nada sabe dizer sobre as leis e princípios que diz seguir, fazendo sobretudo alarde dos seus “dons particulares” e tirando simplesmente partido do desnorteio e do sem-sentido de muitas vidas humanas. Esse é o mundo da fantasia enganadora. Não é o mundo do Esoterismo.
Neste sentido, enche-me de gratidão o difícil trabalho que o Centro Lusitano tem desenvolvido, chamando permanentemente a atenção para os logros em que é fácil cairmos nos dias de hoje. Estou a lembrar-me de umas palavras escritas em finais do século XIX, salvo erro pelo Mahatama Koot-Hoomi, que traduzem muito bem a importância desse trabalho e a razão da minha gratidão: “… as sugestões mais valiosas deixariam de alcançar as mentes daqueles que buscam a verdade, pois uma pérola solitária logo desaparece no meio de um monte de falsos diamantes quando não há joalheiro que chame a atenção para o seu valor.”
Liliana Ferreira
Licenciada em Física; Doutorada em Física da Radiação; Professora no Departamento de Física da Universidade de Coimbra; Investigadora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
1 Mateus, 7, 8.
2 Cartas dos Mahatmas para A.P. Sinnett, Vol. I, Ed. Teosófica, 2001,pág. 195

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Publicado em:15.06.08

Palavras Iniciais

        Em 11.05 sob o título de 'Irmãos das Estrelas', na seção de Artigos e Opiniões, publicamos matéria que fazia menção ao presente tópico, onde nas Palavras Iniciais fizemos menção especificamente aos exemplos de Elias e de Enoch.

A presente matéria, além de complementar aquela, acrescenta ainda dados interessantes a respeito das estruturas das Pirâmides e das línguas hebraica e egípcia com a estrutura harmônica dos sons.


AS CHAVES DE ENOCH
PELO GRUPO PESQUISAS SOCIEDADES SECRETAS

As chaves de Enoch (trechos extraídos de Paul White) "Nada é mais estranho do que a verdade".

O sacerdote-cientista Enoch, é um patriarca pré-diluviano, um dos personagens mais famosos do ciclo anterior do tempo. Pai de Matusalém e avô de Noé, é creditado na Bíblia como arquiteto do Zion original , a legendária "cidade de Yahweh".(gen 5:21 a 24)

Nota: É tradição que Enoch não tinha morrido , mas tenha sido levado por Deus para fora do mundo (sab 4,10, Hebr 11,5), como Elias ( 2R 2,3-12).

Os dados conhecidos desse patriarca fizeram dele um protótipo da piedade hebraica e seu nome aparecerá como autor de numerosos apócrifos. A Enoch é creditado também a invenção do alfabeto e do calendário e considerado o primeiro astronauta da história por algumas escolas de mistério, que é "elevado ao senhor" e lhe mostrado "os segredos da terra e do céu". Ele volta à terra com "pesos e medidas" para toda a humanidade. Conhecido pelos egípcios como Thoth , o "Senhor da Magia e do tempo" e pelos gregos como Hermes , "mensageiro dos Deuses" , ele é mesmo lembrado na tradição Celta como nosso enigmático mago Merlim , que desaparece em uma macieira para a mítica Avalon , buscando o segredo da imortalidade e prometendo voltar.

Como aqueles que atingem a imortalidade , o segredo de como "podemos nos tornar como os Deuses", Thoth/ Enoch prometem retornar no fim dos tempos "com as chaves dos portões das terras sagradas".

Nos Manuscritos do Mar Morto , revelando os livros apócrifos de Enoch removidos da Bíblia pelos iniciais líderes religiosos, Enoch descreve uma maravilhosa civilização no passado que usou mal as chaves do mais elevado conhecimento e foi incapaz de se salvar do último cataclisma. Ambos figurativa e literalmente eles perderam "as chaves" , e todo o alto conhecimento. E ainda , Enoch, ao longo de muitas tradições , mesmo a lenda Maia de Quetzacoatal, promete um retorno deste conhecimento no "Fim do Tempo", o fim do presente ciclo de tempo. As Revelações Bíblicas prometem que "tudo será revelado" no fim do presente mundo , descrevem não apenas uma tecnologia avançada , mais um caminho evolucionário além do nosso estado presente.

Um cuidadoso exame dos sítios chave mundiais de pirâmides revelam que eles são sofisticadas estruturas harmônicas, não somente espelhando as posições dos planetas e sistemas estelares, mas destinados a representarem os pontos vitais (chakras) e cavidades harmônicas do corpo humano. Mesmo cada pedra dentro da Grande Pirâmide é harmonicamente sintonizada a uma freqüência específica ou tom musical. O sarcófago no centro da Grande Pirâmide é sintonizado à freqüência do batimento cardíaco humano.

Surpreendentes experimentos , realizados pelo doutor Hurtak e seus colegas na Grande Pirâmide e em outros sítios da América do Sul , demonstram que as pirâmides "computadores geofísicos" são ativados pela voz. Ao entrar específicos sons antigos, a equipe científica produziu ondas de luz visíveis acima e dentro das pirâmides e foram capazes de penetrar desta forma em câmaras inacessíveis. Descobertas subseqüentes indicam que os antigos cientistas – sacerdotes empregavam algum tipo de tecnologia harmônica de som dentro das estruturas do templo. O conhecimento sobre Enoch revela a língua mãe como uma "linguagem de ondas".
Conhecida pelos antigos como Hiburu , esta é a primária semente de linguagem, introduzida no início deste ciclo de tempo.

A pesquisa moderna confirma , a forma mais antiga de hebraico era uma linguagem natural, as formas alfabéticas emergindo dos padrões de fosfato do cérebro. As mesmas formas , de fato , nasceram de um vórtice giratório. Esta é uma verdadeira linguagem de ondas e luz , percorrendo nosso sistema nervoso. Codificando as geometrias naturais da forma onda do mundo físico, Hiburu é uma linguagem harmônica mimetizando as propriedades da forma onda de luz.

As "chaves de Enoch" falam, mostram ser sons chave, chaves para serem a matriz vibratória da própria realidade, omítico "Poder do Mundo".

O conhecimento Enochiano descreve equações sônicas , codificada dentro de antigos mantras e nomes de Deus , capazes de afetarem diretamente o sistema nervoso e produzirem um efeito profundo de cura e estados de consciência elevada. Como é declarado nos textos antigos, "se você deve falar com deuses você primeiro deve aprender a linguagem dos deuses", DNA, a antiga cabalística "Árvore da Vida" retratada na Bíblica Torah , está agora vindo a ser vista como uma estrutura vibrante viva , muito mais do que uma fita de registro fixa.
Muitos cientistas modernos falam a respeito do DNA como uma configuração capaz de ser modificada pela luz , radiação , campos magnéticos ou pulsos sônicos.

O legado de Thoth/Enoch sugere esta "Linguagem de Luz" a ciência harmônica dos antigos , pode afetar o DNA. A evidência no Egito , indica que este era o grande experimento genético de 6000 anos tentado pelos egípcios, a busca da imortalidade e das estrelas , uma busca descrita pelos grandes da antiguidade , uma busca iniciada por Gilgamesh a muito tempo atrás.

Os egípcios não se fixavam no após vida , como pensavam os iniciais tradutores cristãos mas, se concentravam em criar um tipo mais elevado de humano. O conhecimento de Thoth/Enoch implica em que os humanos tinham a intenção de evoluir além da presente forma terrestre , como nos ensina a Bíblia , "Nós podemos nos tornar maiores que os anjos".
Nota: mesmo no NT há registros de natureza divina e angelical ( João 10:34 a 38 e Cor 13: 1)

Os egípcios registram histórias de "Caminhantes das estrelas" , indivíduos ocasionais que como Enoch , viajaram "Além do Grande Olho de Orion" e voltaram , para andar como deuses entre os homens".
Segundo muitas lendas da terra , estes seres supostamente retornam regularmente, no início e no fim de cada ciclo, o ponto do meio de treze mil anos da nossa orbital zodiacal de vinte e seis mil anos de nosso sistema solar. Segundo o "Calendário em pedra" da Grande Pirâmide, que descreve o chamado "Ciclo Phoenix" de nossa órbita galáctica, o presente período de tempo termina por esta época. A palavra grega Phoenix , deriva da palavra PA-HANOK, significa , "A Casa de Enoch".

Extraido do grupo Pesquisas sobre Sociedades Secretas.

Autor: Grupo Pesquisas Sociedades Secretas



Publicado em:09.06.08


Palavras Iniciais Reproduzo abaixo matéria publicada na Lista do Yahoo "Seitas Secretas", recentemente.

Além de muito bem fundamentada é bastante rica em conselhos e práticas, principalmente por partir de um sacerdote.




Meditação Cristã


Meditação Cristã
Padre Domingos Cunha, CSh.

Tenho a alegria de partilhar com vocês um resumo que elaborei acerca da Meditação Cristã. trata-se de um tipo de meditação diferente daquela a que estamos acostumados na nossa tradição cristã ocidental, embora esteja nas raízes mais autênticas da oração da Igreja. Ouvi falar disso há cerca de um ano e meio, através de um leigo que fez eneagrama comigo e me  indicou algumas coisas a esse respeito. Procurei e comecei a experimentar pessoalmente. No retiro do Carnaval (AME), falamos disso pela primeira vez, de modo simples e incipiente. Serviu sobretudo, para mim, como incentivo para continuar buscando. Desde o final do ano passado,m venho praticando esse método de oração diariamente e, apesar do pouquíssimo tempo, posso testemunhar o quanto isso me tem ajudado.
Nos últimos tempos, tenho sugerido esse caminho a várias pessoas, jovens e adultas. Tem sido uma experiência realizada por muitos com alegria e descobertas  profundas. Muitos têm comentado algo no sentido de ' era isso que eu estava esperando há muito tempo'. Tudo isso me foi animando a buscar mais. Pesquisei vários livros a esse respeito. Tive a oportunidade de ler, no mosteiro de S. Bento de Olinda, as Conferências de João Cassiano, um padre do deserto que recolheu essa tradição dos antigos monges.
Trata-se de um caminho de oração simples e profundo, que ajuda a mergulhar no centro da pessoa, aí onde Deus habita e se deixa encontrar. É um caminho que faz parte da mais antiga tradição cristã, embora não tenha sido muito cultivado no Ocidente cristão. A Igreja do Oriente conservou esta tradição de forma bem mais cuidadosa. No entanto, ao longo da história do cristianismo ocidental, grandes nomes dão testemunho deste caminho de oração: além dos padres do deserto, podemos encontrar um gosto por esta oração em S. Francisco de Assis, na Nuvem do Não-Saber,  que por sua vez influenciou Santa teresa de Ávila e S. João da Cruz e, de modo  belíssimo, nos Relatos de um preregrino Russo. O padre Comblin afirma que este tipo de oração influenciou também a espiritualidade latino-americana. É realmente a oração dos pobres por excelência.
É um caminho  muito significativo para as pessoas de nosso tempo. Os jovens se encantam com ele. Muita gente busca caminhos de meditação fora da tradição cristã, talvez por não saber do tesouro que temos.

partilho com vocês este resumo, fruto de minha curiosidade pessoal e  animado pelos frutos que  já vou experimentando em minha prática de oração.

Um grande abraço do amigo,

Domingos Cunha
 
Meditação Cristã
Um Caminho para o Centro onde Deus habita

Comprei no aeroporto de Recife um livro sobre Meditação.  Li metade enquanto esperava o embarque e quando terminei a leitura durante o vôo, a senhora que estava sentada de meu lado e que de vez em quando já havia lançado um olhar curioso sobre o livro, me pediu se podia conferir. Depois lhe perguntei se tinha interesse pelo tema. Ela me falou de seu temperamento agitado e da correria de sua vida aos 73 anos de idade... e de sua curiosidade pela meditação, depois que soube que o prefeito de Recife fazia meditação duas vezes por dia e, mesmo sendo um homem ameaçado de morte e de agenda lotada no meio das solicitações da administração de uma metrópole, conseguia manter uma serenidade e uma alegria de viver e um espírito de humor responsáveis por merecer a admiração daquela senhora...

Acho que nunca tive tanta pena de ser tão curta uma viagem de avião... pois saí com vontade de ter conversado bem mais com aquela senhora, quem sabe até Manaus, para onde ela ia a serviço do Conselho Nacional de Saúde. Mas continuei pensando que os frutos da meditação, descritos nos livros de forma sutil e de forma incipiente já sendo saboreados na minha experiência de iniciante desta prática, eram visíveis e capazes de despertar admiração e interesse numa senhora cheia de vida e de experiência, que no meio da idade tinha abandonado sua religião e agora se sentia motivada a buscar algo que novamente a religasse...

1.      A Meditação nos testemunhos da História

John Main foi um inglês do século passado. Andou pelo Oriente, nas suas atividades profissionais. Na Malásia, fez amizade com um monge budista e com este aprendeu a arte de meditar, exercitando-a com um ‘conteúdo’ cristão. Quando depois entrou no Mosteiro Beneditino de Londres, foi proibido de fazer esse tipo de oração... ‘porque não fazia parte da tradição cristã’, alegaram seus formadores. Obedeceu... mas passou os anos de obediência numa secura espiritual, pois o tipo de oração que lhe sugeriam não o ajudava a experimentar a comunhão com Deus que o caminho da Meditação lhe havia proporcionado. Obedeceu mas não se conformou... e mais tarde resolveu pesquisar para  tirar a dúvida e saber se essa tal meditação fazia parte ou não da tradição cristã. E encontrou respostas!
Foi lá no deserto de Tebaida, no Egito dos séculos IV em diante... e encontrou um punhado de gente que mergulhou em Deus e experimentou caminhos de oração profunda. Encontrou nas Conferências de João Cassiano, um nome grande entre os Pais do Deserto, a resposta que procurava: uma oração silenciosa, um tipo de oração contínua, que consistia em repetir uma expressão bíblica... caminho aconselhado para ajudar a centrar a pessoa em Deus, afastando-a das distrações da mente e do coração e do corpo.
E aí, caminhando pela senda fértil que do Deserto  desses mestres nos vem ao longo da história,  encontramos testemunhos ricos desse caminho de oração. Lá entre os Pais do Deserto, outros nomes assim rezavam e ensinavam a entrar em comunhão profunda consigo mesmos e com Deus. Santo Agostinho, na Carta a Proba (Carta X, 20),  fala de uma ‘novidade’ que os monges do Egito praticam em sua oração: repetem freqüentemente brevíssimas orações, ‘num abrir e fechar de olhos’. Agostinho musa o verbo ‘lançar’... como se os monges lançassem para o alto estas brevíssimas orações. Mais tarde, na tradição cristã,  a palavra ‘jacularória’, que também tem o sentido de ‘lançar’, vai se tornar bem popular na espiritualidade ocidental e assume também este sentido da oração praticada no deserto.  A Invocação do nome de Jesus, como forma de oração contínua que ‘O Peregrino Russo’ nos relata, insere-se nesta tradição espiritual. Mais tarde, ‘A Nuvem do Não Saber’ exalta a profundidade deste caminho. Sabemos também que S. Francisco de Assis considerava a oração repetitiva como algo melhor do que ler mil tratados espirituais, e que ele próprio passava as horas ‘ruminando’ seu alimento espiritual. Podemos saborear em Santa Tereza de Ávila e em S. João da Cruz um jeito de rezar que bebe nesta tradição, quando estes mestres nos ensinam a oração de quietude e de união. E basta lembrar o quanto as tradicionais ‘jaculatórias’ ficaram enraizadas na alma de nosso povo.
Esta é a oração dos Pobres... que também lhes foi tirada ao longo dos tempos, em troca de formas complicadas de rezar que a nossa mente ocidental racional, complexa e sofisticada, herdou dos gregos e foi refinando cada vez mais, tornando a oração inacessível às pessoas e distanciando-a do coração da gente, como algo fragmentado que dificulta a experiência de Deus.
A Igreja no Oriente preservou de forma bem melhor este tesouro de oração, talvez porque suas águas não se misturaram com a preocupação em conceitualizar e racionalizar...
E assim, apoiado e confirmado pela mais autêntica tradição da Igreja, John Main voltou à sua prática antiga e com ele um bom número de monges e grupos de leigos se juntaram para meditar regularmente.
Um dia ele acabaria afirmando: ‘Não pretendo  afirmar que a meditação seja a única forma  de atingir o cerne, o centro, o encontro profundo consigo mesmo e com Deus... mas afirmo que ela é a única maneira que encontrei’.

1.1. O que é Oração

Aquele jovem, ansioso por aprender a rezar, bateu na porta do Mosteiro e pediu que o abade, famoso mestre de oração, o admitisse no seu convívio, para que pudesse aprender formas de oração. Durante vários dias, aquele jovem acompanhava fielmente o mestre e, atento a todas as orações que ele fazia, as anotava cuidadosamente em seu caderninho. Um dia, depois de já se haver maravilhado bastante com a quantidade de orações que ouvira o mestre exercitar, aquele jovem assim falou para o abade: ‘ Quer dizer que se eu repetir essas orações que o senhor faz, do mesmo jeito que o senhor faz... Deus ficará mais perto de mim?!’.
O abade olhou o jovem e perguntou: ‘ Se você passar a noite rezando para que o sol nasça de manhã, é por causa da sua oração que o sol vai nascer?’
‘Não’, respondeu o jovem sem entender direito. ‘O sol nasce pela manhã, quer eu reze ou deixe de rezar’...
e, quando se deu conta da confusão que ia na sua cabeça, perguntou desiludido: ‘Então o senhor está dizendo que não adianta de nada rezar?!’
E o abade, pacientemente, explicou: ‘Não estou dizendo isso! Apenas quero dizer que o sol nasce pela manhã, quer você reze, quer você deixe de rezar para que isso aconteça. Mas, se você não acordar cedo para ver o sol nascer, ele nasce e você nem percebe!’

Por que rezamos ou para que rezamos? Para que Deus fique mais perto de nós? Não precisa disso! Deus sempre está perto de Deus, ao nosso lado, no meio de nós, dentro de nós, no mais íntimo de nós mesmos! Mas, se ‘não acordarmos cedo para ver o sol nascer, ele nasce e nós nem percebemos’. Se não pararmos para contemplar, perceber, saborear a presença de Deus em nós... ele continua aí, mas nós não o percebemos!
Nossa mente, viciada pela cultura da eficiência, também espera que a oração nos dê resultados imediatos, como qualquer outra ação onde recebemos o fruto de nosso esforço. Mas não é assim que funciona esse mundo da oração. Deus sempre está! A oração é ‘acordar cedo’, ficar desperto, estar atento, para acolher essa presença! Ainda nos ressentimos dessa idéia de fazer da oração uma lista de pedidos de papai Noel... e esquecemos que orar é sobretudo estar na presença de Deus. Não é algo que nós fazemos... mas é sobretudo algo que deixamos Deus fazer em nós.
Uma definição clássica diz que ‘oração é elevação da mente e do coração até Deus’. Poderíamos perguntar: ‘ e o corpo, onde fica ou o que vai fazer, enquanto a mente e o coração vão até Deus?’ Além disso, sabemos que, na realidade da nossa tradição ocidental, muitas vezes só a mente era elevada até Deus... ou talvez sendo mais precisos, levada a pensar em Deus. O coração ficava de fora. Assim, apenas uma parte de nós era elevada até Deus e nossa oração permanecia como algo fragmentado, incapaz de ajudar  a pessoa toda a saborear a presença de Deus.
‘Ficai tranqüilos e sabei que eu sou Deus’, diz o salmista (Sl. 46, 11). Talvez aí tenhamos uma boa definição de oração. Acalmar-se, centrar-se, harmonizar-se, serenar... essa é a nossa parte na oração. O resto... é ação de Deus e a nós apenas cabe experimentar, saborear, curtir. ‘Sabei que eu sou Deus’...  experimentai como Eu sou, saboreai minha presença, meu jeito de ser...
A Meditação responde a esta perspectiva de oração. Unifica o corpo, o coração e a mente... ajudando a pessoa toda a centrar-se em Deus, mergulhando no mais profundo de si mesma, aí onde Deus habita e se deixa encontrar.    Não nos detemos pensando em Deus, nem falando com Ele, nem pedindo... simplesmente permanecemos com Deus!  Estar com Deus... é como ir na praia e deixar-se bronzear pelo sol... ou como  saborear a presença silenciosa da pessoa amada...
Mariano Ballester, diz que ‘a oração mais profunda, mais pessoal, mais interior, mais mística, não é aquela que usa os artifícios de uma cultura sofisticada; ela não precisa de conceitos complicados nem de linguajar enfeitado. Ela não usa métodos refinados acessíveis somente depois de longo treinamento. Muito pelo contrário, ela é simples, e de uma simplicidade somente acessível aos simples’. [1]

1.2.  João Cassiano e o testemunho dos Pais do Deserto

João Cassiano, um nome grande entre os Pais do Deserto, cuja influência marcou S. Bento e muitas gerações de místicos ao longo dos séculos cristãos. Nasceu por volta do ano 360 na Scythia menor, onde hoje encontramos a Romênia. Entrou para o mosteiro de Belém mas logo peregrinou pelo deserto do Egito, bebendo na sabedoria de monges famosos. Aí entrou em contato com os seguidores de Orígenes e foi muito marcado por Evágrio. Amigo de João Crisóstomo, se alimenta também nos mananciais de S. Basílio e S. Jerônimo. Por sua vez, ele mesmo iria influenciar significativamente S. bento e S. Domingos, S. Bernardo e até nomes mais tardios, como João da Cruz e Tereza de Ávila e até mesmo Inácio de Loyola...
João Cassiano e seu companheiro de peregrinação pelos desertos, o monge Germano, estavam curiosos por descobrir um caminho para colocar em prática o mandato do apóstolo ‘orai sem cessar’ (1 Tes. 5, 17).E pegaram no pé do abade Isaac, até que este lhes revelasse o segredo da oração contínua: ‘desejamos que nos mostres algo pelo qual o espírito conceba uma idéia de Deus e a mantenha sem cessar diante dos olhos; se percebemos que nos afastamos, logo tenhamos o que nos lembre e voltemos depressa e recomecemos sem rodeios nem buscas penosas’[2]
Eles haviam experimentado a difícil tarefa de serenar a mente. Um anacoreta dessas épocas dissera um dia a Alexandre Magno: ‘ É mais fácil conquistar Reinos que dominar a si próprio’. No Bhagavad-Gita, livro sagrado da Índia, Arjuna, falando com Deus, assim se queixa: ‘a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e poderosa.Doma-la, me parece, é bem mais difícil que controlar o vento’.
‘se dos movimentos sensuais em que o espírito divaga, de momento a momento nós o reconduzimos ao temor de Deus e à contemplação, antes mesmo que ela se firme, escapa-nos mais depressa. E quando percebemos, como que acordando de um sono e nos esforçamos por faze-lo voltar àquela contemplação da qual se afastara, tentando, por uma aplicação imutável do coração, como que amarra-lo com correntes, eis que no meio de nossos próprios esforços, ele foge dos retiros profundos da mente, escorregando mais depressa que uma enguia. Deste modo, debatendo-nos em lutas diárias, nem por isso percebemos que alcançamos por elas alguma firmeza em nosso coração. Caindo em desespero, somos então levados a ver nossas divagações da alma não tanto como uma falha pessoal, mas um vício inerente à natureza humana’.[3]
A insistência dos monges era justificada pelo fato de  eles não possuírem ‘uma norma ou fórmula especial a ter diante dos olhos de modo estável, a  fim de que a mente vaga possa, depois de muitos giros e discursos vários, tornar a voltar e depois de prolongado naufrágio, entrar no porto tranqüilo’. [4]
Quando lemos as idas e vindas desses diálogos entre o abade Isaac e os dois monges curiosos, temos a sensação de que o antigo mestre reluta em entregar o segredo. ‘Foi-nos entregue pelos poucos que ainda restam dos mais antigos pais e só devemos transmiti-la aos raros e verdadeiramente desejosos de possuí-la’.[5]
E assim, feita esta misteriosa introdução, o abade Isaac abre o jogo dizendo: ‘queremos então entregar a fórmula da contemplação espiritual. Fixai sempre nela tenazmente o olhar e aprendei a incansavelmente revolve-la na mente para. Mediante seu uso e meditação, subirdes a conhecimentos mais sublimes. Dou-vos a fórmula da oração que pedistes. Cada monge deve medita-la, remoendo-a incansavelmente no coração, para que, expulsos todos os vários pensamentos, tenda á contínua lembrança de Deus’.[6]
E o segredo era tão somente este: repetir, continuamente, o versículo do salmo: ‘Deus, vinde em meu auxílio; Senhor socorrei-me depressa’ (Sl. 69,2)
‘Inúmeras e variadas divagações perturbam-me pela instabilidade do coração e não consigo impedir a dispersão dos pensamentos; não posso fazer minha oração sem interrupções e vãs fantasias de figuras, de palavras e de coisas que fiz. Sinto então tamanha aridez que me é obstáculo a que conceba o menor pensamento espiritual. Para obter libertar-me desta secura do espírito, já que os muitos gemidos e suspiros não a vencem, é-me preciso suplicar: ‘Deus, vinde em meu auxílio; Senhor socorrei-me depressa’.[7]
Aconselhando encarecidamente que ‘a meditação deste versículo sempre esteja em teu coração’ e que ‘ o sono te encontre a meditá-lo até que, formado pela incessante repetição, mesmo dormindo te acostumes a cantá-lo’[8], o abade Isaac exorta seus discípulos sedentos deste modo: ‘mantém o espírito sem cessar fixo nesta fórmula até que, formado pela constante meditação, rejeite e afaste toda a enorme soma de todos os pensamentos; restrito à pobreza desse versículo, chegarás, com acostumada facilidade, à bem-aventurança evangélica que ocupa o primeiro lugar: bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus’.[9]
O mesmo abade testemunha o fruto dessa prática dizendo: ‘agora experimento o rumo certo, estabilidade nos pensamentos, coração dilatado com indizível gáudio e extasiado pela visita do Espírito Santo. Na abundância dos sentidos espirituais, de repente, à luz do Senhor, percebo a revelação de profundíssimos mistérios que, antes, me eram completamente ocultos. A fim que me seja dado permanecer por muito tempo neste estado, vou repetindo com insistência: ‘Deus, vinde em meu auxílio; Senhor socorrei-me depressa’.[10]
E encerrando suas revelações, o abade Isaac explicita ainda mais o teor desta  oração: ‘nela nenhuma imagem se mostra ao olhar, nenhuma voz, nenhuma seqüência de palavras. A intuição da mente toda em fogo, por inefável transporte do coração, faz surgir insaciável anelo; a mente, fora dos sentidos e de todo o visível, expande-se em gemidos e suspiros indizíveis diante de Deus’.[11]
Esta oração, no dizer do sábio monge, ‘leva aquela oração de fogo, por muito poucos conhecida e experimentada. E mais ainda àquele grau, que eu diria inefável, de oração, em que, ultrapassando a mente humana, não se distingue nem um som de voz, nem movimento da língua ou qualquer palavra. Mas toda ela, iluminada pela infusão da luz divina,  não usa do humano e pobre modo de falar, porém, fortemente  enfeixados todos os sentidos, jorra qual fonte copiosíssima para Deus, de modo indizível. Manifesta tanto em brevíssimo tempo que a mente voltada a si  não consegue repeti-lo com facilidade nem dele se lembrar’.[12]
Estas palavras que nos chegam das areias antigas do deserto, parecem trazer a intensidade das descrições de Teresa de Ávila quando tenta explicar sua experiência de oração... ou mesmo, por um momento, nos  parece poder ouvir o testemunho de algum monge budista ou de um moderno praticante da meditação falando de viagens astrais e de expansão da consciência.
O companheiro de Cassiano, extasiado com o ensinamento do mestre, exclama: ‘que será mais perfeito, mais elevado do que abraçar a lembrança de Deus numa resumida recitação e, pela repetição de um único versículo, sair dos limites visíveis e enfeixar de certo modo numa breve palavra todo o conteúdo da oração?’[13]
E quando conclui seu relato desta conferência com o abade Isaac, João Cassiano assim nos fala:’sua doutrina sobre aquele versículo, que entregara para formar os principiantes, nos encheu de admiração e de vontade de observa-la com a máxima constância. Mesmo porque a julgávamos fácil e compacta. Mas revelou-se, quando a pusemos em prática, muito mais difícil do que o método usado antes de passar salteando por todos os livros da Escritura sem qualquer obrigação de perseverar em alguns em nossa meditação’.[14]
Assim ficamos advertidos claramente a respeito da simplicidade deste caminho e, ao mesmo tempo, de sua dificuldade.
Na realidade, já o abade Sereno havia advertido estes jovens monges: ’somente depois de prolongado exercício e de práticas diuturnas, em que, segundo dizeis, trabalhastes em vão, é que ela (a mente) aprende por experiência a preparar4 os assuntos para a sua memória, para voltar sempre aos mesmos e adquirir a força de neles fixar-se’.[15]
No entanto, pesem as advertências realistas acerca da exigência da prática perseverante, João Cassiano assim termina suas considerações sobre oração: ‘Pode-se ter por certo que ninguém, por falta de estudo, está excluído da perfeição do coração. E a ignorância não é obstáculo para se alcançar a pureza do coração e do espírito, pois um modo curtíssimo está ao seu alcance, contanto que com leal e íntegra intenção guarde a contínua meditação deste versículo diante de Deus’.[16]
É assim que no deserto desses grandes mestres de oração, se explica o conselho evangélico que convida a ‘entrar no quarto, fechar a porta e orar a nosso Pai’: ‘suplicamos em nosso quarto, quando, afastado para longe do coração todo o tumulto dos pensamentos e solicitudes, em segredo e como que na intimidade, rezamos a portas fechadas se, de lábios cerrados, com todo o silêncio, suplicamos Aquele que perscruta não as palavras, mas os corações’.[17]
Aqui temos um tesouro belíssimo sobre a oração cristã. Talvez hoje fiquemos surpresos ao encontrá-lo, tão novo e tão significativo aos ouvidos de nosso tempo... e talvez até nos perguntemos, por que ficou escondido ou esquecido durante tanto tempo um tesouro tão valioso.
Trata-se de uma oração de comunhão profunda com Deus... aquela oração que o salmista nos testemunha: ‘minha alma aderiu a ti’ (Sl. 62,9); ‘ser unido a Deus é o meu bem’ (Sl. 72, 28)... ou aquele testemunho do apóstolo que nos lembra ‘quem está unido ao Senhor é um só espírito com Ele’ (1Cor. 6, 17).
‘Não há oração perfeita enquanto o monge tem consciência de si ou daquilo que ora’, dizia Santo Antão, lá pelos mesmos desertos. E o nosso já familiar Isaac sentenciava: ‘nunca reza quem, mesmo ajoelhado, se distrai com divagações’.

1.3.           A Oração do Nome de Jesus

A oração do nome de Jesus pode ser considerada como primeiro mantra cristão. Suas raízes vem lá dos desertos do Egito onde os monges antigos a praticaram e ensinaram.
‘A prece de Jesus era o esteio da vida de muitos padres do deserto. Para eles, era a arte das artes e a ciência das ciências. Eles acreditavam que a meditação sobre essa prece acabava levando o meditador à forma mais alta de perfeição humana. Para isso, os pré-requisitos eram humildade genuína, sinceridade, persistência e pureza. São Nilo, um mestre de oração, nos deixou instruções específicas para que possamos atingir a quietude necessária à eficácia da prece. Ao acordar, o monge deve ficar sentado por uma hora ou mais num banquinho baixo na solidão de sua cela e recolher a mente de suas perambulações externas costumeiras e levá-la ao coração através da respiração, que deve se manter ligada à seguinte prece: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim. Dizia-se que, quando praticada corretamente,  a prece de Jesus se tornava espontânea e instintiva como a respiração, acompanhando e purificando todas as atividades no decorrer do dia. Acredita-se que aprendendo a  rezar sempre, como foi dito a S. Paulo, mesmo no meio da atividade, os padres do deserto atingiam a estatura de Cristo e gozavam de  perfeita pureza de coração. Eles conheciam este estado como quies (repouso), a versão cristã do Nirvana, descrita pelo estudioso cristão Thomas Merton como capacidade de estar aqui e agora sem preocupações. Esse estado permitia que o eu superficial fosse purgado e favorecia a emergência gradual do eu verdadeiro e secreto, no qual o fiel e Cristo eram um só espírito. Ou, como diz São Nilo, o praticante seria capaz de abandonar... os muitos  e variados e se unir ao Um, o único e unificante, numa união que transcende a razão.’[18]
A tradição cristã oriental a preservou de modo bem mais carinhoso que o ocidente. Os Relatos  de um Peregrino Russo relatam esta prática  de forma belíssima.
‘Resumidamente trata-se de pronunciar uma fórmula concisa e clara em que entre o nome de Jesus. Ela é pronunciada com ritmo, para o que ajuda bastante unir a repetição ao ritmo respiratório ou às batidas do coração. É importante impor-se a disciplina de não deixar passar um só dia sem praticar, ao menos dentro de um período que oscile entre os 20 e os 30 minutos, a repetição do Nome, de um modo mais consciente e sentido em maior profundidade. Recomenda-se não variar a fórmula, que pode ser a tradicional “Senhor Jesus, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador” ou então unicamente o nome de Jesus. É preciso procurar que, pouco a pouco, a pronúncia do santo nome de Jesus se estenda aos diversos momentos da atividade diária. Prestar-se-ão a isso, em primeiro lugar, os períodos de tempo mais mecânicos, que requerem menos atividade mental: caminhar de um lugar para outro, trabalhar manualmente, esperar o ônibus, etc. cada vez mais, o Nome irá invadindo misteriosamente os tempos restantes da atividade diária até – como já mostramos – penetrar no próprio repouso noturno. [...] Começará a nascer espontaneamente uma etapa menos ativa, no sentido ocidental da palavra, em que a graça age muito mais diretamente. Podemos dizer que o nome de Jesus agora já não é pronunciado ativamente, porém, muito mais escutado como uma íntima vibração espiritual, que surge do coração da pessoa, de modo cada vez mais contínuo e inefável. Já é a atitude de oração contínua que estamos buscando. É também um modo silencioso de integrar oração e vida. Porque a oração de Jesus, em sua meta final, é muito mais que um simples método repetitivo: é o tesouro escondido que os padres do deserto procuravam ardentemente, empregando por vezes para isso a vida toda; um tesouro que se torna silêncio orante, ou solidão sonora, ou música silenciosa; é o que os Padres chamavam de hesychía.’.[19]
Este é o centro do método hesicasta, muito valorizado na tradição bizantina. O Peregrino Russo vai praticá-lo de modo admirável. Consiste essencialmente na descida apo coração por meio do Nome de Jesus. ‘Levar a mente ao coração’ ou ‘voltar a atenção da mente para o coração’, assim se fala deste método na tradição hesicasta.
O Peregrino Russo se tornaria, bem mais tarde, um representante emblemático desta tradição.  A publicação dos Relatos deste peregrino aparecem envoltas em obscuridade. Surgem pela primeira vez em Kazan, por volta de  1865 e depois em 1884 aparece uma edição mais cuidada. Estes relatos aparecem sem o nome de seu autor. O padre Paísius teria copiado o texto de um monge russo de Athos, cujo nome é desconhecido também. Possivelmente, os relatos foram escritos por um monge, a partir de entrevistas com o Peregrino.[20]
De acordo com a apresentação que de si mesmo o Peregrino faz  no terceiro relato, trata-se de um camponês simples, de trinta e três anos de idade que, depois de uma vida de desventuras, havendo perdido o avô, a casa que foi incendiada pelo irmão ciumento, a mulher que morre enferma... vende sua cabana, distribui o dinheiro pelos pobres e sai peregrinando e mendigando, carregando consigo uma bíblia, que restou da herança de seu avô, e uma Filocália – conjunto de pequenas orações dos Padres do Deserto. ‘Ao chegar à estrada me perguntei: - Para onde ir agora? Irei  primeiro a Kiev, me inclinarei diante dos santos de Deus e lhes pedirei para me ajudarem em minha infelicidade’. [21]
‘Pela graça de Deus, sou homem e cristão; pelas ações, grande pecador; por estado, peregrino sem abrigo, da mais baixa condição, sempre vagando de deu em deu. De meu, tenho às costas uma sacola de pão seco, na minha camisa a santa bíblia, e eis tudo’.[22]
Em seu primeiro relato, o Peregrino conta como despertou para o aprendizado da oração. Tendo escutado, durante um ofício, a leitura da carta de Paulo aos Tessalonicenses onde o apóstolo recomenda ‘rezai sem cessar’,  ele ficou ansioso para encontrar formas de viver esse apelo, tal como lá nos desertos antigos, os antigos monges já haviam sentido. ‘Estas palavras penetraram profundamente em meu espírito e eu me perguntei como era possível rezar sem cessar quando cada um de nós tem de ocupar-se de muitos trabalhos para seui próprio sustento. Procurei na Bíblia e li com meus próprios olhos aquilo que ouvira: É preciso rezar sem cessar (1 Ts. 5,17), rezar em todo o tempo, no Espírito (Ef. 6, 18), erguendo em todo o lugar mãos santas (1 Tm. 2,8). Por mais que refletisse, não sabia o que decidir. O que fazer? Pensava. Onde achar alguém que possa explicar-me estas palavras?’[23]
Aí começou uma longa busca que o Peregrino relata de forma bem pormenorizada. Ouviu muitos sermões mas neles nada aprendeu além de palavras bonitas sobre a oração. Procurou um camponês simples com fama de homem piedoso mas também este nada acrescentou aos elogios sobre o valor da oração. Por fim, encontrou um velho monge que assim respondeu ao relato de suas buscas frustradas: ‘Não é de espantar que tu nada tenhas ouvido de mais profundo sobre o ato de rezar e que não tenhas podido aprender como chegar a essa atividade perpétua. Na verdade, prega-se muito sobre oração e sobre esse assunto há numerosos trabalhos recentes, mas todos os critérios de seus autores se fundamentam sobre a especulação intelectual, sobre os conceitos da razão natural e não sobre a experiência alimentada pela ação; eles falam mais dos acessórios da oração do que de sua própria essência. Um explica muito bem porque é necessário rezar; outro fala do poder e dos efeitos benfazejos da oração; um terceiro, das condições necessárias para rezar bem, isto é, do zelo, da atenção, do calor do coração, da pureza de espírito, da humildade, do arrependimento que é necessário possuir para se pôr em oração. Mas, o que é oração e como aprender a rezar – a essas questões, entretanto, essenciais e fundamentais – é raro encontrar uma resposta nos pregadores de nosso tempo, pois são muito mais difíceis do que todas as suas explicações e exigem, não um conhecimento escolástico, mas um conhecimento místico, E, coisa mais triste ainda, essa sabedoria elementar e vã conduz a medir a Deus com uma medida humana. Muitos cometem um grande erro quando pensam que os meios de preparação e as boas ações geram a oração, quando na realidade é a oração que é a fonte das boas obras e das virtudes.’[24]
E, depois de assim discorrer durante o caminho que conduziu o monge e o peregrino ao mosteiro, assim o velho monge entregou o segredo da oração contínua: ‘A interior e constante oração de Jesus é a invocação contínua e ininterrupta do nome de Jesus, com os lábios, com o coração e com a inteligência, no sentimento de sua presença, em todo o tempo, em todo o lugar, mesmo durante o sono. Esta oração se exprime pelas palavras: Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim!  Aquele que se habitua a esta invocação sente uma grande consolação e a necessidade de rezar sempre essa oração; depois de algum tempo, ele não pode passar sem ela e por si mesma a oração brota nele’.[25]
Mais na frente, o sábio monge, a partir da Filocália, explica uma passagem de São Simeão, o Novo Teólogo, como ficou conhecido  o monge do séc. XI, um dos maiores místicos da Igreja  Grega: ‘Permanece sentado no silêncio e na solidão, inclina a cabeça, fecha os olhos; respira mais devagar, olha, pela imaginação, para o interior de teu coração, concentra tua inteligência, isto é,  teu pensamento, da tua cabeça para o teu coração. Dize, ao respirar: Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim, em voz baixa, ou simplesmente em espírito. Esforça-te para afastar todos os pensamentos, sê paciente e repete muitas vezes esse exercício’.[26]
E assim, o nosso Peregrino passou a experimentar... e seus relatos dão belíssimo testemunho dos frutos dessa oração na vida e constituem hoje para nós uma fonte  emblemática da meditação cristã.

1.4.           A Nuvem do Não Saber

Trata-se de uma obra anônima do séc. XVI, de um autor inglês, provavelmente um monge, talvez cartuxo, cuja identidade ficou bem escondida, pois jamais alguém conseguiu descobrir quem ele era.
O próprio autor explica o título da obra esclarecendo: ‘Quando digo escuridão, quero dizer uma privação de conhecimento, exatamente como qualquer coisa que você  não sabe ou esqueceu é escura para você, porque você não a vê com seus olhos espirituais. E, por esta razão, aquilo que está entre você e o seu Deus, é designado não como uma nuvem do ar mas como uma nuvem do não-saber.’[27]
A Nuvem do Não-Saber insere-se nesta rica tradição da meditação cristã e exerceu influência profunda na espiritualidade cristã, especialmente nos nomes do grande século da espiritualidade espanhola, com ênfase na escola carmelitana. Parece que Santa Teresa de Ávila encontrou aqui grandes luzes na sua busca pelo caminho de oração.  No dizer do Pe. Comblin, esta obra também está entre aquelas que prepararam caminho para a espiritualidade latino-americana. Frei Betto, o dominicano brasileiro que sofreu nos cárceres da ditadura e que até hoje é nome de compromisso na Igreja da América latina, diria que aprendeu a meditar depois de ler a Nuvem do Não Saber.
‘O autor quer transmitir ao leitor a sua convicção, adquirida pela experiência, de que não se chega a conhecer Deus através das idéias e da reflexão intelectual. O conhecimento de Deus fica num não-saber, isto é,  o não saber por meio de idéias e reflexões. O conhecimento de deus é um saber que nunca sai de uma certa escuridão: sempre fica na nuvem, não sai nunca das nuvens. Tudo permanece de certo modo confuso e indefinido, embora se tenha a certeza de estar mesmo em comunicação com o Deus verdadeiro. Os que querem aprender o caminho da oração mais profunda não devem ficar desnorteados por não conseguirem sair da nuvem. Se ficarem preocupados pelas idéias e pelas reflexões, nunca chegarão ao verdadeiro conhecimento, não alcançarão os níveis mais altos da oração. Visivelmente o autor sabe que os seus leitores  estão muito interessados em idéias e reflexão intelectual: trata-se de certas gerações medievais novas que acabam de descobrir a teologia e correm o risco de ficar deslumbradas pelo jogo dialético dos teólogos. Caem na tentação de aceitar que esses jogos lhes abrirão os caminhos da verdade. Sem querer desprestigiar o valor das idéias e da reflexão intelectual, o autor define claramente seus limites. Aquele que quer mesmo aprender a arte da oração deve seguir outros caminhos, aparentemente mais humildes e menos triunfalistas do que os caminhos intelectuais.’[28]
Trata-se de um livro onde este autor anônimo  confirma toda a riqueza da tradição da Meditação Cristã e nos revela alguns segredos desta arte. Além de evitar o caminho da reflexão intelectual como meio para rezar, ele rejeita também o uso da imaginação. Em sua opinião, qualquer imagem do céu iria distrair-nos de nossa tarefa essencial. Simon Tugwell, no prefácio desta edição da Nuvem, diz assim: ‘O autor, assim como os místicos alemães, especialmente Eckart e Tauler e do mesmo modo Proclo antes deles, acredita que a possibilidade da nossa união com Deus reside não em nossas faculdades, mas sim na misteriosa e evasiva profundeza de nossas próprias almas, que nem mesmo nós temos a capacidade de compreender.’[29]
Explicando esta forma de rezar, o autor anônimo aconselha: ‘Eleve seu coração para Deus com um humilde impulso de amor; e tome ele mesmo como seu objetivo e não como qualquer um de seus bens. Tenha cuidado: evite pensar em outra coisa que não seja ele mesmo, de maneira que não haja coisa alguma em que sua razão ou sua vontade trabalhe, exceto Ele mesmo. Faça tudo o que estiver ao seu alcance para esquecer todas as criaturas que Deus já criou, para que, nem o seu pensamento nem o seu desejo, em geral ou em particular, sejam dirigidos ou estendidos a qualquer uma delas. Deixe-as em pa e não preste atenção nelas. Esta é a obra que mais agrada a Deus.’[30]
No entanto, embora exaltando a simplicidade desta oração, o autor da Nuvem, na boa tradição da meditação, lembra que quando começamos a praticar este exercício,  tudo quanto encontramos ‘ é escuridão, uma espécie de nuvem do não-saber; você não pode dizer o que é, exceto que você sente, através da sua vontade, um simples desejo de alcançar Deus. Esta escuridão com a nuvem está sempre entre você e o seu Deus,  não importa o que você faça,  e é esta que o impede de ver Deus claramente através da luz do entendimento de sua razão, ou ainda que o impede de conhecer Deus na doçura do amor em sua própria afeição. Portanto, comece a  descansar nesta escuridão enquanto você puder, gritando sempre por Ele, a quem você ama.’[31]
Dando instruções ainda mais precisas acerca deste modo de rezar, o autor anônimo dirá que ‘é um exercício que na verdade não necessita de longo tempo até que possa ser executado, conforme alguns homens parecem pensar; pois é, de todos os exercícios que os homens possam imaginar,  o mais curto possível.’[32]
Excluindo radicalmente a possibilidade de conhecer Deus pela via da reflexão intelectual, como é  preocupação explícita do autor, ele mesmo afirma: ‘É meu desejo abandonar tudo sobre o que eu possa pensar, e escolher para  o meu amor a coisa na qual eu não possa pensar. Porque Ele pode certamente ser amado, mas não pensado. Ele pode ser arrebatado e retido por amor, mas não pelo pensamento. Portanto, embora o pensamento seja uma luz e uma parte da contemplação,  mesmo assim neste exercício, ele deve ser rejeitado e coberto com uma nuvem do esquecimento. Você deve pisar por cima dele corajosamente mas com amor, e munido de um amor devoto, agradável e impulsivo esforçar-se para atravessar esta escuridão acima de você. Você tem que bater nessa espessa nuvem do não-saber com um dardo afiado de amor ardente. Não deixe esse trabalho por nada que possa acontecer.’[33]
Mais na frente, o autor anônimo vai entregar-nos o segredo deste ‘dardo afiado’ capaz de atravessar nuvem, dando-nos pistas preciosas, talvez as mais preciosas em toda  a tradição cristã, acerca da natureza daquilo que chamamos mantra , dizendo que devemos rezar, não com muitas palavras, mas apenas com uma palavra de uma sílaba. E, acerca da natureza dessa palavra, o mesmo vai dizer-nos que ela deve estar em sintonia com a natureza da oração em si e especifica que a natureza da oração é ajudar o devoto a chegar diretamente a Deus, a fim de  atingir o bem e livrar-se do mal. Ele privilegia as duas palavrinhas ‘Deus’ e ‘pecado’... e explica assim a sua opção: ‘Não se admire por eu colocar estas palavras acima de todas as outras. Se eu pudesse pensar em palavras mais curtas que encerrassem em si de modo tão completo, todo o bem e todo o mal como fazem estas duas palavras, ou se Deus me ensinasse a usar qualquer outra palavra, eu as usaria e deixaria estas duas; por isso lhe dou o mesmo conselho. Mas não comece a refletir sobre palavras, porque, se começar, jamais alcançará seu objetivo nem realizará esta obra; porque nada se alcança pela reflexão mas só pela graça. Portanto, não empregue outras palavras pra a sua oração, embora eu esteja dando estes dois exemplos, a não ser aquelas para as quais Deus o encaminhe. Ao mesmo tempo, se Deus o induzir a usá-las,  recomendo-lhe que não as deixe: quero dizer, se você tiver de orar com palavras e não de outra maneira. Porque estas são palavras bastante breves’.[34]
Trata-se pois de uma obra que recolhe a riqueza deste tesouro da espiritualidade cristã e que acabaria tendo grande influência na vida de vários místicos a partir de então, dada a divulgação que teve no mundo ocidental.

1.5.       Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz

Santa Teresa de Ávila, a grande mística da tradição cristã que tantas dificuldades enfrentou para descobrir um caminho profundo de oração, bebe nesta fonte da Nuvem do Não-Saber e fala da oração de recolhimento, capaz de fazer a pessoa participar da vida trinitária no ‘céu’ que é a alma de batizado que cada pessoa tem em si mesma. Ela, que não se acostumou à oração que pressuponha refletir e discorrer com o entendimento, compreendeu que para encontrar Cristo, era preciso trilhar outro caminho e esse caminho seria o da pacificação de todo o ser. Por isso ela vai dar muita importância ao equilíbrio psicossomático, pois sabe que a oração prolongada exige um bom estado físico e psíquico e que muitas dificuldades na vida de oração podem advir  de indisposições corporais. Sabemos que ela propunha uma postura bem equilibrada e estável para orar. Ela valoriza muito a atenção dada aos sentidos internos e externos, dizendo que eles devem ser conduzidos, de forma suave mas firme,  em direção à Presença, à Realidade de Deus. Trata-se de desligar  nossos sentidos de seus objetos habituais, para provê-los de uma nova orientação: o Deus da oração.[35]
Assim podemos perceber escola de oração que Santa Teresa nos deixa, o sabor dessa tradição tão antiga que vimos  rastreando. ‘Da leitura  de suas obras, pode –se perceber o quanto ela amava este método da repetição constante de uma frase bíblica, de um versículo de salmo ou de uma oração litúrgica. Ela os saboreava, detinha-se em seu sentido e se deixava levar pela ressonância de uma oração que atingia todas as suas profundezas.’[36]
A oração torna-se assim, em Santa Teresa, como na melhor tradição deste caminho, uma descida em si mesmo que atravessa os diversos estágios do ser, para chegar a um encontro pessoal com Deus, como de forma tão pedagógica nos relata nas Moradas. ‘Esta interioridade é para Teresa um espaço amplo, um palácio de enorme riqueza, um edifício de pedras preciosas, como convém ao Senhor que o habita. Esta doutrina vem ao encontro da visão bíblica do homem Imagem de Deus e Templo do Espírito Santo, que marca desde o princípio esta obra-prima  que é o Castelo Interior. Muitas vezes estamos fora de nós mesmos, e é por isso que não conseguimos nos realizar. Para alcançar este objetivo, é necessário limpar o caminho, eliminar todos os obstáculos que impedem a Deus de tomar posse de nossa alma; é preciso esvaziar-nos do que impede a Deus de chegar até nós e de nos dilatar interiormente.’[37] Assim, para a Santa de Ávila, entrar em si não significa fechar-se em si ou procurar a si mesmo, mas reencontrar-se em Deus, tomando consciência  e experimentando-se como habitação de Deus. ‘Nosso esforço de recolhimento é apenas uma resposta a esta iniciativa. Se fazemos silêncio, é para ouvi-Lo; pois Ele nos fala. Se o olhamos, é para cruzar com um olhar que vem em nossa direção primeiramente, e com amor.’[38]
Jean-Michel Dumortier, carmelita, diz que o método de oração teresiano  ‘ é comparável a uma grande descida a si. Os diferentes estágios do ser são atravessados até ser atingida a parte mais autêntica de nós mesmos, aquela que determina a nossa personalidade. Aí se vive o encontro pessoal com Deus, pois é aí que ele habita como num castelo, céu, paraíso.’[39]
S. João da Cruz, cujo caminho se encontrou com o de Teresa  e mutuamente se influenciaram, guarda também muito apreço por este caminho de oração. ‘Um dia, encontrando-se S. João da Cruz entre as carmelitas de Andaluzia, a irmã cozinheira ingenuamente perguntou-lhe: Por que será que, quando passo perto do laguinho do jardim, as rãzinhas, tão logo ouvem o ruído  dos meus passos, saltam para dentro da água e se escondem no fundo? João respondeu-lhe que aquele era o local onde elas mais se sentiam seguras e protegidas. Aplicando em seguida uma comparação espiritual, ele acrescentou: Assim você deve agir: fugir das criaturas e mergulhar nas próprias profundezas, em seu centro que é Deus, e esconder-se em seu seio’. [40]
O santo que fez umas das grandes aventuras espirituais da história do cristianismo, rejeita também todas as imagens e todo o uso de outros meios para chegar à experiência de Deus. ‘À medida que avançamos em direção a Deus, as palavras,  as imagens e os sentimentos devem dar lugar ao silêncio, de forma que não haja entre aquele que ora e Deus nenhuma mediação: Aqueles que imaginam Deus sob qualquer uma destas formas (um grande fogo, ou uma luz) e pensam que qualquer coisa destas é semelhante a ele, estão muito longe da verdade (A subida do Carmelo, 1.II, c. 12, n. 5). É preciso passar por estes meios, mas não se deter neles, caso contrário nunca se chega ao termo. Quanto mais se avança, mais necessário se torna despojar-se de discursos e fantasias. Todo o método deve desaparecer. Entrar, pois, neste caminho é sair do seu próprio caminho ou, para melhor dizer, caminhar diretamente para o termo, deixando seu modo limitado a fim de penetrar em Deus que não tem modo (Ibid., 1. II, n.5).’[41]
Assim o silêncio interior se torna condição deste caminho onde a pessoa percebe e aceita estar-se perdendo. ‘Trata-se de um estado de silêncio no qual  nos quedamos atentos, olhando amorosamente para Deus, na quietude, com todas as potências em repouso (...), recebendo o Deus que nelas opera. ( A subida do Carmelo, 1.II, c. 12, n. 8).  Deus alimenta e sustenta a alma, sem que ela nada precise fazer. Justamente, o que é preciso fazer é deixar-se levar. É o próprio Deus quem infunde na alma sua sabedoria, plena de paz e de amor.’[42]
Na experiência de S. João da Cruz, o primeiro passo neste caminho de oração é permanecer em paz e o segundo é não procurar sentir, ‘contentando-se com pousar em Deus um olhar amoroso e tranqüilo, sem desejar senti-lo’ (A noite escura, 1. I, c. 10, 4).
Explicitando os sinais que  marcam a caminhada de oração, o terceiro e mais importante é assim explicado pelo místico espanhol: ‘o terceiro e o mais seguro é quando a alma tem prazer em encontrar-se a sós com a amorosa atenção de Deus, sem consideração particular, em paz interior, quietude e repouso, sem qualquer ação nem exercício das potências (memória, entendimento, vontade), atenção e conhecimento geral e amoroso sem inteligência particular e sem compreender o objeto’ (A subida ao Carmelo, 1. II., c. 13, n. 4).
Como podemos perceber, também na experiência de S. João da Cruz transparece o hálito suave desta tradição da meditação cristã. Em suas falas sobre a oração, parece-nos estar ouvindo os conselhos dos antigos Pais do Deserto ou do autor da Nuvem do Não-Saber. Nem admira que assim seja, uma vez que a influência destes chegou até ele e certamente modelou seu caminho.

2.      Por que Meditar

Conta a lenda indiana, que o almiscareiro das montanhas, uma espécie de cervo, sente em determinada época do ano um irresistível perfume de almíscar. Seduzido pela intensidade do perfume, ele corre de um lado para o outro, ansioso por encontrar a fonte de onde vem tão forte odor. Corre pelas montanhas, corre sem parar, noites e dias sem repouso e sem alimento... e um dia, mais tarde ou mais cedo, abatido pelo cansaço e esgotado pela busca, acaba tropeçando e caindo em algum abismo. E quando seu corpo se rebenta no embate com as pedras do fundo do abismo, do seu peito rasgado, escorre o almíscar... enquanto sua respiração se extingue.
Não meditamos para outra coisa que não seja beber nessa fonte de almíscar que mora no profundo de nós mesmos, aí onde Deus habita e se deixa encontrar!
 ‘Todo o homem carrega dentro de si um vazio do tamanho de Deus’, dizia  Dostoievski. E só Deus poderá saciar esse vazio profundo e por isso precisamos mergulhar nessa fonte capaz de saciar plenamente. Por isso meditamos! Para isso meditamos! Apenas por isso e para isso! Porque isso basta!

2.1.           Os resultados ao nível Físico-Biológico

Usando dados das nações Unidas,  Victor Davich afirma que existem no planeta mais pessoas que meditam do que pessoas que não meditam e continua dizendo que ‘talvez você duvide de que algo tão simples e antigo como a meditação possa trazer benefícios tão espantosos à vida moderna’.[43]
O mesmo autor, citando Bloomfield, escreve que ‘o relaxamento e a quietude mental produzidos pela meditação conferem profundos benefícios ap corpo e também à mente. O silêncio interior é decisivo para a saúde. A pessoa fica num estado de profundo repouso, caracterizado pela diminuição do ritmo do batimento cardíaco, do consumo de  oxigênio, da transpiração, da tensão muscular, da pressão sanguínea e dos níveis dos hormônios do stress’.[44]
Os efeitos da meditação sobre o organismo chegam a um nível mais profundo que os exercícios de relaxamento, que por si mesmos já proporcionam inúmeros benefícios. ‘Uma pesquisa das universidades de Londres e Oxford descobriu que os programas de meditação são muito mais eficazes para a redução do stress do que o simples relaxamento’.[45]
‘A pesquisa sobre meditação aumentou muitas nas últimas três décadas, especialmente nos Estados Unidos. Desde o início dos anos de 1970, mais de mil estudos sobre meditação feitos em laboratório foram citados em revistas científicas, livros e teses acadêmicas – só em língua inglesa. Esses testes – feitos através de eletroencefalogramas, tomografias cerebrais, dosagens de hormônios e inúmeros outros métodos de pesquisa científica – oferecem provas incontestáveis dos benefícios da meditação. Análises detalhadas mostram que a meditação traz importantes benefícios ao trato cardiovascular, ao cérebro e ao metabolismo, além de provocar alterações benéficas no comportamento, na experiência interior, na percepção e na imagem que temos de nós mesmos. Esses estudos, diz Michael Murphy, co-fundador do Instituto Esalen, na Califórnia, estão melhorando gradualmente a compreensão científica que temos da meditação, de maneira a complementar as idéias contidas na literatura contemplativa tradicional. Todos parecem se beneficiar com este avanço – independentemente de gênero, da raça ou do tipo de sofrimento’.[46]
Podemos concluir dizendo que ao nível físico, a meditação gera sinais muito positivos, como o aumento de energia e de vigor, acelera a recuperação de doenças, diminui a gravidade de ataques de asma e de outras reações alérgicas, baixa significativamente a pressão sanguínea, reduz o stress e doenças relacionadas a ele, como cardiopatias, hipertensão e insônia, alivia significativamente dores esporádicas e crônicas devidas à artrite, problemas nas costas, etc., melhora o tempo de resposta, a capacidade motora, a coordenação e outras respostas físicas...

2.2.           Os resultados ao nível Emocional

O ser humano não funciona em compartimentos separados. Uma visão holística da pessoa nos leva a compreender a interdependência e inter-relacionalidade dos vários níveis, desde o biológico ao espiritual, passando pelo energético, pelo emocional e pelo psíquico. Qualquer interferência em um dos níveis, influencia significativamente os demais, seja positivamente ou seja negativamente. A meditação unifica e harmoniza os diversos níveis da pessoa, unindo o que era fragmentado e plenificando o todo, numa perspectiva de inteireza do ser humano.
Já vimos seus efeitos ao nível físico-biológico e estes criam ressonância nas outras camadas da pessoa. Os estudos científicos confirmam também os efeitos benéficos da meditação no bem-estar psicológico e no desenvolvimento mental.
‘Maior estabilidade emocional, desprendimento, independência, espontaneidade, menos ansiedade e depressão, redução da dependência por drogas lícitas ou ilícitas, empatia...’[47]
Na medida em que leva a pessoa a serenar interiormente, a meditação ajuda a liberar o fluxo de emoções e sentimentos, desbloqueando energias reprimidas. A respiração, fundamento importante da meditação, é crucial para este desbloqueio energético das emoções. Assim, pelo exercício da meditação,  a pessoa  vai conseguindo um desprendimento significativo de suas emoções, tornando-se um espectador sereno das mesmas.
Conta-se que o jovem discípulo se aproximou do mestre e perguntou angustiado como poderia parar seus sentimentos, que tanto o incomodavam e lhe tiravam a paz. O mestre perguntou se lhe era possível parar o vento com a resistência de seu peito. E como o jovem dissesse frustrado que isso não era possível, o mestre explicou que o mesmo valia em relação aos sentimentos.  Mas, explicou o mestre, assim como ele não precisava sair correndo atrás do vento, também não precisaria viver correndo arás de seus sentimentos. Bastaria deixar que eles passem!
O mundo emocional não depende diretamente de nossa vontade. Mas ele é parte integrante de nosso ser e carrega em si um enorme potencial de energia. Temos tendência a reprimir determinados sentimentos e  emoções. Todo o sentimento e emoção reprimidos tendem a aumentar, se tornam fonte de stress e acabam somatizando. Cuidar dos sentimentos e das emoções é caminho seguro para a saúde integral. E a meditação é um instrumento facilitador neste trabalho de fazer faxina nas emoções: através da respiração, o mundo emocional se acalma e integra, o que nos permite assumir uma posição de espectadores de nossas emoções, podendo acompanhá-las no seu fluir, sem nos deixarmos levar por elas.
‘Jung analisou a psicologia do místico e concluiu que a pessoa que atingiu a alta maturidade psicológica é sempre um místico. Não há ninguém na face da terra psicologicamente mais maduro que o místico. Não significa que ele não tenha suas loucuras. Mas é uma pessoa totalmente harmonizada por dentro. E Jung observa que o místico é aquele que não tem nostalgia do passado e muito menos ansiedade do futuro’. [48]

2.3.           Os resultados ao nível Racional-Espiritual

‘Meditação é um jejum mental, uma limpeza, um silêncio do pensamento’
Sonia Hirsch

A nossa mente vive num redemoinho constante. Não nos damos conta da infinidade de pensamentos que passam na tela de nossa mente. Se pararmos e observarmos seu curso durante alguns instantes, ficaremos surpresos com o caudal que nos assalta a cada momento. É esse o trabalho de nossa mente e ela vive fazendo isso o tempo todo. Mas isso significa um desgaste enorme de energia e um acúmulo de tensões permanente. ‘Somos aquilo que pensamos’ e acabamos tornando realidade os pensamentos que alimentamos dentro de nós. Nosso inconsciente trabalha com os dados que lhe damos e, quando o alimentamos de pensamentos negativos, ele nos devolve toda a negatividade elaborada e estruturada em nossos comportamentos. A dispersão constante de nossa mente desgasta e gera confusão.
A meditação ajuda eficazmente na saúde mental, proporciona um raciocínio mais acurado e pensamentos mais criativos, aumenta a capacidade de concentração e melhora a memória e a inteligência.[49] Ajuda a ganhar distância em relação aos problemas e a desenrolar situações embaraçosas. Potencializa a liberdade de e a objetividade reflexiva e mantém nossa mente atenta e desperta a cada momento da vida presente, libertando-a do peso do passado e da ansiedade do futuro.
Na meditação, a atenção é dirigida a uma única coisa, que se transforma numa âncora poderosa no meio do turbilhão de pensamentos e  sentimentos. ‘Quando nos concentramos num único objeto,  o número de sinais enviados ao cérebro fica muito reduzido, o que permite que a mente se acomode num estado profundamente relaxado, mas alerta’.[50]
A consciência calma e a permanência no objeto da meditação, permitem que a pessoa desenvolva a concentração e a lucidez, aumentando assim a sua qualidade de vida.
Alan Watts definia a meditação como ‘ a arte de suspender o pensamento simbólico e verbal por algum tempo, assim como um público educado pára de falar quando um concerto vai começar’. No caso da meditação cristã, o silêncio da mente se faz para que a presença de Deus seja escutada e sentida no mais profundo do ser humano. Centrar-se em Deus é o objetivo último da meditação cristã, penetrando de forma vivencial no mistério de Deus-Trindade cujo amor pode ser experimentado de forma pessoal.
Percebemos assim como a meditação ‘cria um estado fisiológico de relaxamento profundo, conjugado a uma atitude mental desperta e altamente alerta’.[51]
A meditação é pois um caminho que unifica a pessoa, integrando suas várias dimensões e centrando-as na fonte do seu ser, para beber na essência que a faz ser. Este caminho nos ajuda, de modo fácil e descomplicado, a nos concentrarmos no nosso eu mais profundo, afastando-nos de tudo o que há em nós e que não é verdadeiramente nossa essência.
‘A meditação é como um relaxamento, só que mil vezes mais intensa. Ela relaxa as articulações profundas de uma forma tal que nenhuma outra técnica consegue. A mente, que não pára nem quando dorme, descansa totalmente durante a meditação. Isso permite que todo o sistema mental e nervoso se renove, de um modo tão objetivo que você vai ter respostas muito mais serenas para qualquer problema depois que meditar. Não porque meditou sobre eles, ou neles, mas porque deu novas energias ao seu próprio eu’.[52]
Santo Agostinha diria no livro das Confissões: ‘Quando a atenção da mente está totalmente desviada e distante dos sentidos corpóreos, é oi chamado êxtase. Então, sejam quais forem os corpos presentes, eles não serão vistos com os olhos abertos, nem as vozes serão ouvidas. É um estado a meio caminho entre o sono e a morte: a alma fica de tal maneira arrebatada que se afasta dos sentidos corpóreos mais do que no sono, mas menos que na morte’.
‘Entre os efeitos salutares obtidos pelo controle mental está uma maior clareza e pureza no processo do pensamento. Quem não desperdiça energias mentais pode concentrar-se com rapidez e facilidade, permanecer atento com mais precisão e, apesar dessa intensa concentração, não sentirá fraqueza nem cansaço. {...} O ser humano com mente limpa possui um pensamento construtivo e positivo; pode ver com clareza a dimensão limitada das criaturas, mas sente-a como uma limitação que se completa no conjunto geral, cósmico, da economia divina da providência. Por tudo isso, o ser humano de mente limpa não cai na armadilha do pensamento negativo, da crítica amarga, dos pensamentos corrompidos e viciados. É um ser livre, que controla livremente a sua imensa energia mental, utilizando-a para edificar o reino de Deus, e não para confundir ou desintegrar-se a si mesmo e aos outros’.[53]

2.4.           Um caminho de oração para o nosso tempo

É preciso uma ascese adequada aos perigos de hoje, que seria ingenuidade ignorar.
Mariano Ballester

Hoje nos descobrimos cada vez mais como pessoas fragmentadas e quebradas, vítimas do fantasma do stress em níveis que não somos capazes de administrar. Somos atordoados pela poluição constante de preocupações e apelos e bombardeados pela dispersão frenética da vida moderna. O mundo de exige de nós um ritmo de vida sobre-humano, não se preocupa em, alimentar nossas fontes, para que sejamos capazes de corresponder aos apelos pesados. Quantas vezes nos sentimos peças de uma grande máquina, escravizados e esvaziados, descartáveis...
À deriva nesse mar de tempestade, sentimos, mais do que nunca, a necessidade de instrumentos de navegação capazes de nos levarem a porto seguro onde a vida seja possível em horizontes de plenitude e abundância.
Podemos considerar que a meditação cristã é um tipo de oração oportuno e providencial para as pessoas do nosso tempo, embora tão antigo, como a tradição nos mostra. A pessoa de hoje anseia por formas de vida que respeitem sua inteireza e lhe devolvam sua unicidade, sua integralidade sagrada, sua harmonia tão buscada e uma experiência de comunhão profunda, capaz de saciar todas as sedes.
A meditação se apresenta assim como um caminho luminoso para o nosso tempo, unificando e integrando, libertando e refazendo, levando-nos de volta para casa, rumo ao centro de nós mesmos e nesse encontro com o profundo de nós mesmos nos proporcionando a experiência de comunhão íntima e profunda com o Deus-Trindade que em nós se faz presente.
‘O desafio realmente contemporâneo consiste em conseguirmos recuperar um meio ou um caminho para atingirmos a oração profunda, que nos leve à experiência de união, independentemente de distrações superficiais e de uma piedade autoconsciente’.[54]
Muitos cristãos têm procurado, fora da tradição cristã, caminhos de meditação em diversas experiências religiosas. Muitos se admiram ao poder reencontrar na mais autêntica tradição cristã a forma de oração que tão longe procuraram. Assim fala John Main: ‘Tenho observado, sempre que falo sobre meditação, que são os não-cristãos e até pessoas sem religião os primeiros a entenderem o que significa meditação. Para muitos freqüentadores comuns da Igreja, para muitos padres, monges e religiosas, o mantra parece, antes de mais nada, uma técnica de oração suspeita e com ar de novidade, ou um método baseado em algum truque exótico, ou ainda alguma terapia que possa ajudar a relaxar, mas que não tem motivo para ser chamado de cristão. Esta é uma situação desesperadamente  dolorosa. Mostra até que ponto e em que quantidade os cristãos perderam o contato com sua própria tradição de oração. Não mais aproveitamos os benefícios que poderíamos tirar da sabedoria e do conselho experimentado dos grandes mestres da oração’.[55]
‘Hoje precisamos restituir aos pobres a herança cristã. Hoje como outrora, eles serão os mestres de oração. (...) Estamos numa época de muita curiosidade intelectual. As elites procuram uma fonte nova de interesse religioso nas seitas orientais ou em doutrinas esotéricas. Por isso, precisamos entregar ao verdadeiro povo de Deus as fontes autênticas de uma oração de verdadeira libertação. A libertação não passa por sabedorias obscuras, por jogos intelectuais ou exercícios mentais sofisticados.Ela volta à maior simplicidade’.[56]

3.      Meditação X Reflexão

O termo ‘Meditação’ ganhou dois significados diferentes na tradição cristã. Curiosamente, essas duas perspectivas são quase contraditórias entre si.
Originalmente, o sentido de meditação, conforme era entendido pelos monges dos primeiros séculos do cristianismo, apontava para a etimologia de ‘estar no meio’ (stare in médio), permanecer no centro.
Meditari foi a tradução da palavra grega meletan, que no início significava repetir.
Entre os Pais do deserto, a meditação foi associada à Bíblia, como repetição de um versículo. Essa tradição, conservada ciosamente pelos mais antigos, era passada de mestre para discípulo.
‘meditar  as Escrituras não significava imaginar ou pensar sobre as Escrituras – tal sentido adveio bem mais tarde e à guisa de “espiritualidades” que eram desenvolvidas nos primeiros séculos do cristianismo. Meditar as Escrituras significava torná-las  parte  de você através da memorização e da repetição. A fim de focalizar a mente e o coração de um discípulo para o estado de concentração, de atenção e de silêncio interior necessários à oração, o mestre dava-lhe uma única frase  ou versículo das Escrituras. O monge repetia então a frase contínua e interiormente em sua mente e em seu coração e, segundo as palavras de João Cassiano, um dos grandes mestres do Ocidente, mestre de São Bento e de São Tomás de Aquino, a repetição acabava com todas as “riquezas do pensamento” e trazia a pureza de coração através da pobreza daquele único verso’.[57]
Este tipo de meditação pode ser encontrado na Igreja dos tempos apostólicos, nos ensinamentos rabínicos dos contemporâneos de Jesus e nos ensinamentos e práticas do Novo Testamento e do próprio Jesus. A igreja Ortodoxa conserva de modo especial esta tradição de meditação, concentrada de modo especial na riqueza da ‘oração de Jesus’.
Esta vertente da meditação parece ter-se perdido no tempo... embora o testemunho dela apareça forte em alguns momentos da História do Cristianismo.  Sem dúvida, predominou no mundo cristão ocidental o conceito de meditação como reflexão sobre as escrituras, pensar sobre Deus, analisar a vida à luz da Palavra... mais um exercício da razão, um trabalho reflexivo e analítico, onde a trabalho principal é da mente. Certamente podemos entender essa preponderância da meditação como reflexão, olhando a influência que a tradição do pensamento grego exerceu em nossa cultura, com suas conceitualizões e sua valorização da inteligência racional, que logicamente resultou em desvalorização dos outros tipos de inteligência e do caráter mais afetivo que a oração carrega na sua essência.
‘A oração na Igreja oriental permaneceu mais fiel às origens, porque a vida religiosa não se  tornou  intelectualizada, burocratizada, formal. Ela permaneceu mais fiel ao trabalho manual e ao contato direto com o povo dos pobres’.[58]
Aqui, fazemos referência àquele primeiro sentido de meditação, tentando resgatar  a riqueza desse ensinamento tão antigo e tão simpático ao contexto evangélico e às grandes tradições religiosas da humanidade e hoje novamente procurado e experimentado por tanta gente.
‘No contexto oriental, a meditação se caracteriza pelo progressivo silêncio que dá lugar à experiência com aquilo que está para além das formas. É um fenômeno da parte mais íntima de nós mesmos, demasiado profundo para poder se restringir à inteligência. Quando éramos crianças, aconteceu-nos de nos sentir imersos em um brinquedo ou ao ouvir uma história: estávamos em estado de meditação. Abandonamos o pensamento e a ação para nos tornarmos ao mesmo tempo atentos e receptivos. Neste estado, não somos nós que nos movemos em direção às coisas para analisá-las ou compreendê-las; são as coisas que se tornam ativas e nos revelam seu mistério’. [59]
Citando S. João da Cruz, Jean-Michel Dumortier continua distinguindo os diferentes caminhos de meditação e também sua eficácia: ‘ Faz pena ver ainda outras almas trabalharem e se afadigarem inutilmente com grande esforço e em vez de progredir, retrocedem, porque pensam achar proveito naquilo que lhes é estorvo. Outras fazem progressos rápidos em descanso e quietação’. [60] O mesmo autor conclui dizendo: ‘poderíamos representar o primeiro tipo de meditação (predominância da atividade do sujeito, especialmente do pensamento discursivo) por uma espiral sem fim que se desenvolvesse num plano horizontal; e o segundo tipo, por uma seta que apontasse para baixo, uma vez que ela busca diretamente a profundidade’.[61]
Laurence Freeman, discípulo de John Main na divulgação da Meditação Cristã, assim se refere a este caminho: ‘Esta é a tradição que ensinmos. Como qualquer outra tradição viva, ela desenvolveu-se. Não que tenha perdido sua simplicidade, mas desenvolveu-se para além dos limites do meio monástico-contemplativo e tem sido assimilada como direito inato de todo o cristão’.[62]

4.       A Meditação Cristã e a Meditação Oriental [63]

As religiões orientais conservam e transmitem, através de tradições milenares, a prática da meditação. Hoje, essas práticas se espalham pelo mundo ocidental. A meditação nas tradições orientais, do Hinduísmo e do Budismo, tem naturalmente uma carga  religiosa própria.
Fundamentalmente, a meditação oriental tem como objetivo o esvaziamento total de si mesmo, até chegar a fazer da mente ‘uma folha em branco’. Aí, nesse vazio absoluto, a pessoa alcança sua libertação (iluminação).
Na meditação cristã, o objetivo é radicalmente outro: não se trata de alcançar o vazio, mas de encontrar um espaço profundamente habitado e fecundo, o centro da própria pessoa, onde Deus está presente e se deixa encontrar como Aquele capaz plenificar o ser humano por inteiro.
John Main coloca claramente a diferença entre estas duas tradições de meditação, dizendo que ‘todas as nossas buscas de conhecimento secreto, de caminhos ou de ensinamentos ocultos tornaram-se desnecessárias, porque o segredo supremo foi revelado. O segredo é o seguinte: Cristo está em nós! Assim sendo, na oração não temos que lutar para fazer alguma coisa acontecer. Ela já aconteceu. Temos simplesmente que realizar e compreender o que já existe, aprofundando-nos na consciência unificada de Jesus, nas maravilhas de nossa própria criação’.[64]
Poderíamos distinguir três dimensões essenciais neste tipo de oração: o objetivo, o objeto e a técnica. Quanto ao objetivo, temos diferenças centrais entre a compreensão oriental e a visão cristã de meditação: o vazio dos orientais é preenchido na experiência cristã pelo encontro amoroso com o Deus que nos habita, por que fomos criados ‘à sua imagem e semelhança’ e somos ‘templos do Espírito Santo’. Quanto ao objeto (a estratégia usada ou aquilo em que concentramos a atenção de nossa mente durante a meditação), podemos também considerar diferenças significativas: na meditação oriental, o objeto pode ser apenas concentrar-se na respiração, numa sensação do corpo, num ponto fixo exterior ou interior, num mantra que tem caráter de uma intensa vibração energética. Na meditação cristã, o objeto é essencialmente um mantra que, como caminho, nos ajuda centralizar todas as atenções do corpo, do coração e da mente na fonte que é Deus. Na mais antiga tradição cristã, o mantra é um versículo bíblico. Quanto à técnica, podemos sem dúvida encontrar-nos em sintonia e certamente podemos enriquecer-nos muito com a experiência acumulada pelas tradições ocidentais. Eles, praticando e preservando o caminho da meditação de forma bem mais significativa do que o nosso ocidente cristão, terão muito a dizer-nos a respeito de técnicas práticas, úteis e experimentadas, capazes de ajudar na harmonização do corpo, do coração e da mente. Basta lembrarmos o rico manancial das tradições de Yoga, com suas pistas sobre respiração e posturas corporais...
Há certamente que saber separar as águas, com discernimento e bom senso, seguindo o sábio conselho de S. Paulo que nos convida a experimentar tudo e a ficar com aquilo que é bom. E, seguindo a sabedoria do mesmo apóstolo, tendo claro que o nosso fundamento é Cristo e é sobre esse fundamento que devemos edificar, mantenhamos a liberdade  e a abertura quanto á busca de meios que nos ajudem a construir em nós um edifício harmonioso, capaz de dignificar a morada de Deus que somos.
Mariano Ballester, cita[65]  os Bispos da Federação das Conferências Episcopais da Ásia, reunidos na Segunda Assembléia Plenária, em 1978, falando a respeito de oração: ‘ A Ásia tem muito a oferecer à autêntica espiritualidade cristã: uma oração que desenvolve imensamente a pessoa humana na sua unidade de corpo-alm-espírito;  uma oração de profunda interiorização e imanência; tradições de renúncia e ascetismo; técnicas de contemplação de antigas religiões orientais, tais como Zen e Yoga; formas simplificadas de oração como o namjapa, o bhajans e outras expressões  populares de fé e de piedade, de pessoas que, com a mente e o coração, todo dia se dirigem fielmente a Deus’.
Certamente, no encontro entre a revelação cristã, de um Deus pessoal que ama e pode ser amado, e as técnicas das tradições religiosas orientais, muito enriquecimento poderá despontar para as pessoas do nosso tempo.

5.      O que é Meditação Cristã

‘A oração não é questão de falar com Deus, mas antes de escutá-lo ou de estar unido a Ele’.
John Main

Poderíamos dizer, resumindo este caminho percorrido ao longo de séculos, que a meditação cristã é uma tradição enraizada nos ensinamentos de Jesus,  na tradição religiosa em que ele viveu e ensinou, na Igreja apostólica e nos Padres. Bem cedo  na  cristã, ela se tornou uma tradição associada a monges e monaquismo e sempre, desde o princípio, foi o principal canal através do qual difundiu o espírito da Igreja por todo o Corpo e o nutriu’.[66]
Algumas características e predisposições vão ficando claras ao longo do tempo e nas várias contribuições que vão enriquecendo este modo de rezar: ‘A meditação é, portanto, um estado natural, profundo, no qual se reduz ao mínimo a presença ou consciência do corporal e se exalta ao máximo o poder e o ser do espírito. Para  chegar a este ideal tão desejável, é necessário tomar (sobretudo no início; com a prática vai se tornando cada vez mais desnecessário) certas providências ou seguir as fases de um método, facilitando ou criando a serenidade ou calma psicológica em níveis gradualmente mais profundos. Busca-se e vai-se construindo esta calma ao nível muscular, depois no emocional, no intelectual, até a serenidade plena, sem distração nem turbulência alguma’.[67]
É específico da meditação cristã esse encontro pessoal e íntimo com Deus, no profundo da própria pessoa, como nos diz John Main: ‘o objetivo  da meditação... consiste em nos voltar para nossa própria natureza com total concentração, em nos fazer experimentar nossa criação em primeira mão e, sobretudo em nos conduzir ao Espírito vivo de Deus que habita em nossos corações e em nos ajudar a experimentar a sua presença’.[68]
Trata-se de um caminho  rumo ao centro, capaz de proporcionar um mergulho pleno no amor de Deus. Um deixa-se tomar pela presença de Deus, um entrar na visão de Deus, encostando o coração no coração de Deus, para se deixar abrasar por seu amor.
Em mais uma pérola de sua linguagem simples e essencial a respeito da meditação cristã, John Main nos diz assim: ‘Na meditação, não procuramos pensar em Deus; não procuramos pensar em seu filho Jesus nem  pensar no Espírito Santo. Nela  tentamos fazer algo de  incomensuravelmente maior. Afastando-nos de tudo o que passa, de tudo o que é contingente, procuramos não propriamente pensar em Deus, mas estar em Deus, experimenta-lo como o fundamento do nosso ser. Uma coisa é sabermos que Jesus é a revelação do pai, que Jesus é o nosso caminho para o Pai, porém outra completamente diferente é experimentarmos a presença de Jesus dentro de nós, experimentarmos o poder real do seu Espírito dentro de nós e, com esta experiência sermos levados à presença de seu Pai e nosso Pai. [...] A fim de entramos nesta santa e misteriosa comunhão com a palavra de Deus que habita em nós, precisamos primeiro ter a coragem de nos tornarmos cada vez mais silenciosos. Num silêncio profundo e criativo, encontramos Deus de maneira que transcende todas as nossas potencias do intelecto e da linguagem’.[69]
Trata-se assim de um caminho de oração que integra a pessoa humana em todas as suas dimensões e a leva a descobrir tanto o que ela é em si mesma como a razão de sua existência, na medida em que proporciona o encontro com o Deus que a habita e que é o fundamento de seu existir. É um caminho de auto-conhecimento e de experiência de Deus, uma trilha que reúne em si estas duas dimensões  essenciais da mística cristã e que, por sua vez,  gera e alimenta uma outra dimensão fundamental da espiritualidade cristã: o compromisso com o outro, como fruto de uma atitude amorosa e de compaixão que brota espontaneamente do deixar-se embeber pelo Amor de Deus.
É Meditação porque reúne todas as características deste método que, quer no Oriente, quer no Ocidente, quer na tradição cristã, quer nos outros grandes caminhos religiosos da humanidade, quer nos séculos antigos lá nos desertos do Egito, quer nos grupos modernos que se reúnem pelo mundo afora... fazem da meditação algo procurado e experimentado como fonte de saúde integral. É Cristã porque nos leva a uma experiência  do Deus Trindade revelado em Jesus Cristo, que nos habita porque somos sua imagem e semelhança e porque somos templos do Espírito Santo, em sintonia com a mais genuína teologia da Criação,  da Encarnação e da Ressurreição, uma vez que faz agir em nós a Graça de Deus que nos torna pessoas novas no Cristo ressuscitado, até ao dia em que, como S. Paulo, pudermos exclamar do mais profundo de nossa experiência: ‘Já não sou eu que vivo! É Cristo que vive em mim!’.

6.      A Preparação para a Meditação

A oração não se improvisa... assim como não se improvisam encontros importantes e significativos! Essa é a nossa parte na oração... o resto é ação de Deus!
Mas também não precisa complicar... pois também vivemos com simplicidade e naturalidade o encontro com pessoas próximas e amigas! Quanto mais formalismos, mais artificial e distante se torna o encontro entre pessoas! Coisas complicadas fazem mecânica  e estereotipada nossa oração, ou melhor, impedem que ela ‘ coisa nossa’... isto é, que tenha a nossa cara, porque vivida por nós! Quanto mais simples e natural, mais profundo o encontro! Simplicidade na oração é o fundamental! Mas simplicidade não significa descuido! Cada vez mais, a simplicidade é uma arte!
Rezar é como ir à praia, para se bronzear no amor de Deus. Quando vamos à praia, a nossa parte consiste em tomar a decisão de ir, arrumar tempo para isso, caminhar até lá, escolher um lugar agradável e lá chegando, despir-se do excesso de roupa e ficar quieto para curtir o sol. O resto, o sol faz, bronzeando nosso corpo. Assim com a oração! Nossa parte consiste em querer rezar, criar condições práticas para isso, priorizar tempo, escolher um lugar favorável, despojar-se daquilo que nos impermeabiliza e distrai... e ficar quietos na presença de Deus! O resto... Deus faz! E assim nos bronzeamos no amor de Deus!
Deus não faz por nós o que de nós depende, assim como não pegaremos um bronze se ficarmos em casa dormindo, mesmo que o sol brilhe bonito lá fora! E nós não podemos querer fazer o que de Deus depende unicamente, assim como não depende de nosso esforço pessoal o bronze que pegamos na praia!

6.1.           O Lugar

Sabemos que qualquer lugar é chão sagrado onde Deus se faz transparente. Por isso, a questão não é se há lugares melhores ou piores... mas se esses lugares facilitam para nós, as condições melhores para fazermos nossa experiência. Se um casal de namorados quer partilhar coisas íntimas e experimentar a comunhão profunda, certamente não vai procurar fazer isso na arquibancada de um estádio de futebol lotado, no meio da torcida agitada...
Este tipo de oração, pressupõe um ambiente que favoreça o recolhimento e que facilite o silêncio interior, este sim  fundamental, mas também certamente influenciável pelo silêncio exterior. Quando Jesus aconselha a entrar no quarto e fechar a porta para rezar, aí certamente podemos perceber este convite à interiorização e este recolhimento que é condição.
Por isso, seria aconselhável que o lugar da meditação fosse um lugar escolhido com cuidado e que esse lugar fosse consagrado para isso, de preferência, apenas para isso. Um espaço agradável, confortável e acolhedor, silencioso e ventilado, preservado de distrações ou de interrupções inoportunas.

6.2.           A Posição

A melhor posição para meditar... é aquela que ajudar você a permanecer o mais imóvel possível durante todo o tempo da meditação! Seja sempre esta a regra número um! A quietude do corpo é o primeiro passo para que o coração e a mente se aquietem e por isso  a posição tem muita influência.
Assim sendo, podemos dizer que cada um é o melhor mestre de si mesmo... ou melhor, neste caso, o melhor mestre é o nosso corpo! Aprendamos com ele qual a melhor posição para meditar! Quando o corpo conseguir aquietar-se e relaxar e assim puder permanecer imóvel durante o tempo todo da meditação, teremos encontrado a melhor posição!
Uma segunda pista, fundamental, é manter a coluna reta. Essa postura ereta facilita a respiração e o fluxo de energia no corpo e isso é primordial para todo o processo de tranquilização do corpo e das emoções.
‘Há um fato curioso. Em nenhuma tradição mística que estudei recomenda-se rezar deitado. Algumas até condenam, dizendo que a única postura que não funciona é a deitada. S. João da Cruz fala claro: “não me venha com essa  história de que você está rezando deitado, porque isso é pura sonolência”. Segundo a tradição Hinduísta, a coluna é o nosso pára-raios; é ela que capta a energia divina, portanto, tem de estar voltada para o céu. Por isso, você pode rezar sentado, de joelhos, em pé e, sobretudo, na posição de lótus, isto é, com as pernas cruzadas e os dedos abertos. Alguns médicos estudaram  a posição de lótus e chegaram a uma conclusão interessante. Vejam o que é a sabedoria oriental: ela não sabe explicar cientificamente por que esta é a melhor posição, mas a experiência lhe diz que sim. Os médicos constataram que, quando se está na posição de lótus, a circulação do sangue da cintura para baixo é reduzida e, portanto,  aumenta o fluxo sanguíneo da cintura para cima e, principalmente no cérebro. O cérebro mais irrigado deixa a pessoa mais desperta’.[70]
Concluímos reafirmando a regra fundamental: cada pessoa deve buscar, pela experiência própria, sua posição mais favorável. É importante que o secundário não tome o lugar do principal, que os meios não se convertam em fins. Diz um princípio do holismo que é bom estar aberto a tudo e nada absolutizar! Assim vale para a posição de meditar: podemos iluminar nossa experiência com a experiência de outros que nos precederam nesses caminhos, especialmente quando essas experiências vêm de tradições ancestrais. No entanto, a nossa experiência sempre é o fator decisivo: o melhor meio de transporte é aquele que melhor nos ajuda a chegar onde queremos! A melhor posição para meditar sempre será aquela que me ajudar a ficar quieto, relaxado e desperto durante  o tempo da meditação.

6.3.           O Tempo

Já viu algum namorado ou namorada ficar preocupado com o tempo que está na presença de seu amor? Já ouviu algum namorado ou namorada se desculpar para não encontrar seu amor hoje, pelo fato de ainda ontem ter estado com ele? Já viu encontrou algum namorado ou namorada se desculpado com a justificação de não ter tempo para se encontrar com seu amor? Se isso acontecer... desconfiemos do amor que entre eles existe! Quem ama, inventa o tempo! Quem ama não mede o tempo! Quem ama nunca se  sente saciado!
Assim vale no campo da oração. A questão não é se temos ou não tempo para rezar ou se conseguimos ou não permanecer em oração e ser fieis e perseverantes na sua prática. A grande pergunta é se estamos ou não apaixonados por Deus! Se já nos deixamos ou não seduzir por seu amor! Se já fizemos ou não a experiência de ser amados!
Esse, naturalmente é o horizonte da questão do tempo para a Meditação.
Aconselha-se, tradicionalmente, que a pessoa medite duas vezes ao dia, durante pelo menos  vinte minutos. O ideal parece apontar para os trinta minutos em cada  período. Mesmo os Pais do Deserto,  que tanto cultivavam a oração contínua, sugeriam que o tempo da meditação não fosse prolongado indefinidamente, pois viam nisso um perigo para outros desvios.
No início, cinco minutos podem parecer uma infinidade e dez minutos um ato sobre-humano. Com a prática, trinta minutos é um tempo que a pessoa nem sente passar. Sabemos muito bem como o tempo é relativo e tanto depende do amor que colocamos e experimentamos naquilo que vivemos.
Frei Betto conta que nos seus tempos de preso político, teve por companheiro um tal Risadinha, em quem ele reconhecia um verdadeiro místico. Um dia perguntou como ele rezava e ele assim respondeu: ‘Olha, Betto, a hora que eu mais gosto aqui na prisão é quando termina o recreio.(A prisão era de segurança máxima, então cada prisioneiro tinha uma cela e o recreio era das seis às oito da noite). Porque eu entro na cela e começo a conversar com Deus. Sabe, cara, que de vez em quando olho assim pela janela e o dia  já está amanhecendo e eu não notei a noite passar?! E eu não dormi! E no dia seguinte não sinto nenhum cansaço’.[71]
Claro é muito mais importante fazer meditação duas vezes por dia durante vinte minutos, do que passar uma manhã inteira meditando, uma vez por semana.
Tudo isso é processo... e talvez no início, meditar durante dez minutos já seja um bom começo! Experimente, procure saborear... depois, naturalmente você mesmo vai sentir necessidade de prolongar seu tempo de meditação!
Será útil, antes de começar a meditar, determinar o tempo que você vai permanecer em oração e ser fiel ao combinado! Assim como convém que a meditação aconteça todos os dias no mesmo horário. Isso vai ajudando a criar ritmo e em poucos dias o hábito adquirido será um ajuda subsidiária para melhor vivermos nosso ritmo pessoal de meditação diária.
Quanto ao horário, vale novamente a experiência e o ritmo de vida de cada pessoa. Uma boa sugestão seria meditar pela manhã e no final da tarde, ou à noite antes de dormir. Meditar pela manhã ajuda a  pessoa a centrar-se logo no início de seu dia e a presença de Deus aí experimentada será uma companhia durante as atividades que vêm pela frente. Ao longo do dia vamos percebendo e saboreando os frutos desse momento de comunhão com Deus. Meditar no final da tarde ajuda a fazer uma pausa em Deus, depois das tarefas do dia, como quem se aconchega no coração de deus para refazer as energias desgastadas. Meditar antes de dormir teria também esse mesmo efeito e ajudaria certamente a ter um repouso mais tranqüilo através de um somo mais profundo pois,  como já nos lembrava João Cassiano, é bom que o sono nos encontre repetindo nosso mantra. Hoje sabemos que isso tem efeito profundo em nosso inconsciente e até durante o sono continuaremos em comunhão com Deus! De qualquer jeito, novamente vale a experiência de cada pessoa, seu ritmo de sono, seus horários e sua disponibilidade! Assim como os namorados sabem privilegiar e priorizar o tempo para estarem juntos... assim vale a pena dedicar à meditação um momento do dia que lhe seja favorável, dedicando ao amor o melhor que tivermos em nosso dia.

6.4.           Aquietar-se

A oração interior é um caminho que busca realizar a integração entre corpo-alma-espírito.
Mariano Ballester

Saint Exupéry, no Pequeno Príncipe, tem aquele diálogo belíssimo entre a raposa e o príncipe, acerca da necessidade de rituais: ‘Era  melhor você ter vindo à mesma hora – diz a raposa. Se você vier, por exemplo, às quatro horas da tarde, às três eu já começo a ser feliz. À medida que o tempo avança, mais feliz me sentirei. Às quatro horas, já começo a inquietar-me. Terei descoberto o preço da felicidade. Mas, se você vem a uma hora qualquer, nunca posso saber a que horas deverei vestir o coração. São precisos ritos’. E depois continua mais na frente explicando que um rito ’é o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias’. Também na Meditação precisamos de um rito, para sabermos, não apenas a hora em que deveremos ‘vestir o coração’, mas também vestir o corpo e a mente, para que possamos descobrir o preço da felicidade.
Assim como a namorada se prepara para encontrar o namorado, também nosso encontro com Deus precisa ser preparado! E essa preparação precisa acontecer ao nível da pessoa inteira. Não adianta preparar nosso corpo para o encontro, se o coração não está lá ou se nossa cabeça está dispersa pulando por entre outras coisas.
A preparação para a Meditação, que se propõe como um caminho para o centro, implica uma unificação da pessoa. Muitas vezes nos percebemos dispersos, como pessoas quebradas em nossas harmonia pessoal. A meditação pode ser entendida como um caminho de unificação do ser, de centralização na nossa essência, aí onde Deus está presente sempre mas nem sempre é percebido porque outras coisas nos impedem de experimentar sua presença.
Quando aquele jovem se aproximou de um mestre do deserto e lhe pediu angustiado quem o ensinasse o caminho do encontro consigo mesmo, o sábio apenas ficou jogando pedrinhas no fundo do poço... e pediu que o jovem tentasse ver seu rosto lá na superfície das águas. ‘Não consigo – disse o jovem – porque as pedras que o senhor joga agitam a água’. E aí o mestre explicou que assim acontecia com seu interior: enquanto estivesse agitado, ele nunca seria capaz de se encontrar. Quando a pessoa serenar internamente, aí se encontrará definitivamente consigo mesma e ao enxergar seu rosto, nele perceberá os traços claros do rosto de Deus-Trindade, como presença amorosa, incondicional e permanente, como alguém que sempre esteve, mas nem sempre foi experimentado no fundo do poço, como manancial de vida.
A preparação passa pelas várias dimensões da pessoa: precisa começar pela tranquilização do corpo, para depois chegar a serenar as emoções e enfim conseguir apaziguar a mente. Assim harmonizadas as três dimensões, física-emocional-racional, sendo  elas intrinsecamente interdependentes e interinfluenciáveis, as três assim enfeixadas fazem com que a pessoa se encontre inteira diante de si, no mais profundo de si mesma, centrada em sua essência... e aí Deus habita e se deixa encontrar!
É preciso pois ‘harmonizar, unificar e também purificar os três níveis do ser: o nível corporal, o nível afetivo  o nível mental. Esta é talvez a ascese de que tem necessidade o homem moderno, absorto num mundo que o distrai, o dispersa e polui. Sem esta unificação e purificação preparatórias, é muito difícil para o homem de hoje atingir o mais profundo de si. É também muito difícil à fonte interior jorrar e à graça germinar no coração. A fonte precisa ser desobstruída do cascalho que a sufoca; o chão precisa ser limpo’.[72]
Mariano Ballester afirma que ‘ todas as vias percorridas pelos contemplativos, ao longo dos séculos, passaram por estes três degraus’.[73]

6.4.1.     Aquietar o nível físico

Nosso corpo físico é caixa de ressonância de todas as emoções e de todos os pensamentos que nos invadem e que alimentamos dentro de nós. O corpo fala aquilo que sentimos e pensamos. Muitas vezes, o corpo fala através de tensões, de dores e doenças, gritando de modo que não pode deixar de ser ouvido, aquilo que tentamos calar. O Evangelho gnóstico de Tomé atribui a Jesus um dito interessante: ‘Se deixas sair o que está em ti, o que deixas sair te salvará. Se não deixas sair o que está em ti, o que não deixas sair te destruirá’. Todas as emoções que reprimimos e todos os pensamentos negativos que alimentamos, acabam se manifestando em nosso corpo, bloqueando energia, gerando estress e tensões.
Por isso, o primeiro passo é o relaxamento físico. ‘O relaxamento muscular é o pré-requisito necessário para a meditação profunda. Muitos ignoram, a esse respeito, a grande tradição cristã. Mestres de oração, com o Santa Teresa de Ávila, Santo Inácio, São Francisco de Sales e, de modo especial, os grandes Padres da Igreja Oriental, sempre acentuaram a necessidade de que o corpo deve colocar-se em perfeita sintonia com o espírito de quem reza profundamente, a fim de que a mente não seja perturbada por nenhuma tensão material’. [74]
O relaxamento físico se faz, de modo simples e prático, ficando numa posição imóvel, prestando atenção e sentindo o corpo, parte por parte, à medida que se vai respirando lenta, longa e profundamente.  Existe também o relaxamento dinâmico, que consiste em fazer movimento, prestando atenção e sentindo cada parte do corpo. As técnicas orientais como Yoga, Sotai, Shibashi, Tai-Chi... são ajudas valiosas nesta tarefa de relaxar o corpo, aliando já a este relaxamento muscular  a harmonização das emoções, na medida em que trabalham sempre a arte da respiração.

6.4.2.     Aquietar o nível Emocional

A respiração tem uma ligação íntima com as emoções. Nossas emoções são a materialização do fluxo de energia em nós e este depende diretamente do ritmo e da profundidade da respiração. Quando temos emoções fortes, nosso ritmo respiratório se altera e o contrário também é verdade: o modo como respiramos influencia também nosso estado emocional.
Se é certo que sempre respiramos, é quase sempre certo também que respiramos mal. Nossa respiração é geralmente reprimida, deficitária, abaixo das possibilidades. Isso empobrece o fluxo de energia, inibe a liberação de lixo tóxico acumulado em nosso organismo e conseqüentemente vai gerar um estado de espírito pesado e doentio. A proporção, o ritmo, a profundidade, a intensidade, a forma física e a atenção mental  colocadas em cada respiração, contribuem para  movimentar e assimilar a energia dentro de nós mesmos...
‘A respiração é elemento fundamental em todo o processo da meditação profunda. Quase ninguém respira adequadamente na vida diária e por isso os especialistas na matéria chegam a dizer que o homem comum usa apenas um terço e até um quarto de sal capacidade pulmonar total; assim a  oxigenação é deficiente e, por fim, a saúde total do indivíduo se ressente’.[75]
Ao longo da vida, desenvolvemos tensões... e vamos acumulando... e nosso estilo de respiração fica contraído... e isso impede o fluxo de energia por todo o corpo. As células vão se ressentindo. As funções do organismo se empobrecem. O cérebro fica privado de alimento e aí começamos a sentir estresse e ansiedade... e nos tornamos pessoas negativas e doentes... O bem estar depende diretamente do equilíbrio energético... e este depende diretamente da respiração...
Nossos traumas permanecem como energia reprimida que se incorpora à nossa vida diária. Nos acontecimentos traumáticos, contraímos nossa respiração! Essa energia fica reprimida. Essa tensão permanece e mais tarde pode tornar-se uma doença...
Respiramos como vivemos e vivemos como respiramos... pois há uma ligação profunda entre energia-respiração-sentimentos.
Daqui a necessidade de praticar uma respiração lenta, longa e profunda, aquilo que poderíamos chamar de ‘respiração natural’. ‘Os resultados da respiração natural são impressionantes e atingem os mais variados aspectos: prevenção de ataques cardíacos. A pressão sanguínea cai durante aproximadamente trinta minutos após o exercício; aperfeiçoamento da capacidade pulmonar e recuperação das energias; uma tranqüila posse de si, equilíbrio interior e maior facilidade para o recolhimento. A predominância das forças  conscientes é atenuada em proveito das forças profundas. A pessoa atinge a serenidade e a autenticidade e as esparge em torno de si. Quem estava aprisionado dentro do seu eu egoísta e calculista, torna-se assim capaz de abrir-se às grandes e essenciais atitudes da existência, ao mundo e a seus irmãos. Torna-se capaz de amar; por fim, desenvolve-se a sensibilidade para as coisas mais profundas: o que permaneceu superficial, os hábitos adquiridos por imposição, reações desnecessárias de medo, de fuga, etc., tudo isto se apaga pouco a pouco e penetramos na região mais rica de nós mesmos, onde o Espírito Santo pode purificar-nos, nos iluminar e nos transformar’.[76]
Como podemos perceber, o efeito da respiração atinge várias dimensões do nosso ser, pois somos um micro-cosmo profundamente inter-relacionado. ‘A influência da respiração sobre a meditação é tripla. No nível biológico, ela renova o oxigênio e nos libera de impurezas de todo o tipo. No plano psíquico, conduz o nível emocional à descontração. No plano simbólico, nos traz uma riqueza que o Senhor bem conhecia quando soprou sobre os discípulos  lhes disse: Recebei o Espírito Santo (Jo. 20,22)’.[77]
Uma vez que praticamente todos os sentimentos se refletem na respiração, temos duas tarefas importantes ao nosso alcance, bem na frente de nosso nariz: re-aprender a respirar – praticando uma respiração lenta, longa e profunda, e servir-se dela para acalmar os diferentes níveis do nosso ser, especialmente o emocional.
Pela respiração consciente, vamos criando uma atitude que nos permite ser expectadores de nossas emoções, sem nos deixarmos envolver e levar por elas. É como estar parado na margem de um rio, ver uma folha sendo carregada pela correnteza da água e acompanhá-la  no seu curso, até sumir de vista. Não se trata de pensar sobre as emoções, mas apenas observá-las, tomar consciência delas e deixar que elas se esvaiam lentamente e naturalmente.
‘Aquele que conseguiu purificar o seu estado emocional, irradiará alegria e otimismo. Ao invés de ir ao encontro e fixar-se no aspecto negativo e amargo das coisas, a sua personalidade saberá caminhar além das amarguras e sofrimentos,  a fim de prodigalizar generosamente todos o perfume e a paz que Cristo proclamou nas bem-aventuranças. Porém, o melhor fruto da purificação emocional do ser humano é o profundo aumento de um grande amor, que antes, se encontrava prisioneiro entre as trevas: um amor luminoso e universal, livre dos apegos mesquinhos e dos interesses egoístas, cujos sinais estão claramente  relacionados  no famoso hino da caridade, na primeira carta de São Paulo aos coríntios’.[78]


6.4.3.     Aquietar o nível Racional

‘Em nosso caminho para a pacificação total, que é o ambiente imprescindível para entrar na  autêntica meditação profunda, praticamos a tranquilização do corpo através da postura, quieta e imóvel; tratamos de pacificar depois as tenazes emoções que aderem ao espírito como névoa temperamental e paralisante. Fizemos isto por meio da respiração, que pode aquietar admiravelmente o nível emocional. Agora queremos avançar para um setor mais profundo, para a mente, à qual também tratamos de levar a tranqüilidade total, apesar de sua incessante atividade rapidíssima de produzir idéias, quase sempre de forma descontrolada e anárquica. O que Santa Teresa dizia da imaginação, que ela chamava a louca da casa, pode-se dizer com igual exatidão da própria mente, já que é ela que com potência incoercível age em todos os casos; se utiliza sensoriais, é a imaginação; se aciona idéias espirituais é um torvelinho de pensamentos que traz incessantemente ao campo de nossa consciência ou percepção’.[79]
Talvez este seja  o nível mais difícil de se aquietar...
Nossa mente vive fazendo o que sabe fazer: pensar! Se pararmos e prestarmos atenção durante alguns instantes, ficaremos surpresos com a quantidade de pensamentos que nos assaltam, numa agitação contínua, como um bando de macacos pulando de galho em galho. Essa atividade frenética de nossa mente, além do enorme desgaste de energia que provoca, impede que nossa atenção esteja presente em cada momento concreto que estamos vivendo. Ela vive presa ao passado ou vagueando pelo futuro.
‘O nível mental é o mais difícil e complexo para purificar. A mente penetra em cada uma das atividades dos outros níveis, físico e emocional, e se identifica com eles; purificar a mente humana significa, pois, purificar todo o ser humano. A principal característica que pode ser observada na mente não-purificada, é a sua mobilidade’.[80]
Aquietar-se ao nível racional-espiritual significa criar silêncio interior. Este silêncio se consegue concentrando a atenção no presente e assim libertando-a do passado e do futuro, que são profundamente estressantes. Quando conseguimos centrar nossa atenção no presente, experimentamos um nível bom de tranqüilidade.
‘Santa Teresa fala, como poucos, das dificuldades encontradas por aqueles que se esforçam em fazer calar a própria mente, dificuldade que ela mesma experimentou em seu caminho de oração’.[81]
O caminho para pacificar a mente é o Mantra!  Pela repetição do mantra, a mente se concentra no presente, se concentra em si mesma e consegue afastar toda a sorte de pensamentos sobre o passado ou sobre o futuro.
Quase todas as escolas de meditação usam o mantra. ‘Man’ significa ‘mente’ e ‘tra’ quer dizer ‘instrumento’. Poderíamos então traduzir o termo mantra por instrumento da mente ou ferramenta da mente.[82]
Repetindo o mantra, a mente vai serenando progressivamente. O mantra funciona como ponto de referência ao qual sempre voltamos quando nos percebemos dispersos ou envoltos pelas distrações. Ele não evita as distrações mas nos ajuda a voltar a atenção para o momento presente, todas as vezes que dele a mente for desviada.


7.      O Mantra

Hoje se popularizou o termo mantra,  para designar esse meio usado na meditação ao  longo de diversas tradições.  Como já vimos no número anterior, o mantra é um ‘instrumento da mente’, ou um ‘artifício mental’ para ajudar a  bloquear o fluxo constante dos pensamentos gerados pela mente desperta.
A prática do mantra como método de meditação  é muito difundida nas tradições budista tibetana, sufi, hindu e cristã ortodoxa. No cristianismo ocidental  praticamos isso ao longo dos séculos dando-lhe outros nomes, como jaculatórias ou preces, repetidas muitas vezes, em silêncio ou em voz alta, com a ajuda das contas do rosário ou como exercício espontâneo ao longo do dia, até durante a realização de tarefas cotidianas.
‘Chamamos a palavra-oração de mantra. Trata-se de um termo do sânscrito, ao qual Cassiano se refere como sendo uma formula de oração, e que a obra Nuvem chama de pequenina palavra. O termo mantra passou a fazer parte de nossa língua, da mesma forma que a palavra amén, do hebraico, ou cristos do grego. Talvez este seja sinal do vasto e misterioso processo através do qual o Oriente e o Ocidente se estejam unindo atualmente. Mas não há significado especial no fato de ser um termo oriental. A vantagem em usá-lo consiste precisamente em que ele nos faz perceber que esta meditação é diferente daquilo que poderíamos pensar que seria a oração. Não se trata de falar com Deus, ou de pensar em Deus, ou de pedir qualquer coisa’.[83]

7.1.           A Importância do Mantra

O mantra, além de ser uma técnica que ajuda a concentrar a atenção no presente unificando a mente, na meditação cristã adquire um papel bem mais rico e profundo, pois ele se torna também um meio que nos leva ao centro, que nos concentra em Deus.
‘O poder da repetição do mantra reside em sua capacidade de levar você, com sua pulsação interna da consciência, ao estado de unidade... Por isso você sempre deve repetir o mantra consciente de que ele, sua meta e aquele que o repete são um. Se pensar que você,  o mantra e sua meta são diferentes um do outro, nunca realizará o pleno poder do mantra... Assim sendo, o mantra tem uma froça tremenda. A pessoa deve repeti-lo com toda  a atenção e entendimento... Enquanto você repete o mantra por muito tempo com  a mente tranqüila, começa a vibrar intensamente. Ao repetir o mantra  com o ritmo da respiração, você entra nun estado de embriaguez; pode estar certo de que sua prática começou a produzir fruto. Nas etapas finais dessa prática você não repete o mantra deliberadamente; ouve-o repetindo-se dentro de você (eu sou isto). O mantra, como a respiração, pode ser exercitado separadamente, em pequenos espaços ao longo do dia. Repeti-lo então com atenção faz com que o mantra se vá incorporando ao nosso habitual conteúdo psicológico, com o qual cumpre logo com maior efetividade sua missão de afastar as distrações e os pensamentos inoportunos  restabelecer a necessária calma interior’.[84]
O mantra funciona como um referencial ao qual a pessoa sempre volta, quando se percebe perdida, distraída ou dispersa no meio das distrações contínuas da mente. John Main a isso se refere dizendo que o mantra é como a trilha que nos guia no meio da floresta: por entre as árvores e arbustos,  perambulando por entre o mato, muita coisa nos distrai, a copa de uma árvore ou uma pedra do caminho, uma flor ou o canto de um pássaro... e quando damos conta nossa atenção já voou para longe. Nesse momento em que tomamos consciência do nosso afastamento, simplesmente voltamos à repetição do mantra e isso nos reconduz novamente à trilha que nos levará lentamente ao coração da floresta.
Ou então, como diz Victor Davich, ‘ao perambular numa paisagem estranha de pensamentos, sentimentos e sensações, a mente, como um turista, tende a se perder. É aí que o mantra pode salvá-lo. Ele se eleva acima da paisagem de ilusões, pensamentos e distrações em que você se perdeu, assim como a Torre Eiffel  se eleva acima dos telhados  de Paris. É o seu ponto de referência, que o guiará de volta à prática da meditação’.[85]
O mesmo autor, faz referência ao monge trapista Basil Pennington, que ensina uma meditação chamada de ‘prece de centralização’. O foco da atenção é uma simples palavra. Através dela, a pessoa mergulha sem esforço sob o pensamento discursivo e vai até ao centro onde o Espírito reza dentro de nós.[86]
O mantra é o versículo do salmo que João Cassiano aprendeu do abade Isaac, a pequena formula que ele havia recebido dos antigos e repassava aos discípulos como segredo da oração contínua. O mantra é a repetição do nome de Jesus tão própria da tradição hesicasta e de forma belíssima experimentada pelo Peregrino Russo.
O mantra é explicado de forma bem pormenorizada na Nuvem do Não Saber: ‘A oração em si nada mais é do que um devoto tentando chegar diretamente a Deus, a fim  de atingir o bem e livrar-se do mal. E visto que todo o mal está incluído no pecado, quando desejamos orar concentrados para o afastamento do pecado, não devemos dizer, nem pensar, nem dar a entender qualquer outra coisa a não ser esta pequenina palavra “pecado”. E se desejarmos, com toda  a nossa vontade, orar para a obtenção de qualquer bem, brademos verbalmente ou em pensamento desejando, ou não usando nenhuma outra a não ser esta palavra “Deus”. Porque é em Deus que se encerra todo o bem tanto como efeito ou como ser. Não se admire por eu colocar estas palavras acima de todas as outras. Se eu pudesse pensar  em palavras mais curtas que encerrassem em si de modo tão completo, todo o bem e todo o mal como fazem estas duas palavras, ou se Deus me ensinasse a usar qualquer outra palavra, eu as usaria e deixaria estas duas; por isso lhe dou o mesmo conselho. Mas não comece a refletir sobre palavras, porque se começar, jamais alcançará seu objetivo nem realizará esta obra; porque nada se alcança pela reflexão mas só pela graça’.[87]
É importante realçar que o mantra deve ser repetido continuamente  durante o tempo todo da meditação. Ou, melhor ainda, o mantra deve ser escutado... como se ele fosse repetido por alguém dentro de nós e nós concentramos a atenção em escutá-lo, saboreando-o continuamente.
O mantra, repetido durante a meditação, que equivale a um profundo estado de relaxamento, vai-se enraizando no inconsciente da pessoa, pois este se encontra bem aberto. E aí fica fermentando lentamente, até durante o sono.
‘À medida que progredimos pela simples fidelidade, o mantra começa a ecoar não tanto em nossa cabeça, porém muito mais em nosso coração. Ou melhor, parece que ele já se enraizou nas profundezas mais íntimas do nosso ser’.[88]
‘À medida que aprendemos a enraizá-lo em nossa consciência,  o mantra se torna como chave que abre a porta do espaço secreto do nosso coração. No princípio, nos períodos estabelecidos para a nossa meditação, tanto de manhã quanto à tarde, dizer o mantra é trabalhoso. Precisamos aprender a nos familiarizarmos solidamente com ele. Mas, à medida que progredimos, quando começamos a pronunciá-lo e escutá-lo, a cada vez e todas as vezes que o recitamos, entramos em nosso coração e aí permanecemos. Assim, simplesmente trazendo o mantra à mente outras vezes durante o dia, imediatamente nos colocamos na presença do Criador, que habita dentro de nós’.[89]
O mantra, em seu estágio mais avançado, gera efeitos mais profundos ainda: ‘A identificação com aquilo que se repetiu com a boca e com o coração representa o último passo da oração repetitiva. Os orientais chamariam a essa experiência de dhyna-samadhi, isto é, comunhão ininterrupta com a expressão repetida, ou melhor, com o que fica além da própria expressão, até terminar com a completa absorção por ela e com o esquecimento de si mesmo. [...] porque o mantra, repetido continuamente,  tem o poder de abrir o coração a uma nova dimensão: quer se trate de um monge de S. Pacômio ou de um devoto  da Oração de Jesus, se a semente já chegou a dar  seus frutos em plenitude, o indivíduo há de encontrar-se, sem saber como, envolto numa atmosfera de oração contemplativa. Isso acontece graças às profundas raízes que o mantra lançou nas profundezas do ser humano.’[90]

7.2.           Que tipo de Mantra

‘Cassiano recomendava a todos os que desejavam aprender a orar e a orar continuamente, que tomassem um único versículo pequeno e que o repetissem muitas e muitas vezes. Insiste neste método de repetição simples e constante, indicando-o como o melhor meio para afastar todas as distrações e a tagarelice  dos macaquinhos de nossa mente, a fim de permitir que esta repouse em Deus’. [91]
Já percebemos quem ao longo da história o mantra adquiriu expressões diversas, mas todas essas variantes afluem num referencial único. Seja o versículo proposto pelo abade Isaac (‘Senhor tem piedade de mim’...) ou o ‘Maranatha’  tão caro à tradição de John Main, ou as duas pequeninas palavras da Nuvem do Não Saber... tudo vai indicando na mesma direção.
Xavier Escalada distingue três tipos de  mantra: o primeiro é monossilábico, muito usado na tradição oriental; o segundo é uma palavra forte, como ‘Deus’ – e este é mais significativo que o anterior pois não só enche a pessoa com o seu som, mas muito mais com seu significado; o terceiro tipo de mantra consiste numa frase, de significado rico, que se pode dividir em duas partes e repetir mentalmente a metade ao inspirar e  a outra metade ao expirar.[92]
Também é comum nas escolas de meditação profunda o uso de mantras cantados, ao jeito de frases curtas repetidas muitas vezes, com melodias simples. A tradição de Taizé valoriza muito este tipo de mantra, que leva a pessoa até níveis mais profundos de consciência.
‘A afirmativa deve ser breve, não complicada ou negativa (nunca do tipo “não terei medo”, mas sim “sou corajoso”), sempre dirigida para o presente e nunca para o futuro’.[93]
Voltando ao autor da Nuvem do Não Saber, encontramos recomendação preciosa: ‘ Devemos portanto orar na altura e na profundidade, no comprimento e na largura do nosso espírito; e não com muitas palavras mas com uma  palavra de uma sílaba. Qual deverá ser esta palavra? Primeiramente veja qual é a natureza da oração em si; e depois poderá entender mais claramente qual a palavra que está mais de acordo com a  natureza da oração. [...] Não empregue outras palavras para a sua oração a não ser aquelas para as quais Deus o encaminhe. Ao mesmo tempo, se Deus o induzir a usá-las, recomendo-lhe que não as deixe: quero dizer, se você tiver de orar com palavras e não de outra maneira. Porque estas são palavras bastante breves’.[94]
Temos assim uma riqueza de testemunhos que nos deixam claras algumas orientações: o critério determinante seria aquele dado pelo autor da Nuvem do Não Saber, quando diz que as palavras do mantra devem ser inspiradas por Deus! Deixe que elas brotem de sua experiência de Deus, da sua caminhada espiritual,  dos apelos que Deus tem suscitado no seu coração. Um outro critério, na fidelidade à mais antiga tradição, nos dirá que o  mantra deveria ser de inspiração bíblica, pois aí está  um referencial importante da oração tipicamente cristã. Diríamos também que o mantra deve expressar algo muito próprio da pessoa, isto é, deve ser significativo para cada pessoa, tendo relação com sua personalidade, suas riqueza e suas dificuldades, seus ideais e seu horizonte de vida.
Talvez um mantra com duas palavras curtas seja aconselhável, pois facilita sua adequação ao ritmo da respiração: uma ao inspirar e a segunda ao expirar.
Acredito que aqui vale dizer o mesmo que se falou acerca da melhor posição para  meditar! O melhor mantra será aquele que ajudar você a chegar ao coração de Deus!
Por isso, escolha cada pessoa o seu mantra e nele permaneça!

8.      O Processo

Depois de tudo o que já percorremos, torna-se quase desnecessário explicar como se pratica a meditação cristã! Ao longo de todos os capítulos anteriores, fomos desvendando os mistérios que porventura possam pairar em nossas mentes acerca da meditação e ela foi ficando cada vez mais simples e cristalina aos nossos olhos. O processo nos surpreende por sua absoluta simplicidade. É isso e apenas isso!
‘Da mesma forma que você entra facilmente no sono, deve ser capaz de entrar facilmente na meditação. Sinta-se em paz; permaneça consigo mesmo. Enfoque sua mente na consciência interior, o conhecedor interior. Deixe que sua respiração se mova naturalmente e observe-a; não force nada. Mergulhe em seu próprio ser interior. Dirija sua mente e sentidos para dentro. Procure ficar absorto no eu puro. Se aparecerem pensamentos, deixe que entrem e saiam. Observe a fonte dos pensamentos. Medite com a consciência de que você é a testemunha da mente.  A verdadeira meditação é libertar-se da atividade mental. No momento em que os pensamentos se acalmarem , a luz do Ser brilhará de dentro’.[95]
A melhor descrição do processo de meditação me parece ser, pela sua clareza, simplicidade e sobriedade beneditinas, a que John Main nos deixou: ‘para meditar bem, você precisa adotar uma postura sentada confortável; deve ser confortável e relaxada, porém não indolente. As costas devem conservar-se eretas, tanto quanto possível com a coluna numa posição reta. Os que dispõem de certo grau de flexibilidade e de agilidade podem sentar-se no chão, de pernas cruzadas. Se você se sentar numa cadeira, verifique primeiro se ela tem encosto reto e braços confortáveis. Sua respiração deve ser calma e regular. Procure relaxar todos os  músculos do seu corpo. As disposições interiores de que você necessita são: a mente em calma e um estado de espírito tranqüilo, em paz, e é nisto que reside o desafio da meditação. A tarefa real da meditação consiste em alcançar a harmonia de corpo, mente e espírito’.[96]
Poderíamos então resumir o processo da meditação recolhendo os seguintes elementos: 1- determinar um horário e decidir durante quanto tempo vamos meditar; 2- escolher um lugar; 3- encontrar uma posição favorável; 4- aquietar o corpo através do relaxamento; 5- aquietar as emoções através da respiração; 6- repetir o mantra continuamente, escutando-o... e sempre voltar a ele quando nos percebermos distraídos.
Só isso! Apenas isso! Como diz John Main, ‘nossas tentativas para alcançarmos este silêncio podem ser difíceis. É quase certo que serão prolongadas’.[97]
A meditação, sendo um processo, passa por vários estágios naturais, como nos lembra John Main: o primeiro é simplesmente dizer o mantra durante todo o tempo que durar a meditação; o segundo consiste em dizer o mantra toda a meditação sem interrupção, conservando-nos bem calmos diante de todas as distrações; o terceiro  consiste em dizer o mantra durante todo o tempo dedicado à meditação, quase totalmente livre das inúmeras distrações – nesse estágio,  já ultrapassamos o pensamento, a imaginação e todas as imagens e simplesmente permanecemos repousando com a realidade, a presença –realizada e comprometida – do próprio Deus, que habita em nossos corações.[98]
Não é tarefa fácil de praticar, embora seja simples de compreender o seu processo: ‘A meditação requer força e equilíbrio emocional para que a pessoa consiga ficar realmente quieta. Prender a dizer somente o mantra e a afastar-se de todos os pensamentos exige coragem. Mas, quando perseveramos,  descobrimos que a pobreza do mantra nos leva a uma simplicidade realmente radical’.[99]
‘Quando começamos a  meditar, precisamos dizer o mantra durante todo o período de vinte ou trinta minutos de nossa meditação, independentemente do estado de espírito  em que nos encontramos ou de qualquer reação que pareçamos ter. À medida que progredimos na fidelidade em dizê-lo, precisamos então fazê-lo ecoar durante todo o tempo da nossa meditação, quaisquer que sejam as distrações ou sentimentos que possam surgir. Em seguida, à medida que o mantra vai se enraizando em nosso coração, precisamos escutá-lo com toda  a atenção possível e sem interrupção’.Repito isto para novamente enfatizar o que é essencial e o que talvez constitua o único conselho válido sobre meditação e que se resume simplesmente no seguinte: dizer o seu mantra. Não se trata de uma doutrina fácil de ser aceita nem seguida. Todos nós, quando começamos a meditar, ficamos esperando por algum instante de experiência mística, e temos a tendência de superestimar as primeiras experiências incomuns, que o processo de meditação acarreta para nós. Isto, porém, não é importante. O importante é perseverarmos com o mantra, estabilizar-nos mediante a nossa disciplina, que nos prepara para escaladas mais altas da montanha’.[100]

9.      As Dificuldades
‘Se você pode respirar,  você pode meditar’

Meditar é muito simples... o que não significa que seja fácil...  por isso tantas vezes se complica!
Não se trata de buscar experiências extraordinárias nem estados alterados da mente... Trata-se apenas de saborear... Contemplar... significa ser silencioso, quieto, simples... 



9.1.           O que é complicado por ser tão simples

Nos meus tempos de Belo Horizonte, viajando de carro no Dia do Índio, liguei minha atenção no programa de rádio que entrevistava um índio de uma das nações remanescentes em Minas Gerais. O radialista, logo que apresentou o índio abrindo o programa, anunciou  a grande atração da entrevista: ‘no final do programa, o nosso entrevistado vai revelar para nós uma receita de peixe à moda indígena’! E, ao terminar cada bloco Da entrevista e ao iniciar um novo, repetia entusiasmado a promessa da receita. A empolgação do radialista aumentava no entusiasmo da voz a cada anúncio da já tão esperada receita indígena. Eu mesmo á estava ficando empolgado, na expectativa de uma receita exótica e bem incrementada. Afinal, qualquer pessoa mais ligada nos sabores culinários, iria se empolgar com esse segredo indígena. Chegou finalmente o último bloco da entrevista a abertura foi feita com a repetição derradeira da velha promessa: ‘Atenção! Preparem papel e lápis, pois no final deste bloco o nosso entrevistado vai nos brindar com uma deliciosa receita de peixe à moda da sua tribo’! E, finalmente, depois de todo aquele suspense, o índio começou a falar, pausadamente, enquanto o radialista repetia enfaticamente cada palavra: ‘Bem... nós faz assim... nós bota uma panela com água no fogo... (e o radialista repetia pausadamente para os ouvintes anotarem direitinho)... aí, quando a água estiver fervendo... (e o radialista repetia entusiasmado)... aí nós bota o peixe...
Ficou um silêncio de ponto final. O radialista tentou  quebrar o silêncio e perguntou: ‘Então a gente coloca a panela com água no fogo, deixa ferver e depois coloca o peixe... e depois?’
‘E depois, continuou o índio, nós deixa cozinhar e come’!
Houve uma pausa no programa... porque talvez o radialista não tenha conseguido remendar a frustração que acabara de decepcionar sua grande expectativa... que aliás, a esta altura do programa, já havia contagiado os ouvintes...
E eu, também meio frustrado, continuei viagem pensando comigo mesmo: talvez seja isso mesmo! A lição é essa! A grande receita é essa... o peixe cozido, guardando o saber original do peixe, sem artifícios e sem enfeites, sem complicações... sem nada que distraia do gosto simples do peixe!

Esta pode ser uma boa parábola acerca da Meditação Cristã! Quando começamos a ouvir falar, talvez criemos expectativas de uma coisa fora do comum, exótica e complexa, algum conhecimento secreto... e podemos ficar simplesmente decepcionados quando o segredo nos é revelado na sua simplicidade cristalina. Talvez pudéssemos perguntar: ‘ Só isso’?
Nossa mente ocidental, de tão acostumada às coisas complexas, tem dificuldade de aceitar e valorizar o que é simples! Talvez seja essa uma das primeiras dificuldades resistências que encontramos quando nos deparamos com o caminho da meditação!
Talvez essa seja a primeira grande resistência em relação a este caminho de oração! De tão simples, tendemos a menosprezar! Mas, como dizia Carl Jung, ‘o mais simples sempre é o mais difícil. De fato, ser simples é uma grande arte’.
O que mais podemos esperar de um caminho de oração? Coisas complicadas que nos distraiam do essencial? Esquemas difíceis que só alguns conseguem percorrer? Ou algo absolutamente simples que nos coloque em contato com o fim último de toda a oração: o encontro pessoal e profundo com Deus? Uma receita que nos ajude a saborear o ‘gosto original  do peixe’, sem o risco de nos perdermos em muitos temperos...
A oração não é um fim em si mesmo! É um meio para nos ajudar a experimentar a comunhão com Deus! Por isso, a melhor forma de rezar será aquela que de modo mais simples e prático nos ajudar a chegar até essa fonte! Aí está o grande segredo, a grande arte!
O Pe. Comblin, na introdução que faz ao livro ‘ A  Invocação do Nome de Jesus’, da Coleção ‘ a oração dos pobres’, diz de forma clara: ‘A oração mais profunda, mais pessoal, mais interior, mais mística, não é aquela que usa os artifícios de uma cultura sofisticada; ela não precisa de conceitos complicados nem de linguajar enfeitado. Ela não usa métodos refinados acessíveis somente depois de longo treinamento. Muito  pelo contrário, ela é simples, de uma simplicidade somente acessível aos simples’.
Aí, certamente teremos  uma dificuldade em relação à meditação Cristã... mas, ao mesmo tempo, aí se revela toda a beleza deste jeito de rezar! A riqueza deste caminho, está na sua  pobreza absoluta e despojada!

9.2.           As Distrações

É a grande dificuldade quando começamos a praticar a meditação! Vale dizer logo de início que o problema não está no problema mas no modo como encaramos o problema! Distração não é problema! O problema é como lidamos com ela durante a meditação!
Quando viajamos de carro por uma estrada de terra no tempo seco, podemos ver pelo retrovisor a nuvem de poeira que nos acompanha. Se paramos o carro de repente, toda  a poeira cai em cima de nós. Assim acontece quando paramos para meditar: as preocupações que nos acompanham e das quais muitas vezes fugimos, aparecem agora todas de uma vez, como uma enxurrada avassaladora. O que deveríamos ter feito e não fizemos, o que temos na agenda de amanhã, o que vivemos ou deixamos de viver, imagens, pessoas, palavras, desejos... um caudal imenso de coisas, maior do que nossa força, contra o qual não adianta lutar.
Santa Teresa de Ávila, que experimentou na própria pele a dificuldade de lidar com as distrações, ‘aconselha que em primeiro lugar nos convençamos de que se trata de algo inevitável: “Assim como não podemos controlar o movimento do céu que é rápido, também não podemos controlar nosso pensamento”. Armar-se de paciência e não se perturbar, sentir-se culpado ou ainda menos desencorajar-se e abandonar a oração por este motivo: “não se inquiete e não se aflija. Deixemos girar esta roda de moinho (ela se refere à imaginação) e contentemo-nos em moer nossa farinha...” isto é, retornar à atitude fundamental da presença amorosa em Deus’.[101]
O ato de começar de novo, sempre que for necessário, é a arte essencial da meditação: sempre voltar à repetição do mantra, quando  percebermos que alguma distração levou nossa mente para longe da trilha.
É bom entender que as distrações que surgem durante a meditação são coisas nossas, coisas que preocupam nosso inconsciente e que precisam sair. A meditação também é uma oportunidade rica para limparmos nossa mente dessas preocupações! Enquanto elas não saírem... teremos dificuldade de entrar em contato com o Deus que nos habita! Assim entendemos que as distrações fazem parte do caminho. ‘A distração não é seu inimigo. Trate-a com a mesma delicadeza com que trataria um acriança de seis anos que você levou ao aquário e que saiu andando sozinha quando você se distraiu com as águas-vivas: encontre-a, pegue-a pela mão e leve-a de volta ao lugar em que devia estar’.[102]

9.3.           A sensação de ‘não estar fazendo nada’ e a falta de resultados imediatos

Nadando no aquário da cultura da eficiência onde tudo é avaliado pelos resultados imediatos e o lucro mensurável, acabamos bebendo no leite esse veneno que nos impede de saborear o gratuito e de perceber a lenta transformação que o fermento produz na massa ou de apreciar o crescimento sutil do pequeno grão de mostarda. Esta é outra das dificuldades da meditação! Logo somos tentados a perguntar: isso serve para que? Quais são os resultados? E esse é o drama: não ter resultados!
‘Depois de passar dez minutos observando sua mente correndo de lá para cá como uma bola num fliperama cósmico... você vai achar que esta é a experiência mais aborrecida e frustrante que já teve na vida’.[103]
Temos pressa... e é difícil entender que a jornada espiritual dura pelo menos a vida toda. Paciência é uma atitude fundamental em qualquer tradição espiritual.
Contam que Buda encontrou um dia um iogue que conseguia caminhar sobre as águas. Para chegar a esse feito, o dito cujo iogue investira vinte e cinco anos de sua vida numa disciplina rígida de árduo treinamento espiritual. Buda coçou a cabeça e perguntou por que todo esse esforço investido... uma vez que, por alguns trocados, o barqueiro o levaria de bom grado até à outra margem!
Não meditamos para obter poderes especiais ou para experimentar estados alterados de consciência ou para viver emoções fantásticas ou descobrir sinais fascinantes...
A meditação não tem expectativas! Como diz Thomas Moore, ‘Reze – e ponto final! Não espere nada. A prece nos livra das expectativas e permite a entrada da providência, da vontade sagrada e da própria vida. O que poderia ter mais valor – o esforço ou o não esforço? Nesse mesmo sentido, o místico cristão Mestre Eckart diz: “... sempre que está em verdadeiro desapego, o espírito livre força Deus a existir”.[104]
Se fazemos uma viagem de carro, pelo caminho pode acontecer muita coisa: podemos encantar-nos contemplando paisagens maravilhosas ou ficar angustiados com coisas desagradáveis, podemos ter sobressaltos e medos... mas, mais o importante é chegarmos ao nosso destino! Assim acontece com a meditação. Ela continua sendo um meio e não um fim em si mesmo. Por isso, o importante não é o que acontece durante a meditação, mas onde a meditação nos leva: o fundamental é chegarmos a esse encontro profundo, pessoal e íntimo com Deus, no mais profundo de nós mesmos.
‘Você dirá que conseguiu ficar meia hora assim e não sentiu nada. Maravilha.  É justamente esse o bom caminho, pois não rezamos para sentir alguma coisa e sim para deixar a divindade nos impregnar. Às vezes sentimos coisas muito boas, que não são provocadas nem pela mente nem pelas emoções ou sentimentos. Essas coisas não são fruto da oração. Não rezamos para sentir isso, mas para dilatar a fé e a capacidade de amar. Esse é o fruto e a finalidade da oração do cristão’.[105]

10. Os Frutos

 ‘Não espere que a oração o leve ao primeiro grau de santidade. Não rezamos para deixar de pecar, ou para nos sentirmos melhores que os outros. Rezamos para nos sentirmos tão amados por Deus, que fica mais difícil sermos infiéis ao projeto dele. Vamos ter contradições, limitações, neuroses, loucuras, pecados, porém sem os dualismos ou culpas que temos quando não fazemos a experiência de Deus que nos ama assim como somos. Em outras palavras, não rezamos para ser maiores ou menores do que somos, mas para ser do tamanho que Deus nos fez. O místico é alguém que apreende o seu próprio tamanho, a sua verdadeira identidade diante de Deus. E não vale a idéia de que o místico é alguém que já está em êxtase, nem precisa pisar no chão. Isso tudo é fantasia, folclore religioso’.[106]
É muito oportuna esta advertência de Frei Betto, para não alimentarmos em nós ideais sobre-humanos de perfeição, caindo na ilusão de que a meditação nos vai livrar de nossa condição de mortais, frágeis e limitados, vulneráveis e pecadores! Continuaremos sendo pessoas humanas e nós humanos somos assim! A diferença é que o caminho da meditação nos pode ajudar a viver essas tensões e contradições do ser humano de maneira mais serena, sem perdermos o equilíbrio e a soberania no meio das tempestades.
‘A oração de recolhimento faz com que você participe da vida trinitária no céu, que é a sua alma de batizado. Esta é, pois, ao mesmo tempo a melhor preparação para a vida celeste e também a realidade mais enriquecedora, mais desejável, vivida na fé. Por se manter perto do fogo, você não deve se surpreender que um dia tudo se abrase e você mesmo pegue fogo!’[107]
Esse é sem dúvida o fruto maior que devemos esperar da meditação: configurar nosso coração com o ser de Deus, entrar na visão de Deus para poder contemplar a vida nossa e o mundo com o olhar de Deus. Já viram aquelas figuras de ilusão ótica, que a gente fixa nelas o olhar durante alguns segundos e depois, concentrando os olhos num parede branca, nela podemos ver a mesma figura? Talvez seja esse um bom exemplo para entendermos o que acontece conosco quando praticamos a meditação: nossos olhos começam a enxergar Deus presente na realidade do dia a dia, por se terem acostumado a contemplá-Lo intensamente nos momentos de meditação. E isso vai acontecendo espontaneamente, sem esforço nosso, assim como não precisamos fazer esforço para ver a figura da ilusão ótica na parede branca... apenas precisamos olhar e deixar acontecer, pois a imagem já está lá gravada dentro de nós. É fruto da graça de Deus em nós poder saborear sua presença ao longo do dia! Não depende do nosso esforço pessoal! Apenas precisamos saborear... pois ela já está agindo dentro de nós, brotando dessa fonte que em nós transborda e que, pela meditação, estamos desobstruindo lentamente!
‘Meditamos simplesmente para nos prepararmos para receber a plenitude, a vida e a luz para as quais fomos criados’.[108]
‘Conhece-se a árvore pelos frutos, diz o Senhor (Lc. 6,44). São Paulo dirá  quais são os frutos, para indicar quem está de um ou de outro lado, quem realmente descobriu o centro e quem alimenta ainda desejos contrários ao Espírito (Gl. 5, 16-20). É preciso notar, no entanto, que os sinais, considerados separadamente, não são algo infalível. A sua visão de conjunto é que proporciona uma melhor garantia para conhecer até que ponto alguém conseguiu descobrir o centro. Desejaríamos, além disso, sublinhar um aspecto particular: os frutos do Espírito, como os chama São Paulo, são frutos; portanto, não são alguma coisa que se deve procurar para encontrar; nem construir pela vontade. O verdadeiro fruto é algo que se descobre, é uma conseqüência e não uma causa; é o sinal seguro de que existe, antes dele, uma árvore e alguém que a cultiva e que a faz crescer. Seria um erro, portanto, que alguém lutasse para conseguir obter direta e prematuramente, os sinais-fruto, porque não teriam aquela autenticidade que provém somente do tronco e da raiz’.[109]
Mariano Ballester, sobre o alicerce dos frutos do Espírito apontados por São Paulo, destaca a alegria que nasce espontaneamente do mais profundo do coração e faz contemplar em tudo o mesmo esplendor dos lírios do campo; a paz interior e a serenidade, nascidas de uma progressiva libertação; a consciência cósmica, como progressiva expansão da consciência,  que vai participando gradualmente do corpo místico de Cristo, ‘centro do cosmos e da história’, no dizer de João Paulo II; a saúde física e psíquica, porque a  meditação profunda coloca em  perfeita harmonia o corpo e o espírito; a intimidade com o mistério...
São João da Cruz aponta três sinais, que devem manifestar-se sempre simultaneamente, e que caracterizam a verdadeira experiência mística: ‘Não posso fazer mais nada na oração’ – indica a passividade da razão e da palavra na oração, que passa a ser ação exclusiva da graça de Deus, cabendo à pessoa  ‘agir passivamente’; ‘nada me atrai’ – como desapego das coisas e uma indiferença não tanto buscada mas descoberta; ‘o sinal mais seguro’ – a descoberta do centro, onde habita o Deus-Amor, que atrai de maneira total e absoluta. [110]
‘A natureza verdadeiramente transcendente desta descoberta consiste no fato de que não começamos a apreciar nossa harmonia pessoal, porém começamos a experimentá-la como nova capacidade para a verdadeira empatia, como capacidade de ficar em paz com os outros e, na realidade, em paz com toda a criação’.[111]

11. Um Caminho para o Centro
‘Temos um princípio de unidade dentro do nosso ser,
 bem no centro de nosso ser
 e é o nosso espírito que constitui a imagem de Deus dentro de nós.’
John Main

Maria Clara Bingemmer dizia aos Bispos do Brasil reunidos na Assembléia da Bahia que ‘a grande sede do nosso tempo é a sede de mística e uma das grandes tarefas da Igreja é proporcionar às pessoas a experiência de Deus’. A meditação Cristã assume esta tarefa de ajudar as pessoas a fazer experiência de Deus, de modo profundo e transformador, ajudando-as a caminhar rumo ao centro de si mesmas.
‘O centro é uma realidade altamente simbólica. Os estudiosos da história das religiões dizem que lê é um dos arquétipos mais sagrados e antigos da humanidade. Portanto, o centro, como realidade simbólica, possui preferencialmente um significado religioso.  Todas as tradições religiosas nos legaram um vasto material sobre esse centro. Na geografia mística ele aparece como o espaço sagrado, no qual o ser humano, de maneira misteriosa e inefável, pode encontrar-se com Deus. Se o centro ´um lugar, será apresentado com um templo ou por um ponto no seu interior, como o Sancta Sanctorum do Templo de Jerusalém.  As sagradas alturas, como o Calvário, o monte Meru das tradições da Índia, o Garizim que literalmente significa umbigo da terra... indicam que o centro é um lugar sagrado, onde o céu e aterra se unem e entrelaçam’.[112]
A Meditação é um caminho progressivo pra o centro da pessoa onde Deus habita e se deixa encontrar. Os vários níveis da pessoa vão sendo purificados e acalmados, permitindo que o caminho fique livre. Trata-se de um caminho de duas vias: por um lado, a pessoa  caminha da superficialidade e de seu mundo externo até ao profundo de si mesma, centrando-se na sua essência, experimentando-se a partir daquele núcleo sagrado onde ela sente que é ela realmente; por outro lado, percebe um movimento que vem desse centro ao seu encontro, como fonte que transborda livre e fui espontaneamente, porque o caminho foi desobstruído. Dessa fonte jorra uma presença amorosa, uma paz profunda e silenciosa, uma sensação de plenitude, de inteireza, de encontro total, porque ‘à medida que perseveramos na meditação, mergulhamos cada vez mais  profundamente no relacionamento com este Espírito, com Deus que é amor, amor que habita em nossos corações, iluminando-nos e vitalizando-nos’.[113]
Santo Agostinha nos diria que o homem precisa primeiro ser restituído a si mesmo, entregue ao seu auto-domínio, para depois se elevar até Deus. Como poderemos encontrar-nos, se não moramos em nós e como poderemos encontrar Deus que mora em nós se vivemos fora de nós mesmos? ‘Hoje eu vou me visitar. Tomara que eu esteja em casa!’ – dizia Karl Valentin.
‘A meditação nos incentiva a abrirmos os nossos corações a esta luz e a esta vida, mediante o simples expediente de prestar atenção, isto é, de prestar atenção à presença delas dentro de nós. Prestamos atenção à nossa verdadeira natureza e, tornando-nos  plenamente conscientes da união de nossa natureza com Cristo, nós nos tornamos plenamente nós mesmos. Tornando-nos plenamente nós mesmos, entramos na plenitude de vida que Jesus nos trouxe’.[114]
Aqui percebemos um aprofunda ligação entre auto-conhecimento e oração, entre crescimento pessoal e experiência de Deus. Santa Teresa de Ávila dizia que ‘a melhor maneira de se chegar ao conhecimento de Deus é através do conhecimento de nós mesmos’ e completava  com o outro lado da medalha: ‘sem chegar ao conhecimento de deus, nunca acabaremos de nos conhecer verdadeiramente’. Neste processo, temos como primeira tarefa colocar nossa casa em ordem e aí a meditação se torna um processo de auto-descoberta e de formação de nossa identidade. Santa Catarina de Gênova diria: ‘Meu eu é Deus  não consigo conhecer minha identidade a não ser nele’.
‘A tarefa que nos cabe é a de encontrar o nosso caminho de volta para o nosso centro criador, onde a integridade e a harmonia se realizam, habitar dentro de nós mesmos, deixando para trás as falsas imagens de nós mesmos, como o que pensamos que somos ou o que pensamos que deveríamos ter sido, porque estas coisas possuem uma existência irreal fora de nós. Permanecer dentro de nós mesmos, no sentido de alimentar uma simplicidade e uma honestidade que afastem toda e qualquer ilusão, é atitude que nos leva a ficarmos sempre na presença de nosso Criador’.[115]
A meditação é um caminho muito simples e muito profundo, capaz de nos levar a este centro. ‘Em nossa meditação, começamos a entrar nesse estado mediante a renúncia que fazemos a palavras, imagens, pensamentos e até à consciência, a tudo o que é em si contingente, efêmero, tangencial. Na meditação, temos que ter a coragem de esperar unicamente pelo Absoluto, pelo permanente e pelo central. Para encontrarmos nosso espírito, precisamos permanecer silenciosos e consentir que nosso espírito emerja das trevas em que foi mergulhado. Para transcendermos, devemos ficar em quietude. A quietude é a nossa peregrinação e o caminho do peregrino é o mantra’.[116]
É uma experiência difícil de traduzir em palavras, mas intensamente vivida, como ‘uma jovem mãe que estivesse dormindo no mesmo quarto de seu filho entenderia muito bem isto. Não o vê porque o quarto está escuro; não o ouve porque repousa tão profundamente em seu pequeno berço que não faz nenhum ruído. Contudo sabe que está perto dela e o goza e ama intensamente. [...] Chegou ao patamar em que Deus costuma encontrar-se com o homem, na intimidade profunda da alma, melhor do que no bulício externo das criaturas materiais. Esta assombrosa realidade que os místicos os santos de todos os tempos experimentaram pode abrir-se hoje ao cristão comum através do aprofundamento que a prática da meditação induz em sua vida’.[117]
Assim, neste caminho progressivo rumo ao centro, ‘você vai tornando presente o Deus presente em você, e você se aquieta nele, sem dizer nem pensar nada, em sentimento sereno de gratidão e amor’.[118]

12. Oração numa perspectiva integral e integradora da pessoa

A meditação se configura como um tipo de oração que integra as várias dimensões da pessoa: física, energética, emocional, psíquica, racional, espiritual...
É a pessoa toda que reza, na sua inteireza e totalidade. Por outro lado, é também a pessoa toda que se enriquece com os frutos da oração! É um caminho de saúde física e de equilíbrio da energia, limpa as emoções e purifica os porões de nossa história psíquica pela experiência de ser amado, acalma o racional e o concentra num objetivo único, ajuda a pessoa a beber e saciar-se na fonte do Deus-Trindade-Amor...
Sem dúvida, é um jeito de rezar muito significativo para o nosso tempo, que anseia por perspectivas mais holísticas na compreensão do ser humano. Nossa tradição cristã ocidental, embalada pela influência da filosofia grega, ensinou-nos a  rezar com a cabeça. De vez em quando, ao longo da história da espiritualidade, alguém nos lembrava que o coração também reza. O corpo, esse, quase sempre ficou de fora como o bastardo que só vem para atrapalhar as coisas. Karl Ranner diria que nós cristãos aproveitamos muito pouco as potencialidades do inconsciente, pois nossa oração fica apenas no nível lógico-reflexivo. Não mergulhamos em águas mais profundas... e acabamos vivendo na superfície das coisas, onde as transformações nunca acontecem. Os místicos ousaram romper estas barreiras que se foram estruturando... mas o povo sempre acabou ficando isolado das riquezas que a tradição cristã foi guardando ao longo da história. E assim fomos nos contentando com formas de oração estereotipadas, vazias e superficiais, caricaturas de oração, imitações em saldo das grandes experiências místicas. Cada época da espiritualidade valorizou um ou outra dimensão da pessoa, mas quase sempre alguma parte da pessoa ficava de fora. Talvez hoje, presenciemos a volta do desprezo pelo humano, caindo na tentação de uma oração alienada da realidade pessoal e da vida concreta que levamos, para ceder aos embalos de uma oração extra-terrestre que se perde em louvores a Deus mas esquece o homem, este mesmo homem que Santo Irineu dizia ser a razão da glória de Deus, quando vivendo em plenitude! Ou então, a oração cai na supervalorização dos sentimentos e condiciona a manifestação de Deus a emoções de impacto ou  a fenômenos fora do comum. Ou então, ficamos na oração fria e mecânica, burocrática e impessoal, de fórmulas feitas distantes da vida... uma oração que cada vez diz menos às pessoas  do nosso tempo. E, enquanto isso, nunca tanto como hoje, muitas pessoas buscam formas de oração mais profunda... e talvez tenham dificuldade de encontrar na Igreja que lhes aponte caminhos para chegar nas fontes!
‘A beleza da visão cristã da vida é sua visão de unidade. Ela percebe que toda a humanidade foi unificada pelo Único que está em união com o Pai.Tudo o que existe, toda a criação se insere no movimento cósmico rumo à unidade, que constituirá a realização da harmonia divina. Ao realizarmos a união, nós nos transformamos no que fomos chamados a ser. Somente na união conhecemos plenamente o que somos’.[119]
A meditação Cristã proporciona esta integração, pois é a pessoa toda que reza, ou melhor, a pessoa é levada a se concentrar no mais profundo de si mesma, indo além de si mesma, para se encontrar inteira naquele que é seu tudo, onde ela é de verdade e se descobre muito mais do que ela!
‘O mantra propicia este poder de integração. É como que uma sinfonia harmoniosa que ecoa nas profundezas de nosso espírito, induzindo-nos a um sentido cada vez mais profundo, de nossa própria inteireza e globalidade  e de nossa harmonia central. O mantra nos leva à fonte de tal harmonia, ao nosso centro, melhor do que um aparelho de radar transmite uma mensagem através de um nevoeiro denso até quem se acha em casa. Ele também faz em nós nova arrumação,  no sentido de que alinha todas as nossas potências e faculdades, juntando umas às outras, assim como um ímã aproximado dos fios de aço os reúne de acordo com seus campos específicos de força’.[120]
Assim rezando, estaremos vivendo de forma mais inteira o mandato do Senhor aos israelitas, de amar a Deus com todo o coração e com toda a inteligência e com toda a vontade e com todas as forças... e estaremos sendo nós mesmos, com todas as nossas potencialidades, imersos no amor imenso que jorra da fonte que permanece no mais profundo e verdadeiro de nós mesmos.
‘O mistério em que a meditação nos introduz é um mistério pessoal, o mistério de nossa própria personalidade, que encontra sua plenificação na pessoa de Cristo. E assim, quanto mais pessoal for o meio usado para comunicá-lo, mais próximo estará de sua fonte e de sua meta’.[121]

13. Um caminho que leva ao compromisso

Seria esta forma de rezar uma fuga do mundo, um desligar-se da vida e da realidade?
Os grandes testemunhos que a história nos legou acerca das pessoas que meditaram, nos diz precisamente o contrário: basta que lembremos de Ghandi ou dos grandes místicos da nossa tradição cristã... quem mais do que eles se sentiu profundamente em comunhão com o mundo?
‘Algumas  pessoas acham que a meditação é uma tentativa egoísta e narcisista de fugir das responsabilidades e da vida real. Nada está mais longe da verdade. O objetivo da meditação é aumentar a nossa felicidade, desenvolvendo a capacidade de fugir para a vida, não de fugir dela. Com a mente mais aguçada e concentrada, a qualidade da sua vida melhora, sua experiência de vida fica mais rica e você, naturalmente, fica mais feliz’.[122]
Na meditação não desligamos! Antes ficamos mais despertos, mais atentos, mais presentes... a nós mesmos e ao mundo que nos rodeia. Se paramos e nos afastamos para o ‘silêncio do quarto a portas fechadas’, é para encostarmos nosso coração no coração de Deus, para nos deixarmos abrasar pelo fogo, como o ferro que ficando algum tempo na fogueira depois é capaz de queimar como o fogo. Assim nós, havendo colocado em Deus nosso olhar, percebemos em nós um novo olhar, ao contemplar co os olhos de Deus a vida que se estende à nossa frente.
‘A meta mais importante da meditação cristã consiste em consentir que a presença misteriosa e silenciosa de Deus em nós se torne, cada vez mais, não somente uma realidade, porém a realidade em nossas vidas; em deixar que ela se transforme na realidade que dá sentido, forma e objetivo a tudo o que fazemos, a tudo o que somos’.[123]
Na meditação, nos libertamos do passado e nos despojamos do futuro, concentrando-nos no presente, único real. ‘Temos consciência de nossa integridade e unidade e, enquanto permanecemos neste estado de consciência, sentimos uma crescente percepção de nossa união e até unidade com todas as pessoas, com toda a criação, com nosso Criador’.[124]
Frei Betto, um místico de nosso tempo que meditou nos cárceres da ditadura e que fala de meditação para os operários do  ABC, diz assim: ‘O compromisso objetivo de mudar este mundo faz com que abracemos a exigência de mudarmos a nós mesmos, tudo isso com uma clareza típica da espiritualidade cristã: o mistério é sempre Deus’.[125]
Inácio de Loyola dizia que devemos saborear a suave doçura das coisas e que devemos ser contemplativos na ação e ativos na contemplação...
A Meditação é um tipo de oração que nos leva necessariamente de encontro à vida... e vamos de encontro a ela de modo novo, com um novo olhar e um novo ânimo, movidos pela luz amorosa que nos vem do encontro profundo com o Deus-Trindade-Amor-Dinâmico e gerador de vida!
É uma oração encarnada, que assume a pessoa inteira e que leva a pessoa, mais inteira do que nunca, de volta à vida! Isto não aliena... nem leva à falta de compromisso com o outro, com o social...  antes pelo contrário, alimenta profundamente uma atitude compaixão para com tudo o que vive! A verdadeira paz interior leva  ao amor e à justiça! Se a paz interior é o fruto subjetivo da experiência de Deus, a prática do amor e da justiça são os sinais objetivos da verdadeira espiritualidade cristã.
Mais importante que praticar a justiça, é ser justo!
A meditação é o trabalho para alcançar quietude... e a quietude é o carimbo do Espírito! Onde habita o Espírito de Deus, o amor e a justiça brotam e geram vida!
Mariano Ballester, na já citada obra ‘Para Orar Continuamente’, diz que ‘os verdadeiros líderes sociais, capazes de permanecer realmente humanos e livres no meio da atividade pública, são homens de coração, quer o digam com esse ou com outro nome. Um povo que se liberta precisa de vida interior, de personalização radical. A sua personalidade precisa desabrochar num diálogo interior permanente. Não há oposição entre  pobreza e personalidade: o que faz a personalidade é uma oração personalizada.’[126]


14. O desafio dos três ‘Ps”

Meditar é muito simples... o que não significa que seja fácil...  por isso tantas vezes se complica!
Meditar... se aprende, meditando!
O único conselho verdadeiramente útil é, como dizia John Main: repita o seu mantra! Sempre e apenas isso!
Não é fácil começar! Talvez seja mais difícil parar quando se começa a experimentar o gosto! Mesmo que não se saiba explicar o que se experimenta!
Regas... são muito poucas! O processo é muito simples e deve tornar-se cada vez mais simples! O único professor... é a experiência de cada pessoa! A nossa parte é bem pequena... consiste apenas em criam condições, abrindo caminho para o centro e deixando que do centro fluam águas  límpidas da fonte que por lá jorra sem cessar! O resto, deus faz! E a nós, cabe apenas saborear!
Como reza o mantra de Taizé, ‘De noite, iremos de noite, iremos buscar a fonte! Só nossa sede nos guia, só nossa sede nos guia!’

Neste caminho podemos guardar três ‘Ps’: Prática-Paciência-Perseverança!
Só se medita praticando! Especulações não adiantam! Só se aprende a meditar, meditando! A prática é a mestra que vai ensinando caminhos novos!
É preciso Paciência... sabendo que não há resultados  papáveis e que os frutos são dom de Deus e não conseqüência de nosso esforço pessoal! Quem tem pressa, não medita! Quem quer resultados, não aprende a meditar! Quem medita, nada espera!
Perseverança! Perseverança em cada  período de meditação... perseverar repetindo fielmente o mantra!
Perseverar diariamente, meditando sempre!
Perseverar sempre, meditando... porque, como nos lembrava Victor Davich, ‘a jornada espiritual dura pelo menos a vida toda’.

 
[1] Mariano Ballester, Para Orar Continuamente, Ed. Paulinas, São Paulo SP, 1985, pg. 6
[2] Conferências de João Cassiano, Conferência X, segunda conferência do Abade Isaac, número 8
[3] Conferências de João Cassiano, Conferência VII, primeira conferência do abade Sereno, número 3.
[4] Ibidem, Conferência X, segunda conferência do abade Isaac, número 8
[5] Ibidem, número 10
[6] Ibidem
[7] Ibidem
[8] Ibidem
[9] Ibidem, número 11
[10] Ibidem, numero 10
[11] Ibidem, número 11
[12] Ibidem, conferência IX, primeira conferência do abade Isaac, número 25
[13] Ibidem, Conferência X, segunda conferência do abade Isaac, número 12
[14] Ibidem, número 14
[15] Ibidem, Conferência VII, primeira conferência do abade Sereno, número 3
[16] Ibidem, Conferência X, segunda conferência do abade Isaac, número 14
[17] Ibidem, Conferência IX, primeira conferência do abade Isaac, número 35
[18] Victor Davich, O melhor Guia para a Meditação, Editora Pensamento, São Paulo, 1998, pg. 145
[19] Mariano Ballester, Para Orar Continuamente, pg. 57-58
[20] Cf.: Jean Guavain, Relatos de um Peregrino Russo, Paulus, São Paulo, 9ª edição, 2003, pg. 5
[21] Ibidem, pg. 91
[22] Jean Guavain, Op.Cit., pg. 13
[23] Ibidem, pg. 13.
[24] Ibidem, pg. 19-20
[25] Ibidem, pg. 21-22
[26] Ibidem, pg. 23
[27] A Nuvem do Não Saber, Paulus, São Paulo SP, 3ª Edição, 1987, pg. 40
[28] Ibidem, Introdução do Pe. Comblin, pg.  7
[29] Ibidem, Prefácio, pg. 19-20
[30] Ibidem, pg. 32
[31] Ibidem, pg. 33
[32] Ibidem, pg. 34
[33] Ibidem, pg. 43
[34] Ibidem, pg. 106
[35] Cf.: Jean-Michel Dumortier, Caminhos de Oração Profunda, Ed. Loyola, São Paulo, 1992, pg. 23-24
[36] Ibidem, pg. 24
[37] Ibidem, pg. 25
[38] Ibidem
[39] Ibidem, pg. 27
[40] Ibidem, pg. 118
[41] Ibidem.
[42] Ibidem, pg. 119
[43] Victor Davich, O melhor guia para a Meditação, Ed. Pensamento, São Paulo SP, 1998, pg. 17
[44] Ibidem, pg. 21
[45] Ibidem, pg. 27
[46] Ibidem, pg. 25
[47] Ibidem, pg. 26
[48] Frei Betto, Mística e Espiritualidade, Ed. Rocco, 4ª Edição, Rio de Janeiro, 1999, pg. 130
[49] Ibidem, pg. 26
[50] Ibidem, pg. 30
[51] Ibidem, pg. 39
[52] Sonia Hirsch, Deisa Sair, Ed. Corre Cotia, Rio de Janeiro, 2001, pg. 130
[53]  Mariano Ballester, Iniciação à Oração Interior, Ed. Vozes, Petrópolis RJ, 1999, pg. 64
[54] John Main, A Palavra que Leva ao Silêncio, Paulus SP, 1987, pg. 8
[55] Ibidem, pg. 84
[56] José Comblin, A Invocação do Nome de Jesus, introdução, Ed. Paulinas, S. Paulo SP, 1984, pg. 7
[57] Laurence Freeman, A Luz que vem de dentro, Paulus, S. Paulo SP, 1989, pg. 15-16
[58] José Comblin, Op. Cit., pg. 6
[59] Jean-Michel Dumortier, Caminhos para a Oração profunda, Ed. Loyola, S. Paulo SP, 1992, pg. 10
[60] Ibidem, pg. 10
[61] Ibidem, pg. 11
[62] Ibidem, pg. 16
[63] cf: Victor Davich, op. Cit., pgs. 107 a 158
[64] John Main, Op. Cit., pg. 9
[65] Mariano Ballester, Op. Cit., pg.  17
[66] John Main, A Palavra que leva ao silêncio, pg. 10.
[67] Xavier Escalada, Op. Cit., pg. 27
[68] John Main, Op. Cit., pg. 20
[69] Ibidem, pg. 20 e 22
[70] Frei Betto, Op. Cit., pg. 129
[71] Frei Betto, Op. Cit., pg. 127
[72] Jean-Michel Dumortier, Op. Cit., pg. 31-32
[73] Mariano Ballester, Op. Cit., pg. 66
[74] Ibidem, pg. 38
[75] Xavier Escalada sj, Meditação Profunda, Edições Loyola, São Paulo SP, 1992, pg.  35
[76] Jean-Michel Dumortier, Op. Cit., pg. 59
[77] Ibidem, pg. 60
[78] Mariano Ballester, Op. Cit., pg. 57
[79] Xavier Escalada sj, Op. Cit., pg. 41
[80] Mariano Ballester, Op. Cit., pg. 58
[81] Ibidem, pg. 59
[82] Cf.: Xavier Escalada, Op. Cit., pg. 47
[83] Laurence Freeman, Op. Cit., pg. 18
[84] Xavier Escalada sj., Op. Cit., pg. 50-51
[85] Victor Davich, Op. Cit., pg. 45
[86] Cf: Ibidem, pg. 147
[87] A Nuvem do Não Saber, Paulus, São Paulo SP, 1987, pg. 105-106
[88] John Main, Op. Cit., pg. 33
[89] Ibidem, pg. 44
[90] Mariano Ballester, Para Orar Continuamente, pg. 49-50
[91] Ibidem, pg. 27
[92] Cf: Xavier Escalada sj., Op. Cit., pg. 47-48
[93] Mariano Ballester, Op. Cit. pg. 55
[94] Nuvem do Não Saber, pg. 105-106
[95] Xavier Escalada sj., Op. Cit., pg. 60
[96] John Main, Op. Cit., pg. 25
[97] Ibidem, pg 24
[98] Cf.: Ibidem, pg. 35
[99] Ibidem, pg. 46
[100] Ibidem, pg. 94
[101] Jean-Michel Dumortier, Op. Cit., pg. 120-121
[102] Victor Davich, Op. Cit., pg. 51
[103] Ibidem, pg. 50
[104] Ibidem, pg. 134
[105] Frei Betto, Op. Cit., pg. 131
[106] Ibidem, pg. 133
[107] Jean-Michel Dumortier, Op. Cit., pg. 23
[108] John Main, Op. Cit., pg. 47
[109] Mariano Ballester, Op. Cit., pg. 100
[110] Cf.: Mariano Ballester, Op. Cit., pg. 108-109
[111] John  Main, Op. Cit., pg. 32
[112] Mariano Ballester, Op.Cit., pg. 77
[113] John Main, Op. Cit., pg. 39
[114] Ibidem, pg. 41
[115] Ibidem, pg. 43-44
[116] Ibidem, pg. 55
[117] Xavier Escalada sj., Op. Cit., pg. 55
[118] Ibidem, pg. 60
[119] John Main, Op. Cit., pg, 5
[120] Ibidem, pg. 34
[121] Ibidem, pg. 13
[122] Victor Davich, Op. Cit., pg. 61
[123] John Main, Op. Cit., pg. 17
[124] Ibidem, pg. 45
[125] Frei Betto, Op. Cit., pg. 133
[126] Mariano Ballester, Para Orar Continuamente, pg. 7-8

 

Publicado em:01.06.08


Palavras Iniciais Reproduzo abaixo matéria publicada na Lista do Yahoo "Seitas Secretas", recentemente.

Além de excelente em termos de transmissão de conhecimentos, bastante rica em exemplos e citações, vem também fundamentar muitas opiniões já expressas aqui, entre as quais a origem única das religiões e a necessidade de os ensinamentos serem velados.




O Lado Oculto das Religiões

Muitos, talvez a maioria, que virem o título deste livro, de imediato objetarão, e negarão que haja qualquer coisa valiosa que possa ser descrita corretamente como "Cristianismo Esotérico".

Existe uma idéia amplamente disseminada, e além disso muito popular, de que não existe essa coisa de um ensino oculto em conexão com o Cristianismo, e que "Os Mistérios", sejam Menores ou Maiores, foram uma instituição puramente Pagã. O próprio nome dos "Mistérios de Jesus", tão familiar aos ouvidos dos Cristãos dos primeiros séculos, soaria com um choque de surpresa nos de seus sucessores modernos, e, se mencionado como denotando uma instituição especial e definida na Igreja Primitiva, provocaria um sorriso de incredulidade.  Na verdade tem se tornado um motivo de gracejos que o Cristianismo não possua segredos, que o que quer que tenha a dizer o diz para todos, e o que quer que tenha a ensinar, ensina para todos. Suas verdades são supostas ser tão simples que "um caminhante, embora tolo, não possa enganar-se com elas", e o "Evangelho simples" se tornou uma frase feita.

É necessário, portanto, provar claramente que pelo menos na Igreja Primitiva o Cristianismo não ficava nem uma vírgula atrás das outras grandes religiões no fato de possuir um lado oculto, e que ele guardava, como tesouro inestimável, os segredos revelados em seus Mistérios somente a uns poucos escolhidos. Mas antes de fazermos isto será bom considerarmos toda a questão do lado oculto das religiões, e averiguarmos por que um tal lado deve existir se uma religião há de ser forte e estável; pois assim sua existência no Cristianismo parecerá uma conclusão natural, e as referências a ele nos escritos dos Padres Cristãos parecerão simples e naturais em vez de surpreendentes e ininteligíveis. Como um fato histórico, a existência deste esoterismo é demonstrável; mas pode ser demonstrado também que intelectualmente é uma necessidade.

A primeira questão que devemos responder é: Qual é o objetivo das religiões?

Elas são dadas ao mundo por homens mais sábios do que as massas do povo ao qual são outorgadas, e têm o propósito de estimular a evolução humana. A fim de fazer isto efetivamente elas devem atingir os indivíduos e influenciá-los. Mas os homens não estão todos no mesmo nível de evolução, a evolução poderia ser figurada como uma escala progressiva, com homens em todos os estágios. Os mais altamente evoluídos estão muito acima dos menos evoluídos, tanto em inteligência como em caráter; as suas capacidades de entender e de agir também variam em cada estágio. Portanto, é inútil dar a todos o mesmo ensino religioso; aquilo que ajudaria o homem intelectualizado seria inteiramente ininteligível para o estúpido, enquanto que aquilo que lançaria o santo em êxtase deixaria o criminoso inabalado.

Se, por outro lado, o ensinamento adequado para auxiliar o não inteligente é intoleravelmente cru e tosco para o filósofo, enquanto que aquilo que redime o criminoso é completamente inútil para o santo. Mesmo assim todos os tipos (de pessoas) precisam de religião, de modo que cada um possa se alçar a uma vida mais elevada do que aquela que está levando, e nenhum tipo ou nível deve ser sacrificado a nenhum outro.

A religião deve ser tão graduada como a evolução, senão falhará em seu objetivo.

A seguir vem a questão:
De que modo as religiões procuram estimular a evolução humana?

As religiões buscam desenvolver as naturezas moral e intelectual, e auxiliar a natureza espiritual a desabrochar. Considerando o homem como um ser complexo, elas procuram tocá-lo em todos os pontos de sua constituição, e portanto trazer mensagens adequadas para cada um, ensinamentos adequados às mais diversas necessidades humanas. Os ensinamentos devem portanto ser adaptados a cada mente e coração a que são endereçados. Se uma religião não alcança e adestra a inteligência, se ela não purifica e inspira as emoções, terá falhado em seu objetivo, até onde isso envolver a pessoa buscada.
Ela assim não apenas se dirige à inteligência e às emoções, mas procura, como foi dito, estimular o desabrochar da natureza espiritual. Ela responde àquele impulso interno que existe na humanidade, e que está sempre impulsionando a raça para diante. Pois fundo no coração de todos - amiúde suplantada por situações transitórias, amiúde submersa debaixo de interesses e ansiedades prementes - existe uma contínua busca por Deus.

"Assim como o cervo busca pelas fontes d'água, assim busca" (Salmos, XIII, 1)
a humanidade por Deus.  A busca às vezes é interrompida durante algum tempo, e o anelo parece desaparecer. Fases são recorrentes na civilização e no pensamento, daí que este grito do Espírito humano pelo Divino - buscando sua fonte assim como a água busca seu nível, para tomar um exemplo de Giordano Bruno - este anelo do Espírito humano por aquilo que lhe é semelhante no universo, da parte pelo todo, parece aquietar-se, parece ter-se desvanecido; não obstante o anelo reaparece e o Espírito lança o mesmo grito. Sufocado por algum tempo, aparentemente destruído, mesmo que a tendência do momento possa ser esta, ele se ergue de novo e novamente com persistência imorredoura, repete-se sempre e sempre, não importa quantas vezes tenha silenciado; e assim prova-se constituir uma tendência inerente à natureza humana, e portanto uma parte constituinte inerradicável.

Aqueles que declaram triunfantes "Ora!, está morto!" o encontram face a face de novo, e com a mesma vitalidade. Aqueles que edificam sem dar-lhe espaço vêem seus edifícios tão bem construídos derrocar como se abalados por um terremoto.
Aqueles que o sufocam encontram as mais brutas superstições seguirem-se à negação. É tanto uma parte integral da humanidade, que o homem terá alguma resposta aos seus questionamentos; antes uma resposta falsa do que nenhuma.

Se ele não puder encontrar a verdade religiosa, ele abraçará o erro religioso antes do que ficar sem religião alguma, e aceitará os ideais mais toscos e incongruentes do que admitir a inexistência do ideal.

A religião, assim, satisfaz esta ânsia, e tomando conta do constituinte humano que lhe dá surgimento, o treina, fortalece, purifica e guia em direção ao seu fim próprio - a união do Espírito humano com o divino, de modo "que Deus possa ser tudo em todos" (I Coríntios, XV, 28).

A próxima pergunta com que nos deparamos neste estudo é:

Qual a origem das religiões?

A isto foram dadas duas respostas nos tempos modernos - a da Mitologia Comparada e a da Religião Comparada. Ambas respaldam suas respostas em uma única base comum de fatos admitidos. A pesquisa provou irrefutavelmente que as religiões do mundo são marcadamente semelhantes nos seus ensinamentos principais, na existência de Fundadores que apresentam
poderes sobre-humanos e extraordinária elevação moral, nos seus preceitos éticos, no seu uso de meios para entrar em contato com os mundos invisíveis, e nos símbolos pelos quais expressam suas crenças principais. Esta similaridade, chegando em muitos casos até a identidade, prova - de acordo com ambas escolas - uma origem comum.
Mas sobre a natureza desta origem comum as duas escolas estão em litígio. Os Mitologistas Comparados pretendem que a origem comum seja a ignorância comum, e que as mais elevadas doutrinas religiosas sejam simplesmente expressões refinadas das crenças cruas e bárbaras dos selvagens, dos homens primitivos, a respeito de si mesmos e do seu ambiente. O animismo, o fetichismo, o culto à natureza, o culto ao sol - estes são os constituintes do barro primevo do qual brotou o esplêndido lírio da religião. Um Krishna, um Buda, um Lao-Tsé, um Jesus, são altamente civilizados, mas descendentes diretos do curandeiro dançante do selvagem. Deus é uma fotografia compósita dos inumeráveis Deuses, os quais são personificações das forças da natureza. E assim por diante. E é tudo resumido na frase: as religiões são ramos de um tronco único - a ignorância humana.

A Religião Comparada considera, por outro lado, que todas as religiões sejam originadas dos ensinamentos dos Homens Divinos, que dão a diferentes nações do mundo, de tempos em tempos, as partes das verdades fundamentais da religião que os povos são capazes de receber, ensinando sempre a mesma moralidade, inculcando o uso de meios similares, empregando os mesmos símbolos significativos. As religiões selvagens - animismo e o resto - são degenerações, resultados da decadência, distorcidos e atrofiados descendentes das verdadeiras crenças religiosas. O culto ao sol e as formas puras de culto à natureza foram, em seus dias, nobres religiões, altamente alegóricas, mas cheias de verdade e conhecimento profundos.

Os grandes Instrutores - como é proclamado pelos Hinduístas, Budistas, por alguns que estudam a Religião Comparada, como os Teosofistas - formam uma Fraternidade perene de homens que se elevaram para além da humanidade, que aparecem em certas épocas para iluminar o mundo, e que são os guardiães espirituais da raça humana.

Esta visão pode ser resumida na frase:

"As religiões são ramos de um tronco único - a Sabedoria Divina".

Esta Sabedoria Divina é chamada de Sabedoria, Gnose, Teosofia, e alguns, em diferentes eras do mundo, desejaram enfatizar assim sua crença nesta unidade das religiões preferindo o nome eclético de Teosofia, antes do que qualquer designação mais estreita.

O valor relativo dos argumentos das duas escolas opostas deve ser julgado pela reunião das evidências apresentadas por cada uma. A aparição de uma forma degenerada de uma idéia nobre pode semelhar-se muito ao produto refinado de uma idéia grosseira, e o único método de discernir entre degeneração e evolução seria o exame, se possível, de formas ancestrais intermediárias e remotas. A evidência trazida pelos crentes na Sabedoria é deste tipo. Eles alegam que os Fundadores das religiões, a julgar pelo registro de seus ensinamentos, estavam muito acima do nível médio da humanidade; que as Escrituras das religiões contêm preceitos morais, ideais sublimes, aspirações poéticas, profundas asserções filosóficas, dos quais sequer se aproximam em beleza e elevação os escritos posteriores nas mesmas religiões - isto é, que o antigo é mais elevado do que o novo, em vez de o novo ser mais elevado que o antigo -; que não pode ser demonstrado nenhum caso do processo de refinamento e melhoramento suposto ser a fonte das religiões atuais, enquanto que podem ser apresentados muitos casos de degeneração de ensinos puros; que mesmo entre os selvagens, se suas religiões forma cuidadosamente estudadas, muitos traços de idéias elevadas podem ser encontrados, idéias que obviamente estão acima da capacidade dos próprios selvagens em produzi-las.

Esta última idéia foi desenvolvida por Andrew Lang, que - a julgar pelo seu livro The Making of Religion - deveria ser classificado como adepto da Religião Comparada antes do que da Mitologia Comparada. Ele aponta para a existência de uma tradição comum, a qual, alega ele, não pode ter sido desenvolvida pelos selvagens por si mesmos, sendo homens cujas crenças ordinárias são do tipo mais tosco e cujas mentes são pouco desenvolvidas.
Ele mostra, debaixo de crenças brutas e visões degradadas, elevadas tradições de um caráter sublime, chegando mesmo a tratar da natureza do Ser Divino e Suas relações com os homens. As deidades adoradas são, em sua maior parte, verdadeiros demônios, mas por trás, para além de todos eles, existe uma tênue mas gloriosa Presença acima de tudo, raramente ou nunca nomeada, mas sussurrada como sendo a fonte de tudo, como poder, amor e bondade, terna demais para despertar terror, boa demais para requerer preces. Tais idéias manifestamente não podem ter sido concebidas pelos selvagens onde são encontradas, e elas permanecem como testemunhos eloqüentes da revelação feita por algum grande Instrutor - do qual geralmente é detectável um vestígio de tradição - que era Filho da Sabedoria, e que comunicou alguns de seus ensinamentos em uma era há muito passada.

A razão, e na verdade a justificação, da visão dos que assumem a Mitologia Comparada é patente. Eles encontram em todas as direções formas inferiores de fé religiosa, existindo entre tribos selvagens. Isto foi visto como acompanhamento da falta geral de civilização. Considerando os homens civilizados evoluindo dos não civilizados, o que seria mais natural do que considerar a religião civilizada derivando da religião não civilizada? È a primeira idéia óbvia. Só um estudo posterior e mais profundo pode mostrar que os selvagens de hoje não são nossos protótipos ancestrais, mas são a prole degenerada de grandes raças civilizadas do passado, e que o homem em sua infância não foi deixado crescer sem treinamento, mas foi cuidado e educado pelos mais velhos, de quem ele recebeu sua primeira orientação tanto em religião como em civilização. Esta visão está sendo substanciada por fatos tais como aqueles abordados por Lang, e logo suscitará a pergunta:

"Quem foram estes mais velhos, dos quais são encontradas tradições em todo lugar?"

Ainda prosseguindo em nossa pesquisa, passamos à próxima questão: A que povos as religiões foram dadas?

E aqui de imediato chegamos a uma dificuldade com a qual todo Fundador de religião deve lidar, aquela já mencionada envolvendo o objetivo primário da própria religião, a estimulação da evolução humana, com seu corolário de que todos os graus da humanidade em evolução devem ser considerados por Ele.

Homens em todos os estágios de evolução, do mais bárbaro ao mais desenvolvido; são encontrados homens de elevada inteligência, mas também de mentalidade a mais subdesenvolvida; em um local existe uma civilização altamente desenvolvida e complexa, em outro, uma política crua e simples. Mesmo dentro de cada civilização encontramos os tipos mais variados - o mais ignorante e o mais educado, o mais pensativo e o mais relaxado, o mais espiritual e o mais brutal; mesmo assim cada um destes tipos deve ser alcançado, e cada um deve ser ajudado no estágio em que estiver. Se a evolução for uma verdade, esta dificuldade é inevitável, e deve ser enfrentada e superada pelo Instrutor divino, senão Sua obra será um fracasso. Se o homem está evoluindo como tudo em seu redor está evoluindo, estas diferentes de desenvolvimento, estes variados graus de inteligência devem ser uma característica da humanidade em toda parte, e devem receber atenção em cada religião do mundo.

Assim somos trazidos face a face à evidência de que não pode haver só um e o mesmo ensino religioso sequer para uma só nação, muito menos para uma civilização que seja, ou para o mundo todo. Se houver apenas um ensino, um grande número daqueles a quem seria endereçada escapariam inteiramente á sua influência. Se for conformada àqueles cuja inteligência é limitada, cuja moralidade é elementar, cujas percepções são obtusas, de modo que possa ajudá-los e treiná-los, capacitando- os assim a evoluir, seria uma religião completamente inadequada para aqueles homens, vivendo na mesma civilização, que têm percepções morais finas e delicadas, inteligência brilhante e sutil, e uma espiritualidade em evolução. Mas se, por outro lado, esta última classe há de ser auxiliada, se à inteligência há de ser dada uma filosofia que possa ser considerada admirável, se as delicadas percepções morais hão de ser ainda mais refinadas, se à natureza espiritual que desperta há de ser possibilitado que frutifique até a plenitude, então a religião deve ser tão espiritual, tão intelectual, e tão moral, que quando for pregada à primeira classe não tocará suas mentes ou seus corações, para eles será como um rosário de frases sem sentido, incapazes de suscitar sua inteligência latente, ou de dar-lhes qualquer padrão de conduta que os ajude a evoluir para uma moralidade mais pura.

Olhando, então, para estes fatos a respeito da religião, considerando seu objetivo, seus meios, sua origem, a natureza e variadas necessidades dos povos a quem foi endereçada, reconhecendo a evolução das faculdades espirituais, intelectuais e morais no homem, e a necessidade de cada homem por um treinamento tal que lhe seja adequado para o estágio de evolução em que chegou, somos conduzidos à absoluta necessidade de um ensinamento religioso variado e graduado tal que atenda a estas diferentes necessidades e ajude a cada homem em sua própria posição.

Existe ainda uma outra razão pela qual o ensinamento esotérico é desejável a respeito de certas classes de verdades. Este é eminentemente o fato a respeito desta classe que "conhecimento é poder". A promulgação pública de uma filosofia profundamente intelectual, suficiente para treinar um intelecto altamente desenvolvido e atrair a adesão de uma mente excelsa, não pode prejudicar ninguém. Pode ser pregada sem hesitação, pois não atrai o ignorante, que se afastará dela considerando- a seca, rígida e desinteressante. Mas existem ensinamentos que tratam da constituição da natureza, explicam leis recônditas, e lançam luz sobre processos ocultos, cujo conhecimento dá controle sobre energias naturais, e capacitam seu possuidor a dirigir estas energias para certos fins, do mesmo modo que o químico lida com a produção de compostos químicos. Tal conhecimento pode ser bastante útil para homens altamente evoluídos, e pode aumentar seu poder de servir a raça. Mas se este conhecimento fosse publicado ao mundo, poderia ser e seria mal empregado, assim como o conhecimento de venenos sutis foi mal empregado na Idade Média pelos Borgia e por outros. Passaria às mãos de pessoas de poderoso intelecto, mas de desejos descontrolados, homens movidos por instintos separativistas, procurando o lucro para seus eus separados e descuidados do bem comum. Eles seriam atraídos pela idéia de ganhar poderes que os colocariam acima do nível geral, e poriam a humanidade à sua mercê, e correriam para adquirir o conhecimento que exalta seus possuidores a uma posição super-humana. Com esta posse, eles se tornariam ainda mais egoístas e confirmados em sua separatividade, seu orgulho seria alimentado e seu senso de distanciamento intensificado, e assim eles inevitavelmente seriam levados pela estrada que leva ao diabolismo, a Senda da Mão Esquerda, cuja meta é o isolamento e não a união. E não só eles sofreriam em sua natureza interna, mas também se tornariam uma ameaça à Sociedade, que já sofre o suficiente nas mãos de homens cujo intelecto é mais evoluído que sua consciência.

Disto emerge a necessidade de ocultar certos ensinamentos daqueles que, moralmente, ainda não estão prontos para recebê-los; e esta necessidade pesa sobre todo Instrutor capaz de transmitir este conhecimento.
Ele deseja dá-lo àqueles que usarão para o bem comum, para estimular a evolução humana, os poderes que o conhecimento confere; mas ele deseja igualmente não ter parte alguma no dá-lo àqueles que o usariam para seu próprio engrandecimento à custa dos outros.
Tampouco isso é um assunto teórico, de acordo com os Registros Ocultos, que dão detalhes dos eventos aludidos no Gênesis VI et seq. Este conhecimento, naqueles antigos dias e no continente de Atlantis, foi dado sem nenhum requisito rígido a respeito da elevação moral, pureza e altruísmo dos candidatos. Aqueles que eram intelectualmente qualificados eram ensinados, assim como aos homens são ensinadas as ciências comuns nos dias modernos. A publicidade que ora é exigida tão imperiosamente foi dada então, com o resultado de que os homens se tornaram gigantes em conhecimento mas também gigantes no mal, até que a Terra gemeu debaixo de seus opressores e o grito de uma humanidade arrasada ecoou através dos mundos. Então sucedeu-se a destruição de Atlantis, o afundamento daquele vasto continente debaixo das águas do oceano, do que alguns detalhes são dados nas Escrituras Hebraicas através da história de Noé e o dilúvio, e, nas Escrituras Hindus, na história do Manu Vaivasvata.
Desde aquela experiência do perigo de permitir-se mãos impuras tocar no conhecimento que é poder, os grandes Instrutores impuseram rígidas condições sobre pureza, altruísmo e autocontrole para todos os candidatos àquela instrução. Eles terminantemente recusam transmitir conhecimento deste tipo a quem quer que seja que não se sujeite a uma rígida disciplina, planejada para eliminar a separatividade de sentimento e interesses. Eles avaliam a força moral do candidato ainda mais do que seu desenvolvimento intelectual, pois o próprio conhecimento desenvolverá o intelecto, enquanto ele coloca um freio sobre a natureza moral. É muito melhor que os Grandes sejam acusados pelo ignorante, por Seu suposto egoísmo em reter o conhecimento, do que Eles terem de precipitar o mundo em outra catástrofe Atlante.

Apresentamos muita teoria sobre a necessidade de um lado oculto em todas as religiões. Quando da teoria passamos aos fatos, naturalmente perguntamos:
Este lado oculto existiu no passado, formando parte das religiões do mundo?
A resposta deve ser uma imediata e convicta afirmativa; todas as grandes religiões têm alegado possuir um ensinamento oculto, e têm declarado que ele é o repositório do conhecimento místico - ou oculto - teórico, e ainda mais do prático. A explicação mística de ensino popular era pública, e a expunha como alegoria, dando a asserções e histórias cruas e irracionais um significado que o intelecto pudesse aceitar.
Por trás deste misticismo teórico, assim como por trás do popular, existia além o misticismo prático, um ensino espiritual oculto, que só era concedido sob condições muito definidas, condições conhecidas e divulgadas, que deviam ser preenchidas por todos os candidatos.
São Clemente de Alexandria menciona esta divisão dos Mistérios. Ele diz que depois da purificação "há os Mistérios Menores, que têm alguma base de instrução e de preparação preliminar para o que vem depois, e os Grandes Mistérios, através dos quais nada resta para aprender do universo, mas só para contemplar e compreender a natureza e as coisas" (Stromata, livro V, cap. XI. Ante-Nicene Christian Library (A.-N.C.L), vol. XII).

Esta posição não pode ser considerada controversa a respeito das antigas religiões. Os Mistérios do Egito eram a glória daquela terra antiga, e os mais nobres filhos da Grécia, como Platão, foram para Saís e para Tebas para serem iniciados pelos Instrutores de Sabedoria egípcios. Os Mistérios Mitraicos dos persas, os Mistérios Órficos e Báquicos e mais tarde os semiMistérios Eleusinos dos gregos, os Mistérios da Samotrácia, Cítia, Caldéia, de nome são familiares, senão pelo menos como frases feitas. Mesmo nas formas extremamente diluídas dos Mistérios Eleusinos, seu valor é mui altamente louvado pelos mais eminentes homens da Grécia, como Píndaro, Sófocles, Isócrates, Plutarco, e Platão. Eles eram considerados especialmente úteis com relação à existência pós-morte, e o iniciado aprendia aquilo que garantiria sua futura felicidade. Sopater alegou ainda que a Iniciação estabelecia uma afinidade da alma com a Natureza divina, e no exotérico Hino a Deméter são feitas referências veladas ao santo infante, Iacchus, e à sua morte e ressurreição, assim como eram apresentadas nos Mistérios (vide o artigo "Mistérios", Encyclopaedia Britannica, 9ª ed. inglesa).

De Jâmblico, o grande teurgo dos séculos III e IV, muito pode ser aprendido sobre o objetivo dos Mistérios. Teurgia era magia, "a última parte da ciência sacerdotal" (Psellus, citado por T. Taylor em Iamblicus on the Mysteries, p.343, nota na p. 23, 2ª ed.) e era praticada nos Grandes Mistérios para evocar a aparição de Seres superiores. A teoria sobre onde se baseiam estes Mistérios pode ser apresentada brevemente da seguinte forma:
Existe UM, antes de todos os seres, imóvel, habitando na solidão de Sua própria unidade. D'AQUELE surge o Deus Supremo, o Auto-engendrado, a Bondade, a Fonte de todas as coisas, a Raiz, o Deus dos Deuses, a Causa Primordial, desdobrando- Se em Luz (Iamblicus, sic ante, p. 301). D'Ele brota o Mundo Inteligível, ou universo ideal, a Mente Universal, Nous, e os Deuses incorpóreos ou inteligíveis relacionados a ela. Dali surge a Alma Mundial, a que pertencem "as formas intelectuais divinas que existem junto dos corpos visíveis dos Deuses" (Ibid., p. 72). Então derivam várias hierarquias de seres super-humanos, Arcanjos Arcontes (Regentes) ou Cosmocratores, Anjos, Gênios [Daimons, no original - NT], etc. O Homem é um ser de ordem inferior, aliado àqueles em sua natureza, e capaz de conhecê-los; seu conhecimento era adquirido nos Mistérios, e conduzia á união com Deus (O artigo Mysteries da Enc. Britannica tem a seguinte continuação no ensinamento de Plotino [204-206 dC]:

"O UM [o deus Supremo citado antes] é exaltado acima de nous e das idéias; transcende toda a existência e não é cognoscível pela razão. Permanecendo Ele mesmo em repouso, como que irradia de sua própria plenitude uma imagem de Si mesmo, chamada nous, e que constitui o sistema de idéias do mundo inteligível. A alma por sua vez é a imagem ou produto de nous, e a alma por seu movimento toma matéria corpórea. A alma deste modo olha para dois caminhos - para nous, de onde se origina, e para a vida material, que é seu próprio produto. O esforço ético consiste em repudiar o sensível; a existência material é em si um estranhamento em relação a Deus... Para atingir sua meta última, o próprio pensamento deve ser deixado para trás, pois o pensamento é uma forma de movimento, e o desejo da alma é pelo descanso imóvel que pertence ao UM. A união com a deidade transcendente não é tanto conhecimento ou visão, mas êxtase, coalescência, contato.

O Neoplatonismo é assim antes de tudo um sistema de completo racionalismo; é pressuposto, em outras palavras, que a razão seja capaz de mapear todo o sistema das coisas. Mas, porquanto Deus seja afirmado estar além da razão, o misticismo se torna de certo modo o necessário complemento do todo-abrangente racionalismo último. O sistema culmina em um ato místico").

Nos Mistérios estas doutrinas eram expostas, "a progressão do UM, e a regressão de todas as coisas para o UM, e a completa supremacia do UM" (Iamblichus, sic ante, p. 73), e, mais ainda, estes diferentes Seres eram evocados, e apareciam, algumas vezes para ensinar, algumas vezes, por Sua mera presença, para elevar e purificar. "Os Deuses", diz Jâmblico, "sendo benevolentes e propícios, concediam sua luz aos teurgos com abundância generosíssima, chamando as almas deles para cima, para si mesmos, buscando que se unissem a si mesmos, e acostumando- as, enquanto ainda estando em corpos, a ser separadas dos corpos, e ser levadas diretamente ao seu princípio eterno e inteligível" (Ibid., pp. 55-56). Pois "a alma, tendo uma vida dupla, uma em conjunção ao corpo, mas outra separada de todos os corpos" (Ibid., pp. 118-119), e "é muitíssimo necessário aprender a separá-la do corpo, para que ela possa unir-se aos Deuses por sua parte intelectual e divina, e aprender os genuínos princípios do conhecimento, e as verdades do mundo inteligível" (Iamblichus, pp. 118-119).

"A presença dos Deuses, em verdade, concede-nos saúde de corpo, virtude de alma, pureza de intelecto e, numa palavra, eleva tudo em nós até sua própria natureza. Ela (a presença dos Deuses) exibe o que não é corpo como corpo aos olhos da alma" (Ibid., pp. 95-100). Quando os Deuses aparecem, a alma recebe "uma liberação das paixões, uma perfeição transcendente, e uma energia inteiramente mais excelente, e participa do amor divino e de uma imensa alegria" (Ibid. p. 101). "Com isso ganhamos uma vida divina, e somos tornados em realidade divinos" (ibid., p. 330).

O ponto culminante dos Mistérios era quando o Iniciado se tornava um deus, seja pela união com um Ser divino fora de si, seja pela percepção do Eu divino em si. Isso era chamado êxtase, e era um estado que o Yogi indiano chamaria Samadhi, sendo posto em transe o corpo denso e a alma liberta efetuando sua própria união com o Grande Ser. Este "êxtase não é propriamente falando uma faculdade, é um estado da alma, que a transforma de tal modo que então ela percebe o que antes estava oculto de si. O estado não era permanente antes que nossa união com Deus fosse irrevogável; aqui, na vida terrena, o êxtase não passa de um instante... O homem pode cessar de ser homem, e passar a ser Deus; mas o homem não pode ser Deus e homem ao mesmo tempo"(G.R.S. Mead, Plotinus, p. 42-43). Plotino declara ter atingido este estado "somente três vezes".

Também Proclo ensinou que a única salvação da alma era retornar à sua forma intelectual, e assim escapar do "ciclo de geração, das peregrinações multiplicadas" , e atingir o verdadeiro Ser, "a energia simples e uniforme do período de igualdade [sameness, no original - NT], em vez do movimento abundantemente errante do período em que é caracterizada pela diferença". Esta é a vida procurada pelos iniciados por Orfeu nos Mistérios de Baco e Prosérpina, e este é o resultado da prática das virtudes purificativas, ou catárticas (Iamblichus, p. 364, nota na p. 134).
Estas virtudes eram necessárias para os Grandes Mistérios, já que estavam relacionadas à purificação do corpo sutil, no qual a alma atuava quando fora do corpo denso.

As virtudes políticas ou práticas pertenciam à vida comum dos homens, e era requerido que existissem em certo grau antes que ele pudesse ser candidato mesmo para uma Escola tal como a descrita antes. Então vinham as virtudes catárticas, pelas quais o corpo sutil, o das emoções e da mente inferior, era purificado; em terceiro lugar vinham as virtudes intelectuais, pertencendo ao Augoeides, ou a forma luminosa do intelecto; em quarto, as contemplativas, ou paradigmáticas, pelas quais era realizada a união com deus. Porfírio escreve: "Aquele que age de acordo com as virtudes práticas é um homem digno; mas o que age de acordo com as virtudes purificativas é um homem angélico, ou também um gênio [daimon, no original - NT] bom. Aquele que atua de acordo só com as virtudes intelectuais é um Deus; mas o que age de acordo com as virtudes paradigmáticas é o Pai dos Deuses" (G.R.S.Mead, Orpheus, pp. 285-286).

Também era dada muita instrução nos Mistérios pelas hierarquia angélica e outras, e de Pitágoras, o grande instrutor que foi iniciado na Índia, e que deu "o conhecimento das coisas que são" aos seus discípulos eleitos, é dito ter possuído um conhecimento tal de música que ele podia usá-la para controlar as mais selvagens paixões dos homens, e para iluminar suas mentes.
São dados exemplos disto por Jâmblico em sua Vida de Pitágoras. Parece provável que o título de Teodidacto ["ensinado por Deus" - NT], dado a Amônio Saccas, o mestre de Plotino, se referia menos à sublimidade de seus ensinamentos do que á divina instrução por ele recebida nos Mistérios.
Alguns dos símbolos usados são explicados por Jâmblico (Iamblicus, p. 864, nota na p. 134) que diz para Porfírio remover de seu pensamento na imagem da coisa simbolizada e chegar em seu significado intelectual. Assim "lodo" significa tudo o que é corpóreo e material; o "Deus sentado sobre o lótus" significava que Deus transcendia tanto o lodo quanto o intelecto, simbolizado pelo lótus, e estava estabelecido em Si mesmo, estando sentado.
Seu domínio sobre o mundo era figurado na expressão "navegando em um barco", e assim por diante (Ibid., p. 205 et seq). Sobre este uso dos símbolos Proclo assinala que "o método Órfico almejava a revelação das coisas divinas por meio de símbolos, um método comum a todos os escritores sobre a sabedoria divina" (G.R.S. Mead, Orpheus, p. 59).
A Escola Pitagórica na Magna Grécia foi fechada no final do século VI aC, devido à perseguição do poder civil, mas outras comunidades existiam, preservando a tradição sagrada (Ibid., p. 30). Mead declara que Platão a intelectualizara a fim de protegê-la de uma crescente profanação, e os ritos Eleusinos preservaram algumas de suas formas, tendo perdido sua substância.

Os Neoplatônicos herdaram de Pitágoras e Platão, e seus trabalhos deveriam ser estudados por aqueles que percebiam algo da grandeza e beleza preservadas para o mundo nos Mistérios.
A Escola Pitagórica em si serve como um protótipo da disciplina aplicada.
Sobre isto Mead fornece muitos detalhes interessantes (G.R.S.Mead, Orpheus, p. 263 e 271) e assinala:

"Os autores da antigüidade concordam que esta disciplina havia conseguido produzir os mais altos exemplos, não só da mais pura castidade e sentimento, mas também uma simplicidade de modos, uma delicadeza e um gosto por buscas sérias, que não tinha paralelo. Isto é admitido até mesmo pelos escritores Cristãos".

A Escola tinha discípulos externos, liderando a vida familiar e social, e a citação acima se refere a eles. Na Escola interna havia três graus - o primeiro, dos Ouvintes, que estudavam por dois anos em silêncio, fazendo o melhor possível para dominar os ensinamentos; o segundo era dos Mathematici, onde era ensinada a geometria e a música, a natureza do número, da forma, da cor e do som; o terceiro grau era dos Physici, que dominavam a cosmogonia e a metafísica.
Isto levava aos verdadeiros Mistérios. Os candidatos à Escola deveria ser "de uma reputação imaculada e de uma disposição tranqüila".
A estreita identidade entre os métodos e objetivos seguidos nestes diversos Mistérios e aqueles do Yoga na Índia é patente até ao observador mais superficial. Não é, contudo, necessário supormos que as nações da antigüidade beberam na Índia; todas beberam de uma única fonte, a Grande Loja da Ásia Central, que enviava seus Iniciados a todas as terras. Todos eles ensinavam as mesmas doutrinas, seguiam os mesmos métodos, conduzindo aos mesmos fins. Mas havia muita intercomunicaçã o entre os Iniciados de todas as nações, e havia uma linguagem comum e um simbolismo comum. Deste modo Pitágoras esteve entre os Indianos, e recebeu na Índia uma alta Iniciação, e Apolônio de Tyana mais tarde seguiu suas pegadas. Muito indianas em sua forma assim como em seu pensamento foram as palavras de Plotino no seu leito de morte:

"Agora procuro levar de volta o Eu em mim ao Eu de tudo" (G.R.S.Mead, Plotinus).

Entre os Hinduístas o dever de ensinar o conhecimento supremo só ao digno era estritamente enfatizado.

"O mais profundo mistério da culminação do conhecimento. .. não deve ser declarado a alguém que não seja um filho ou um discípulo, e a quem não é tranqüilo de mente" (Shvetâshvataropanis had, VI, 22).

Novamente, depois de um resumo de Yoga, lemos:

"Levantai! Despertai! Tendo encontrado os Grandes Seres, ouvi! O caminho é tão difícil de andar como se fora a fina lâmina de uma navalha. Assim diz o sábio" (Kathopanishad, III, 14).

O Mestre é necessário, pois o ensinamento escrito sozinho não basta. A

"culminação do conhecimento" é conhecer a Deus - e não apenas acreditar; é se tornar uno com Deus - não somente adorá-lo à distância. O homem deve conhecer a realidade da Existência divina, e então conhecer - não apenas vagamente acreditar ou ter esperança - que seu Eu mais profundo é uno com Deus, e que o objetivo da vida é perceber [realise no original - pode ser entendido tanto como perceber como no sentido de realizar, levar a cabo - NT] esta unidade. A menos que a religião possa guiar um homem até esta realização, será somente "como um sino que toca ou um guizo que retine" (I Coríntios, VI, 17).

Também foi dito que o homem deveria aprender a deixar o corpo denso:

"Que um homem a separe (a alma) com firmeza de seu próprio corpo, como o cerne do talo de capim de seu invólucro" (Kathopanishad, VI, 17).

E foi escrito:

"No mais elevado corpo dourado reside o Brahman imaculado, imutável; Ele é a radiosa, branca Luz das luzes, conhecida dos que conhecem o Eu" (Mundakopanishad, II, II, 9). "Quando o vidente vir o Criador dourado, o Senhor, o Espírito, cujo seio é Brahman, então, tendo arrojado de si mérito e demérito, imaculado, o sábio atinge a mais elevada união" (Ibid., III, I, 3).

Tampouco estavam os Hebreus desprovidos de seu conhecimento secreto e suas Escolas de Iniciação. A companhia dos profetas em Naioth, presidida por Samuel (I Samuel, XIX, 20) formava uma destas Escolas, e o ensinamento oral era transmitido por eles. Escolas similares existiam em Bethel e Jericó (II Reis, II, 2, 5) e na Concordância de Cruden (Verbete Escola) há a seguinte nota interessante: "As Escolas ou Colégios dos profetas são as primeiras (escolas) de que temos qualquer notícia na Escritura; onde os filhos dos profetas, isto é, seus discípulos, viviam nos exercícios de uma vida retirada e austera, em estudo e meditação, e na leitura da lei de Deus... Estas Escolas, ou Sociedades, dos profetas foram sucedidas pelas Sinagogas". A Kabbala, que contém os ensinos semipúblicos, é, na forma que subsiste hoje, uma compilação moderna, parte da qual é trabalho do Rabbi Moisés de Leão, que morreu em 1305. Ela consiste de cinco livros, Bahir, Zohar, Sepher Sephiroth, Sepher Yetzirah, e Asch Metzareth, e é dito ter sido transmitida oralmente desde tempos muito antigos-como antigüidade, é reconhecida historicamente. O Dr. Wynn Westcott diz que "a tradição Hebraica atribui às partes mais antigas do Zohar uma data que anteceda a construção do segundo Templo"; e é dito que o Rabbi Simeão ben Jochai colocou por escrito partes dele no primeiro século depois de Cristo. O Sepher Yetzirah é mencionado por Saadjah Gaon, que morreu em 940 dC, como sendo "muito antigo" (Dr. Wynn
Westcott, Sepher Yetzirah, p. 9). Algumas partes do ensinamento oral foram incorporadas à Kabbala na forma em que ela se encontra hoje, mas a verdadeira sabedoria arcaica dos Hebreus permanece sob guarda de alguns poucos dos verdadeiros filhos de Israel.

Breve como é este esboço, é contudo suficiente para demonstrar a existência de um lado oculto nas religiões do mundo além do Cristianismo, e podemos agora examinar a questão de se o Cristianismo foi uma exceção a esta regra universal.



Publicado em:25.05.08


Meditação Dirigida

Palavras Iniciais

Recentemente reproduzimos uma matéria sobre contemplação/meditação no Ocidente.
Como complemento daquela reproduzo a que se segue, "localizada acidentalmente" na Internet.



Meditação Dirigida

“A meditação principia pela unipolarização mental, ou seja, concentração, e, ultrapassando esta, esvazia o homem de todos os conteúdos do seu ego físico, mental e emocional, permitindo ser invadido pelos poderes cósmicos ou divinos” 24:155.
Humberto Rohden

É o tipo de meditação a que o budismo chama Meditação de Tranqüilidade (Samatha). Nesse tipo de meditação a mente é dirigida a alguma coisa, que pode ser uma frase, como a ensinada no livro “O Caminho de um Peregrino” (“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tenha piedade de mim!”), ou uma palavra, como a aramaica Maranatha 35:22 que quer dizer “vem Senhor”. Para a tradição hindu e budista, palavras, frases ou sons, com ou sem significado, usados como objeto de concentração na meditação, são designados mantras.

A concentração em linhas de pensamento pré-fixadas, como o Amor Universal (Metta Bhavana dos budistas), em fatos presentes nas Escrituras, imagens visualizadas ou mentalizadas, ou a simples observação do respirar (inspiração e expiração), também são exemplos de Meditação Dirigida. Até o ato sexual pode e deve ser transformado num exercício meditativo, numa busca por Deus.

>A tradição sufi usa tanto o Zikhr (recitação ou recordação), uma técnica de concentração, quanto o muragaba, uma técnica de discernimento que observa o fluxo da própria consciência. A meditação nas Escrituras, a purificação do coração e o desenvolvimento da percepção levam ao objetivo último do faqir (discípulo sufi), que é a contemplação de Alá, alcançada após a experiência do êxtase (estado de arrebatamento da pessoa que, alheia ao mundo sensível, parece estar em comunicação com, ou diante de um ser espiritual), na qual se descobre que Ele mora dentro do homem (Halladj). <

A Visualização Criativa

Morihei Ueshiba, o fundador do Aikido, chamava esse exercício meditativo de chinkon (acalmar-se) kishin (retornar a fonte) 86:62. Dizia que 20 minutos era um bom tempo para chinkon e que 40 minutos era o tempo que deveria durar kishin, mas que chinkon-kishin não deveria ser medido com rigor e sim ser um processo natural. Nas palavras de Morihei Ueshiba:

“Sente-se confortavelmente e primeiro contemple a manifestação do reino da existência. Esse reino está relacionado com coisas externas, a forma física das coisas. Em seguida, encha o seu corpo com ki, e sinta a maneira com que o universo funciona – sua forma, sua cor e suas vibrações. Inspire e deixe-se levar até os confins do universo; expire e traga o cosmo de volta para dentro de si. Inspire toda a fecundidade e a vibração da terra. Então, incorpore a respiração do céu e a respiração da terra juntamente com a sua, tornando-se a respiração da própria vida. Ao acalmar-se, deixe-se naturalmente acomodar-se no coração das coisas. Encontre o seu centro e encha-se de luz e calor. Mantenha a sua mente brilhante e limpa como a vastidão do céu, profunda como o alto-mar, e majestosa como a montanha mais alta” 86:61.
Esse processo é usado na medicina integrativa como auxiliar na cura com resultados comprovados cientificamente. O pioneiro de seu uso foi o médico Carl Simonton, radioterapeuta, que usava visualizações no tratamento e cura de pacientes com câncer 15:125. É um processo de cura que tenta, pela visualização e imaginação, debelar algum processo físico. Como? Através de imagens mentais especialmente escolhidas como a desobstrução de artérias escolhidas por escovas, tubarões destruindo células cancerosas grandes e frágeis, ou qualquer outra forma de ver uma maneira de se estar sadio.

De aspecto central na prática católica, a visualização tem no Terço católico (o Rosário) o seu expoente. A visualização dos mistérios do Terço (Cf. no APÊNDICE) é de grande valor como forma inicial de prática contemplativa. Gradualmente evolui, transcendendo a imaginação (ondas beta ao EEG) e surge a visualização interna (ondas alfa e teta ao EEG), onde vívidas imagens aparecem na tela mental, até que se passa a um estado mais profundo de percepções interiores em que há um ver, um ouvir, um sentir e um tocar de uma espécie diferente: todo o ser parece sentir as sensações. Vê-se, ouve-se, cheira-se e sente-se com todo o corpo, nítida experiência dos sentidos astrais (Cf. no capítulo anterior).
Enfim se chega à sua essência que é a contemplação pura em que palavras não podem descrever o que acontece, a não ser usando-se de metáforas e símbolos (surgem as ondas delta ao EEG). Santa Teresa d’Ávila (1.515-1.582) escreveu em seu livro “Castelo Interior ou Moradas” 92:1106:

“Chamo eu de meditação discorrer muito com o intelecto, desta maneira: começamos a pensar na graça que Deus nos fez em nos dar seu único Filho. Sem nos determos, vamos adiante, percorrendo os mistérios de sua gloriosa vida. Ou, meditando na oração do Horto, o intelecto não pára até ver o Senhor pregado na cruz. Ou escolhemos um passo da paixão, como, por exemplo, a prisão do Senhor, e vamos pensando nesse mistério, considerando detalhadamente as circunstâncias que se nos oferecem nele para refletir e para sentir, como a traição de Judas, a fuga dos apóstolos e tudo mais. Admirável é essa oração e muito meritória!”

Concordando no grande valor dessa prática meditativa, recentemente o Papa João Paulo II acrescentou mais cinco mistérios aos quinze antes existentes no Terço. Dessa forma ficaram quatro grupos de cinco mistérios: os Mistérios Gozosos, os Dolorosos, os Gloriosos e os Luminosos. Outra forma dessa prática é a meditação sobre símbolos, como o crucifixo, as pinturas ou os ícones do cristianismo ortodoxo.

Aliás, o costume de se meditar observando esculturas e pinturas, de deuses e de santos, e visualizando, na tela mental, suas histórias, ensinamentos e lembranças correlatas, é tão antigo quanto o hinduísmo e o budismo. Uma prática comum, na escola Vajrayana do budismo tibetano, usa as deidades de meditação como ícones de visualização, com o objetivo de trazer à consciência uma auto-identificaçã o dos nossos aspectos negativos, presentes nas deidades, como forma de livrar-nos deles. Através de símbolos e objetos visíveis que lembram o invisível, a doutrina sufi usa a intuição como forma de se ter um conhecimento mental de Alá (presente em tudo), e de se extinguir (fana) a noção de separatividade do eu inferior.

Os “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio de Loyola (1.491-1.556) são visualizações sobre a Criação, sobre o Universo e sua História, busca do autoconhecimento através do auto-exame, visualizações sobre a espera do Salvador, no Antigo Testamento, e sobre a Presença do Cristo encarnado na Terra, Sua vida, Sua paixão, Sua morte, ressurreição e ascensão e, por fim, a contemplação para alcançar o Amor 56:12 (Deus é Amor – I Jo 4:16).

Santa Faustina Kowalska (1.905-1.938) recomendou o exercício diário de se fitar a imagem da Divina Misericórdia de Jesus Cristo meditando nas Suas palavras ditas a ela: “por meio desta imagem concederei muitas graças às almas. Ela [a imagem] deve lembrar as exigências da Minha misericórdia, porque mesmo a fé mais forte de nada serve sem as obras” 31:12. O objetivo é fazer com que se floresça, entre os familiares, o espírito de misericórdia e de generosidade em suas relações com o próximo, seja da mesma família ou não 31:27.

A Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima, entidade que cuida, no Brasil, da divulgação da mensagem dada por Maria, Mãe de Jesus, em Fátima, e incentiva que se reze o Rosário diariamente, distribui um lindo pôster da imagem de Nossa Senhora com a seguinte recomendação: “proponho-lhe fazer um quadro do pôster e introduzi-lo num local de sua residência que seja calmo. Faça desse local seu ponto predileto do dia-a-dia. Coloque em frente ao quadro uma cadeira cômoda. Chegando da rua, sente-se ali por uns minutinhos, sem pensar em nada, até passar as agitações da rua. Apenas olhe para Nossa Senhora e deixe-se envolver pelo bondoso olhar dEla. Passados esses primeiros minutos, fale com ela sobre o seu dia-a-dia ... Não se preocupe com frases feitas. Fale com a alma, de maneira informal, íntima mesmo ...E deixe que Ela lhe fale em seu coração”.

Sabendo-se que a mente é irrequieta por natureza, a forma mais básica de domá-la é levá-la a percorrer os caminhos da imaginação, aos quais ela está acostumada. Esse tipo meditativo é automaticamente escolhido por aqueles que têm grande dificuldade de concentração. Como não conseguem se concentrar, por exemplo, na palavra proferida (na oração devocional), pois a mente divaga demais, preferem seguir divagando com a mente, mas orientando essa divagação no sentido de uma história inspiradora. Aqui a intenção devocional de busca do Amor também deve estar presente (Bhakti-yoga).

Mesmo assim, os pensamentos advindos do exterior e do interior conseguem se intrometer em nossa visualização, embora com menos freqüência. Seria uma forma preliminar de exercício de concentração usando uma divagação mental dirigida, mas não se deve esquecer desse seu caráter preliminar. Esse tipo de visualização deve necessariamente evoluir para uma forma de meditação mais silenciosa mentalmente, como a oração devocional.

Existem formas de visualização meditativa que levam à meditação analítica (Jnana-yoga). A concentração em imagens geométricas, específicas para essa função, é muito utilizada na filosofia tântrica (hinduísmo, budismo Vajrayana e Umbanda). Essas imagens geométricas (confeccionadas em duas ou três dimensões e compostas de círculos e quadrados concêntricos) , conhecidas como mandalas (Yantras), são o ponto de partida para a reflexão e levam o praticante a um estado de consciência ampliado, pela percepção do Universo e do Divino, simbolizados no desenho.

Seguindo essa mesma linha analítica de Jnana-yoga, como forma de se levar ao autoconhecimento, técnicas meditativas de se sonhar acordado são muito usadas. Visualizar luzes divinas entrando pelo topo de nossa cabeça, atravessando nosso corpo e saindo pelo final da coluna, iluminando todo o nosso ser, visualizar a nós mesmos como seres ligados a todo o universo ou imaginar que estamos numa selva conversando com animais (xamanismo), são exemplos dessa prática de visualização. Pelo fato de se deixar a mente correr livre através de um caminho pré-determinado, surgem fatos, pessoas e animais, em nossa mente, que funcionam como símbolos pessoais (como nos sonhos), de forma que sua interpretação lança luz sobre aspectos internos inconscientes de nossa mente.
Também conhecida como contemplação, a visualização deve ser transformada em meditação analítica sempre que algum mecanismo interno de dor (mental ou emocional) for disparado. Essa transformação fará com que descubramos a causa da dor, trazendo-a à luz da consciência para que seja desfeita. Em seguida poderemos, então, prosseguir com a prática que estávamos realizando.



Publicado em:18.05.08>

 
Do livro “Raios de Luz Espiritual”, de
Francisco V. Lorenz – Ed. Pensamento
Organizado por João Baptista Neto (MST)
 
 
 
Palavras Iniciais
 
         A presente matéria, extraída do livro acima, mostra-nos a visão do tema da ‘Predestinação” sob o prisma de diversas tradições religiosas e como influencia no comportamento de seus seguidores.
 
         Como Vocês já observaram, tenho colocado temas que são do conhecimento geral, mas que apresentam certas controvérsias entre os seguidores das diversas tradições, justamente para não ficarmos apegados a uma só “Verdade”, e também para ampliarmos nosso horizonte espiritual.
 

 

A PREDESTINAÇÃO

 
É geralmente conhecido que muitos maometanos professam a doutrina da predestinação, isto é, que acreditam que o homem não é livre em suas ações, e que Deus, desde a eternidade, já determinou o modo de vida e de morte que cada um há de levar. Os que têm esta crença, não temem a morte, é verdade; se os ameaça o perigo de perderem a vida, aceitam-no sem murmurar, dizendo: "É meu Kismet (minha predestinação)." Mas, se as suas crenças os fortalecem em face da morte, enfraquecem-lhes as energias de criar um melhor futuro e colaborar no progresso humano, porque as referidas crenças lhes tiram todo o desejo de mudarem a situação em que se acham. "Há de ser o que é", dizem, "porque se Deus quisesse outra coisa, ele mesmo a pro­duziria".
Os sábios maometanos citam, para sustentar a sua doutrina, passagens do Alcorão, e até da Bíblia cristã, como, por exemplo, os seguintes tópicos: "Dirá o pote ao oleiro: Por que me fizeste assim?" - "Disse o Senhor: Eu endurecerei o coração de Fa­raó..." - "Amei Jacó, e odiei Esaú", e outros.
Os partidários fanáticos desta doutrina crêem que Deus é o autor de tudo, tanto do bem, como do mal; crêem que o destino de cada homem está escrito na sua testa, dizendo que é o livro escrito no céu e contendo a boa ou má sorte de cada um, que o homem não pode evitar nem por sua prudência, nem por qual­quer esforço que faça.
Também o reformador Calvino era de opinião que o homem (isto é, o ser humano) não é livre. Segundo este reformador, Deus escolhe os que quer para si e, antes que nasçam, põe de reserva a graça com que deseja favorecê-los. Não é a sua previsãoda nossa futura santidade, que determina essa escolha. "A graça de Deus - segundo Calvino - é gratuita e não concedida aos que merecem nossos louvores; ela deixaria de ser gratuita se, esco­lhendo o seu povo, Deus atendesse à natureza das obras de cada um.
Segundo essa teoria calvinista, mesmo o livre arbítrio nos é negado, não sendo a graça de Deus concedida senão a poucos dos favorecidos entre as criaturas. Diz Calvino: "O homem não possui a faculdade de praticar boas obras, a menos que não seja assistido pela graça; e essa graça só é concedida aos eleitos na sua regeneração."Calvino pretende que Deus criou uma parte da humanidade para condená-la, e outra parte para salvá-la, e que os predes­tinados à salvação não deixam de entrar no céu, ainda que tenham pecado, ao passo que as boas obras dos predestinados ao inferno não os salvam da perdição.
E esta doutrina, apesar de ser ilógica e inconsolável, encon­trou grande número de partidários entre os protestantes.
Vejamos, entretanto, o que a respeito da predestinação ensina a Igreja Católica Romana. Segundo os seus teólogos, a predestinação é um ato da Vontade de Deus, pelo qual resolveu, desde a eternidade, conduzir por Sua Graça certas criaturas à bem-aventurança divina. A escolha que Deus faz de certas pessoas, para dar-lhes a felicidade eterna, é, segundo uns, gratuita: não tem outro motivo a não ser a Vontade de Deus. Segundo outros, a predestinação se baseia sobre a previsão dos méritos, isto é, sobre o conhecimento que Deus tem que a respectiva pessoa fará, com auxílio da Graça Divina, as obras necessárias para merecer a glória eterna.
Os partidários da primeira hipótese - a graça gratuita - apoiam-se em Santo Agostinho e São Tomás Aquino, citando muitas passagens da Bíblia, como a eleição de Jacó e a reprovação de Esaú já antes do seu nascimento, e acrescentando que a pre­destinação, segundo as palavras do Apóstolo S. Paulo, é um mistério impenetrável: se fosse dependente dos nossos méritos, porém, seria coisa simples e natural.
Os que sustentam que a predestinação se baseia sobre os méritos, alegam também muitos tópicos da Sagrada Escritura, dos Padres da Igreja, e mesmo de Santo Agostinho. Pretendem que o seu sistema está mais de acordo com a liberdade do ho­mem, e que é mais consolável e aceitável do que o de predesti­nação gratuita.
Entre estas duas escolas houve e há muitas controvérsias; e tudo isso é devido à ignorância ou negação da doutrina teosó­fica e espírita de Preexistência, ou Reencarnação.
É verdade que a nossa vida foi predestinada. A nossa entrada neste mundo físico corresponde fatalmente a uma neces­sidade, resultante de uma causa misteriosa; mas a teosofia e o espiritismo explicam este mistério. A nossa vida presente é o resultado das nossas ações nas vidas passadas. Se assim não fosse, não poderíamos crer num Deus infinitamente justo. Se alguém nasceu para sofrer, sem que o merecesse, e outro para gozar, igualmente sem todo merecimento por sua parte, a vida ou seria uma obra de Acaso, ou o Criador seria injusto. Ora, tanto uma, como a outra destas duas hipóteses são impossíveis para quem raciocina logicamente. Porque, em primeiro lugar, um Acaso cego não existe; não pode existir num mundo que nos patenteia uma Direção Inteligente por toda a parte: desde a organização dos cristais, das plantas, dos animais até os cursos dos astros, tudo nos prova que há uma Grande Inteligência, a que vulgarmente chamamos Deus, sumamente justa, como nos prova a nossa consciência e nossa razão: Ela equilibra tudo, e faz cada efeito depender de uma causa.
Nem sempre podemos observar a causa, quando vemos o efeito. Se encontramos, por ex., ruínas em cinzas, a nossa razão nos diz que ali houve incêndio, bem que nós não tenhamos visto as chamas. Quando vemos um cadáver, com ferimentos produ­zidos por uma arma e de um modo que impossibilita admitir um suicídio, estamos certos que o homem cujo cadáver se nos apresenta, foi morto por um outro. E assim poderíamos apre­sentar milhares de exemplos, para provar que muitas vezes a causa já se tornou invisível aos nossos olhos, quando estes enxer­gam o efeito, por ela produzido.
Bem; todo o mistério de predestinação fica explicado pela preexistência: já antes de nascermos esta vida, tivemos outras existências, e nascendo, trouxemos conosco a soma do bem e do mal, adquiridos na preexistência, ou, com outras palavras, trou­xemos a nossa boa ou má sorte, a nossa felicidade ou desgraça, a nossa elevação ou humilhação, que são os efeitos das nossas ações em nossas vidas anteriores, como atualmente preparamos ou predestinamos o nosso futuro.
Não nos esqueçamos, entretanto, que as nossas ações atuais podem modificar o destino que trouxemos quando nascemos. Quem, apesar de viver mergulhado em sofrimentos, não desani­ma, mas erguendo a fronte, espera a vinda de dias melhores e pratica todo o bem possível, expiará as faltas cometidas no passado e elevar-se-á na escala dos seres; ao passo que todos os que abusam de sua feliz situação presente, sofrerão no futuro.
Deus predestinou todos os Seus filhos à Felicidade Eterna; ninguém pode perder-se para sempre, porque todos são partes do Todo, e este sempre existiu, existe e existirá. O que está predestinado a desaparecer, são os erros, as ilusões, o mal: porque só a Verdade, a Beleza e o bem são eternos.
A Graça de Deus opera em todos, e cada um a sentirá, quando estiver preparado a recebê-la.
Os trechos, tirados da Bíblia, ou de qualquer outra Escri­tura, nada provam, quando apresentados em seu sentido literal ou material; quem quer tirar proveito da leitura das Escrituras Sagradas, há de conhecer o seu sentido interno ou espiritual.
Alegremo-nos, Irmãos e Irmãs, porque todos estamos pre­destinados à Eterna Glória, Sabedoria e Bem-aventurança; e não somente nós, mas todos os seres, por mais atrasados que nos pareçam agora.



Publicado em: 11.05.08

Reflexão Sobre a Imortalidade

Palavras Iniciais

Reproduzo o texto abaixo por ser de autoria de um paranormal muito bem conceituado no meio espiritualista.



Por: Wagner Borges

O universo é constituído por muitas dimensões que se interpenetram. Matéria é energia condensada, e energia é matéria em estado radiante. Logo, tudo é energia, em graus variados de densidade. Um contato espiritual depende de vários fatores: sintonia entre as partes, circunstâncias extra-físicas ou cármicas, aprendizado das pessoas envolvidas, orientação dos amparadores que coordenam esses processos anímico-mediúnicos, e disponibilidade da pessoa procurada no plano extra-físico. É tudo uma questão de freqüências dimensionais. É pura sintonia!

Deixe-me dar um exemplo prático. Tenho um irmão portador do vírus HIV, e que com freqüência apresenta problemas oriundos das várias infecções causadas pelo enfraquecimento de seu sistema imunológico. Todas as vezes que ele entra em crise (já esteve várias vezes entre a vida e a morte), eu sinto a distância o que ele está passando. Ou seja, essa ligação já ocorre em vida intra-física. Quando ele passar para o "lado de lá", não terei dificuldade alguma para acessá-lo (e ajudá-lo, se precisar). Contudo, se receberei uma mensagem dele ou não, isso depende de várias circunstâncias.

Ao longo de 22 anos trabalhando com o lado espiritual (tenho 37 anos agora, mas as primeiras experiências para-psíquicas se iniciaram em 1977, quando eu tinha 15 anos) já vi muitos espíritos, conhecidos e desconhecidos. E aprendi que uma comunicação espiritual só vem se o pessoal do "lado de lá" quiser, ou se a pessoa interessada se desenvolver e abrir suas para-percepções para outras freqüências vibracionais.

Vontade de Viver

Não é uma mensagem psicografada que acabará com a saudade e o vazio das pessoas. O que acabará com a sensação de perda é a maturidade da própria consciência, seu crescimento como pessoa, sua própria evolução, que lhe mostrará que a energia do TODO está em tudo! Crescendo, ela perceberá o toque da vida em tudo. Sentirá em seu íntimo uma certa ressonância com os planos invisíveis, e terá plena certeza da imortalidade da consciência. Não mais acreditará, pois terá ampla certeza. Não dirá: "eu creio!"; dirá: "eu sei!" É óbvio que sentirá falta da presença da pessoa amada que partiu, mas administrará isso muito bem. Não será saudade doentia, será compreensão oriunda do discernimento e de sentimentos verdadeiros.

O que as pessoas estão precisando é de claridade nas idéias e muito amor no coração.

Amigos, que tal colocar no lugar da "meleca emocional" um pouco de esclarecimento espiritual, amor, alegria e vontade de viver? Se a pessoa amada foi arrebatada para outras dimensões (tudo o que está vivo um dia morre), aceitem. Vocês têm que seguir a vida e aprender o máximo possível, até chegar a hora de vocês serem arrebatados também. A natureza nos obriga: temos que viver! A pessoa amada partiu, mas quem disse que nossa vida tem que se partir também?

Se conseguirem uma mensagem de alento da pessoa, ótimo. Caso contrário, por favor, cresçam. Não deixem a tristeza bloquear seus sentimentos para com a vida e as outras pessoas.

Desculpem a franqueza, mas não será uma mensagem psicografada que vai confortar seus corações. O que os confortará é saber que se está fazendo o melhor possível na existência. É ter certeza de estar usando o bom senso em todas as situações. É saber que o próprio coração é um imenso manancial de amor, seja pelos que estão vivos no plano físico, seja por aqueles que estão vivos nos planos extra-físicos, além da vida terrestre.

Elevem seus pensamentos e sigam o fluxo da vida, pois não há alternativa para quem vive na Terra, a não ser viver, viver e viver até que, um dia, no justo momento final de nossa existência no planeta, a morte nos arrebate para as dimensões extrafísicas. E aí, só nos restará viver, viver e viver... extrafisicamente, junto àqueles afetos que nos precederam na jornada.

Meus amigos, sei que esse é um tema duro de ser abordado, mas é necessário tocar nesses pontos nevrálgicos escondidos dentro do coração. Não estou insensível aos pedidos das pessoas e as entendo. Contudo, não estou disposto a compactuar com suas vibrações de tristeza. Prefiro ser direto e preciso, mesmo parecendo um pouco duro; mas minha função como espiritualista consciente é elevar o clima íntimo das pessoas. Saudade dói, mas ignorância dói mais. Visitar o túmulo de alguém pode até confortar a pessoa, mas estudar um tema espiritual conforta muito mais. Revoltar-se por causa da perda não traz a pessoa amada de volta, mas bloqueia nossa percepção para as realidades maiores da existência. Deixar o manto da tristeza envolver o coração impede a pessoa de apreciar a maravilha que é o nascer e o pôr do sol. Enlutar a consciência só impede os amigos de perceberem o brilho de! seus olhos. Ficar mal é um atentado contra a beleza da existência, mesmo com todos os problemas que o viver diário apresenta. Odiar tudo isso não resolve o problema.

Para reflexão em torno desse tema, reproduzo aqui alguns pensamentos sobre a imortalidade da consciência:

"Há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido. Alma é pessoa".
Eça de Queirós

"Depois de um curto sono, despertamos na eternidade. A morte não é mais do que isso".
John Donne

"Maravilhosa é a força que me vem da certeza de não morrer jamais, de fazer sem estorvo a minha obra, por mais que às vezes o meu corpo sofra... Bem sei: aquilo que almejo e faço, não cabe, de uma vida só, no espaço".
Christian Morgenstern

"Os que não esperam outra vida já estão mortos nessa".
Goethe

"Importa mais como se viveu do que quanto. Viver bem não é viver muito, e sim viver para além do tempo concedido, o que somente se obtém vivendo para o bem".
Ralph Waldo Emerson

"Sem a esperança da imortalidade seria inútil viver algum tempo somente para padecer tantos males e chorar, tão a miúdo, perdas irreparáveis".
Victor Tissot

"Tenho a certeza de que nem a morte, nem os anjos, nem os demônios, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem as potências, nem as alturas, nem as profundidades, nem qualquer outra criatura poderá separar-me do amor a Deus".
São Paulo

"O homem capaz de negar a existência de Deus diante de uma noite estrelada ou junto da sepultura de seus maiores, sem noção da imortalidade, ou é um grande infeliz ou um grande culpado".
Mazzini

"Que grandes homens tenham morrido nos capacita a morrer com tranqüilidade; que eles tenham vivido nos certifica da imortalidade".
Emily Dickinson

"O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. Aquele que supera esse medo possui tudo, pois é imortal".
Tolstoi

"Só a alma é imortal: só essa pura essência. Jamais se decompõe ou jamais se aniquila. O corpo é simplesmente a lâmpada de argila. A alma, eis o clarão".
Guerra Junqueiro

"Nada perece e nada morre, a não ser o revestimento, a forma, o invólucro carnal, em que o espírito, encarcerado, se debate, luta, sofre, aperfeiçoa-se; morre a forma - essa carcaça - mas rebrilha a alma - esse gnomo de luz - e o que é essa existência do corpo - um sopro - perante a existência da alma - a eternidade?"
Alberto Veiga

Se eu pudesse, chegaria bem pertinho de vocês e gritaria bem alto: NINGUÉM MORRE!

Contudo, não dá para fazer isso por e-mail. Mas, é possível (se vocês estiverem abertos para isso) que, por intermédio desses escritos, nossos corações se toquem espiritualmente na sintonia de um Amor Maior. Daí pode surgir uma suave vibração invisível que permeie seus sentimentos e aumente sua compreensão. Suas lágrimas vão se transformar em pétalas de luz, e algumas vozes sutis, pelas vias da inspiração, dirão no silêncio do coração espiritual:

"A vida continua! Aqui e lá, lá e aqui, continuamos bem vivos! E amamos vocês, assim como deus ama todos nós. Tenham paciência e jornadeiem pela vida com dignidade e sabedoria. Quebrem as correntes da dor e emanem pensamentos e sentimentos benéficos. Na hora exata, esperaremos vocês com flores de luz no coração de Deus".

"A alma não nasce e nem morre. Apenas entra e sai dos corpos perecíveis. Saiba disso, Arjuna, e seja feliz!"
(Krishna)



Curiosidade Esotérica

Publicado em:04.05.08

Extraído do Site:www.piramidal.cjb.net
Curitiba PR Brasil

O Homem mais Feliz do Planeta

Em laboratórios de todo o mundo, o estudo do cérebro entrou numa fase detalhada, que permite chegar a conclusões sobre o grau de FELICIDADE das pessoas. E estes esforços levaram os investigadores da ciência a surpreendentes análises comparativas.

Conheça O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO, segundo um recente experimento científico...

Nós nos acostumamos (fomos condicionados) a crer que a felicidade é uma espécie de competição olímpica onde é vitorioso quem possui mais, domina, comanda e sente através de coisas...

O homem mais feliz do planeta hoje, é um indivíduo que vive em uma cela de dois por dois, não é dono nem executivo de nenhuma das compahias da Fortune 500, não vive dependente de celular, nem dirige um BMW, não veste roupa de Armani nem Hugo Boss, desconhece tanto o Prozac como Viagra ou êxtasis, e sequer toma Coca-Cola.

Em suma: O homem mais feliz do planeta é um homem que prescinde de dinheiro, competição profissional, vida sexual, e popularidade.

Seu nome é Matthieu Ricard. Francês, ocidental por nascimento, budista por convicção e o único entre centenas de voluntários cujo cérebro não só alcançou a máxima qualificação de felicidade previstas pelos métodos científicos, como superou por completo o “felizômetro”:

Os 256 sensores e dezenas de ressonâncias magnéticas aos quais Ricard se submeteu ao longo de vários anos para validar o experimento não mentem: Ali onde os níveis em simples mortais é muito alto, - estresse, medo, frustração - no cérebro de Ricard, estas sensacões limitantes simplesmente não existem.

Mas ao contrário, onde a maioria demonstrou baixíssimos níveis - satisfação e plenitude existencial - Ricard superou todos os índices.

Isto é, em todas e cada uma das sensações positivas, dando origem ao título do “Homem mais feliz do planeta!"

Os cientistas nunca encontraram ninguém tão “feliz” e afirmam, em medições quantificáveis, que Ricard é mesmo o homem “mais feliz da terra”.

O paradoxo do caso não é o fato de ser um homem tão feliz e sim como chegou a se-lo, despreendendo-se de tudo aquilo em que os ocidentais supõem a raiz da felicidade: dinheiro, posses, consumo, consumo, consumo...

E não é que Ricard seja alheio a tudo disso: Ele fez doutorado em genética molecular e trabalhou ao lado do prêmio Nobel da medicina Francois Jacob. Além de ser filho de Jean François Revel, um famoso filósofo e membro emérito da Academia Francesa. (recém falecido) Mas nada o deslumbrava e não se sentia pleno.

Com o mundo do sucesso material à sua frente, e a ponto de converter-se num eminente cientista, um dia, fortemente impressionado com a filosofia oriental, decidiu mudar o rumo da sua vida:

Dedicou-se à meditação, tornou-se discípulo do mestre tibetano Rinpoche, se foi para o Himalaya, adotou o caminho dos monges, e iniciou uma nova vida do zero.

Hoje é um dos maiores estudiosos do clássico tibetano, é assessor e braço direito do DALAI LAMA e tem doado milhões de euros - produto da venda de seus livros - a monastérios e obras de caridade.

Porém isso não é a CAUSA, senão a CONSEQUENCIA de sua FELICIDADE...

A causa para esse resultado devemos buscar em outro lugar, diz o chefe do estudo, Richard J. Davidson, e não é nenhum mistério ou graça divina:

“Se chama plasticidade mental. É a capacidade humana de modificar fisicamente o cérebro por meio dos pensamentos que escolhemos ter. Igual aos músculos do corpo, o cérebro desenvolve e fortalece os neurônios mais utilizados.

Mais pensamentos negativos, maior atividade no córtex direito do cérebro e em consequencia, maior ansiedade, depressão e hostilidade. Em outras palavras: mais infelicidade auto-gerada.”

“Por outro lado, quem desenvolve bons pensamentos e uma visão amorosa da vida, exercita o córtex esquerdo, elevando as emoções prazerosas e a felicidade.”

Ainda o Dr. Davidson:

“O resultado desse estudo pode até mudar por completo a visão que temos do cérebro humano. São enormes as as suas implicações.”

“Entre estados de meditação, as ondas cerebrais permanecem intensas, sugerindo que é possível treinar o cérebro e controlar as emoções, mudando a estrutura da própria mente. A meditação pode mudar as funções cerebrais de forma durável. Tudo indica que o cérebro pode ser treinado na idade adulta e até modificar a sua organização interna, algo que experiências com músicos também já tinham demonstrado.”

Ricard adverte que não se trata de decidir ver a vida cor de rosa de um dia para outro, mas de trabahar sistemáticamente para debilitar os músculos de infelicidade que tanto temos fortalecido acreditando-nos vítimas do passado, dos pais ou do nosso meio. E paralelamente, começar a exercitar os músculos mentais que nos fazem absoluta e diretamente responsáveis por nossa própria felicidade.

Admite que seu caminho não é mais que um entre muitos e afirma que ser feliz necessáriamente passa pela mudança de deixarmos de culpar aos outros pela nossa infelicidade e buscarmos a causa em nossa própria mente.

“Viver as experiências que a vida nos oferece é obrigatório; sofrer com elas ou desfrutá-las é opcional.”

Biografia, vídeos e artigos:
http://matthieuricard.org/biographiep.html

Poderíamos dizer: “tudo isso é muito inspirador, mas que benefício pode trazer a mim, que tenho uma família, responsabilidades e passo a maior parte do tempo em circunstâncias bem diferentes das de eremitas e sábios?”

Em resposta a eles, Ricard Matthieu não perde o pé da praticidade e propõe exercícios e atitudes possíveis de encaixar no cotidiano de seres urbanos e ocupados, sempre explicando cada prática à luz do que a ciência ocidental já sabe e pesquisa sobre o cérebro.

O homem mais feliz do planeta é também um autor “best-seler” com inúmeras publicações, traduções, etc.

Sugestão em português: FELICIDADE - A Prática do Bem-Estar http://www.literatalivros.com.br/literata/apresenta_sinopse.php?idfilme=1757

Com isso concluímos que a contemplação possibilita também a realização de todas as conquistas materiais almejadas. Mas para desfrutar o externo, é preciso desfrutar o interno...

“Poucos sabem que o reino de Deus inclui o reino das satisfações mundanas. O reino divino estende-se ao terrestre, mas este, ilusório por natureza, não contém a essência da Realidade.”
Mahavatar Bábaji

O homem mais feliz do mundo não tem riqueza pessoal, vive num mosteiro nos Himalaias e seu sucesso é “apenas” SER FELIZ.

Você tem o poder de se ferir ou de se beneficiar. Se você não decide ser feliz, ninguém poderá fazê-lo feliz. Não culpe Deus por isto!

E se decide ser feliz, ninguém poderá fazê-lo infeliz... Somos nós que fazemos da vida o que ela é.

Uma forte determinação de ser feliz o ajudará.

Não espere que as circunstâncias mudem, pensando falsamente que nelas reside o problema.

Ser feliz é estar em sintonia com Deus. Esse poder de ser feliz vem através da meditação.


 
Publicado em:27.04.08
 
Matéria cedida pela Loja Jinarajadasa da
Sociedade Teosófica no Brasil
 
do livro “A Gnosis Primitiva do Cristianismo” de G. R. S. Mead,
tradução do Núcleo Lux, Centro Pistis Sophia:
Raul Branco, Jane Dullius, A. B. Souza, Adilson Pedrosa,
Maria Luiza S. Mousinho e Eliane Santos.
 
Palavras Iniciais de João Baptista Neto
 
No intuito de ampliar um pouco mais nossa cultura esotérica, divulgo a matéria abaixo, de autoria de G.R.S.Mead, gentilmente cedida pela Loja Jinarajadasa da Sociedade Teosófica no Brasil.
 
Conhecer um pouco mais do Gnosticismo se faz necessário para entender melhor o Catarismo e o porque ele foi literalmente massacrado pela Cruzada Albigense.
 
 
O SIGNIFICADO DE GNOSIS
G.R.S. Mead
 
Até bem recentemente o estudo do Gnosticismo era tratado exclusivamente como um departamento de heresiologia ou, na melhor hipótese, como história da Igreja primitiva.
O termo tem sido geralmente adotado para denominar um amplo movimento herético - em formas muito variadas, mas de uma tendência característica - exclusivamente dentro das fronteiras do Cristianismo nascente e em desenvolvimento. Nos últimos anos, porém, foi demonstrado, por diferentes linhas de pesquisas convergentes (2), que a noção de Gnosis, em seus elementos essenciais, era amplamente difundida antes do aparecimento do Cristianismo, principalmente entre os cultos dos Mistérios helênicos e das comunidades místicas, ou nas formas de religião pessoal em que elementos orientais e gregos eram misturados. Movimentos desta natureza, guardando como tesouro uma Gnosis interior, continuaram a existir em paralelo, mas inteiramente independentes da Igreja em crescimento nos três primeiros séculos.
O Gnosticismo, então, não mais deveria ser considerado simplesmente como o nome de um ramo dentro da Igreja nascente. A Gnosis foi um fenômeno religioso muito mais amplamente difundido e deveria ser tratado como um elemento característico da história geral da religião. O que foi anteriormente chamado de Gnosticismo é visto, dessa forma, como sendo apenas um departamento, ainda que um departamento importante, da história da Gnosis. Seria preferível que fosse referido como a Gnosis cristianizada, ou como a Gnosis cristã, sendo que este último termo pode ser reservado especialmente para as opiniões de Clemente de Alexandria ou de Orígenes.
Como um todo, o Gnosticismo deve entrar para a história geral da religião, pois, mesmo sem irmos bem mais longe, em direção ao oriente, e sem acompanharmos o assunto além dos primeiros três séculos de nossa era, como poderíamos fazer, podemos indicar movimentos semelhantes nas religiões egípcias, frígias, judias, cristãs e, voltando ainda mais, nas doutrinas persas e nas coletâneas de tradições astronômicas dos caldeus ou babilônicos mais recentes, com sua riqueza de mitologia e teologia astrais.
Então, o que é, em essência, o Gnosticismo? Qual é o mais característico significado de Gnosis? Até então, na maior parte dos casos, tem sido dada uma interpretação arbitrária para estes termos, baseada, na melhor das hipóteses, em julgamentos subjetivos de valor. Tem sido dito: Gnosis significa conhecimento. Portanto, os Gnósticos são, no máximo, filósofos religiosos. O que não se enquadra nesta definição tem sido rejeitado como não pertinente ao Gnosticismo.
Porém, a palavra 'Gnosis' havia se tornado, há muito tempo, um termo técnico e seu significado deve ser estabelecido a partir de sua utilização naquela época. Longe de significar filosofia, no sentido atual (3) em que geralmente usamos esta palavra, ou mesmo filosofia religiosa, na verdade denotava o oposto disto. Ou seja, para usar a definição de Reitzenstein:
"Conhecimento imediato dos Mistérios de Deus, recebido por meio de relacionamento direto com a Deidade ... Mistérios que devem permanecer ocultos ao homem natural, um conhecimento que exercita, ao mesmo tempo, uma reação decidida em nosso relacionamento com Deus e também com nossa própria natureza ou disposição."
Os grupos e sistemas diferem entre si, e diferem muito. Entretanto, a concepção geral de Gnosis permanece a mesma. Ela é baseada fundamentalmente na revelação ou visão apocalíptica. Esta revelação, porém, tinha essencialmente mais um sentido vital do que uma natureza formal, pois havia uma grande liberdade de adaptação e interpretação do simbolismo formal.
Assim, verificamos que no Gnosticismo característico cada discípulo pode sempre fazer complementações e transformações dos ensinamentos de seu mestre, de forma que refinadas noções populares primitivas, juntamente com as visões fantasiosas mais pessoais, permeiam estes ensinamentos, da mesma maneira como as crenças dos Mistérios orientais e as concepções mágicas mudam de roupagem com a filosofia grega.
Antes de lidar em mais detalhe com o significado de Gnosis em seus aspectos mais elevados, fora dos limites da cristandade, pode ser útil resumir o que Liechtenhan (4) tem a dizer de seu significado entre seus partidários dentro das fronteiras do Cristianismo. Ele menciona que, por Gnosis, usualmente compreendemos conhecimento especulativo, no sentido de uma explicação correta do mundo - em resumo, filosofia.
É verdade que a busca dos Gnósticos era, essencialmente, também uma tentativa de explicação dos processos do mundo. Porém, tal explicação não era uma interpretação a ser descoberta simplesmente por si mesmos. Eles não a procuravam usando o seu intelecto sem ajuda, mas por meio de competentes revelações de natureza religiosa. De forma alguma eles se estabeleceram como filósofos em contraste com os 'piedosos' (5) - eles também eram piedosos, religiosos. Apenas que, em geral, procuravam sua religião em combinação com o conhecimento dos processos do mundo, no sentido da "gnosis sobre quem éramos e no que nos tornamos; onde estávamos e onde viemos parar; para onde nos dirigimos e onde somos redimidos; o que é a geração, e o que é a regeneração", como formulam os Extratos de Theodotus, publicados por Clemente de Alexandria (6).
Portanto, o objeto de suas buscas era não somente a Gnosis do mundo, mas também a Gnosis da salvação, como, de fato, fica manifesto abundantemente, por todos os lados, tanto dentro como fora da cristandade.
Eles, continua Liechtenhan, não querem filosofia além da religião, ou paralela a ela; sua única busca era a religião em sua perfeição ou consumação. Isto significava para eles o emprego da mente espiritual nos assuntos mais elevados correspondentes a ela, sua ocupação com o âmago espiritual e a fonte da realidade, da atualidade, com o puro, o eterno, o ilimitado. A característica desta religião era que seus seguidores não esperavam entrar em comunhão com o mais elevado somente pelo esforço moral e pela fé em Deus, mas também por meio do pensamento, conhecimento, imaginação, sentimento. E era precisamente na Gnosis que eles viam a função mais elevada da religião.
Porém, devemos ficar de prontidão contra a interpretação do pensamento como sendo puramente o intelecto raciocinador. Pois, se os Gnósticos se posicionaram contra o mundo, não como filósofos, mas no duplo sentido de serem conhecedores e espirituais, devemos nos perguntar se, como o assunto do mundo espiritual é a Gnosis, o órgão deste modo de conhecer é precisamente o espírito. Se, além disso, o próprio espírito, como uma substância ou essência do mundo imaterial, é o órgão para a compreensão daquele mundo, então sua função característica de Gnosis não é nada mais do que a compreensão das coisas daquele mundo supra-sensível. E, finalmente, se este mundo invisível é inacessível para nós em nosso estado natural normal e só pode se abrir a nós pela revelação, então o conhecimento espiritual ou Gnosis tem como objetivo nada mais do que a revelação.
Segue daí que a posse da Gnosis significa a habilidade para receber e compreender a revelação. O verdadeiro Gnóstico é aquele que conhece a revelação interior ou oculta desvelada e que também compreende a revelação exterior ou pública velada. Ele não é alguém que descobriu a verdade a seu respeito por meio de sua própria desamparada reflexão, mas alguém para quem as manifestações do mundo interior são mostradas e tornaram-se inteligíveis.
Resumindo, o que Liechtenhan considera, e com razão, como a principal característica da Gnosis cristianizada é a revelação. É verdade que a Gnosis, para a maioria, é igual à revelação; mas o objeto desta revelação não é simplesmente o mundo espiritual, interior, invisível, imaterial ou supra-sensível. Isto, como veremos, é o começo e não o fim da Gnosis, quer seja cristianizada ou não.
Antes do Cristianismo, bem como durante o desenvolvimento da igreja dos primeiros três séculos, a idéia da Gnosis, como já foi dito, estava bem disseminada. Esta principal característica de religião oriental influenciou fortemente não só as religiões helenísticas diretamente e o mundo grego indiretamente, mas também o pensamento geral do ocidente nos primeiros séculos do Império Romano. Escrevendo sobre a influência das religiões orientais no paganismo romano, Cumont nos diz:
"De forma geral, havia a convicção persistente de que a redenção e a salvação dependiam da revelação de certas verdades, do conhecimento dos deuses, do mundo e de nossa própria personalidade; a religiosidade tornou-se Gnosis."
Porém, para descobrir o que Gnosis significava para os seus melhores partidários no mundo não-cristão, devemos voltar aos escritos dos antigos místicos e deixá-los falarem por si mesmos. A Gnosis é necessariamente Gnosis de algo - mas do que? É idêntica a resposta dada tanto pela grandiosa literatura trismegística como pelos populares Papiros de Magia, bem como, de fato, pela maioria de nossas fontes: definitivamente ela é a Gnosis de Deus.
Gnosis não é conhecimento intelectual. Na verdade, é concebida como poder ou virtude. Neste particular pode ser relevante notar que um de seus sinônimos é fé, como este termo é usado na teologia helenista. Assim, na inscrição do místico frígio Aberkios, lemos (V.12): "A fé foi sempre meu guia e em todos os momentos proporcionou sustento". Também o místico de Ísis, Apuleio, nos diz que, após sua segunda iniciação, ele estava 'pleno de fé' e "constante no serviço divino e na verdadeira religião" (XI. 28).
Os Papiros de Magia personificam a fé e se referem ao 'Círculo da. Verdade e da Fé', aparentemente sendo igualado com a famosa 'Planície da Verdade' de Platão, que tipifica o estado espiritual - tal como é explicado, realmente, tanto pelos hermetistas como por Plotino, num sentido que possibilita compará-la ao terceiro céu de Paulo. De acordo com a escola trismegística, a fé é a compreensão ou percepção espiritual; é a virtude ou poder da mente espiritual, que, dizem, encontra seu suporte na 'reta fé' (7) da Gnosis.
De fato, também na Gnosis cristianizada, antes da escola de Valentino, fé e Gnosis parecem ter sido termos sinônimos. Mais tarde, porém, uma nítida distinção foi demarcada entre elas devido à controvérsia teológica.
Se na literatura trismegística, ou tradição do Três-vezes-grande Hermes, a Gnosis é chamada a 'Religião da Mente', a Mente deve ser compreendida como a Mente Divina ou Espírito. Pois, na mesma tradição, a Gnosis é também referida como o 'único amor de Deus', a 'verdadeira filosofia' ou 'amor à sabedoria', o que também abarca, é verdade, a ciência da natureza e do homem, como na maior 'parte das formas de elevado misticismo. Porém, esta sabedoria também é caracterizada como 'adoração', ainda que não no sentido de um culto externo, mas como uma devoção interior ou louvação ao espírito. 'Devoção é Gnosis de Deus’ (8), pois "as sementes de Deus, é verdade, são poucas, porém vastas, corretas e boas são a virtude e o autocontrole, a devoção" (Corpus Hermeticum (9), IX. 4).
A Mente Divina é também chamada o Pastor de Homens, o Poimandres, e também Amor Divino (Sermão Perfeito (10), I). Para sermos conhecedores devemos ser amantes, devemos ter "o amor único, o amor à sabedoria-amorosa, que consiste na Gnosis da Divindade unicamente - a prática da contemplação perpétua e da piedade sagrada" (Sermão Perfeito, XII). A Gnosis da Mente é de uma natureza espiritual, pois é operada pelo princípio espiritual no homem: "Esta é, meu filho, a Gnosis da Mente, a visão das coisas divinas; ela é a Gnosis de Deus, pois a Mente é de Deus" (C. H., IV. 6).
No hermetismo, Gnosis é a mais elevada, ou melhor, a síntese das sete virtudes ou poderes espirituais. As sete virtudes são referidas como: Gnosis, contentamento, autocontrole (temperança), moderação, retidão, comunhão com tudo e verdade. Mais além destas vêm a tríade de Vida, Luz e Bem, completando o dez, ou número 'perfeito' (C. H., XII. 8-9).
O 'fim' ou 'perfeição' de toda esta disciplina era 'conhecer a Deus', que é essencialmente Aquele 'que quer ser conhecido e é conhecido pelos Seus', Gnosis não é conhecimento a respeito de alguma coisa, mas contato direto ou comunhão, o conhecimento de, no sentido de familiaridade imediata com a divindade. E, dessa forma, na louvação que apropriadamente conclui O Tratado Sobre a Perfeição, lemos:
"Damos graças a Ti, Ó Ser Mais Elevado, pois por Tua graça recebemos a luz da Gnosis. Ó Nome inefável, em lugar do qual, em nossa adoração, usamos a apelação 'Deus' e, em nosso agradecimento dirigimo-nos como 'Pai', pois Tu demonstrastes a todos nós - homens e mulheres - uma boa vontade paternal, afeição, amor e, numa atitude extremamente doce, por benevolência, nos dotastes de mente, razão e Gnosis - mente para que possamos conhecer-Te, razão para que possamos estimar o Teu valor e Gnosis para que ao Te reconhecer possamos nos regozijar.
"Tornados inteiros por Ti, agora nos regozijamos que Tu Te mostrastes inteiramente a nós, regozijamo-nos que Tu, pela visão de Ti mesmo, tornaste-nos deuses apesar de ainda no corpo. Conhecer a Tua grandeza é, para o homem, a bem-aventurança que leva a Deus. Alcançamos a Gnosis de Ti, Ó Luz, luz sensível somente à inteligência; a Gnosis de Ti, Ó Vida, vida de toda a vida humana; a Gnosis de Ti, Ó Útero fecundo. de todos (que são renascidos); a Gnosis de Ti, Ó Tu eterna Permanência daquela fecundidade inerente à geração da paternidade.
"Por este motivo, em nossa adoração a Ti, não ansiamos por nenhuma outra recompensa de Tua bondade, a não ser que Tu condescendas a nos manter constantemente na Gnosis de Ti mesmo, quando tiveres orado para não nos permitir cair desta vida elevada de santidade."
É bastante evidente nestas passagens que Gnosis é uma dádiva, uma graça do espírito; por isso, ainda que a dádiva seja de Deus, a sua luz poderia ser passada adiante, pois o espírito vive para doar. "Preencha-me com Teu poder e com esta Tua graça, para que eu possa dar a luz aos que vivem na ignorância" (C. H., I. 32) - assim reza o suplicante por Gnosis.
Também é evidente que a mente é a mente espiritual intuitiva, a contraparte humana daquela Mente ou Mônada (11) Divina na qual devemos ser mergulhados ou batizados, de acordo com a doutrina do tratado chamado The Cup (O Cálice), e que a concepção inteira de Gnosis é devida à religião e não à filosofia. A salvação pela Gnosis é tornar-se inteiro, é um completar-se ou preencher-se espiritualmente, da natureza da apotheosis ou theiosis, isto é, da transfiguração da vida de separação para a vida divina auto-suficiente.
Na literatura trismegística, 'aqueles que estão em Gnosis' são contrastados com os homens do mundo, pelos quais dizem que são "ridicularizados, odiados e até mesmo levados à morte" (C. H., IX. 4). Porém, em todas essas tribulações, os que são piedosos são sustentados pela sua consciência da Gnosis. Não só isso, mas para a pessoa que está realmente 'na Gnosis':
... "todas as coisas, ainda que sejam ruins para os outros, são boas para ele; e mais, cada intriga contra si ele traduz para o plano da Gnosis e somente ele transmuta todos os males em benefícios." (C.H., IX. 4)
Dizem que esta consciência espiritual é iniciada por uma iluminação, geralmente ocorrendo em uma visão, mas de uma natureza viva e inteligível. O iluminador é o Logos, a Luz de Deus, tanto para nossos 'suplicantes trismegísticos', como para os terapeutas de Philo (12), ou suplicantes, como também ele os chamava. Por exemplo, encontramos esse místico e platonista judeu alexandrino escrevendo:
"'Pois o Senhor é a minha Luz e o meu Salvador', como é cantado nos hinos [ou seja, nos salmos]. Ele não só é luz, mas o arquétipo de todas as outras luzes; na verdade, bem mais antigo e sublime que o modelo arquétipo [de todas as luzes], já que este último é a Sua Palavra (Logos). Pois o modelo universal é a Sua Palavra plena, a Luz, enquanto Ele mesmo é como nada para as coisas criadas." (De Som., §13).
A iluminação é um preenchimento, uma conclusão, uma plenitude (pleroma), como a frase de Fílon sugere acima: 'sua Palavra plena'. E assim exclama o autor do Poimandres:
"Tu nos preenchestes, Ó Pai, com a visão do bem e do reto; com um tal espetáculo que o olho de minha mente ficou inteiramente tomado de reverência." (C.H., X. 4)
E, dessa forma, também no tratado sobre o renascimento, o suplicante ora: "E agora me preencha com as coisas que faltam em mim". (C. H., XIII. 1)
A visão do Bem, na forma da Beleza da Luz Imortal, sobrevem, inicialmente, em arrebatamento, enlevo ou êxtase do senso corporal. Para absorver profundamente a visão, o homem do mundo deve estar totalmente sereno.
"Pois tu poderás vê-la quando não puderes dizer nenhuma palavra a seu respeito. Porque a Gnosis e a visão do Bem é o silêncio sagrado, dando descanso a todos os sentidos. Pois aquele que a percebe não pode perceber nada mais, nem tampouco aquele que a contempla pode ter visão de nada mais, ou ouvir qualquer outra coisa, ou mover qualquer parte de seu corpo. Desligado de qualquer sentido ou movimento de seu corpo, ele permanece imóvel.
"Então, banhando toda a sua mente em luz [o batismo místico], essa ilumina também toda a sua alma, eleva-a através do corpo e transmuta tudo em si no ser essencial. Pois é impossível, meu filho, que a alma possa ser tornada divina pela visão da Beleza de Deus quando ainda no corpo de um homem; ela deve ser separada do seu corpo e transformada, tornando-se divina." (C.H.,X.5, 6). (13)
De acordo com a crença dos místicos, a Gnosis era acionada por meio de uma transformação essencial ou transmutação, levando a uma transfiguração. Primeiramente, havia uma 'passagem através de si mesmo', uma morte mística e, 'finalmente, um renascimento na natureza do ser espiritual de um deus.
Sem dúvida, nos círculos internos dos místicos, o principal interesse era nesta apoteose ou transfiguração efetuada por meio da Gnosis ou da visão de Deus. Acreditava-se que a alma humana separada era transmutada numa natureza ou essência que era espiritual (14) ou angélica. Muitas passagens poderiam ser citadas de numerosas tradições para ilustrar esta idéia central, porém considerações de espaço nos restringem a uma única citação de Philo, que escreve em sua Vida de Moisés (III. 39):
"Ele (Moisés) estava prestes a navegar para o céu e, abandonando a vida da morte, para ser transformado na vida imortal; pois ele tinha sido chamado por Deus, o Pai, que o estava transformando de uma díada, alma e corpo, na natureza da mônada que transcende todos os elementos, restaurando-o num todo através da totalidade na mente mais gloriosa como o sol."
Os illuminati (15) poimandristas ou trismegísticos, se referem precisamente à mesma coisa quando dizem:
"É pela transmutação em daemons [ou seja, espíritos ou anjos] que as almas possuem a fonte da imortalidade e, assim, dançam outra vez no coral dos deuses (ou juntam-se à dança do coral dos deuses)” "e esta é a mais perfeita glória da alma." (C.H., XIII. 7)
Tudo isso estava relacionado à doutrina da união espiritual ou 'casamento sagrado', como era chamado - um assunto que demandaria por si só um artigo para apresentar simplesmente um esboço - e a transformação efetuada desta forma era considerada como o nascimento de uma nova criatura. Era essa transmutação substancial num ser espiritual que tornava possível a Gnosis, conferindo o poder de visão divina por meio do senso unitário da inteligência. A nova consciência era concebida como resultado da impregnação do ser interior, assim diziam eles, pelos raios, emanações, eflúvios ou influências do esplendor divino. Num sentido ético, essas sementes eram, como já vimos, virtude, autocontrole, devoção e, em geral, o conjunto das virtudes.
O 'final feliz' daqueles que colocavam seus pés na senda da Gnosis era, portanto, "tornarem-se deuses" (C. H., I. 26). Este 'fim' ou 'aperfeiçoamento' é um termo técnico dos mistérios, o locus classicus que Reitzenstein já encontra firmemente estabelecido no Banquete de Platão (210 E):
"Aquele que foi instruído até este ponto nos Mistérios do Amor, pela sucessiva reta contemplação de coisas belas, se for até o derradeiro 'final' desta iniciação, terá a visão de uma Beleza cuja natureza maravilhosa (ou seja, Beleza absoluta, simples e duradoura, que sem diminuir e sem aumentar e sem qualquer mudança, é concedida à beleza mutável de todas as coisas). Aquele que ascender além destas belezas e, sob a influência do verdadeiro Amor, começar a ter a visão daquela Beleza, quase chegou ao 'fim"'. (211 B)
O fim supremo ou perfeição é a união com o Bem ou com Deus. O começo é a visão do processo da criação, de como o mundo vem à existência. Tais visões podem parecer bastante fúteis para as mentes modernas imersas na pesquisa física, para quem as noções cosmológicas da antigüidade, sem exceção, são tidas como sonhos de criança.
No entanto, deve ser lembrado que esses místicos acreditavam que a própria substância de seu ser devia ser transmutada ou 'tornada cósmica' e que, consequentemente, ela tinha que passar por estágios de reforma semelhantes aos estados pelos quais eles imaginavam que a matéria do mundo, ou a alma do mundo, havia passado em sua formação ou ato de tornar-se. E que aquilo que estava se passando neles lhes era mostrado em visão, como uma projeção na tela cósmica, como se fora a formação de um mundo. O interesse deles na cosmogonia era, portanto, pessoal. Conforme suas noções, tinha de haver uma 'formação de acordo com a substância', antes que a 'formação de acordo com a Gnosis' pudesse ocorrer. Por isso, verificamos que, no primeiro tratado do Corpus Hermeticum, no famoso documento Poimandres ou Pastor de Homens, a exigência do iniciante era:
"Gostaria de aprender a respeito das coisas existentes e compreender sua natureza [ou seja, a origem e desenvolvimento do mundo] e de conhecer a Deus." (C.H., I. 3)
E após ter sido mostrada a visão da ordem do mundo e do processo do mundo, o Iniciador, a Mente Divina, informa ao contemplado: "Foi-te ensinada a natureza do universo, sim, a maior visão" (ibid. 27).
Perceber a natureza do mundo, no entanto, não é o fim, mas o começo da senda de perfeição; e é bem natural, pois esta tem a ver com inícios e não com finais. Isto é visto muito claramente na assim chamada liturgia de Mitra, em que o 'corpo perfeito' tem primeiramente que ser 'formado' de elementos puros, antes que os místicos possam ascender à visão.
Porém, se falamos de inícios com relação ao processo universal, não devemos nos esquecer que estes são somente inícios para nós e não da própria realidade, que não tem princípio nem fim. Isto é admiravelmente indicado na tradição de Trismegisto, a seguir:
"Pois para o Bem não há outra margem, não há limites, ele não tem fim e, por si mesmo, também não tem princípio, ainda que para nós pareça ter um - a Gnosis”. "Portanto, para ele a Gnosis não é o começo, porém ela permite a nós o primeiro princípio a ser conhecido." (C.H., IV. 8,9)
A visão da natureza do mundo é geralmente referida simbolicamente como a contemplação do típico imaginário Makroanthropos ou Homem Cósmico, de quem o homem era tido como sendo essencialmente uma imagem.
"Se tu O vistes através das coisas que passam pela morte, tanto na terra como na profundidade, pensas a respeito de um homem sendo fabricado num útero, meu filho, escrutinizes estritamente a arte Daquele que o fabricou e aprendas quem fabricou esta justa e boa imagem do Homem." (C.H., V. 6)
Esta doutrina do começo e do fim da Gnosis é bem indicada na famosa fórmula do Documento Naasseno (16) cristianizado, citado por Hipólito (17): "O início da Perfeição é a Gnosis do Homem, porém a Gnosis de Deus é a Perfeição aperfeiçoada."
Aperfeiçoamento é um termo técnico para o desenvolvimento na Gnosis, sendo o Gnóstico realizado conhecido como o 'perfeito'. O início, ou a iniciação nesta supra-consciência, era dito como sendo dado numa visão cósmica do Homem Celestial, isto é, não do Supremo como absoluto, mas do Corpo Universal; somente o fim ou consumação era a união com a Deidade.
Porém, a visão do que o mundo é somente podia ser desfrutada se o iniciante já se tivesse purificado para ter, dentro dele, como se fora um núcleo de elementos puros para começar ou iniciar a formação de seu novo 'corpo perfeito', como é tão bem descrito na assim chamada liturgia de Mitra. Após isto, segue-se simplesmente o 'reconhecimento de si mesmo como imune à morte' ou imortal, de acordo com a afirmação trismegística: "Aquele que sabe que retornou a Deus".
Neste particular pode ser de interesse citar, do capítulo que conclui o grande trabalho de Hipólito contra os Gnósticos, uma passagem negligenciada que mostra como o Pai da Igreja, apesar de detestar seus ensinamentos gerais, foi fortemente influenciado por esta doutrina central da Gnosis. Em seu "Epílogo", enquanto estabelecia o que chamou de a 'Doutrina da Verdade' contrastada com o que considerava como as 'Doutrinas do Erro', Hipólito escreve: .
"E terás teu corpo imortal e livre de toda corrupção juntamente com tua alma ...; te unirás com Deus ... Pois agora te tornastes um deus ... E todas as coisas que assistem a Deus, estas Deus prometeu conferir a ti; pois te tornastes deus, nascestes imortal. Isto significa 'Conheça-te a ti mesmo' - conhecendo Aquele que te tornou num deus."
Quanto a este corpo imortal ou espiritual, a crença geral de todos os místicos era a de que no corpo humano havia, por assim dizer, a potencialidade de um corpo cósmico, um corpo de totalidade. Por isso, numa das preces dos mistérios trismegísticos, encontramos a petição: "O tudo em nós, Ó Vida, torne-o íntegro; Ó Luz, ilumine-o; Ó Deus, inspire-o" (C.H., XIII. 19).
Esse 'tudo' é o novo corpo imortal, o corpo da ressurreição. Vida, Luz e Deus são a Alma, a Mente e o Espírito Divinos que devem completá-lo na Gnosis. A expansão da Gnosis deve operar uma transformação no ser - vivificação, iluminação, inspiração. Deus, como Espírito, transmuta-nos em espírito; como Luz, Ele nos glorifica, irradia-nos para que nos tornemos gloriosos; e, como Vida, confere-nos imortalidade. A consumação deve ser uma totalidade ou ser eônico de esplendor imortal espiritual.
Ainda que seja verdade que exista algo de uma natureza absoluta a respeito desta 'luz da Gnosis', pois ela é essencialmente espiritual e imediata, a Gnosis também é freqüentemente descrita como uma 'senda', uma 'ascensão' gradual. Em suas concepções mais elevadas, no entanto, esta senda não é uma 'jornada celestial' psíquica; ao contrário, é um caminho espiritual imediato que se abre em qualquer aspecto da vida. Não é necessário 'deixar o mundo' para encontrá-lo, exceto no sentido de jogar fora de nós o 'supremo vício' ou 'o maior mal' que, em contraste com a suprema virtude da Gnosis, é chamado de ignorância de Deus, no sentido de uma força positiva de negligência proposital do divino. É uma questão de 'arrependimento', mas no sentido espiritual de um voltar de toda a natureza, isto é, de toda a vontade ser colocada em direção ao Bem.
"Porém, para ser capaz de conhecer o Bem: desejar, aspirar, é um caminho direto à senda do próprio Bem, levando facilmente até lá. Se tu simplesmente colocares teu pé neste caminho, ele te encontrará em toda parte, será visto em toda parte, onde e quando não o esperares - acordado, dormindo, navegando, viajando, de noite, de dia, falando ou nada dizendo. Pois não há nada que não seja a imagem do Bem." (C. H., XI. 21).
Este caminho de retorno é simbolizado indiferentemente como uma senda, uma viagem, ou a subida de uma montanha. Que a Gnosis era essencialmente religiosa ou espiritual e não intelectual, já foi plenamente estabelecido, mas pode ser confirmado com autoridade pela seguinte declaração categórica com referência à visão do Belo e do Bem: "Só há uma forma que leva a ele: devoção juntamente com Gnosis" (C.H., VI. 5).
A entrada na senda da Gnosis é chamada 'voltar para casa'. Como vimos, é um retorno, um virar as costas ao mundo, um arrependimento de toda natureza: "Devemos nos voltar para o velho, velho caminho" (C.H., IV. 9).
Ingressar na Gnosis é um despertar do sono e da ignorância de Deus, da embriaguez do mundo para a temperança virtuosa.
"Pois o mal [ilusão] do não conhecimento está inundando toda a terra e trazendo total ruína à alma aprisionada dentro do corpo, impedindo-a de navegar para os portos da salvação." (C.H., XII. 1)
A única salvação é a Gnosis - Gnosis de Deus, pois:
"Deus não ignora o homem; ao contrário, Ele o conhece inteiramente e Sua vontade é que Ele [por Sua vez] seja bem conhecido [pelo homem]. Este é o único meio de segurança para o homem - sua Gnosis de seu Deus. Este é o Caminho que leva ao alto da Montanha (Olimpo). E é somente por esta [ascensão] que a alma do homem torna-se boa." (C. H., X. 15)
A subida da montanha é a ascensão (anodos, anabasis) da alma à altura da contemplação, ou o seu mergulho em sua natureza espiritual. É o caminho de subida, bem como do retorno.
Observada do ponto de vista humano, a Gnosis é o 'teste da devoção' (C.H., X. 19), a 'virtude da alma' e também o 'fim da ciência' (C.H., X. 9). Diz-se que aquele que 'conhece a si mesmo' é "bom e piedoso e ainda na terra é divino" (C. H., X. 9). No entanto, considerado do ponto de vista soteriológico (18), ou em relação à teoria da salvação, a senda não surge a partir da própria pessoa, mas pela descida do Salvador, tanto nas formas de Gnosis pré-cristãs como nas formas cristianizadas. Desse modo, na conclusão do bem referido hino Naasseno, baseado em material pagão e oriental, Jesus é descrito como dizendo (19):
"Com brasões em minhas mãos descerei; ao longo de todos os eons do universo eu construirei um caminho; revelarei todos os mistérios e manifestarei as formas que os deuses apresentam. Aos segredos da sagrada senda darei o nome de Gnosis e os transmitirei."
A ascensão para o alto da montanha é mencionada diversas vezes, como o é por quase todo o misticismo e não deve ser atribuída à lenda de Moisés; ela é puramente pagã. Por isso, Juliano (20) diz que Hermes, como guia ou instrutor místico, encontra-se com os místicos na base da montanha, enquanto nos Papiros de Magia (Pap. Lug., V.) lemos: "Sou aquele a quem tu encontrastes no sopé do monte sagrado". E no tratado trismegístico chamado de O Sermão Secreto na Montanha, a senda probatória é chamada a 'subida da montanha' (C. H., XIII. 1), no topo da qual ocorrem a transfiguração e a visão. Nos mesmos sermões iniciáticos, em outra passagem, o neófito é exortado:
"Procura um guia para levar-te aos portais da Gnosis, onde brilha a clara luz, isenta de toda escuridão, onde nem uma única alma está embriagada, mas todas estão sóbrias, acordadas de seu sono embriagado, com os olhos do coração fixos Nele que quer ser visto" (C.H., VII. 2).
Isto é descrito de forma ainda mais elegante na passagem:
"Porém, no caso da alma piedosa a Mente, na verdade, a eleva e guia para a luz da Gnosis. E esta alma nunca se cansa de cantar louvores a Deus, de verter bênçãos a todos os homens e de fazer o bem em palavras e ações para todos, imitando o seu pai." (C. H., X. 21)
Portanto, o conhecimento de Deus é um conhecimento ou 'visão' com os 'olhos do coração'. Tais olhos são chamados 'espirituais', 'abençoados', 'imortais'. Os olhos do corpo não são os órgãos da visão verdadeira, como lamentam as almas quando inicialmente encarceradas no corpo: "Janelas estas são - não olhos!" O corpo é o 'véu da ignorância', o 'invólucro da escuridão', o 'envoltório da personalidade', pois: "Nenhum ouvido pode ouvi-lo, nem o olho pode vê-lo, mas só a mente e o coração" (C.H.,VII. 2).
O conhecimento Gnóstico é a intuição da mente verdadeira ou espiritual, a apreensão imediata ou a clara percepção da realidade viva. Ainda que geralmente referido metaforicamente como olhar, visão ou contemplação, porque a vista é o mais aguçado dos sentidos diferenciados, é, preferivelmente, percepção instantânea (21); na verdade, é chamado o sentido único, o sentido simples, o sentido unitário, o 'sentido da inteligência'. É tato ou contato espiritual, um tornar-se imediato, um estado além do sujeito e objeto, assim como Plotino o descreve, um único sentido sintético, para o qual ele também usa o termo técnico de tato ou toque.
"Só a intuição vê o imanifestado, visto que ela mesma é imanifestada. Se és capaz [de percebê-lo], manifestado será aos olhos de tua mente... Ilimitada é a natureza generosa do Senhor; ela se manifesta por todo o mundo. Tu podes conhecê-la - não podes vê-la, tomá-la em tuas próprias mãos e observar a imagem de Deus." (C.H., V. 3)
Aqui a mente ou coração, como foi chamada, é o ser espiritual ou mônada do homem, como para os sufis maometanos e a maioria dos místicos elevados. Não é a denominada mente-cérebro ou mesmo o intelecto raciocinador. Seu conhecimento ou visão é de uma natureza imediata. É a imagem de Deus no homem e é por meio dela que a imagem de Deus no universo ou a Beleza da Vida é contemplada. Este conhecimento é chamado o 'poder da visão divina', que não é ver mas um tornar-se, como pode ser exemplificado num dos Extratos Herméticos preservados por John Stobaeus (Ek. I, XXI. 9):
"Aquele que não ignora estas coisas, pode conhecer a Deus no sentido acurado do termo; na verdade, se a pessoa ousar dizer isso, pode vê-Lo tornando-se a própria coisa que vê e vendo torna-se então imortal"
A Gnosis, além disso, confere liberdade, soberania, realeza. O reino da Gnosis é, assim, estabelecido em contraste com o reino do destino ou do mundo sensível e, portanto, é concebido como a ordem supra-sensível ou imaterial, o mundo da liberdade espiritual contrastado com o mundo mecânico de causa e efeito. A Gnosis torna livre. A mente espiritual é livre, pois:
"Senhor de todas as coisas é a Mente, a Alma de Deus; sim, Senhor do destino e da lei e de todas as coisas também. Nada é impossível para Ela, nem elevar uma alma humana acima do controle do destino, nem colocar abaixo da influência do destino uma alma que a tenha negligenciado." (C. H., XII. 9)
Por isso, Zózimo, o hermetista e alquimista (22), no final do século III d.C., citando escritos trismegísticos que não mais existem, fala-nos que o Três-vezes-grande Hermes refere-se aos homens naturais - isso é, aos 'psíquicos', como eram chamados, ou aqueles que ainda eram incapazes de contatar conscientemente, em si mesmos, o imaterial ou espiritual - como os 'sem mente' e joguetes, brinquedos ou cortejos do destino. No entanto, aqueles que têm a mente espiritual ativa são chamados de filósofos ou aqueles que amam a sabedoria; eles são superiores ao destino e reis de si mesmos, porque se conhecem da forma Gnóstica. Assim, também em O Sermão Perfeito (XI!.), somos informados de que a Gnosis e a Filosofia são idênticas, no sentido de amor à sabedoria, pois lemos da "filosofia que consiste somente em conhecer a divindade - uma visão amiúde renovada, o culto da santidade".
Algumas pessoas argumentam que a Gnosis era principalmente mágica, sendo seu significado característico essencialmente o conhecimento de fórmulas mágicas; e é verdade que, em algumas das tradições, encontramos, no meio do material, uma riqueza de tais fórmulas - sons místicos, permutações de vogais e combinações (talvez para serem consideradas, às vezes, como uma notação musical esquecida), o detritus antigo e, portanto, sagrado, línguas e o resto. Mas isso certamente não pode ser dito de um bom número das principais escolas e, muito menos, da tradição trismegística. Realmente, do tratado perdido Sobre o Portal Interior, Zózimo cita Hermes declarando:
"O homem espiritual, o homem que conhece a si mesmo, não deve realizar coisa alguma por meio da mágica, nem mesmo se acreditar que a coisa é boa; tampouco deveria forçar o destino, mas aceitar o seu curso natural. Ele deveria seguir adiante, buscando somente o seu próprio ser e, ao alcançar a Gnosis da divindade, deveria obter os 'três' que não têm nome na terra e deixar o destino levar a cabo sua vontade em sua própria argila - isto é, sobre o corpo. E, se ele compreender isso desta forma e assim organizar sua vida, deverá obter a visão do Filho de Deus, tornando-se todas as coisas por causa das almas santas, para que possa retirar cada alma da região do destino, para o reino em que ela é livre do corpo."
Os 'três' ou 'tríada' são presumivelmente Luz, Vida e o Bem, como já vimos anteriormente. O Filho de Deus é a Mente, o Pastor de Homens, o Guia Divino para a Luz, que ilumina a mente de cada alma, assim mantendo-a elevada, ou tornando-a livre do destino. Como alcançar a Gnosis denota a idéia de liberdade e salvação, assim também sugere a noção de poder, de conquista e de controle. A posse da Gnosis, portanto, confere 'autoridade', um termo intercambiável com 'poder' num sentido Gnóstico.
Abundantes evidências adicionais poderiam ser adiantadas, mas já foi dado o suficiente para demonstrar que a idéia fundamental da Gnosis é a transmutação num ser espiritual e isso é fundamentalmente uma idéia religiosa oriental, a antípoda da filosofia em seu significado moderno comum visto como a elaboração de um sistema intelectual. A Gnosis é, portanto, acompanhada de visão e revelação no sentido que as citações anteriores já deveriam ter tornado claro. Além disso, seria fácil demonstrar que estas são também as características gerais da Gnosis nos sistemas cristianizados, mas isso iria demandar um estudo separado. Basta citar aqui um único pronunciamento de um pequeno fragmento pouco conhecido de um apocalipse Valentiniano preservado por Epifânio (XXXI. 5):
"Saudações da Mente que nunca se cansa, para mentes que nada pode faze-las cansar! Agora despertarei em vocês novamente a memória dos mistérios acima dos próprios céus, os mistérios para os quais nenhum nome pode ser dado, os quais nenhuma língua pode expressar - os mistérios que nenhuma soberania ou autoridade, que nenhum sujeito ou natureza mista tem poder para compreender, mas que foram tornados simples para a compreensão da consciência que está acima de toda mudança."
As indicações anteriores do significado de Gnosis nas formas mais elevadas do misticismo helenístico podem ser de interesse para um público mais geral do que para o pequeno número dos que já estão inteirados do assunto. Existe atualmente uma renovação de interesse em assuntos místicos e foram publicados recentemente livros tratando da experiência religiosa desta natureza. Porém, na maior parte das vezes, a investigação é devotada quase que exclusivamente ao misticismo cristão medieval e mais recente. A riqueza da literatura mística oriental é praticamente ignorada, enquanto sobre as tradições ocidentais fora da Igreja, além de uma referência ou outra a Plotino, praticamente não ouvimos nada dos muitos movimentos místicos dos tempos antigos, que são, pelo menos alguns deles, de grande interesse e importância (23).
 
 
Notas
1 O título original deste capítulo é "The Meaning 01 Gnosis in the Higher Forms 01 Hellenistic Religion".(N.E.)
2 Veja, especialmente, de Reitzenstein, Die hellenistischen Myste-rienreligionen (Leipzig, 1910), ao qual sou muito agradecido. De longe, o melhor trabalho sobre as fontes, ou material pré-cristão, da gnosis cristianizada, de um ponto de vista da história religiosa, é a obra de Bousset, Hauptprobleme der Gnosis (Góttingen, 1907), que foi resumido em seu artigo sobre 'Gnosticismo', na 1 P edição da Encyclopedia Britannica. Com relação à influência das religiões orientais sobre o paganismo romano, veja a obra de Cumont, Les Religions Orientales dans le Paganisme Romain (2_ ed. revis., Paris, 1909). (NA)
3 Filosofia significa 'amor à sabedoria', mas, para o senso comum da atualidade, muitas vezes é definida como um sistema de conceitos intelectuais sobre a realidade. (N.E.)
4 Die Offenbarung in Gnosticismus (Gõttingen. 1901).
5 Piedosos são aqui denominados os cristãos ortodoxos que, criticando os Gnósticos, assim poderiam se auto-intitular. (N.E.)
6 Theodotus foi o mestre Gnóstico de Clemente. Este livro é uma coletânea de seus ensinamentos na Síria. No Egito foi conhecido como Panteno. A obra 'Stromatas', de Clemente de Alexandria, também contém os ensinamentos do seu instrutor. (N.E.)
7 Aquela justa, clara e apropriada percepção do que realmente é 'fé' e que a verdadeira Gnosis proporciona. (N.E.)
8 Devoção como comunhão com a Divindade que está em nós. (N.E.)
9 Corpus Hermeticum é um conjunto de textos da tradição hermética. Daqui em diante será abreviado como C.H., seguido do indicador do volume do texto. (N.E.)
10 Sermão Perfeito é outro texto da tradição hermética. (N.E.)
11 Para os Pitagóricos, a mônada (manas) é o um indivisível. Sentido semelhante encontramos na Manada/agia de Leibniz. (N.E.)
12 Philo, o Judeu, que viveu em Alexandria entre os séc. I a.C. e I d.C. escreveu inúmeras obras, entre as quais A Vida Contemplativa, onde aborda os terapeutas - nome pelo qual são designados os grupos de tradição essênica no Egito. (N.E.)
13 Para esta última frase adotei as emendas e complementações de Reitzenstein, pois o texto recebido estava muito corrompido. (N.A.)
14 O 'daemon' na tradição helenística. (N.A.)
15 Illuminati, termo que designa os filósofos do Fogo, que buscam a Iluminação espiritual. (N.E,)
16 Os Naassenos são os mesmos Ophitas, os primeiros Gnósticos. (N.E.)
17 Refutation, V. 8. (N.A.)
18 Soteriologia: parte da teologia que trata da salvação da alma. (N.E.)
19 Hipólito, Refutation, V. 10. (NA)
20 Oração, VII, de Juliano, o Imperador romano, séc. IV d.C. (N.E.)
21 Isto é referido no Budismo Mahayana como Prajnã, a reta percepção ou cognição pura - direta e não conceitual. (N.E.)
22 Veja Berthelot, Les Alchemistes grecs, pp. 229 fi. (N.A.)
23 Veja-se, por exemplo, os textos de Isabel Cooper-Oakley (Ed.Pensamento). (N.E.)
 




Publicado em:20.04.08

Os Dez Mundos do Budismo


Matéria extraída do Site: http://vidaemharmonia.blogspot.com

Palavras iniciais:

Na semana passada falamos um pouco sobre a tradição Védica. Hoje vamos falar um pouco a respeito da tradição Budista, que teve suas origens na tradição Védica.

Antes de atingir a iluminação o Príncipe Gautama, logo após abandonar o fausto e a riqueza (ilusões) para conhecer a verdadeira vida tal como ela era, abraçou a tradição Jaínista, que adota por princípio a não-violência (ahimsa), para atingir a iluminação.
Frustrado após 6 anos de severas práticas de austeridades que no final não levaram a nada, ou melhor, quase o levaram à morte, resolve abandonar seus companheiros (tradição Jaínista). Sua Iluminação só veio quando compreendeu que a elevação espiritual jamais poderia vir através de exercícios ou práticas materiais, e sim espirituais de concentração, introspecção e meditação.

Uma vez Iluminado, começou a revelar os frutos de todo esse período de introspecção e meditação que se resumem nas “Quatro Nobres Verdades” e no “Caminho Óctuplo”, sendo esses os pilares da Doutrina que daí surge, hoje conhecida como Budismo.



Os 10 Mundos do Budismo
Por: Gabriel Meissner

Das religiões orientais, o budismo é uma das que mais tem contribuído para o entendimento da mente, do sofrimento e da busca da felicidade. Por este motivo, a psicologia budista tem sido cada vez estudada inclusive por psicólogos ocidentais, especialmente pela psicologia transpessoal.

Um dos conceitos mais interessantes da psicologia budista são os 10 Mundos. Os 10 mundos resumem os 10 estados mentais que uma pessoa pode experimentar na vida, como sensações subjetivas que resultam do choque do ego com os acontecimentos da vida. O estudo dos dez mundos amplia a compreensão que temos de nós mesmos e de nossa busca por crescimento interior.

Todos os 10 estados possuem o seu lado positivo e negativo, com exceção do Estado de Buda, o único exclusivamente positivo. Podemos vivê-los todos no curso de nossas vidas – e mesmo no decorrer de um único dia – em ambos os lados.

A seguir, cada um deles está explicado resumidamente.

Inferno

Este é o estado da miséria e do sofrimento. Predominam sentimentos de medo, pesar, raiva destrutiva ou depressão. Sofrimento e desespero extremos. O indivíduo sente-se preso às circunstâncias de sua vida. O impulso de raiva traz destruição para si mesmo e para os seus semelhantes.

O lado positivo deste estado é o de que, uma vez tendo vivido nele, esta experiência sustenta um desejo de melhorar as suas condições de vida, interiores e exteriores. Como resultado, surge a empatia, ou a compressão do sofrimento dos outros.

Fome

Aqui, o indivíduo é dominado pelos seus desejos e paixões, físicos ou mentais. São desejos egoístas e ilimitados de riqueza, fama e prazer, que nunca se consegue saciar. Provavelmente, dos 10 estados, é o mais estimulado pela nossa cultura ocidental consumista.

No seu aspecto positivo, o estado de fome é a motivação que temos para melhorar uma situação. É a motivação de pessoas que, como Gandhi, lutaram durante anos sem esmorecer pela realização de um projeto de paz.

Animalidade

O mundo da animalidade é aquele em que o comportamento se torna puramente instintivo, faltando o uso da razão, sem a sabedoria para controlar a si mesmo. Neste estado, temem-se aqueles que parecem mais fortes e abusam-se dos que parecem mais fracos. É "a lei da selva."

O lado positivo deste estado são os instintos de proteção e preservação de si mesmo e dos outros.

Ira

Sensação de ser superior aos outros e desejo de demonstrar esta superioridade. Há agressividade e conflito com os outros. É um estado egóico em que só se consegue olhar para si mesmo, sendo auto-centrado e auto-referente.

Quando positivo, neste estado há a ira contra a injustiça, a paixão e a motivação de lutar contra comportamentos autoritários. Novamente, um bom exemplo aqui é Gandhi, assim como Martin Luther King e outros grandes líderes que figuraram pela luta contra a injustiça.

Tranqüilidade

Constante inatividade, preguiça e passividade. Não há vontade para se concretizar projetos e cumprir com suas tarefas.

No lado positivo, ao invés de passivos, estamos em paz, calmos e razoáveis. Aproveitamos este estado para restaurar as nossas energias, o que diversas vezes é necessário para que se volte à atividade produtiva.

Alegria

É a condição de contentamento e alegria que se sente quando nos libertamos de um sofrimento ou satisfazemos algum desejo. É um sentimento fugaz, que acaba rapidamente e, ao acabar, transforma-se com facilidade no estado de inferno ou fome.

Olhando o lado positivo deste mundo, precisamos dele, de suas felicidades impermanentes e fugazes, pois são necessárias ao nosso equilíbrio psíquico. Porém, o apego a estas experiências levará à imaturidade e ao desapego. Pessoas viciadas em drogas estão permanentemente à busca de prazeres fugazes.

Os primeiros seis estados, ou mundos, do Inferno à Alegria, caracterizam-se por impulsos ou desejos e são muito vulneráveis às inconstâncias da vida. Eles podem ser vividos por todas as pessoas sem qualquer esforço. De fato, sem esforço pelo seu auto-desenvolvimento, estes são os únicos estados em que uma pessoa pode viver, alternando entre um e outro.

Já os próximos 4 estados de vida, não são tão vulneráveis à impermanência e, portanto, à infelicidade. Porém, eles exigem esforço para serem vividos. Esforço pelo auto-conhecimento e pelo desenvolvimento interior, o que requer paciência, tenacidade e concentração.

Erudição

Aqui, o indivíduo busca o aprendizado sobre si mesmo e sobre a vida, através do estudo com professores e com o conhecimento já existente no mundo. Empenha-se em conquistar um estado de contentamento e estabilidade duradoura por meio da auto-reforma e do desenvolvimento.

Embora primordialmente positivo, também pode levar ao auto-centramento e à separação dos outros.

Absorção

Diferentemente do estado de erudição, no estado de absorção o empenho pela auto-reforma não se dá através do estudo das realizações de seus predecessores. Ao contrário, a sabedoria é obtida através de suas próprias observações e experiências, que levam ao entendimento de um aspecto da vida.

Novamente, este estado pode levar ao auto-centramento e à tendência de usar o intelecto, mais do que a sabedoria, para resolver problemas.

Boddhisatva

Neste contexto, Boddhisatva significa uma pessoa que busca a iluminação para si mesmo e para os outros.

No aspecto positivo, há devoção pela felicidade dos outros. Um exemplo notório do lado positivo deste estado é a Madre Tereza de Calcutá.

Porém, facilmente este estado pode se converter em arrogância no caso das pessoas que se sentem superiores àqueles que ajudam e que tentam ajudar sem prestar atenção às reais necessidades das pessoas ajudadas. É comum notar este estado em muitos que decidem trabalhar voluntariamente com caridade.

Buda

Neste estado, a pessoa despertou para a verdadeira natureza da vida e vivencia felicidade e liberdade ilimitadas. Sua alegria é indestrutível, sua sabedoria ilimitada, bem como sua coragem, compaixão, criatividade e força vital.

Este estado é o único que só pode ser vivenciado positivamente e sua função é fazer emergir o lado positivo dos outros nove mundos.

Acredito ser razoável relacionar estes 10 estados de vida, de acordo com o budismo, com os Cinco Princípios do Reiki, mesmo porque o fundador do Reiki, Mikao Usui, era monge budista. De certa forma, viver os Cinco Princípios é um caminho para se elevar o próprio Estado de Buda, o qual, como se disse, faz emergir o lado positivo dos outros estados.

Quer estejamos trabalhando com o conceito de 10 mundos, quer estejamos trabalhando em seguir os 5 Princípios, ambos os trabalhos exigem de nós esforço, paciência e, principalmente, auto-observação. Esta auto-observação, que pode ser impulsionada pela prática da meditação, pela psicoterapia e por qualquer outra forma de interiorização, é sempre a responsável pelo crescimento interior. É preciso aprender a ver a vida de dentro para fora se quisermos nos tornar indivíduos conscientes e manifestar todo o potencial que carregamos dentro de nós desde que nascemos.

Que a sua vida seja repleta de esforço pelo auto-conhecimento, desenvolvimento pessoal e felicidade!



Publicado em:13.04.08

O Simbolismo do Graal


Matéria extraída do livro "El Rey del Mundo", de René Guénon
Tradução de João Baptista Neto

Notas: 1. - A gravura abaixo não consta do original
2. - No Original as Notas constam do rodapé. Para maior destaque as inserimos logo após o parágrafo, em negrito.

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Palavras iniciais:

Na Seção ‘Contos e Lendas’ vimos os atributos do Santo Graal no que podemos chamar de a ‘História do Graal’, sob a forma de Lendas.

Na matéria abaixo, que é um excerto do Livro acima mencionado, veremos os significados esotéricos do vaso sagrado segundo diversas tradições.



CAPÍTULO V

Fazíamos, há pouco, alusão aos “Cavaleiros da Távola Redonda”; não será fora de propósito mencionar aqui o que significa o “romance do Graal”, que, nas lendas de origem celta se apresenta como sua figura principal. Em todas as tradições se faz alusão a algo que, a partir de uma certa época, teria se perdido ou estaria oculto: é, por exemplo, o Soma dos Hindús ou o Haoma dos Persas, a “bebida da imortalidade”, que, precisamente tem uma relação muito direta com o “Graal”, visto que é, diz-se, o cálice sagrado que conteve o sangue de Cristo, o qual é também a “bebida da imortalidade”. Para as demais, o simbolismo é diferente: assim, entre os Judeus, o que se perdeu, é a pronúncia do grande Nome divino (1); mas a idéia fundamental é sempre a mesma, e veremos mais adiante a que corresponde exatamente.
(1) Lembremos também, a esse respeito, a “Palavra perdida” da Maçonaria, que simboliza igualmente os segredos da verdadeira iniciação; assim, a “busca da Palavra perdida” não é mais que outra forma do “romance do Graal”. Isso justifica a relação assinalada pelo historiador Henri Martin entre a “Massonerie du Saint-Grial” e a Maçonaria (Ver ‘O Esoterismo de Dante’, ed 1957, pp 35-36); e as explicações que damos aqui permitirão compreender o que dissemos, a esse propósito, da conexão muito estreita que existe entre o simbolismo do “Graal” e o “centro comum” de todas as organizações iniciáticas.

O Santo Graal é, diz-se, o cálice que se usou na Ceia, e onde José de Arimatéia colheu depois o sangue e a água que saíam do chaga lateral de Cristo aberta pela lança do centurião Longino (2). Segundo a lenda, esse cálice teria sido levado para a Grã-Bretanha pelo próprio José de Arimatéia e Nicodemos (3); e é preciso ver nisso a sinalização de um laço estabelecido entre a tradição celta e o Cristianismo. O cálice, na verdade, desempenha um papel muito importante na maioria das tradições antigas, e sem dúvida, isso era assim de forma concreta nos Celtas; há que se destacar inclusive que frequentemente está associado à lança, e que esses dois símbolos são então de certo modo complementares; mas isso nos afastaria de nosso tema (4).
(2) Esse nome Longino está associado ao próprio nome da lança, em grego logké (que se pronuncia lonké); em latim lancea, que tem a mesma raíz.
(3) Esses dois personagens representam aqui respectivamente o poder real e o poder sacerdotal; ocorre o mesmo com Arthur e Merlin na instituição da “Távola Redonda”.
(4) Diremos só que o simbolismo da lança está frequentemente relacionado com o “Eixo do Mundo”; a esse respeito, o sangue que goteja da lança tem o mesmo significado que o rocio que emana da “Árvore da Vida”; ademais, sabe-se que todas as tradições são unânimes em afirmar que o princípio vital está intimamente ligado ao sangue.


O que talvez mostre mais claramente o significado essencial do “Graal”, é o que se diz a respeito de sua origem: esse cálice teria sido talhado pelos Anjos em uma esmeralda caída da testa de Lúcifer no momento de sua queda (5). Essa esmeralda lembra de uma maneira muito chamativa à urnâ, a pérola frontal que, no simbolismo hindú (de onde passou ao Budismo), ocupa com frequencia o lugar do terceiro olho de Shiva, que representa o que se pode chamar o “sentido da eternidade”, assim como já explicamos em outra parte (6). Mais ainda, diz-se que o “Graal” foi confiado a Adão no Paraíso terrestre, mas que, em sua queda, Adão o perdeu por sua vez, já que não pôde levá-lo com ele quando foi expulso do Éden; e, com o significado que acabamos de indicar, isso se faz suficientemente claro. Na realidade, o homem, separado de seu centro original, encontrava-se a partir de então enclausurado na esfera temporal; já não podia encontrar o ponto único a partir de onde se contemplam todas as coisas sob o aspecto da eternidade. Em outros termos, a possessão do “sentido da eternidade” está ligada ao que todas as tradições chamam, como lembramos mais atrás, o “estado primordial”, cuja restauração constitui a primeira etapa da verdadeira iniciação, posto que é a condição prévia da conquista efetiva dos estados “supra-humanos” (7). Ademais, o Paraíso terrestre representa propriamente o “Centro do Mundo”; e o que diremos a seguir, sobre o sentido original da palavra Paraíso, poderá fazê-lo compreender melhor.
(5) Alguns dizem uma esmeralda caída da coroa de Lúcifer, mas nisso há uma confusão que provem do fato de que Lúcifer, antes de sua queda, era o “Anjo da Coroa” (quer dizer Kether, a primeira Sephirot), em hebraico Hakathriel, nome que tem como número 666.
(6) “O Homem e seu vir-a-ser segundo o Vedanta”, p. 150 da ed. Francesa.
(7) Sobre esse “estado primordial” ou “estado edênico”, ver “O Esoterismo de Dante, pp 46-48, e 68-70 da ed. Francesa; e “O Homem e seu Vir-a-Ser segundo o Vedanta”, p 182 da ed. francesa.


O que segue pode parecer mais enigmático: Seth conseguiu entrar no Paraíso terrestre e pôde assim recuperar o precioso cálice; isto posto, o nome de Seth expressa as idéias de fundamento e de estabilidade, e, por conseguinte, indica de certo modo a restauração da ordem primordial destruída pela queda do homem (8). Assim pois, deve-se compreender que Seth e aqueles que depois dele possuiram o Graal puderam por isso mesmo estabelecer um centro espiritual destinado a substituir o Paraíso perdido, e que era como uma imagem deste; e então, essa possessão do Graal representa a conservação integral da tradição primordial em um tal centro espiritual. Quanto aos demais aspectos, a lenda não diz onde nem por quem foi conservado o Graal até a época de Cristo; mas a origem celta que se reconhece deve dar a entender sem dúvida que os Druidas tiveram uma parte nisso e que devem ser contados entre os conservadores regulares da tradição primordial.
(8) Diz-se que Seth permaneceu quarenta anos no Paraíso terrestre; esse número 40 tem também um sentido de “reconciliação” ou de “retorno ao princípio”. Os períodos medidos por esse número se encontram com muita frequencia na tradição judatca-cristã: lembremos os quarenta dias de dilúvio, os quarenta anos durante os quais os Israelitas erraram pelo deserto, os quarenta dias que Moises passou no Sinai, os quarenta dias de jejum de Cristo (a Quaresma tem naturalmente a mesma significação); e sem dúvida poderiam ser encontrados outros.

A perda do Graal, ou de alguns de seus equivalentes simbólicos, é em resumo a perda da tradição com tudo que ela contém; quanto ao resto, para dizer a verdade, essa tradição está mais oculta do que perdida, ou ao menos não pode estar perdida senão para alguns centros secundários, quando estes cessam de estar em relação com o centro supremo. Quanto a este último, guarda sempre intacto o depósito da tradição, e não é afetado pelas mudanças que sobreveem no mundo exterior; tanto é assim que, segundo diversos Pais da Igreja, e concretamente Santo Agostinho, o dilúvio não pôde alcançar o Paraíso terrestre, que é “A morada de Henoch e a terra dos Santos” (9), e cujo cume “toca a esfera lunar”, quer dizer, se encontra mais além do domínio da mudança (identificado como “mundo sub-lunar”), no ponto de comunicação da Terra e dos Céus (10). Mas, do mesmo modo que o Paraíso terrestre veio-a-ser inacessível, o centro supremo, que é no fundo a mesma coisa, pode, no curso de um certo período, não estar manifestado exteriormente, e então pode-se dizer que a tradição está perdida para o cojunto da humanidade, já que não é conservada mais que em alguns centros rigorosamente fechados, e a massa dos homens já não participa dela de uma maneira consciente e efetiva, contrariamente ao que havia tido lugar no estado original (11); tal é precisamente a condição da época atual, cujo começo remonta muito mais além do que é acessível à história comum e “profana”. Assim pois, a perda da tradição, segundo os casos, pode ser entendida nesse sentido geral, ou bem pode se referir ao obscurecimento do centro espiritual que regia mais ou menos invisivelmente os destinos de um povo particular ou de uma civilização determinada; é necessário pois, cada vez que se encontra um simbolismo que se refere a sua perda, examinar se deve ser interpretado em um ou outro sentido.
(9) “E Henoch caminhou com Deus, e não apareceu mais (no mundo visível ou exterior), porque Deus o levou” (Genesis V, 24). Teria sido então transportado ao Paraíso terrestre; isto é o que pensam também alguns teólogos como Tostat e Cajetan – Sobre a “Terra dos Santos” ou “Terra dos Vivos”, ver o que se dirá mais adiante.
(10) Isso está conforme o simbolismo empregado por Dante, que situa o Paraíso terrestre no cume da montanha do Purgatório, que se identifica nele a “montanha polar” de todas as tradições.
(11) A tradição hindú ensina que não havia na origem mais que uma só casta, que era denominada Hamsa; isso significa que todos os homens possuiam então normal e espontaneamente o grau espiritual que é designado por esse nome, e que fica mais além da distinção das quatro castas atuais.


Segundo o que acabamos de dizer, o Graal representa ao mesmo tempo duas coisas que são estreitamente solidárias uma a outra: aquela que possui integralmente a “tradição primordial”, que chegou ao grau de conhecimento efetivo que implica essencialmente essa possessão, está na verdade, por isso mesmo, reintegrada na plenitude do “estado primordial”. A essas duas coisas, “estado primordial” e “tradição primordial”, se refere ao duplo sentido que é inerente à palavra Graal em si, já que, por uma dessas assimilações verbais que desempenham frequentemente no simbolismo um papel não desdenhável, e que tem por outras razões muito mais profundas que as que se imaginaria à primeira vista, o Graal é às vezes um cálice (grasale) e um livro (gradale ou graduale); e esse último aspecto designa manifestamente a tradição, enquanto que o outro se atém mais diretamente ao estado em si (12).
(12) Em algumas versões da lenda do Santo Graal, os dois sentidos se encontram estreitamente unidos, já que o livro vem a ser então uma inscrição desenhada por Cristo ou por um Anjo sobre o próprio cálice. – Teria nisso aproximações fáceis de fazer com o “Livro da Vida! E com alguns elementos do simbolismo apocaliptico.

Não temos a intenção de entrar aqui nos detalhes secundários da lenda do Santo Graal, embora todos tenham também um valor simbólico, nem de continuar a história dos Cavaleiros da “Távola Redonda” e de suas façanhas; mencionaremos só que a “Távola Redonda”, construida pelo Rei Arthur (13) com base nos planos de Merlin, estava destinada a receber o Graal quando algum de seus cavaleiros tivesse chegado a conquistá-lo e o tivesse levado da Grrã-Bretanha para a Armórica. Essa távola é também um símbolo verdadeiramente muito antigo, um daqueles que foram sempre associados à idéia dos centros espirituais, conservadores da tradição; quanto aos demais, a forma circular da távola está ligada formalmente ao ciclo zodiacal pela presença ao redor dela de doze personagens principais (14), particularidade que, como dizíamos anteriormente, se encontra na constituição de todos os centros de que se trata.
(13) O nome de Arthur tem um sentido muito destacável, que se vincula ao simbolismo “polar”, e que talvez explicaremos em outra ocasião.
(14) Os Cavaleiros da Távola Redonda são às vezes em número de cinquenta (que era, nos hebreus, o número do jubileu, e que se refere também ao “reino do Espírito Santo”; porém, inclusive também, havia sempre doze que desempenhavam um papel preponderante. – Lembremos também, a propósito disso, os doze pares de CarloMagno em outros relatos lendários da idade média.


Há também um símbolo que se vincula a outro aspecto da lenda do Graal, e que merece uma atenção especial: é o de Montsalvat (literalmente “Monte da Salvação”), o pico situado “nos limites longíquos a que nenhum mortal se aproxima”, representado como erigido no meio do mar, numa região inacessível, atrás do qual se eleva o Sol. É às vezes a “ilha sagrada” e a “montanha polar”, dois símbolos equivalentes dos que teremos que falar na sequencia desse estudo: é a “Terra da imortalidade”, que se identifica naturalmente com o Paraíso terrestre (15).
(15) A semelhança de Montsalvat com o Meru nos foi assinalada por Hindús, e foi isso que nos conduziu a examinar mais de perto o significado ocidental do Graal.

Para voltar ao Graal propriamente dito, é fácil se dar conta de que seu significado primeiro é no fundo o mesmo que o que tem o cálice sagrado em todas as partes onde se encontra, e que tem concretamente, no Oriente, o cálice sacrificial que contém originariamente, como já indicamos anteriormente, o Soma védico ou o Haoma mazdeísta, quer dizer, a “beberagem da imortalidade” que confere ou restitui àqueles que o recebem com as condições requeridas, o “sentido da eternidade”. Não poderíamos, sem sairmos de nosso tema, nos estender mais sobre o simbolismo do cálice e do que contém; para desenvolve-lo convenientemente, seria necessário consagrar-lhe todo um estudo especial; mas a observação que acabamos de fazer vai nos conduzir a outras considerações que são da maior importância para o que nos propomos no presente.


Publicado em:06.04.08

Elementos Essenciais da Cultura Védica


Matéria cedida pela Loja Jinarajadasa
Da Sociedade Teosófica no Brasil

Estudo feito pelo saudoso Vishishta Advaitin
Henrique Silva (in memoriam)
Ex-MST da Loja Conde de Saint-Germain
com base no livro de Satsvarüpa Däsa Gosvämï

Nota: A gravura abaixo não consta do original

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Palavras iniciais de João Baptista Neto

Não só como uma homenagem ao ex-companheiro da Sociedade Teosófica, mas também como uma introdução à tradição Védica para conhecimento geral dos Irmãos Templários.

Julgo de suma importância o conhecimento dos princípios e conceitos básicos do Vedantismo por ser essa tradição a que sucede a pioneira de todas – o Xamanismo Siberiano – e que deu origem, juntamente com a tradição Egípcia, à muitas outras.

Veremos que é um Estudo simples e muito bem condensado, mostrando-nos o essencial e, principalmente, acabando com o mito de que o Vedantismo é uma tradição politeísta.



I - A LITERATURA VÉDICA

"0 Rig Veda, o Yajur Veda, o Sarna Veda, o Atharva Veda e os Ithasas são expirações da Verdade Absoluta. Assim como respiramos facilmente, tudo isto surge do Supremo Brahman sem qualquer esforço dele".
Brhadaraniaka Upanisad

a) Origem - propagados de forma oral por milhares de anos, foram postos em forma escrita por Viasa Deva há 5.000 anos.
b) As obras

1- Os quatro Vedas

. O Rig Veda (Veda do louvor) - 1017 hinos em louvor aos semideuses;
. Yajur Veda ( Veda dos sacrificios );
. Sama Veda ( Veda dos cânticos ) 1549 hinos;
. Atharva Veda ( Contém rituais ).

2- Os Upanisads (sentar-se bem perto)

. são 108 os principais Upanisads;
. enfatizam a meditação no Brahman impessoal mas não negam o aspecto pessoal de Deus;
. inseridos na parte final dos quatro Vedas.

3- Vedanta - Sutra (código para compreensão do Conhecimento Védico )

. O Vedanta - Sutra é um suplemento dos vedas - com 16 divisões. Cada divisão está subdividida em cinco porções: Razões, exemplos, fatos, tema, citações autorizadas.
. O Vedanta Sutra nos dá o significado dos Upanisads e dos Vedas.

4- As Ithasas

. Histórias, textos védicos suplementares;
. Conhecimento védico sob a forma de mitos e alegorias;
. O MahaBharata (que inclui o Bagavad-Git );
. Os puranas (18 puranas);
. O Ramayana.

II - OS DEUSES VÉDICOS

A - Conceitos errôneos

. A cultura védica não é politeista (seus 333 milhões de deuses são comparados aos milhares de milhões de anjos do cristianismo) (são aspectos da divindade).
. Os hindus são monoteístas ou monistas.
. Os hindus monoteístas crêem que há um deus pessoal supremo ao qual todos os seres estão subordinados;
. Os hindus monistas crêem que há um princípio impessoal que é a origem de todos os seres. Os vários seres são aquele princípio impessoal.
. Sendo assim não há politeísmo, mas monoteísrno e monismo.

B - O Deus supremo.

. Alguns hindus elegem determinados semideus e o adoram como o deus supremo;
. Algumas seitas hindus escrevem literaturas que exaltam deuses como Shiva e Shakti e passam a adorá-los como o ser supremo;
. Mas todas essas práticas estão em oposição as escrituras védicas originais;
. Vishnu recebe vários nomes como Narayana, Aniruda, Sankarsana, Pradiuna, Vasudeva, Krsna, etc... Cada um desses nomes tem relação a um de seus muitos aspectos;
. Vejamos algumas citações das escrituras Védicas que mostram que Vishnu é o Supremo Deus:

* O Rig Veda diz: "Os semideuses estão sempre em busca daquela suprema morada de Vishnu".

* O Atharva Veda diz: "A pessoa suprema desejou criar as entidades vivas, e, assim, Narayana criou todos os seres vivos. De Narayana Brahma nasceu. Narayana criou todos os Prajapatis. Narayana criou Indra".

* O Atharva Veda ainda diz: "No princípio da criação só existia a suprema personalidade, Narayana. Não havia Brahma, nem Shiva, nem fogo, nem lua, nem estrelas no céu, nem sol".

* O Purana diz: "Narayana é a suprema personalidade de Deus, e dele nasceu Brahma, de quem Shiva nasceu".

* Na India antes de se fazer oferendas aos semideuses deve-se pronunciar o seguinte mantra em honra a Visnu : "om tat sat, om tad Visnoh".

C - Os Semideuses

Os semideuses são seres divinos que controlam os elementos, as energias e as forças da natureza. Os semideuses foram seres humanos em encamaçôes passadas e que por praticarem muitas austeridades alcançaram nascimento nos planetas celestiais. Entre os milhões de semideuses temos:

Brahmã - deus criador
Shiva - deus da destruição
Lakshimi - deusa da fortuna
Durga - deusa da miséria
Sarasvati - deusa da sabedoria
Ganesa - Removedor dos obstáculos
Agni - deus do fogo
Kamadeva - deus do desejo
Kaladeva - deus do tempo
Gandarvas - deuses da música
Apsaras - deusas da dança
Kuvera - deus dos tesouros
Maruts - guerreiras celestes
Ariamam - protetor das casas
Xasti - deusa do parto
Himalaia - deus das montanhas
Gangá - deusa dos rios
Vãyu - deus do ar
Varuna - deus das águas
Bumi - deusa terra
Indra - deus das tempestades
Yamaraja - deus da morte
Kartykeya- deus da guerra
Surya - deus do sol
Soma - deus da lua
Visvakarmam - deus ferreiro
Prajápatis - os sete pais do universo
Brihaspati - sacerdote dos deuses
Aditi - deusa do céu estrelado
Ushas - deusa da aurora
Pushan - guardião das estradas
Mitra - deus da luz
Garuda - rei dos pássaros
Dharma - deus da religião
Hanuman - protetor das viúvas

III - PONTOS PRINCIPAIS DO PENSAMENTO VÉDICO

A - Os três aspectos do absoluto:

1 - Brahman - Impessoal

"Brilhante ela é, a luz das luzes, aquilo que os conhecedores da Alma conhecem! O sol não brilha lá, nem a lua, nem as estrelas; Estas iluminações não brilham, muito menos este fogo (terrestre)! Conforme ele, como ele brilha é que tudo brilha. Este mundo todo está iluminado com a sua luz. ... na frente ... atrás, à direita e à esquerda. Esticado abaixo e acima" .
Mundaka - Upanisad

2 - Paramatma - Localizado (a essência e consciência Divina presente em todos os seres)

"Eu estou no coração de todos os seres vivos, e é de mim que vem o conhecimento e o esquecimento".
Bhagavad Gita

3 - Bhagavan - Pessoal

"O supremo controlador é Krisna cuja forma transcendental tem eternidade, bem-aventurança e conhecimento".
Brahma Samhita

O Bhagavad Gita usa sempre a expressão:
"Sri Bhagavan Uvaca"- "A Suprema personalidade de Deus disse".

B - As três energias do Absoluto:

1 - Cit

Cit-Shakt é a energia da consciência divina que cria os mundos espirituais antes de manifesta-los no mundo material. É a formação dos arquétipos na mente do logos.

“Fica sabendo que aquilo que permeia o corpo é indestrutível, ninguém é capaz de destruir a alma imperecível".
Bhagavad Gita

2 - Jiva

As entidades vivas individuais que partilham de eternidade, conhecimento e bem aventurança com o supremo Deus.

3 - Maya - engano, ilusão, esquecimento, aquilo que não é .

"Esta minha energia divina (Maya) consiste nos três modos da natureza material e é difícil de ser superada".
Bhagavad Gita

C – Karma

Lei de causa e efeito
Todas as ações da entidade viva produzem reações, o carma é sempre ruim (bom ou mal) pois nos prende à existência material. Devemos nos livrar do carma através do conhecimento.

"Como o fogo abrasante transforma a lenha em cinzas, ó Arjuna, assim também o fogo do conhecimento reduz a cinzas todas as reações decorrentes de atividades materiais".
Bhagavad Gita

D - Sansara

A roda dos nascimentos e mortes ( chamada no ocidente Reencarnação) O Padma Purana afirma que há 8.400.000 espécies de vida e que a jiva transmigra em todas elas até alcançar a forma humana.

"Dentre as criaturas sensíveis é difícil alcançar o nascimento como ser humano"...
Viveka - Chudamane de Sankaracharia

"Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo"...
Bhagavad Gita

A reencarnação é considerada no Ocidente uma coisa muito positiva, no entanto na índia ela é vista como uma maldição que aprisiona a entidade viva na existência material.

E - Gunas

As qualidades da matéria

Satwa (bondade, equilíbrio) Rajas (paixão, movimento) Tamas (ignorância, inércia)

Tudo está impregnado pelas três gunas, cada coisa possui em grau maior uma ou outra guna. Devemos selecionar as coisas com as quais teremos contato tendo em mente as três gunas, por exemplo: alimentos, literaturas, relacionamentos, diversões, adoração, etc ...

F - A Trimurt

Brahma, Vishnu e Shiva.

G - A Auto Realização

A saída de sansara
Moksa (Liberação)
Nirvana (Aniquilamento)
Premanande (Amor repleto de bem aventurança)

IV - FILOSOFIA SOCIAL VÉDICA

Varnasrama-Dharma

. Uma sociedade centralizada em Deus Ideativa e metafísica em vez de sensual e prática;
. Os objetivos da vida
Artha - desenvolvimento econômico
Kama - gozo dos sentidos
Dharma - desenvolvimento religioso
Moksa - liberação

. As quatro Varnas - ordens sociais

* Brahmanas - professores, conselheiros espirituais, legisladores, intelectuais;
* Ksatrias - administradores, militares;
* Vaisyas - agricultores, comerciantes;
* Sudras - servos, operários.

. As quatro Asramas - ordens espirituais

* Brahmacarya - estudante celibatário até 25 anos;
* Grhastha - chefe de família;
* Vanaprastha - vida retirada;
* Sannyasi - renunciado.

V - O PROCESSO VÉDICO DE APRENDIZADO

1 - Pratiyaksa - percepção sensorial
2- Anumana - Teorias baseadas na evidência
3- Sabda - ouvir as escrituras reveladas de uma autoridade superior; (As escrituras são Apauruseya - não se originam de uma pessoa condicionada, por isso podemos segui-las) .
4- Elementos para praticar Sabda
a ) Sastras - as escrituras
"Os vedas são manifestações diretas da suprema personalidade de Deus infalível".
b) Sísya - O estudante rendido.
c) Guru - professor qualificado
“Simplesmente procura aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe perguntas submissas e presta-lhe serviço. A alma auto-realizada pode dar conhecimento porque ela viu a verdade".
Bhagavad-Gita

d) Parampara - sucessão discipular
"A fim de aprender a ciência transcendental, devemos aproximar-nos submissamente de um mestre espiritual genuíno, proveniente da sucessão discipular e fixo na verdade absoluta".
Mundaka Upanisad
A cadeia de mestres chama-se Sampradaya.
e ) As qualificações do Guru
"Uma pessoa que é sóbria, que é capaz de tolerar o desejo de falar, as exigências da mente, as ações da ira e os desejos da língua, do estômago e dos órgãos genitais é qualificada para fazer discípulos em todo mundo".
Upadesamrta

"Primeiro, toma-te perfeito, só então é que poderás ensinar".
Caitanya Caritamrta

VI - ESCOLAS FILOSÓFICAS DA ÍNDIA

A - Escolas que aceitam a autoridade dos Vedas

1 - Mimansa - o culto do período Bramana

. Aponta um caminho para os planetas celestiais onde habitam os semideuses;
. A libertação pode ser alcançada pela prática de rituais,
. Ensina a natureza da ação correta,

2 - Nyaia - escola de lógica- Gautama VII AC

. É possível atingir o absoluto pelo argumento lógico;
. Distingue entre o "verdadeiro " e o "falso ";
. A meta é o conhecimento correto;
. Conhecemos algo pelo testemunho de outro ou pela intuição;

3 – Vaisesika - Escola analítica - Kanada - 111 AC

. Não se interessa por explicar a origem do universo;
. Mostra o belo e o simples existentes nas coisas conflitantes;
. A verdade é obtida pela correspondência do mundo interno, do pensamento e o externo da forma. Visão intelectual da realidade, reflexão e a prática são os meios para a libertação.

4 - Samkhya - Kapila Muni

. O universo aparece pela combinação de elementos que surgem de Purusha (espírito) e Prakrit (matéria);
. O sofrimento é causado pelo próprio ser, pelo meio, ou por entidades supranaturais;
. A escravidão desaparece quando entendemos a verdadeira natureza da alma;
. A razão preside o universo.

5 – Astanga Yoga - União - Patanjali

. Liberação da roda de nascimentos e mortes.
a) Concreta - objeto de meditação é conhecido e manifestado;
b) Abstrata - o objeto de meditação não é conhecido, definido ou manifestado. É o principio divino impessoal.
. Cinco coisas nos impedem de sair de Sansara: Ignorância, egoísmo, apego, aversão, desejo de viver;
. Três condições para a Voga: Ascetismo, instrução, devoção;
. Os passos para a Yoga:
* Yama (controle) - não fazer o mal, não mentir, não matar, não roubar, etc...
* Niyama (obrigação) - penitência, estudo, contentamento, limpeza, adoração;
* Asana (postura);
* Pranayana (respiração ;
* Pratyara (abstração);
* Darana (concentração);
* Dhyana (meditação);
* Samadhi (união).

6 - Vedanta - a essência dos Vedas

a) Vedanta Dvaita - Madhvacharya 1249 d.C.
Dualismo - Deus, as criaturas e o universo são eternamente separados e diferentes. Deus é pessoal.

b ) Vedanta Advaita - Sankaracharya VII - XIX d.C.
Não dualismo, Deus é impessoal.

. Qualificações do indivíduo

* discernimento;
* renúncia;
* preparação moral;
* ânsia de libertação;

. As seis posses

* Sama (domínio da mente)
* Dama (domínio dos sentidos e do corpo)
* Uparati (tolerância)
* Titiksha (renúncia impossível)
* Shraddha (fé no Guru)
* Samadhana (paz da mente)

. Brahman é a base de toda experiência e, é a verdade absoluta;

. Brahman é Nirguna (sem qualidades, impessoal) e Saguna (com qualidades pessoal);

. O universo é Brahman; o ser é Brahman;

. O ser real está coberto por vários casulos: Anna Maya Kosha, Prana Maya Kosha, Mano Maya Kosha, Vijnana Maya Kosha, Ananda Maya Kosha;

. O ser real é Atman que é o próprio Brahman.

c ) Vedanta Visistadvaita - Ramanujacharya

. Existe diferença entre o supremo e os seres. Deus é o absoluto eterno, os seres são eternamente fragmentários;
. Existe uma unidade qualitativa entre o supremo e os seres;
. O absoluto inclui o universo material e os seres individuais, mas ainda é o Senhor Transcendental;
. O corpo é instrumento do ser, assim como o universo material é o instrumento de Deus;
. Após a liberação o ser continua existindo num corpo espiritual;
. Deus é a alma suprema e é o universo material;
. Existe relação entre o absoluto e os seres, essa relação é Bhakti;
. O ser pode transcender o mundo material e atingir a eterna morada de Visnu;
. O resumo dessa filosofia é dado pelo Senhor Caitanya Mahaprabu em seu ensinamento chamado:
"Isvara jiva acintya-bheda-abheda":

"O supremo e os seres são inconcebível e simultaneamente iguais e diferentes"

B - Escolas que não aceitam a autoridade dos Vedas

1 - Carvaka - Materialismo Ateu VI AC

a) Deus não existe;
b) Não existem escritos sagrados;
c) As religiões são engodos;
d) Não existem outros mundos ou uma outra vida;
e) A satisfação dos sentidos e os prazeres são a única meta da vida;
f) Este mundo é o único que existe, esta vida é a única que existe por isso devem ser aproveitados.

2 - Jainismo - Mahavira 519 AC

. O homem é escravo da ignorância;
. O Karma é material e é acumulado durante a luta diária do homem;
. Quando o Karma se extingue, o indivíduo alcança o nirvana;
. O ser é manchado pelo carma;
. Pela pureza e não violência o carma se extingue.

3 - Budismo - Sidarta Gautama 657 AC

. As quatro nobres verdades;

1 - Duka - A dor - tudo é dor;
2 - Samudaya - A origem da dor - o desejo;
3 - Niroda - Cessação da dor - a destruição do desejo;
4 - Marga - O caminho - como destruir o desejo.

. A nobre octupla Senda

Compreensão correta, pensamento correto, palavra correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção correta, concentração correta.

4 - O Sikhismo – sec. XVI

. Tentativa de unir as seitas hindus e o Islamismo;
. Deus é apenas um, não importando com que nome o chamamos;
. Imagens ou ídolos não devem ser usados;
. Deve-se ler o Granth Sahib (livro sagrado do Sikhismo) todos os dias
. As armas sagradas são símbolos de veneração.




Comentários de João Baptista Neto

Quando entramos em contato pela primeira vez com a tradição Védica, de modo geral ficamos pasmos com a beleza da iconografia por um lado, e, por outro, com a interrogação de como pode uma cultura que atingiu níveis fantásticos de beleza estética e erudição, tanto na música como na literatura, cultuar milhões de Deuses e semi-deuses; cada um com milhares de atributos e, de forma geral, representados de milhares de formas diferentes, ora com mil braços, ora belos, ora horripilantes, ora pacíficos, ora irascíveis. De fato, a interrogação faz sentido se não levarmos em conta que 99% da população era analfabeta, só tendo acesso à educação duas castas: a dos religiosos – Brâmanes - e a dos governantes e guerreiros – Ksatryas. Como a tradição era transmitida oralmente, somente através de desenhos era possível ser entendida pela grande massa os atributos e poderes daquele determinado Deus ou semi-deus. Assim, a força descomunal e os poderes de um deus eram representados pelos seus milhares de braços, e assim sucessivamente de acordo com o tipo de energia que basicamente simbolizavam. Dessa forma, consegue-se explicar porque cada elemento e força da natureza tem um Deus regente.

Assim, chegamos à conclusão que para cada energia, inclusive as resultantes das virtudes ou defeitos das pessoas, era representada por Deuses ou semi-deuses, protetores ou instigadores, conforme o caso. Não havia outro meio de se entender a transmissão oral a não ser associando à energia uma figura- símbolo.

Outro ponto que nos causa bastante perplexidade é o contraste entre a profundidade e beleza dos ensinamentos obtidos pelos Grandes Sábios da Índia antiga (Rishis) e suas respectivas representações simbólicas. Será que, à semelhança das parábolas do Mestre Jesus, era para somente poucos entenderem?



Publicado em:30.03.08

Ensinamentos de um Guerreiro Tolteca


Matéria extraída da www.revistahermetica.org nº2
Tradução autorizada
Nota: A gravura abaixo não consta do original

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Palavras iniciais de João Baptista Neto

Na matéria abaixo, um pouco da Sabedoria Tolteca através de um excerto de uma conversa de D. Carlos Castillejos com Anciãos Toltecas.



Veja Filho, escuta Filho, nós elegemos lugares normais do dia-a-dia e comuns para falar do sagrado ou vivenciar o sagrado, que talvez a ti pareçam lugares comuns e corriqueiros. Atente que as representações cerimoniais com cenografia reluzente e dispendiosa nós as preferimos no teatro. Que te parece um parque, um café, um mercado, um restaurante, uma estação de ônibus, como uma maravilhosa oportunidade que possibilita o cotidiano transcendente. Qual é tua intenção, qual é teu intento, quanta energia tens acumulado, isso nada mais é que a chave, o passaporte para fazer de tua vida diária o Jogo do Sagrado.

Demasiado simples, é verdade, e então onde fica o mistério, seguramente no mistério. Para muita gente parece mais irreverente somente por causa de nossa simplicidade. E é o simples que sabe a fruta fresca colhida ao amanhecer e não ao suco industrializado congelado em teu coração, rodeados de uma bela chaminé cujo fogo nunca se apaga, ardendo intensamente, apaixonadamente.

Busque o simples, não te iniba, tira os deuses das igrejas, dos templos e convida-os a fumar um cigarro, a desfrutar um bom vinho, porque não, e nessa convivência percebe o sagrado. Não vejas a beleza onde evidentemente há beleza, não sintas amor só quando todos sentem amor; não te enganes, quer dizer, não mintas, não roubes, não seja preguiçoso, não vás à parte funda do mar sem saber nadar, não te obsedes e abandona a pressa. Para onde corres? Não podes ir para nenhum lado. Ou sim? Demasiada energia pode te causar um séria congestão; bem melhor tomar com calma e ternura; reverentemente tome e use qualquer coisa do mundo, para isso aqui está. Por último, não te empenhes em compreender tudo, embora quisésseis nunca poderias.

Tudo o que nós dizemos são “sugestões”, deixo claro. Se te servem, usa-as, se não, dá-lhes um melhor uso. Talvez a lixeira seria um lugar melhor.

Quando vais a um Centro de Poder talvez gostes de cantar, rezar, levar ervas aromáticas, saudar os antepassados; já posso até te ver com uma cara tão séria que até pareces espiritual. Por favor Filho, que teu canto não seja a mordaça para o Poder, que tua meditação não ocupe a primeira página dos jornais, que tua voz não seja altaneira ou vaidosa, porque nesse jogo creio que o Poder sabe mais por ser velho e não se deixará surpreender, muito menos ser enganado.

Agora vamos falar dos esforços e disciplinas que trazem consigo os diferentes caminhos. Nós em um momento fomos terrivelmente disciplinados, mas “nem tudo que brilha é ouro”, diz um refrão popular; em teu caminho encontrarás sinalizações que não te conduzirão a lado nenhum, que te desviarão do caminho, que te levarão a becos sem saída e às vezes está bem.

Ao longo de tua caminhada, sobretudo nos tempos de pouca luz, te acostumastes ao sacrifício, à penitência, ao esforço extenuante, quase obsessivo, como aquele menino que costuma ser castigado por seu pai se não se comporta bem, um menino que tem que dizer mentiras a cada dia, ano após ano, para obter um prêmio. As provas em nossa cultura primitiva são amorosamente impactantes. Não queremos que te agarres a nós durante vinte anos, antes queremos soltar-te, atirar-te em um abismo, colocá-lo em um beco sem saída. Não queremos que continues cometendo estupidez agora sob o pretexto de espiritual, de nada te serve, melhor seria que passasses pela vida sem saber nada.

Hoje em dia se encontram grupos de “elevação” da consciência em qualquer esquina. Afortunadamente todavia não dizemos “em volta de qualquer montanha”. Parece que esses grupos pseudo-espirituais existem fundamentalmente para te mostrar o que não deves fazer, então, Filho, há que agradecê-lo. Outros grupos te proporcionam uma série de técnicas sistematicamente entediantes, geralmente indiferenciadas, uniformizadas e tão profundamente complicadas que não sobra espaço para simplesmente respirar, caminhar ou sorrir. Como ríamos, respeitosamente, logo após, de tão sofisticadas artimanhas para progredir. Qualquer técnica, disciplina, dança, cântico, é uma simples escada para subir ou descer, nada mais.

Não deves esquecer que qualquer técnica deve derrotar o monstro que alimenta a todos os monstros: a importância pessoal, esse monstro proporciona a real medida de tua evolução. Por ora não me interessam tuas experiências fora do corpo, tuas visões, tuas alucinações e sonhos que tanto te impressionam, tua persistência no fenomeno sobrenatural – talvez importantes -, conserva-as como pontos de referência no bosque ou na selva inexplorada, que é tua própria luminosidade. Busca antes de tudo, humildemente, a simplicidade; a importancia pessoal é um inimigo com quem vale a pena lutar, é um inimigo inteligente, astuto, evasivo, espreitador, que ao menor descuido desfere o golpe mais terrível, um golpe de morte quando se encontra ameaçado e a ponto de perder a batalha. Seria bom que nunca baixasses a guarda ou pode ser sua última batalha.

Um elemento que deves ter em conta é a energia, e específicamente a economia de energia. Uma das razões pela qual determinada “técnica” não produz os resultados desejados é pela falta de energia vital dos “praticantes”. Não bastam as boas intenções: “não estava preparado”, dizemos a par que a geração-economia de energia requer uma limpeza. De nada serve produzir uma explosão de energia se desta não se economiza um centésimo ou se dissipa no transcurso do dia. Não damos regras de conduta ou normas de comportamento, que disso já estarás cansado, só te observas a cada momento quando falas, caminhas, comes e te relaciones, então descobrirás de que forma anda tua vida.

Vamos agora falar sobre um tema delicado – o “tema delicado” é a energia sexual. Nisso somos desavergonhadamente precisos e até afirmamos que sem essa energia jamais poderás alçar vôo; se não economizas energia sexual seguramente servirás de alimento para a águia e tudo bem, engrandecerás a consciência do universo, porém não para o Guerreiro da liberdade total, que tem a possibilidade de uma morte alternativa, agora que está na moda o alternativo, tuas disciplinas irão pelo esgoto sem poder dar um passo entre os mistérios maiores, a porta está fechada. Nesse ponto não me interessam suas interpretações, falamos de um fato e olha que afirmar algo é perigoso porque tudo se move e o que damos por certo hoje, amanhã terá mudado. No adequado manejo e conservação da energia sexual se encontra o milagre de se engendrar a si mesmo como Filho do homem. O Guerreiro utiliza sua energia para desenvolver a vontade a partir do plexo solar e consciência de cada ponto de luz no ovo luminoso, utiliza sua energia para fechar os buracos e rachaduras impressos em sua luminosidade. A energia sexual, de per si geradora da vida, é a matéria prima, o fio de luz que o artesão tomará em suas mãos para a criação da túnica sem mancha, pacientemente, como a aranha, será capaz de atrair o Poder, como todo caçador.

É necessário dar ênfase a esse detalhe, porque pessoas ainda que bem intencionadas não conseguem aceitá-lo cabalmente e isso causa maior confusão. Embora não demos receita de cozinha, melhor seria que resolvesses esse conflito antes de reprimí-lo, não queremos monges ou sacerdotes preocupados com o celibato e fazendo política, melhor seria que desfrutes da sexualidade livremente e sem temores. Se não queres dar o passo para o caminho dos “sacrílegos”, “animistas” e “supersticiosos” Guerreiros, então já livre de temores e bloqueios és guiado para a conservação e manejo de tua energia, dependendo se tens parceira ou não.

Como dizer-te que a sexualidade é um sacramento sagrado, violado, violentado, blasfemado, reprimido, precisamente pelo poder que representa; acaso não te destes conta que com esse Poder se gera a vida? Tudo se cria, ninguém mais observa como o mundo roda e para onde se desviou essa energia, para expressões degradantes que trazem como conseqüência desajustes físicos, enfermidades mortais; quando levantarão a cabeça e deixarão de olhar para a própria cauda?

Se estás esperando que te fale sobre alguma “técnica sexual” temo que vou frustar teu desejo, simplesmente tudo depende de tua energia. Vamos permitir que observes os murais em Tula, Uxmal, Tulum; ali deixamos gravados elementos que talvez saciem tua curiosidade. Oxalá tenhas sorte.


Publicado em:23.03.08

A Verdade é uma terra sem caminho


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Palavras iniciais de João Baptista Neto

Apresento abaixo um dos pronunciamentos antológicos de Jiddhu Krishnamurti.

Para os que não o conhecem, foi criado material e espiritualmente dentro da Teosofia por Annie Besant e Charles Leadbeater. Posteriormente desligou-se dissolvendo uma Organização espiritual com mais de 26.000 membros, onde era considerado o ‘Instrutor do Mundo’, por não concordar em ser a muleta de ninguém. Nessa época tinha 29 anos. Atingiu a iluminação aos dezesseis anos. Posteriormente à dissolução da “Estrela do Oriente” constituiu a Fundação Krishnamurti, de onde passou a dar conferências e palestras até a sua morte em 1986.

Na Seção ‘História e Pesquisa’ do Site encontra-se o link para a ICK – Instituição Cultural Krishnamurti, para os que quiserem conhecer melhor esse pensador da atualidade.



Por Jiddhu Krishnamurti

"A Verdade é uma terra sem caminho". O homem não chegará a ela através de organização alguma, de qualquer crença, de nenhum dogma, de nenhum sacerdote ou mesmo um ritual, e nem através do conhecimento filosófico ou da técnica psicológica. Ele tem que descobri-la através do espelho das relações, por meio de compreensão do conteúdo da sua própria mente, mediante a observação, e não pela análise ou dissecação introspectiva. O homem tem construído imagens em si próprio, como muros de segurança - imagens religiosas, políticas, pessoais. Estas se manifestam como símbolos, idéias, crenças. O peso dessas imagens domina o pensamento do homem, as suas relações e a sua vida diária. Tais imagens são as causas de nossos problemas, pois elas dividem os homens. A sua percepção da vida é formada pelos conceitos já estabelecidos em sua mente. O conteúdo de sua consciência é a sua consciência total. Este conteúdo é comum a toda humanidade. A individualidade é o nome, a forma e a cultura superficial que o homem adquire da tradição e do ambiente. A singularidade do homem não se acha na sua estrutura superficial, porém na completa libertação do conteúdo de sua consciência, comum a toda humanidade. Desse modo ele não é um indivíduo.

A liberdade não é uma reação, nem tampouco uma escolha. É pretensão do homem pensar ser livre porque pode escolher. Liberdade é observação pura, sem direção, sem medo de castigo ou recompensa. A liberdade não tem motivo: ela não se acha no fim da evolução do homem e sim, no primeiro passo de sua existência. Mediante a observação começamos a descobrir a falta de liberdade. A liberdade reside na percepção, sem escolha, de nossa existência, da nossa atividade cotidiana.

O pensamento é tempo. Ele nasce da experiência e do conhecimento, coisas inseparáveis do tempo e do passado. O tempo é o inimigo psicológico do homem. Nossa ação baseia-se no conhecimento, portanto, no tempo, e desse modo, o homem é um eterno escravo do passado. O pensamento é sempre limitado e, por conseguinte, vivemos em constantes conflito e numa luta sem fim. Não existe evolução psicológica.

Quando o homem se tornar consciente dos movimentos dos seus próprios pensamentos ele verá a divisão entre o pensador e o pensamento, entre o observador e a coisa observada, entre aquele que experimenta e a coisa experimentada. Ele descobrirá que esta divisão é uma ilusão. Só então haverá observação pura, significando isso percepção sem qualquer sombra do passado ou do tempo. Este vislumbre atemporal produz uma profunda e radical mutação em nossa mente.

A negação total é a essência do positivo. Quando há negação de todas aquelas coisas que o pensamento produz psicologicamente, só então existe o amor, que é compaixão e inteligência."

Esta exposição foi originalmente escrita pelo próprio Krishnamurti, em 21 de outubro de 1980, para ser publicada no livro "Krishnamurti: Os Anos de Realização", de Mary Lutyens.



Publicado em:16.03.08

Demita seus Gurus


Palavras iniciais de João Baptista Neto

Este artigo que reproduzo abaixo parece-me bastante apropriado para o momento atual em que nos encontramos, não só em termos do Site propriamente dito como também em termos gerais.

Com a única diferença da época em que foi publicado, muito se assemelha à posição tomada por Jidhu Krishnamurti quando renunciou à posição de Guru da “Estrela do Oriente” - movimento fundado por seguidores da Teosofia que já contava com mais de 200.000 fiéis – dizendo, em linhas gerais, que “não queria ser a muleta de ningém”. Assim o fez, e dali por diante somente dava palestras e orientações e conselhos em termos gerais, nada específico e pessoal, e nem por isso perdeu em termos de prestígio e conceito mundial. Em poucas palavras, seu lema era o de que “A verdade é uma terra sem caminho” e que cada um tinha que encontrar o seu à custa de bastante investigação.

Vejamos o que a matéria nos diz.

É hora de acabar com a dependência e nos tornarmos tão grandes quanto os mestres que seguimos – tão autênticos, peculiares e obstinados quanto eles
por Tijn Touber

"Todo homem deve chegar aos céus à sua própria maneira" Frederico II (1712-1786), rei da Prússia

Gurus, professores espirituais, terapeutas, conselheiros: eu costumava segui-los com devoção. Devorava seus livros, não perdia um seminário e me sentava a seus pés. Durante anos viajei para a Índia, sem dúvida o país com maior índice de gurus por habitante. Todo professor que eu encontrava prometia algum tipo de iluminação ou libertação: um dizia que seria pelo compartilhamento do conhecimento, outro por meditação, ioga ou recitação de mantras. Alguns pregavam sermões longos, outros ficavam de boca fechada. Havia os que eram a própria encarnação do amor; outros eram rudes e investiam sem piedade contra seus seguidores até lhes despedaçar o ego. Muitos desses gurus eram extraordinariamente sábios e enriqueceram muito minha vida.

Contudo, comecei a duvidar se a relação entre um guru e seus seguidores seria mesmo a melhor maneira de atingir a libertação. Afinal, pouquíssimas vezes encontrei um seguidor que houvesse alcançado a iluminação - alguém que parecesse tão sábio e radiante quanto seu mestre. A maioria dos seguidores era gente devota, mas que duvidava muito de si mesma. Percebi também, em mim mesmo, que algumas vezes eu parecia encolher na presença de um guru que inspirava admiração em todos. Seria um sentimento de honra e respeito ou seria medo de me erguer sobre meus próprios pés?

Há mais de mil anos, o mestre zen chinês Lin Chi chamava a atenção para o perigo dos gurus. Ele via como muitos de seus contemporâneos transferiam a responsabilidade por seu bem-estar espiritual para outros. Com isso, dizia ele, as pessoas abriam mão de seu poder e de sua autenticidade. Esta observação levou-o a fazer uma declaração que se tornaria célebre: "Se o Buda cruzar seu caminho, mate-o". Em outras palavras, se você acha que vai encontrar a iluminação fora de si mesmo, está no caminho errado. Afinal, a essência dos ensinamentos do Buda é que todos carregam um Buda dentro de si - ou, em outros termos, todos somos Buda.

Os ensinamentos de Lin Chi continuam atuais ainda hoje. Apesar da extrema individualização do mundo ocidental moderno, as pessoas continuam em busca de algo em que se apoiar. Hoje há mais gurus do que nunca, embora os títulos tenham mudado: conselheiro mental, terapeuta, assistente social.

O cientista social americano John McKnight, que há mais de 40 anos estuda o efeito dos conselheiros profissionais sobre a sociedade, é um Lin Chi moderno. "Todas as vezes que procuramos um especialista, abrimos mão de uma parte de nós mesmos. Com sua atuação, os conselheiros profissionais esvaziaram a alma da comunidade", diz ele em The Careless Society ("A sociedade negligente"). "O inimigo não é a pobreza, a doença, as enfermidades em geral, e sim um conjunto de interesses que exigem dependência sob a máscara de prestação de serviço."

Gurus e conselheiros profissionais não são os únicos que tendem a tornar as pessoas dependentes e a mantê-las subjugadas. Pais e educadores muitas vezes fazem o mesmo. Quantos deles vêem o "Buda" nas crianças? Em vez de encorajá-las a confiar em sua sabedoria inata, eles as entopem de fatos e números. Quase nunca perguntamos às crianças quem elas são, e sim o que desejam ser. A mensagem subjacente é a seguinte: vocês não são coisa alguma, mas se fizerem o que recomendamos, poderão se tornar alguém no futuro. Conseqüentemente, instilam em nós desde cedo que temos de mergulhar fundo na sabedoria dos outros em vez de explorar a sabedoria existente dentro de nós.

A idéia de que temos de nos tornar alguma coisa para sermos bem-sucedidos, livres ou felizes é um enorme mal-entendido. A convicção de que um caminho externo pode nos guiar a algo melhor é a razão pela qual praticamente ninguém jamais chega a seu destino. Se estamos sempre a caminho, jamais chegaremos a parte alguma. No bar que costumo freqüentar há uma placa com os dizeres: "Cerveja grátis amanhã". É claro que o amanhã nunca chega.

Os gurus também prometem a iluminação para mais tarde, condenando seus seguidores à eterna dependência. É uma via de mão dupla. O que seria do guru se ele não tivesse seguidores?

Naturalmente, alguns personagens influentes não ficaram encurralados nessa mútua dependência. Estes são os mestres radicais, que não toleram seguidores nem tietes, porque sabem que a liberdade espiritual só pode ser alcançada por aqueles que ousam se apresentar nus perante a verdade, sem lealdade prévia a uma doutrina ou guru. Jesus jamais teria se tornado cristão, tampouco Buda seria budista. Esses mestres eram rebeldes que seguiam antes de tudo a si mesmos (ou a Deus?). O analista Carl Gustav Jung é mais um exemplo. Certa vez, ele disse: "Graças a Deus não sou junguiano".

Jung referia-se ao que considerava um problema de relações desiguais em todas as formas de terapia. Ele acreditava que a cura só poderia acontecer se houvesse espaço para a pessoa em toda a sua inteireza. O psicólogo americano Marshall Rosenberg refere-se sem meias palavras à importância da igualdade entre as partes: "Quando o terapeuta se apresenta como tal, a terapia está fadada ao fracasso".

Uma relação desigual implica a existência de uma muralha que o seguidor dificilmente terá condições de atravessar. Superar o mestre é difícil, sobretudo se aprendemos a não confiar em nossa própria sabedoria. Seria esta a razão pela qual a palavra tibetana para guru, ou lama, é traduzida como "insuperável"? O seguidor não percorre uma trajetória própria, e sim a de um outro, porque se trata de um caminho já palmilhado. Portanto, não há necessidade de muito esforço para segui-lo. Tampouco o discípulo aprende as mesmas lições. A conclusão a que o mestre chega - o resultado do trabalho espiritual - não é a mesma a que chega seu seguidor. O mestre experimentou tanto a trajetória quanto o destino. O discípulo conhece apenas o destino, conforme descrito pelo mestre.

Esta é a razão pela qual os discípulos quase sempre são mais santos do que o papa e mais radicais em suas opiniões do que o mestre. Tais opiniões, não raro, podem ser reduzidas a cápsulas de fácil digestão. Afinal, quanto mais inseguras forem as pessoas, tanto mais se apegarão à "verdade". Além disso, a maior parte dos discípulos não entende totalmente os ensinamentos do mestre, por isso insights sutis e complexos são pasteurizados de forma a que se convertam em conceitos de fácil absorção e entendimento.

O paradoxo que muita gente encontra em sua busca por iluminação se deve ao fato de que esse estado de consciência não corresponde ao apego a "verdades" e "fatos". Muitas verdades e fatos não passam de pressupostos ou formas de lidar com a realidade. A palavra "fato", em seu sentido original no latim, "facere", significa "fazer". Um fato não é uma verdade, e sim uma criação. Portanto, não perdemos nossa "natureza búdica" por causa daquilo que não sabemos, e sim por causa daquilo que estamos convictos de saber porque outras pessoas assim nos disseram. No momento em que nos convencemos de que alguma coisa é fato, perdemos contato com a realidade. Reduzimos a verdade (supondo-se que ela exista) a uma palavra ou um método, e nos fechamos ao aprendizado e ao crescimento.

Talvez os gurus não sejam mestres a ser imitados. Talvez sejam muito mais exemplos que podem nos servir de inspiração. Eles nos mostram que é possível atingir um estado superior de consciência, mas cabe a nós chegar lá. Portanto, é hora de mandar embora os gurus (fatos, verdades, crenças, princípios, dogmas) para que o guru dentro de nós aflore. É hora de nos tornarmos tão grandes quanto os gurus que seguimos - tão autênticos, peculiares e obstinados quanto eles. Não se trata de um ato de transgressão ou de desrespeito. A maior homenagem que podemos prestar a nossos gurus é deixar claro que não precisamos mais deles. O tratamento deu certo: o guru morreu.

Este artigo foi publicado originalmente na edição de setembro de 2007 da revista Ode

http://epocanegocios.globo.com/Revista/Epocanegocios/0,,EDG81552-8378-12,00.html


Publicado em:09.03.08

A Origem dos Mistérios


Matéria extraída do livro "A Doutrina Secreta", de Helena Petrovna Blavatsky

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Palavras iniciais de João Baptista Neto

Como teósofo e ex-presidente e atual Diretor de Estudos da Loja Jinarajadasa da Sociedade Teosófica no Brasil, no Rio de Janeiro, sinto-me na obrigação de divulgar a obra de Helena Petrovna Blavatsky no nosso Site uma vez que o mesmo tem um caráter preponderantemente esotérico.

Dias atrás falamos a respeito da Mediunidade – aquele dom de captar e sintonizar-se com as altas frequências de pensamento dos espíritos elevados. Pois é, dos últimos três séculos para cá não se tem notícia de um “paranormal” com tantas aptidões como ela teve [NOTA - HPB era mais que 'médium', conforme veremos em uma matéria mais adiante]. Para se ter uma ligeira idéia de sua capacidade, só para fazer todas as citações e notas de rodapé de suas duas obras magnas - “Isis sem Véu” e “A Doutrina Secreta” – era preciso que tivesse lido mais de 3.400 livros em apenas 17 anos de sua atividade literária (1874-1888), ou seja aproximadamente 200 livros por ano, ou ainda, mais de um livro a cada dois dias, além de suas outras atividades, que não eram poucas.

De fato, ela foi ajudada, mas não por pessoas físicas, e sim, por espíritos elevados, aos quais chamava de Mahatmas da Grande Fraternidade Branca, que lhes passavam todas as informações necessárias. É sempre bom lembrar que naquela época o único meio de comunicacação à distancia era o postal, e mesmo assim deficiente, e a escrita ainda era manual.

Sem qualquer sombra de dúvida, HPB foi um marco na história do esoterismo recente, de cujos ensinamentos e revelações surgiram muitas “escolas e seitas esotéricas”, particularmente as da Nova Era (New Age), com as quais a Teosofia por ela pregada e divulgada não tem qualquer compromentimento ou vinculação.

Detendo ela toda essa autoridade que acabo de citar, passo a divulgar alguns trechos de sua obra “A Doutrina Secreta”, cuja leitura recomendo àqueles que realmente se interessam por Esoterismo.



“Quando a ‘vestimenta de carne’ dos homens se fez mais densa, caindo eles cada vez mais no pecado físico*, interromperam-se as relações entre o Homem Físico e o Homem Divino Etéreo. O Véu de Matéria entre os dois planos tornou-se por demais denso, para que até mesmo o Homem Interno pudesse passar através dele. Os Mistérios do Céu e da Terra, revelados à Terceira Raça, nos seus dias de pureza, pelos Instrumentos Celestes, converteram-se em um foco de luz cujos raios se foram necessariamente enfraquecendo ao se difundirem por um campo não original, porque demasiado material. Entre as massas, tais Mistérios degeneraram em Feitiçaria, e mais tarde assumiram a forma de religiões exotéricas, de idolatria impregnada de superstições, e do culto ao homem ou ao herói. Somente um pequeno grupo de homens primitivos – em que a centelha da Sabedoria Divina, que brilhava com intensidade tanto maior quanto mais se debilitava, de idade em idade, naqueles que a empregavam com fins maléficos – permaneceram como guardiães eleitos dos Mistérios revelados à Humanidade pelos Instrutores Divinos. Entre eles havia os que mantiveram o seu estado de Kumaras desde o início; e a tradição sussurra o que os Ensinamentos Ocultos afirmam, a saber: que esses eleitos foram a semente de uma Hierarquia que desde então jamais cessou de existir”.
(Doutrina Secreta, H. P. Blavatsky, Vol. III, Seção X, pág. 299)

*’Nunca houve pecado original, mas tão só o mau uso da inteligência física, passando o elemento psíquico a ser dirigido pelo elemento animal e extinguindo-se em ambos a luz da centelha espiritual.

A Origem Dos Mistérios

Atribui-se o início dos Mistérios aos Reis-Iniciados das dinastias divinas (...) Sabemos que nos primórdios da humanidade não havia Mistérios. O conhecimento (Vidya) era propriedade comum, e predominou universalmente durante toda a Idade de Ouro (Satya Yuga). (...) Ao multiplicar-se rapidamente o gênero humano, multiplicaram-se também as idiossincrasias do corpo e da mente, e o Espírito encarnado manifestou sua debilidade. Nas mentalidades menos cultas e sãs assomaram exageros naturais, e com eles as superstições. O egoísmo brotou de paixões e desejos até então desconhecidos, e os homens abusaram com demasiada freqüência do seu poder e dos seus conhecimentos, até que por fim se impôs a necessidade de limitar o número dos que sabiam. E assim nasceu a Iniciação.

Cada nação organizou para si um sistema religioso especial, adaptado à sua capacidade intelectual e às suas necessidades espirituais. Os sábios, contudo, prescindiam do simples uso da forma, e restringiram o verdadeiro conhecimento a pouquíssimos eleitos.

A necessidade de encobrir a verdade, para resguardá-la de possíveis profanações, se fez sentir cada vez mais, de geração em geração; e assim o véu, tênue a princípio, foi-se adensando gradualmente, à medida que crescia o egoísmo pessoal. E isso conduziu aos mistérios.

Eles foram instituídos em todos os povos e países, permitindo-se ao mesmo tempo que, para evitar conflitos e desentendimentos, se arraigassem crenças exotéricas nas mentes do público profano. Inofensivas e inocentes em sua fase inicial – à maneira de um acontecimento histórico exposto sob a forma de um conto adaptado à mente infantil – tais crenças podiam difundir-se entre o povo, sem prejudicar as verdades filosóficas e abstratas que se ensinavam nos santuários.

A observação lógica e científica dos fenômenos da Natureza, que conduz o homem ao conhecimento das verdades eternas – contanto que ele se acerque do umbral da observação liberto de todo preconceito, e procure ver com olhos espirituais, em vez de se limitar ao aspecto físico das coisas – não se acha ao alcance das massas. As maravilhas do Espírito único da Verdade, da sempre oculta e inacessível Divindade, não se podem descortinar e apreender senão por meio de Suas manifestações nos poderes ativos dos ‘deuses’ secundários.

Se a Causa única Universal tem que permanecer para sempre in abscondito, Sua ação múltipla pode observar-se por seus efeitos na Natureza. Como a humanidade em geral só percebe e reconhece estes efeitos, permitiu-se que a imaginação popular desse forma aos Poderes que os produzem. Com o andar dos tempos, na Quinta Raça, a ariana, alguns sacerdotes, menos escrupulosos se prevaleceram da fé ingênua do povo para elevar à categoria de deuses aqueles Poderes, isolando-os completamente da Causa única e Universal de todas as causas.

A partir de então, o conhecimento das verdades primordiais ficou inteiramente reservado aos Iniciados. (...)

Tudo o que se pode dizer acerca dos primeiros Adeptos e de seus divinos Mestres há de parecer uma fábula. Necessário é, portanto, se queremos saber algo sobre os primitivos Iniciados, julgar a árvore por seus frutos; e examinar a conduta e a obra de seus sucessores da Quinta Raça, refletidas nos escritos dos grandes clássicos e filósofos. Como viram os autores gregos e romanos durante dois mil anos, a Iniciação e os iniciados? (...)

Ainda que a iniciação não contivesse regras nem princípios, nem ensinamento algum especial de ciência, tal como a entendemos nos dias atuais, era a Ciência – a Ciência das Ciências. E, conquanto desprovidas de dogmas, de disciplina física e de ritual privativo, era, não obstante, a única Religião verdadeira – a da verdade eterna. Externamente, era uma escola, um colégio, onde se ensinavam ciências, artes, ética, legislação, filantropia e o culto da verdadeira e real natureza dos fenômenos cósmicos; as provas práticas eram dadas secretamente durante os mistérios.

Os que se mostravam capazes de aprender a verdade acima de todas as coisas, isto é, os que podiam contemplar a face sem véu da grande Ísis, e resistir ao deslumbrante e majestoso olhar da deusa, esses se tornavam Iniciados.
(Excertos da D. S., H. P. B., Vol. V, Seção XXVIII, das pág. 247 à 257)

A Finalidade Dos Mistérios

Os primeiros Mistérios que a história registra são os da Samotrácia. Após a distribuição do fogo puro, começava uma vida nova. Era o novo nascimento do iniciado, que então se tornava, como os brâmanes da Índia, um dwija – um ‘duas vezes nascido’. (...)

Dividiam-se os Mistérios em duas partes, os Mistérios menores, praticados em Agra, e os Mistérios maiores, em Eleusis. (...)

Conquanto nos Mistérios fossem aceitas pessoas de ambos os sexos, e de qualquer condição, que tinham até uma participação obrigatória neles, mui poucos eram, em verdade, os que alcançavam a suprema e final iniciação. (...) Ou pela iniciação no templo, ou pelo estudo privado da Teurgia, todos os estudantes adquiriam a certeza e a prova da imortalidade do seu Espírito, e da sobrevivência da sua Alma.
(Excertos da Doutrina Secreta, H. P. B., Vol. V, Seção XXXI, pág. 268 à 272)

O Vestígio Dos Mistérios

O Sol, posto que sempre fosse, inclusive para os profanos, ‘o único e exclusivo Rei e Deus no Céu’, e o ‘Deus do Bom Conselho’, de Orfeu, teve em todas as religiões exotéricas um aspecto dual, antropomorfizado por aqueles. Assim, o Sol era Osiris-Tífon, Ormuzd-Ahriman, Bel-Júpter e Baal, isto é, o luminar que dá a vida e dá a morte. E o mesmo monolito, a mesma coluna, pirâmide, torre ou templo, edificado originalmente para glorificar o primeiro princípio, ou o aspecto superior, pôde com o tempo transverter-se no altar de um ídolo; ou pior ainda, num emblema fálico em sua forma crua e brutal. (...)

Em 1877, quem escreve estas linhas, apoiando-se nas opiniões de eminentes eruditos, atreveu-se a afirmar que há grande diferença entre os termos Chrestos e Christos, diferença que encerra profunda significação esotérica. Porque, enquanto Christos quer dizer ‘viver’ e ‘nascer para uma vida nova’, Chrestos, na linguagem da iniciação, significa a morte da natureza interior, inferior ou pessoal do homem; o que dá a explicação do título bramânico de ‘duas vezes nascido’. (...)

Muitos dos chamados ‘Salvadores’ foram ‘bons pastores’, como Krishna, por exemplo, e de todos eles se diz que ‘esmagaram a cabeça da serpente’ – isto é, que venceram sua natureza sensual e conquistaram a oculta e divina Sabedoria. Apolo matou a serpente Píton, fato que o excluiu da acusação de ser ele próprio o grande Dragão, ou Satanás; Krishna exterminou a serpente negra Kalinâga; e o Thor escandinavo esmagou também a cabeça do simbólico réptil com a sua maça cruciforme. (...)
(Excertos da Doutrina Secreta, H. P. B., Vol. V, Seção XXXII, pág. 273-282)

Os Derradeiros Mistérios Na Europa

Conforme predisse o grande Hermes em seu diálogo com Esculápio, era chegado o tempo em que estrangeiros ímpios acusavam o Egito de adorar monstros, e em que nada mais havia de sobreviver além das inscrições gravadas na pedra de seus monumentos – enigmas ininteligíveis à posteridade. Os Hierofantes e os escribas sagrados estavam dispersos pelo mundo. Os que permaneceram no Egito viram-se obrigados, para evitar a profanação dos Mistérios, a buscar refúgio nos desertos e na montanhas, e a fundar sociedades e congregações secretas, como a dos Essênios. Os que puderam cruzar os oceanos, emigrando para a Índia ou ainda para o continente agora chamado Novo Mundo, se comprometeram com solenes juramentos a guardar silêncio e a manter secretos os seus conhecimentos e a sua Ciência Sagrada, que deste modo, e mais do que nunca, foi subtraída à curiosidade humana. (...)

Na Ásia Central, e nas fronteiras setentrionais da Índia, a espada vitoriosa do discípulo de Aristóteles varreu do caminho de suas conquistas todo vestígio de uma religião de tradicional pureza, com o êxodo de seus adeptos para os pontos mais distantes e recôndidos do globo. (...)

Alésia, a grande cidade da Gália, a Tebas dos Celtas, tão famosa por seus antigos ritos de Iniciação e seus Mistérios, foi, conforme a descrição de Ragon: ‘a antiga metrópole e o túmulo das iniciações, da religião dos druidas e da liberdade da Gália’.

Foi, assim, no primeiro século antes de nossa era que soou a última hora, a hora suprema, dos Grandes Mistérios. A história nos mostra os povos da Gália central sublevados contra o jugo romano. O país estava submetido a César, e a revolta foi esmagada, com o extermínio de toda a guarnição de Alésia e de seus habitantes, inclusive os druidas, os sacerdotes do Colégio e os neófitos; e a cidade inteira foi saqueada e arrasada.

Teve a mesma, sorte alguns anos mais tarde, a não menos famosa cidade de Bibracta, situada perto de Alésia. (...) onde morreram para a Europa os segredos das Iniciações nos Grandes Mistérios, os Mistérios da Natureza e de suas esquecidas verdades ocultas.

César queimou os pergaminhos e os volumes da célebre biblioteca de Alexandria; mas a história, que condena a ignomínia do general árabe Amrus, a quem coube completar a sinistra obra do grande conquistador romano, não tem para este uma palavra de vilipêndio, nem por aquele ato de vandalismo nem pela destruição de quase a mesma quantidade de preciosos documentos em Alésia.

(Excertos da Doutrina Secreta, H. P. B., vol. V, Seção XXXIV, pág. 283-287)

Os Sucessores Pós-Cristãos Dos Mistérios

Os Mistérios de Eleusis haviam desaparecido. Foram eles, no entanto, que deram os traços característicos da Escola Neoplatônica de Amônio Sacas, formando com sua doutrina da teurgia e do êxtase o sistema eclético. Foi Jâmblico quem acrescentou a este a doutrina teúrgica egípcia, com suas práticas, tendo-se oposto o Judeu Porfírio à introdução do novo elemento. Mas a Escola, com poucas exceções, praticava o ascetismo e a contemplação, e os seus místicos eram submetidos a uma disciplina tão rigorosa quanto a dos devotos hindus.

Os esforços dos neoplatônicos, ao contrário do que dizem seus acusadores, não se dirigiam a práticas de taumaturgia, necromancia e feitiçaria; mas visavam ao desenvolvimento das faculdades superiores do homem interno, o Ego Espiritual. Sustentava a Escola que certo número de espíritos, habitantes de esferas independentes da Terra e do ciclo humano, serviam de mediadores entre os ‘Deuses’ e os homens, e entre o homem e a Alma Suprema. Para dizer mais claramente: a alma do homem, graças à assistência dos Espíritos Planetários, chegava a ser ‘o receptáculo da Alma do mundo’, segundo a expressão de Emerson. (...) O sistema dos neoplatônicos era idêntico ao dos vedantinos. (...)

Diz autor de New Platonism and Alchemy, Alexander Wilder, que essas doutrinas ecléticas se refletiam nas Epístolas de São Paulo, e que ‘com maior ou menor intensidade se propagaram pelas igrejas. (...)

Assim, nem o Judaísmo nem o Cristianismo refundiram a antiga Sabedoria pagã; mas esta última é que contribuiu, lenta e insensivelmente, para modelar a nova fé, que, além disso, recebeu a influência do sistema teosófico eclético, inspirado diretamente na Religião-Sabedoria. Do neoplatonismo provém tudo quanto há de grandioso e nobre na teologia cristã. De sobra se sabe, sem que seja necessário repeti-lo, que Amônio Sacas, ‘o instruído por Deus’ (theodidaktos) e o ‘amigo da verdade’ (philalethes), fundou a sua escola com o objetivo de influenciar o mundo com o ensinamento de algumas partes da Ciência Secreta cuja revelação foi então permitida.

A nossa moderna Sociedade Teosófica foi inaugurada segundo os mesmos princípios; pois a escola neoplatônica de Amônio visava, como o nosso movimento atual, a conciliar todas as seitas e todos os povos sob a fé comum da Idade de Ouro, esforçando-se por dissuadi-los de suas intransigências (em matéria religiosa, pelo menos) e provando que os diversos credos têm todos uma origem comum: a Religião-Sabedoria.

O sistema teosófico eclético não surgiu nem se desenvolveu tão somente no século III de nossa era, como inculcam alguns autores inspirados pela Igreja; mas vem de época muito anterior, conforme já o assinalava Diógenes Laércio. Este mencionou que o sistema remonta aos começos da dinastia dos Ptolomeus; ao mesmo tempo do grande vidente e profeta egípcio Pot-Amun, sacerdote do deus da Sabedoria, Amun. Até aquela época não havia cessado a comunicação dos adeptos da Índia Superior e da Bactriana com os filósofos do Ocidente. (...)

As poucas especulações que os neoplatônicos deixaram escritas acerca dos universos sublunar, material e espiritual não permitiram que a posteridade os julgasse com justiça, ainda mesmo que os primeiros vândalos cristãos, os últimos cruzados e os fanáticos da Idade Média, não houvessem destruído três quartas partes do que restara da biblioteca de Alexandria e das escolas posteriores. (...)

Entre o sigilo obrigatório, o voto de silêncio e o que a maldade destruiu pelos meios mais ignóbeis, é verdadeiramente um milagre que se tenha conservado alguma coisa dos ensinamentos neoplatônicos.
(Excertos da Doutrina Secreta, H. P. B., Vol, V, Seção XXIV, pág. 288-297)


Publicado em:02.03.08

O Misticismo


Matéria extraída do Site www.tafalado.com.br/isis

Palavras iniciais

Encerrando esse pequeno ciclo de rememoração do esotérico, abaixo os conceitos de Misticismo expressos pelo Sr. José de Ribamar de Carvalho.




Palavras de Sandro Fortunato:

Com o presente artigo, encerra-se a trilogia Esoterismo-Ocultismo-Misticismo escrita por José de Ribamar de Carvalho - teosofista, rosa-cruz, maçom e membro de mais de trinta ordens esotéricas. Reiteramos nosso apreço por este grande ocultista que, durante quarenta anos, dedicou-se ao estudo dos mistérios da natureza e dos poderes ocultos no homem.



Autor: José de Ribamar de Carvalho

Misticismo, segundo o Dicionário de Ciências Ocultas, “é a ciência e arte do mistério” .O ocultismo o considera como meio de iniciação baseada sobre a ação pessoal de Deus na alma humana. Sua origem procede da palavra grega Mystes, que significa iniciado nos mistérios. Seus ensinamentos eram dados aos iniciantes através de mitos. Mito, termo grego derivado de Mythos, fábula ou lenda. Estes mitos eram a representação objetiva de uma verdade espiritual, que era adotada nos antigos mistérios egípcios e gregos e, atualmente, encontramos no simbolismo dos ensinos maçônicos. Entre a simbologia maçônica deparamos com o mito da construção do templo do rei Salomão, o da morte e sepultamento de Hiram Abiff, a do Real Arco e do sagrado Delta.

O verdadeiro significado desses mitos, como eram dados nos templos, em segredo, constituíram os chamados mistérios que, no decorrer dos tempos passaram a significar antigas religiões e escolas ocultas pré-cristãs, dos egípcios, persas, gregos, judeus, romanos, celtas e escandinavos.

Nessas escolas, homens e mulheres de qualquer posição e cultura podiam solicitar sua iniciação nos diversos mistérios, que se dividiam em menores ou exotéricos e maiores ou esotéricos. Nos mistérios menores, a iniciação compreendia quatro estágios: purificação, comunicação do conhecimento, ritual da revelação do objeto sagrado através de um drama e, para encerramento, um banquete sacramental.

Dentre os mistérios maiores mais conhecidos, podemos citar: os mistérios cabéricos ou da samotrácia, os mistérios cretenses, os mistérios cristãos, os de Dionísio, dos caribantes, os druídicos, os de Serapis e Oripes, os escandinavos ou nórdicos, os eleusianos, dos essênios, e outros.

Os mistérios cabéricos, ligados ao elemento Fogo, foram venerados em Tebas, Lemnos, Frégia, Mecedônia e Samotrácia. Nesse mistério venerava-se a Júpiter e a mais sete deuses diante de seu trono e a uma série infindável de deuses menores, cujo ritual girava em torno de quatro irmãos, dos quais três assassinam o quarto. Os mistérios dividiam-se em três graus. No primeiro se celebrava a morte de Cashmala pelos seus três irmãos; no segundo, a descoberta do seu corpo mutilado, cujo os membros haviam sido encontrados e reunidos após penoso labor, e no terceiro, a ressurreição e consequente salvação do mundo.

Os mistérios cretenses exerceram notável influência nas civilizações romana e grega e transmitiram seus símbolos ao cristianismo e à maçonaria. Em Creta, Cnosso, Sicília e Cumas encontra-se comprovação dos vestígios de rituais que são comuns ao cristianismo, à maçonaria e aos mistérios egípcios e gregos.

Os mistérios cristãos existentes no cristianismo primitivo, pelo menos até o terceiro século, compreendia duas espécies de ensinamento. Os litúrgicos, exotéricos, de caráter geral e preparatório, destinados às massas populares, às quais ministravam preceitos morais, por meio de representações alegóricas, parábolas e cultos públicos e tinham por ideal a realização do Sermão da Montanha, sintetizado na máxima “amai ao próximo como a vós mesmos”. Os teúrgicos, esotéricos, de caráter mais específico e subjetivo, destinados a uns poucos já preparados, selecionados por sua vivência dos ensinamentos anteriores, e que se propunham realizar a máxima “amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei”, fazer o cristo nascer em si próprio e aperfeiçoar-se na santidade até chegar a ser um varão perfeito, na medida da estrutura completa de Cristo.

Na realidade, os mistérios menores correspondiam ao batismo pela água, feito por João Batista, para o arrependimento. Os mistérios maiores referiam-se ao batismo feito pelo Cristo, o do Espírito Santo, Pentecostes, e do fogo, iniciação. Os adeptos desses mistérios compreendiam duas classes: a externa e a interna. A externa compreendia as categorias: catecúmenos, competentes e iluminati. A interna abrangia a purificação, a iluminação e a perfeição. A primeira conduzia à santificação, a segunda ao conhecimento interno e a terceira à unificação com Deus.

A comprovação da existência dos mistérios no cristianismo primitivo, pode ser encontrado na terminologia bíblica, tais como: porcos, reino, porta estreita, salvos, condenados, todos termos de sentido dúbio usados nos mistérios; nas declarações constantes Nas constituições dos Santos Apóstolos de Clemente, Bispo de Roma, nos escritos gnósticos dos maniqueus, paulinos, albigenses, catarianos, templários, cavaleiros de malta e de outras ordens místico-filosóficas e nos escritos de Orígenes.

Os mistérios de Dionísio ou de Baco foram celebrados na Grécia, na Ásia Menor e em Roma, na Síria, na Fenícia, na Pérsia e na Índia. Estes mistérios baseavam-se na lenda do assassínio de Dionísio pelos Titãs, cujos segredos eram guardados por forças do juramento de seus membros.

Os mistérios caribantes eram celebrados na Frégia, em honra a Atis, o pastor frégio que gozava da benevolência de Cibele a qual, por ciúmes, matou sua esposa, a ninfa Sangáride. As cerimônias começavam com uma lamentação pública e eram concluídas com a sua ressurreição. Era uma representação dos assassinatos de Atis e de Sangáride por motivo de ciúmes de Júpiter e de Cibele. Atis era uma figura de Iniciação e do Adeptado.
Os mistérios Druídicos - Os druidas constituiram uma ordem sacerdotal de homens e mulheres instruídos, sob a direção de um Arquidruída, entre os antigos povos celtas na Bretanha, Irlanda e Gália (França). Cultuavam inúmeros deuses identificados com Mercúrio, Apolo, Marte, Júpiter e Minerva e sua origem dada dos ensinos de Orfeu. A lira de Apolo se tornou a harpa de Anjos, o deus do amor, e o culto a Deus se traduzia na divina beleza manifestada através da música.

Em seus mistérios eram submetidos homens e mulheres e exigiam muita purificação física e mental. A iniciação se dividia em períodos trimestrais, durante os equinócios e solstícios e compreendia três graus: Eubates, Bardos e Druidas. Os principais mandamentos impostos eram: obediência às leis divinas, interessar-se pelo bem-estar da humanidade e suportar com fortaleza todos os males da vida, durante o período probatório. Terminado este, o candidato devidamente vestido de branco, azul e verde era encerrado em uma tumba, onde, em jejum, permanecia durante três dias, no fim do qual estava pronto para a iniciação. Após a iniciação , o iniciado jurava guardar segredo desse mistério e era considerado como renascido do ventre da deusa Ceridiem, livre de todas as impurezas e de toda imperfeição.
Os mistérios egípcios - Estes mistérios eram instituições públicas, mantidas pelo Estados; eram centros de vida nacional e religiosa, os quais eram frequentados por todas as classes sociais. Eram constituídos de vários graus e duravam muitos anos. Os que passavam por todos os graus, homens e mulheres, eram considerados ocultos, pois adquiriam os conhecimentos deste mundo e uma nítida compreensão de seu futuro após a morte e das leis que regem os mundos superiores. Os ensinamentos internos e superiores permaneciam selados para o povo, ainda não suficientemente preparado para aprendê-los. Todavia, praticamente toda população egípcia sabia destes mistérios, de tudo que relacionava com a vida depois da morte e de como preparar-se para enfrentá-la corajosamente. Os pormenores dos ensinamentos eram ministrados aos iniciados nos mistérios, até admití-los sob solenes juramentos de guardar absoluto segredo. Das instruções constavam os ensinamentos dos rituais de iniciação, da morte e da ressurreição. Os rituais de iniciação eram realizados nas câmaras das pirâmides. As cerimônias dos mistérios visavam representar a evolução superior do homem, seu retorno à Fonte Divina, donde ele veio, através do desenvolvimento de sua natureza superior.

Estes mistérios se classificavam em mistérios menores ou de Ísis e em mistérios maiores ou de Serápis e Osíris. Os primeiros correspondiam ao primeiro grau, de aprendiz, na maçonaria e os segundos, ao segundo e terceiro grau, companheiro e mestre, na maçonaria. Ao iniciado nos mistérios menores, se ensinava a condição da morte após a morte física, sua vida no astral, no Hades ou purgatório; ensinava-se o sentido do que dissera Ísis: -“Eu sou a natureza, a mãe de todas as coisas, a soberana dos elementos, a matriz do tempo” e ministrava-se os conhecimentos de gramática, lógica, retórica, aritmética, geometria, música e astronomia. Aos iniciados nos mistérios maiores, no de Serápis, segundo grau, companheiro na maçonaria, aprofundava-se os conhecimentos de ciência e filosofia, e o estudante empreendia um curso mais adiantado do mundo oculto, aprendia-se sobre o plano mental, o Devacan, o Sukhâvati, o céu, o Nout, a Câmara do meio, os Campos Elísios e os iniciados aprendiam o domínio da mente e o desenvolvimento das suas faculdades internas. Nos mistérios de Osíris terceiro grau maçônico, mestre, o candidato tinham de passar pelas representações simbólicas do sofrimento, morte e ascensão de Osíris, o que incluía suas experiências entre morte e a ressurreição, quando ele subia ao Amenti e se tornava o juiz dos mortos, que a cada alma sentenciada a sua medida de felicidade ou seu retorno a uma nova encarnação terrena para um ulterior autodesenvolimento. A instrução dada referia-se à região do mental abstrato, do plano causal, do terceiro céu, de Nout, onde o iniciado vencia e se liberava de todas as ilusões. O povo egípcio celebrava essa liberação com festas públicas que correspondem às festas católicas atuais da Sexta-Feira Santa e dia de Páscoa.

Encontra-se aí a semelhança deste mistério com o suplício, crucificação, morte, sepultamento e ressurreição de Jesus. Será pura coincidência ou copilação? Além desses três graus haviam outros maiores. Os principais centros de ensinamentos egípcios foram: Sais, Mênfis, Tebas e Heliópoles.

Mistérios Nórdicos - Sua origem se deve aos citas e é citado por Jeremias-4:5-7,46 e Colossenses-3:11. Compreendiam três grandes festividades anuais: a primeira, a mais importante era celebrada no solstício de inverno, dedicada a Thor, filho de Odin e de Friga; ou Fréya, a mãe dispensadora de graças; e a terceira, tributada a Odin. Os mistérios se prendem a linha do assassinato de Balder pelo Hoder e de sua ressurreição, identificando-se na de Osiris e Tifão, de Tammy e Izelubar, de Krishna e Kansa de Cristo e Caifos. A iniciação era uma representação simbólica da ressurreição de Bauder de sua vitória sobre a morte. Mistérios Gregos, os de Eleusinos - Atribui-se sua origem a Orfeu e seus iniciados foram Píndaro, Sófocles, Isócrates, Plutarco, Heródoto, Platão, Cícero e muitos outros. Os mistérios Eleusinos se dividiam em dois grupos: os menores e os maiores, e cada grupo se subdividia em duas partes: uma exotérica e outra esotérica. Os mistérios menores eram celebrados no templo de Deméter e Coré, em Agra, em Atenas, no mês de março, pelo equinócio da primavera. Os ensinamentos ministrados referiam-se ao conhecimento da vida no astral, bem, como na significação dos mitos de Tântalo, Sísifo, Títio,visando o desenvolvimento moral do candidato, em sua vida honrada e digna. Neste grau, o iniciado recebia o nome de Mistal. Os mistérios maiores eram celebrados no mês de setembro, em Eleusis, inicialmente em celebração pública e depois no templo, entre os iniciados. Neste grau, ensinava-se os mistérios do astral e do plano mental, o domínio e purificação do corpo astral e do mental, fazia-se a interpretação das lendas Proserjisia, Coré, de Narciso, Minotauro, Teseu, Ariádno, e da morte de Baco pelos Titãs. Culminava o cerimonial com exposição de uma espiga de trigo, como símbolo da eterna criação e evolução através de novas formas para alimentar outras formas de vida. Muitos estudiosos vêem esses simbolismo como analogia da última ceia de Jesus, da cerimônia do pão e do vinho, da eucaristia. Além desses mistérios, que correspondem aos graus superiores, havia também os mistérios ocultos que eram só do conhecimento dos iniciados.
Mistérios Mitríacos - Foram difundidos na Ásia, África e Europa e neles dominava um acentuado estilo militar e demandava de seus fiéis uma pureza quase acética, sendo Mitra, o salvador da humanidade. Este culto de espalha notadamente entre os soldados romanos, os quais construíram inúmeros templos em honra de Mitra. O sistema compunha-se de sete graus: Corax, Eryphius, Miles, Leo, Perses, Heliodramus e Peter. Este culto era próprio para homens e constituía uma fraternidade de armas.
Mistérios Judaicos - Fundados por Moisés, sofre a influência dos mistérios Egípcios como cita o Êxodo 7:8-12 e 4:1-5. Posteriormente, foram fundadas escolas de profetas, para estudo e prática dos mistérios e instruções mais profundas, velados nos antigos ritos. Muitas dessas escolas são citadas na Bíblia, como a de Naisth, de Gilgar, Belthel e Jericó, posteriormente substituídas pelas sinagogas. Na época de Jesus, havia as escolas dos Essênios, Nazarenos, Saduceus, Fariseus que, apesar de terem desaparecidos, influenciaram o cristianismo e outras escolas filosóficas.

Tal como havia previsto Hermes Trimesgistro, nas tábuas Esmeraldinas, estas escolas desapareceram debaixo do jugo romano e das perseguições empreendidas pela Igreja sob as mais diversas formas.

Entretanto, muitas delas procuravam se adaptar às novas circunstâncias, aos novos tempos, tornando-se ocultas, mudando de nomes ou de forma de atividades, fundindo-se com outras escolas, de modo a poderem preservar o patrimônio cultural e espiritual da humanidade, até tomarem as características que apresentam hoje.

Foi traçado em linhas gerais, algumas escolas místicas da antiguidade e seus princípios gerais que independentemente dos rituais e cerimônias adotadas, constituía os seus ensinamentos fundamentais.

Vimos que todas elas tinham como simbolismo um mito ou uma lenda que encobriam profundos ensinamentos espirituais que retratavam a criação, os estágios do desenvolvimento do homem e do mundo, bem como as leis ocultas e dos poderes divinos, e do destino da alma humana, ao mesmo tempo que tratavam de estimular a criação das virtudes, da fraternidade e da moralidade, pelo cultivo e domínio do corpo físico ou sublimação dos sentimentos inferiores e o desenvolvimento e aprimoramento das faculdades mentais.

Aquelas escolas eram classificadas em menores ou exotéricas e maiores ou esotéricas, mas ambas buscavam o aperfeiçoamento pessoal, auto-realização ou a salvação através da imitação e da adoração a um modelo exterior, do qual dependia a sua alma.

A salvação não era o resultado da sua evolução pessoal, mas era devido a graça de um poder maior que devia ser adorado e ao qual lhe devia o atributo do ritual.

O misticismo é, portanto, uma escola, um caminho de dependência e da necessidade de projetar a sua necessidade de segurança para alguém de fora. É um caminho de vinculação Filho-Pai, de eu não tenho, tu me dás.

É uma escola válida para aqueles que se sentem crianças, para os que ainda não amadureceram espiritualmente.

Ela é útil e válida para um determinado estágio do desenvolvimento moral e espiritual, notadamente, para aqueles que estão no estágio emocional.

Se és um místico de qualquer escola ou ordem, mas desejas conhecer a tua religião, estuda-a e procuras por ti mesmo, a tua religiosidade íntima, independentemente do que te ensinaram e te disseram, e sejas tu mesmo o que escolhes o caminho.

© Copyright da revista ISIS, maio de 1996 - by Sandro Fortunato


Publicado em:24.02.08

O Ocultismo


Matéria extraída do Site www.tafalado.com.br/isis

Palavras de Sandro Fortunato:

Segundo de uma série de três artigos inéditos escritos por José de Ribamar de Carvalho - teosofista, rosa-cruz, maçom e membro de mais de trinta ordens esotéricas -, O Ocultismo, dá continuidade ao artigo da edição anterior, O Esoterismo; em maio, encerra-se a trilogia com O Misticismo..



Autor: José de Ribamar de Carvalho

Gervásio de Figueiredo, em seu Dicionário da Maçonaria, define o ocultismo como “a ciência do que está oculto, o estudo de todos os problemas da natureza ainda não resolvidos pela ciência oficial. Em particular é o estudo dos mundos superiores ao físico, o astral, o mental e outros, e o conjunto de métodos ou disciplinas de educação individual com o objetivo de aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual do homem, do que lhe decorrem direitos e deveres inalienáveis”.

No Dicionário de Ciências Ocultas, define-se o ocultismo como “a ciência que trata de coisas que transcendem a percepção sensorial e são geralmente pouco conhecidas”.

Trata especialmente dos efeitos que não podem ser explicados pelas leis naturais universalmente conhecidas, mas cujas causas são ainda mistério para os que não penetraram tanto os segredos da natureza a ponto de compreendê-los perfeitamente. O que é oculto para uma pessoa, pode ser perfeitamente compreensível a outra.

Quanto mais a espiritualidade e a inteligência do homem se desenvolvem, quanto mais se liberta da atração dos sentidos, mais seu poder de percepção se desenvolverá e expandirá e mais visíveis se tornarão os processos da natureza. Oculto é, de fato, tudo o que transcende o poder de percepção dos sentidos, embora seja perfeitamente perceptível e compreensível ao íntimo entendimento espiritual, depois que os sentidos internos do homem se desenvolveram e se fizeram ativos.

Esta palavra designa também o conjunto de sistemas filosóficos e artes misteriosas derivadas dos conhecimentos secretos dos antigos”.

Rudolf Steiner, em sua A Ciência Oculta, declara: “ciência oculta (ocultismo) se propõe a considerar o emprego da atividade mental a respeito da natureza como uma espécie de autoeducação da alma, e aplicar os frutos dessa educação aos domínios do supra-sensorial. Seu modo de proceder consiste em falar, não dos fenômenos sensoriais como tais e sim do conteúdo do mundo sensível. O que ela conserva do método científico natural é a atitude anímica desse método, ou seja, precisamente aquilo que faz da pesquisa natural uma ciência.

“Ao considerarmos a significação da ciência natural na vida humana, percebemos que o pleno valor dessa significação não se pode esgotar com a aquisição de conhecimentos sobre a natureza, já que tais conhecimentos poderão conduzir senão a experimentar algo que a alma humana não é. O elemento anímico não vive naquilo que o homem conhece a respeito da natureza e, sim, no próprio processo de aquisição do conhecimento. A alma experimenta a si própria em sua atividade sobre a natureza. A ciência oculta (o ocultismo) deseja aplicar o resultado desse auto-desenvolvimento em domínios que transcendem a simples natureza. O ocultista, longe de negar o valor da ciência natural, reconhece-o até melhor do que o próprio cientista. Reconhece que, sem a exatidão do pensamento que caracteriza a ciência natural, não seria possível criar nenhuma ciência. Sabe-se também que, uma vez adquirida tal exatidão, pela penetração a fundo no espírito do modo de pensar científico-natural, pode essa mesma exatidão ser mantida pela força da alma para se aplicar em outros domínios”.

Pelo já exposto, pode-se deduzir que o ocultismo é a ciência que investiga e estuda o ainda não comprovado ou aceito pela ciência oficial, na natureza, no homem e em suas leis, com o objetivo de proporcionar ao homem meios e métodos para seu auto-aperfeiçoamento, auto-conhecimento, auto-domínio e desenvolvimento de suas faculdades espirituais que lhe permita conhecer os mundos de outras realidades.

Enquanto a ciência, ao estudar a natureza ou o mundo objetivo fenomenológico, através do instrumental científico de exatidão quantitativa que não é mais que o pronlogamento dos sentidos físicos, observa os efeitos daqueles fenômenos, para deduzir suas leis, o ocultismo, utiliza-se de suas faculdades espirituais para observação das causas nos mundos de outras dimensões e de seus efeitos no mundo fenomenológico, com o mesmo critério de exatidão quantitativa e qualitativa.

Enquanto a ciência requer um acervo de conhecimento especializado e de um treinamento minucioso, o ocultismo, além da capacidade intelectual, requer um aprimoramento moral e espiritual, além de um idealismo desinteressado e um profundo amor à verdade.

A ciência é secreta, é oculta para os que não foram, antecipadamente, preparados para o seu mister, o ocultismo também, é secreto para os não qualificados. A ciência é um segredo de status, de classe; o ocultismo é um segredo de moralidade, de espiritualidade.

A ciência nasceu com a introdução da lógica, do racionalismo e da experimentação, entretanto, antes da Renascença, o homem já fazia uma ciência indutiva, resultante de suas reflexões filosóficas e de suas ponderações analógicas a respeito de suas observações da natureza.

É um fato incontestável que os antigos, mesmo não tendo os instrumentos científicos modernos, faziam a trepanação cerebral, o embalsamamento dos cadáveres, previam o movimento dos astros, construíram as pirâmides, tinham conhecimentos médicos, afirmaram a existência dos átomos, e legaram a nossa ciência moderna muitas das suas mais modernas teorias e conhecimentos atuais.

Estes conhecimentos e mais muitos outros, naquela época, constituíam os ensinamentos do ocultismo, só revelados aos iniciados, sábios, após seu preparo moral e espiritual e faziam parte dos mistérios esotéricos ou maiores, ministrados nos templos, tais como os conhecimentos científicos são ministrados nas universidades nos tempos modernos.

O ocultismo, portanto, é anterior à ciência moderna, não é um acúmulo de experiências implícitas, nem de deduçõs racionais e lógicas, é um conhecimento direto e subjetivo adquirido através da identidade da alma no mundo oculto, desconhecido pela ciência ortodoxa.

Em todas as épocas e em todos os povos sempre houve sábios, embora nem sempre cientistas, que tiveram conhecimentos superiores a cultura de seu tempo e de sua raça, e eles eram ocultistas, homens de saber e espiritualidade comprovados e cientes de sua responsabilidade moral devida a seus conhecimentos.

O ocultismo não é uma religião, embora possa desenvolver o instinto de religiosidade nata na natureza humana, caracterizado pelo anseio de perfeição e o profundo senso de uma nostalgia por algo perdido. É o apelo da alma pela sua condição originária.

Assim como a ciência, para investigação da natureza, necessita delinear seu campo de observação e parte de pressupostos considerados necessários, como a avaliação de peso, massa, medida, percepção sensorial, grau de concretitude, repetição da experiência observada, utilização dos resultados obtidos e explicação lógica dedutível do observado, o ocultismo também parte de princípios tidos como verdadeiros, lógicos e analógicos que foram comprovados por muitos observadores, através do tempo, e que parecem formar a base do funcionamento da natureza.

São fundamentos ou princípios do ocultismo os axiomas: 1º) a essencialidade unitária de toda existência, isto é, tudo é uma única e mesma essência ou substância primordial; 2º) nada há que exista no mundo fenomênico, que não exista no mundo oculto; 3º) o conhecido é um reflexo do desconhecido e nele tem sua raiz; 4º) no oculto está o modelo de tudo o que é manifestado; 5º) O mundo fenomênico é uma parte do mundo oculto e por ele se acha interpenetrado e integrado e contido; 6º) nada há que seja conhecido que não seja uma idéia divina; 7º) na realidade nada existe que não seja Deus manifestado; 8º) a força, a energia, a matéria, a consciência, o espírito são formas diferentes de uma mesma e única vibração que é puro movimento; 9º) nada há, quer seja simples ou complexo, que não seja o resultado de uma coletividade de causas, que tem sua causa no movimento universal das correntes das ondas de vida; 10º) nada há, no mundo físico,que não tenha sua contraparte correspondente, em todos os outros mundos dimensionais; 11º) não há nada morto, tudo é vida e essência em diferentes graus de expressão; 12º) a matéria física é apenas uma das expressões da consciência, mas suas infinitas densidades se extendem para muito além da percepção dos sentidos. Na realidade, a densidade da matéria física é o resultado das densificações progressivas de uma mesma energia-movimento; 13º) os fenômenos da consciência humana devem ser considerados como atividades de alguma outra forma de Ser Real e não como moléculas em movimento no cérebro. Esse ser real é a mente. As faculdades mentais são modos de comportamento da consciência da mente. A ciência, com seus axiomas e sua lógica racional, reducionista e mecanicista, exclui de seu campo de estudo e de observação, a maior parte da natureza, tudo aquilo que não possa ser explicado pelo seu saber preconceituoso de seu status intelectual, taxando-o de absurdo, inexistente, de não-digno de investigação, de mera loucura.

O ocultismo não vê na sua natureza nada que seja absurdo, nada que não seja digno de estudo e de verificação. Para o ocultista, o absurdo, o não-compreendido de hoje, é a comprovação da possível verdade de amanhã. Para o ocultista, a loucura do homem é a sua ignorância de Deus, mas a loucura de Deus é a sanidade dos homens.

A ciência, em sua não-aceitação do ocultismo, costuma contestá-lo pela alegação da não-existência de provas verificáveis. Como prova, exigia que fosse procedida nos moldes das ciências exatas, em termos de peso, medida, quantificação e instrumentação.

Os aparelhos e instrumentos científicos, por mais perfeitos que sejam, são construídos de elementos e materiais físicos e, como tais, aptos à investigação do mundo físico e incapazes de examinar outras dimensões não-físicas. O ocultista investiga os mundos ocultos utilizando seus instrumentos psíquicos que são suas faculdades espirituais feitas dos mesmos materiais ocultos.

A ciência, em sua exatidão, utiliza-se de pesos e medidas e quantificação. O ocultismo utiliza a mesma exatidão de observação, mas seus pesos e medidas, em vez de materiais, são qualidades psíquicas e morais.

A repetição da experimentação científica requer aparelhos com a mesma exatidão, o mesmo procedimento e experimentador de igual qualificação, do mesmo modo que a repetição do fato oculto requer que as qualidades espirituais e suas qualificações naturais, também, sejam iguais nos experimentadores.

As provas científicas, como já é notório, depende do estado emocional-mental do experimentador. O observador e a observação influem no resultado do observado, daí a possibilidade de haver conclusões diferentes. Como exigir, portanto, que haja unicidade e uniformidade nos conhecimentos ocultistas, notadamente, tratando-se da descrição de um mundo, cuja única fixação é a mutabilidade dinâmica?

A ciência não pode afirmar categorica e irrefutavelmente o que é a matéria, o que é eletricidade, o que é o átomo, dentro de um mundo de incertezas, de indefinição e de não localização. Como não afirmar a existência dos mundos ocultos e a não-realidade do ocultismo?

Parece que seria mais prudente, mais lógico e mais sábio admitir, como possibilidade de estudo e de verificação, a existência do ocultismo e de seus ensinamentos.

Se assim fizesse, a ciência poderia se beneficiar com os ensinos ocultos, e o ocultismo poderia abrir à ciência novos campos de experimentos, dando-lhe uma visão mais holística do mundo e do homem, capacitando-a a construir uma nova civilização mais humana e mais fraterna.

AS CIÊNCIAS OCULTAS

O misticismo não é ocultismo. O misticismo é um meio, um método, um procedimento, uma técnica empregada para a devida preparação, para a aquisição dos conhecimentos do ocultismo.

O ocultismo é um conjunto harmonioso de princípios, de axiomas, de verdades que se referem a um modo superior, no homem, na natureza e que constituem a expressão de Deus, tal qual a ciência é um conjunto de axiomas que orientam a pesquisa do homem e da natureza.

As ciências ocultas são aplicações parciais deste conhecimento, em áreas específicas, tais como a Biologia, a Química e a Física são áreas específicas de conhecimento da ciência. O Ocultismo, como a ciência, é um todo; as disciplinas, como as ciências ocultas, são partes de um todo.

As ciências ocultas podem ser classificadas, segundo Helena Petrovna Blavatsky, em Yajña-Vidyâ, Maha-Vidyâ e Guhiâ-Vidyâ.

Yajña-Vidyâ é o conhecimento dos poderes ocultos despertados na natureza pela realização de cerimônias e ritos religiosos. É o fundamento da missa católica, da consagração da hóstia, dos ritos de sacrifício, dos trabalhos da umbanda.

Maha-Vidyâ é o conhecimento da magia, da feitiçaria, dos poderes dos mundos inferiores, de suas causas e efeitos. É o conhecimento das ordens e religião que professam o mal, que renegam a Deus, ao homem e à natureza. Qualquer conhecimento ocultista ou ortodoxo que fira o princípio de “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, é pura magia negra.

Guhiâ-Vidyâ é o conhecimento dos poderes do som usado nos mantras, nas preces e orações, baseado no conhecimento das forças da natureza. Os ritmos musicais estão baseados neste conhecimento, daí seus efeitos psicológicos.

O ocultismo é o conhecimento da natureza espiritual, ao passo que artes ou ciências ocultas são conhecimentos da essência da natureza material, mineral, plantas e animais, tais como: alquimia, astrologia, quiromancia, tarologia, etc.

O ocultismo é o caminho da renúncia do eu, tanto em pensamento quanto em ação. É o caminho no qual o aspirante sacrifica sua alma animal, no altar do Eu Superior, o mestre do santuário interno.

Um ocultista é um cientista do mundo espiritual.

© Copyright da revista ISIS, março de 1996 - by Sandro Fortunato


Publicado em:17.02.08

O Esoterismo


Matéria extraída do Site www.tafalado.com.br/isis

Palavras Iniciais de João Baptista Neto

Embora saiba que a maioria dos que leem estas páginas sabe perfeitamente as diferenças entre Esoterismo, Ocultismo e Misticismo, passo a publicar numa série de 3, principalmente para aqueles que estão iniciando no Esoterismo, suas principais características e conceitos.



Palavras de Sandro Fortunato, dono do site “tafalado”em homenagem ao autor deste artigo:
Esta é a primeira de uma série de três matérias inéditas escritas por José de Ribamar de Carvalho, estudioso que durante mais de quatro décadas dedicou sua vida ao ocultismo. Teosofista, rosa-cruz, maçon, José de Ribamar fez parte de mais de trinta ordens esotéricas. Seu conhecimento e prática da fraternidade gerou muitos e bons frutos. José de Ribamar deixou este plano físico em outubro de 1994. Esta série é dedicada ao grande homem e ocultista que ele foi e por tudo que representou e ensinou a muitos que, quando o conheceram, estavam dando seus primeiros passos na Senda.




Autor: José de Ribamar de Carvalho

A cultura de todos os povos, em todos os lugares e em todas as eras, sempre foi constituída por conhecimentos que eram dados a todos e outros que eram privilégios de poucos; dos escolhidos, dos que haviam se tornado dignos de recebê-los após um longo tempo de preparo moral e espiritual, ministrado nos templos, após o ritual iniciatório.

Este longo preparo para a iniciação constituía o misticismo e os ensinos dados nos mistérios menores, eram o conhecimento exotérico e ambos constituíam os ensinos do ocultismo.

O esoterismo provêm do grego esterkos, interno, é a doutrina que se oculta à generalidade das pessoas e se revela apenas aos iniciados. Transcendendo a formas e dogmas, pode, por sua universalidade essencial, conciliar os múltiplos e aparentemente divergentes aspectos da verdade. É o conhecimento direto da verdade, acessível aos moral e intelectualmente preparados, e adquirível por meio dos símbolos e alegorias, meditação no seu significado interno, intuição e realização das instruções recebidas.

É aquilo que Jesus disse aos seus discípulos: “a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles (o povo, os não-preparados) não lhes é isso dado. Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem, nem entendem” (Mateus 13:11-13).

Embora o esoterismo, nas escolas de mistérios de todos os povos, tenha sido ministrado através do simbolismo e de inumeráveis mitos ou fábulas, ele tem um fundo de significação, que é a essência e o fundamento de todos os grandes sistemas religiosos, adaptados às conveniências culturais e étnicas dos povos e à sua época.

Pode-se mesmo falar de um esoterismo romano, grego, islâmico, judeu e, notadamente, do esoteris mo egípcio que influiu em todos os outros.

O esoterismo instituiu o fundamento das escolas de mistérios de Dionísio-Deméter, de Eleusis, Orfeus, Pitagóricos, de Mitra, da Gnose, do Maniqueísmo, dos Sufis, dos Ismaelianos e da Cabala e de todas as outras escolas, ordens ou religiões.

Como o esoterismo egípcio ou hermetismo, no ocidente, é o mais importante, trataremos apenas dele.

O esoterismo é a herança cultural dos povos da Atlântida transmitida aos egípcios e conservada nos templos de iniciação.

Ele foi ensinado por Hermes Trimegistro e constitue a Tábua de Esmeralda, uma série de diálogos entre Hermes e seu discípulo Asclépios, acerca da criação, da natureza de Deus, da mônada, do Bem e do Mal, da Vida e da Morte, da constituição espiritual de todas as coisas, etc.

O Livro dos Mortos dos egípcios é, também, um manual de ensinamentos esotéricos.

Os ensinamentos esotéricos foram ocultados no mito de Pã, o Deus-Pastor caprino, o Baphomet, o Arcano XV, o Diabo do Tarô.

Pã, filho de Hermes e da ninfa Salmatis, neto de Zeus e do gigante Atlas, representava tanto o princípio primordial divino, como o material e o humano, ora o feminino, Íris, a natureza humana e das coisas.

Hermes, o pai, era também Thot e na forma de Thot, Hermes é a figura intermediária entre o natural, Pã, e o divino, desta forma era, ao mesmo tempo, pai-filho e possuía a mesma natureza.

Hermes, o princípio divino e Pã, a natureza psíquica, ambos formam a natureza humana.

Neste mito de Pã-Hermes, encontram-se os fundamentos de tudo o que é superior e inferior da unidade essencial, da expressão do múltiplo, e de todos os ensinos que consiste os fundamentos esotéricos das religiões ditas pagãs e gnósticas.

Para se abordar o esoterismo e compreendê-lo é preciso que se o considere sob dois pontos de vista: o filosófico-científico, que explica, com a ajuda da filosofia e da teologia, o esoterismo como parte do desenvolvimento mental do ser humano.

O ponto de vista mágico-religioso aborda os aspectos numinosos, inteligíveis, os paradoxos do esoterismo, os ensinamentos que só são admissíveis pela fé.

Com a queda do império egípcio e de sua cultura, vem o esoterismo de Pitágoras, de Platão, de Aristóteles, que tiveram profunda influência no cristianismo primitivo.

Por outro lado, o Egito, através de Moisés, exerceu preponderante papel na formação da cultura do povo judeu e de sua religião, na qual vamos encontrar os ensinamentos exotéricos e esotéricos que caracterizam os fundamentos do Talmude, do Torá e da Cabala, bem como das escolas essênias, nazarenas, farisaicas e outras. Do esoterismo originou-se a gnose ou conhecimento transcendental.

Com o advento do cristianismo houve o reencontro entre o esoterismo judaico e o ocidental, acentuado pelas peregrinações e pregações dos apóstolos, que integravam as comunidades esotéricas ou gnósticas, notadamente, Pedro, João, Tiago e Felipe. Entretanto, nem todos os apóstolos eram gnósticos, muitos só eram exoteristas e entre estes Paulo, daí o surgimento do conflito entre o cristianismo e as seitas gnósticas.

Com o passar dos tempos, o cristianismo exotérico com o apoio do Estado romano passou a ser a religião oficial e passava a perseguir as seitas gnósticas que contradiziam seus ensinamentos.

O desenvolvimento do cristianismo exotérico se solidificou quando o bispo de Roma se apropriou do título oficial Ponti Fex Maximus e passou a ser uma igreja católica, herdeira de Cristo e intermediária entre o homem e Deus e a depositária da salvação pela distribuição dos sacramentos.

A Igreja pregava a salvação intermediária de fora, a dualidade inconsciliável da natureza divina e humana, a gnose, ao contrário, ensinava a auto-salvação e a unidade da natureza divina e humana harmonizada pelo esforço pessoal. A Igreja apregoava ser Cristo o único filho de Deus, a gnose afirmava que todos os homens são filhos de Deus.

Apesar de a Igreja ter destruído os celtas, os templários, os cátaros e muitas outras seitas e povos, o esoterismo sobreviveu através dos séculos, nos ensinamentos de Alberto Magno, de Roger Bacon, Theophraustus Bombastos von Hohenhein, Paracelso, Chustionus Rosencreutz, Giusepe Balsamo, Conde de Cagli ostro, Alphonse-Louis Constant, Aleister Crowley, Mathew McGregory e muitos outros. O esoterismo sobreviveu nas ordens Rosa-cruzes, Aurora Dourada, Maçonaria, Martinismo, na Teosofia , na Escola de Gurdijiefe, etc.

Estudou-se a origem, o significado e o desenvolvimento na História, vamos, agora, estudar os conceitos fundamentais que constituem a doutrina esotérica.

São seus fundamentos as afirmações: 1º) Tudo é um. O divino e o humano não são diferenciáveis na sua essência, mas manifestações de um mesmo princípio em esferas diferentes. Da mesma forma, o Bem e o Mal são verdades eternas; 2º) A unidade de tudo é o ser. O positivo é a essência; o negativo, a substância; 3º) O homem é um microcosmo, ou seja, ele contém em si tudo o que está contido no cosmos; 4º) Existe algo absoluto, a realidade única, que é tanto o ser absoluto quanto o não-ser; 5º) A eternidade do cosmos se manifesta ciclicamente. Inúmeros universos vêm e vão como a enchente e a vazante das marés, como a alternância entre o dia e a noite, como a vida e a morte, como o despertar e o dormir; 6º) No cosmos, cada unidade essencial (alma) traz em si uma centelha do absoluto, a alma transcendental; 7º) Tudo provém de uma causa primordial básica, de um ponto central, com o qual está em relacionamento e com o qual permanece unido; 8º) O cosmos é a manifestação periódica cíclica de um ser desconhecido, absoluto, que pode ser chamado de ELE; 9º) Tudo no cosmos tem consciência, de modo específico e dentro de um limite de percepção; 10º) Não existe nenhum deus que possa ser captado em forma de uma imagem humana. Existe uma energia primordial, denominada Logos, que deve ser contemplada como o criador do cosmos. Esse Logos se assemelha a um arquiteto, criador de uma estrutura, realizada pelos outros, pelos obreiros (as forças que atuam no cosmos); 11º) O cosmos foi criado segundo um planano ideal que está contido no absoluto desde a eternidade, etc.

O esoterismo não é ocultismo, como a parte não é o todo, embora dele faça parte.

O esoterismo é a parte do ocultismo que se refere a instituição espiritual do homem e de sua vinculação com o absoluto.

O esoterista está para o ocultista, como o técnico está para o cientista.

O esoterismo é difundido por várias fraternidades com os objetivos de promover o despertar das energias criativas latentes de cada filiado no sentido de lhe assegurar o bem-estar físico, moral e social, mantendo-lhe a saúde do corpo e do espírito e concorrer, na medida de suas forças, para que a harmonia, o amor, a verdade e a justiça se efetivem cada vez mais entre os homens.

© Copyright da revista ISIS, março de 1996 - by Sandro Fortunato


Publicado em:10.02.08

Isis Virgem-Mãe


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A imagem acima não consta do original

Palavras Iniciais

Como já tive oportunidade mencionar no comentário de “Egito – Terra dos Arcanos”, o esoterismo de hoje tem suas raízes no Egito antigo. O pouco que se sabe hoje no Ocidente é devido àqueles que tiveram a oportunidade de serem “Iniciados” nos Mistérios de Isis, que eram os Mistérios menores, o que alguns podiam saber. Os mistérios Maiores, os de Osíris, muito poucos tiveram acesso e não ousaram deixar por escrito, sendo as “Tábuas Esmeraldinas”, de Hermes Trimegisto, uma pálida mostra que convinha que a humanidade soubesse para dar seus primeiros passos na busca da Verdade maior.



Autora:Edna Duarte Dantas

A deusa virgem-mãe do antigo Egito

“Não podeis tocar uma flor sem perturbar uma estrela” (Bacon)


No tocante a essa mitologia citada especificamente, sabe-se que funcionava como uma linguagem. Daí, as ações surgirem alteradas, reaparecerem com outros protagonistas, até, sem incorrer, isso, em trunfo do incoerente.

Verdade, também, que a linguagem sagrada fundamentou-se em certos princípios, ainda não cabalmente entendidos pela modernidade histórica. Um dos conceitos mais comuns do pensamento religioso do Antigo Egito, o da Alma, reconciliava a idéia de que “todo o poder pertence a Deus” com o sentimento que os egípcios tinham da “multiplicidade do mundo”. O que encontra fundamento no parecer de O. E. James, quando diz que “o estudo dos testemunhos arqueológicos revelou que a religião pré-histórica concentrou-se e desenvolveu-se em torno dos três fatos mais desconcertantes com que o homem primitivo teve de se defrontar no decurso de sua vida cotidiana: o nascimento, a morte e a obtenção dos meios de subsistência nas precárias condições em que vivia...”

Equívoco comum, do agora, é crer-se que toda a religião egípcia evidenciava um “culto da morte”. Nos períodos turbulentos do desmoronamento do Antigo Reino, surge um escrito, o Diálogo dos Angustiados, que precisa e exata o apego dos egípcios à vida. Trata-se do colóquio entre o homem e a própria alma. A “atualidade” do mesmo dissolve tempo e espaço: “O homem afirma que em tempos desesperados - em que a honestidade é caçoada, a honra espezinhada, a ânsia desregrada, quando não se pode confiar mais nem no irmão - a morte é a única solução desejada” - Federico A. Arborio Mella. E, nesse diálogo, a resposta da alma é: “A morte é sempre o pior dos males, o corpo jazerá inerte num túmulo luxuoso até que se deteriore, mas também o túmulo está destinado à ruína; nunca mais verá o Sol, não gozará mais da natureza. Escuta-me, esquece a pena e passa um dia feliz”.

Se a religião é um termo complexo, a antiga religião egípcia o é assim, especialmente: pela diversidade da civilização, bem como por penetrar e moldar todo o aspecto da vida. Os deuses estavam em toda parte, não havia dicotomias tais religião e ciência, clérigo e leigo. O rei era o Sumo-Sacerdote. Tudo pertencia à mesma ordem, não havia reinos distintos do ser. E o ritual constituía o “primeiro e mais característico sinal da religião”.

Também de modo original, essa religião surgiu diretamente dos costumes dos agricultores e pastores pré-históricos. É provável que o culto principal do povo pré-histórico fosse o da Deusa-Mãe (no começo, o céu). Essa adoração primitiva parece ter se mantido entre a plebe, até a grande expansão dos Mistérios de Ísis, nos séculos II e III a.C.

Paulo de Tarso dizia: “A letra mata, o espírito vivifica”. A tradição egípcia repousa, notadamente, em seus hieróglifos, ao contrário de outras culturas sobreviventes atlantes (lacedemônios, etruscos e druidas da Britânia), que se fixaram na tradição oral. Para os antigos egípcios, o criador real era a Palavra - a primitiva fala que proveio de Deus e da qual todas as coisas obtiveram seus nomes. A teologia egípcia padrão resume-se em: “A palavra é tudo o que é bom e justo”.

E a Senhora da Palavra é a deusa Ísis.

No passado nilótico houve, desde os inícios, a consciência de que havia um só Deus, do qual, mesmo Osíris, ao surgir no panteão egípcio, era apenas uma forma parcial - como religião primitiva, não admitia outra realidade que não Deus; portanto, todas as coisas são reflexos, ainda que distorcidos, da divindade. O “deus despedaçado” - Osíris -, portanto, como um deus masculino, constitui-se numa “especialização” da divindade maior, vez que esta transcende valores tais como masculino e feminino. Para Antônio Carlos Fanjani, quando o mito define o sexo de um deus, está “simplesmente ressaltando um dos aspectos da divindade, deixando o outro oculto, latente”.

Ísis, a contra-parte, o complemento de Osíris, encarna o princípio feminino.
Através dos seus tratados médicos, fica evidenciado o conhecimento que os egípcios tinham, de que os vasos sanguíneos nascem do coração, espalhando-se para todos os membros. Daí, para eles, o coração ser o órgão do pensamento, a “sede da mente”. O órgão onde se inscrevem carmicamente as ações dos indivíduos. Para esse povo antigo, era o coração que falava contra as pessoas no Juízo - que é o julgamento de cada um. Portanto, o órgão do Amor, por excelência.

E é como símbolo do Amor que essa deusa egípcia se agiganta: pareceu, sempre, digna, ao povo, pela sua dedicação conjugal, pela face de mãe ou como doadora de afeto genuíno.
Admitindo-se que o oriental, em particular os sumérios e antigos egípcios, experimentavam as variações climáticas das estações de forma mais dramática que os povos do ocidente, chegaremos a um dos elementos construtivos dos famosos Mistérios.

No Antigo reino do Nilo, a iniciação consistia no culto, ou seja, na compreensão da Grande Mãe: “Antes de se conhecer o Grande Negro, deve-se conhecer o Grande Verde” - que é Ísis. Não podemos entender Ísis e Osíris separados um do outro. Esta a causa d’Aquela de Muitos Nomes ter merecido o culto e a celebração de tantas pessoas, por todo o mundo antes; e no atual, sob a aparência da Virgem Maria (ambas são “compassivas libertadoras dos sofrimentos do mundo”).

No Papyrus de Turin, constatamos ser esta deusa a Mediadora entre o Celestial e o terreno. Dela, foi dito: “Aquela que amou os deuses; Aquela que melhor amou o reino dos espíritos”. Ocupava um lugar intermediário, na teogonia egípcia, tal como a própria terra de Khem, à época: ponte entre o passado primordial e o futuro secular e materialista, entre o Sagrado e o profano.

São palavras atribuídas à Deusa: “Revelei à humanidade iniciações místicas. Ensinei a reverência pelos deuses, estabeleci os templos”.

Todas as experiências dos Mistérios, em linhas gerais, convertiam-se em duas vertentes, que formavam a essência das revelações recebidas: naqueles chamados de Menores, ou Mistérios de Ísis, os candidatos conheciam a alma humana e resolviam o mistério da morte. Nos graus mais adiantados, os Maiores, ou Mistérios de Osíris, conheciam a Alma Divina: “Eram levados à comunhão pessoal com o Criador”. Revelava-se-lhes, então, a autêntica história da Atlântida, intimamente ligada à Queda do homem.

Há uma espécie de autobiografia, de Apuleio, escritor do século II, onde esse iniciado revela, desses Mistérios, “o que pode ser revelado”.

Plutarco escreveu: “... devemos ouvir as histórias e fábulas e aceitá-las de quem as interpreta, com espírito reverente e filosófico”.

O grego Platão testemunhou sobre esses Mistérios, assim: “Em conseqüência dessa divina iniciação, convertemo-nos em espectadores de benditas visões singulares, inerentes à luz pura, e nós mesmos nos purificamos e nos libertamos da roupagem que chamamos corpo, ao qual estamos agora ligados como uma ostra à sua concha”.

Na tradição egípcia, “aquele que conhece o Nome tem o Poder”. Por isso, também, Ela, Ísis, merece o cognome de Poderosa.

Tanto a religião como a magia egípcias tornaram-se inconcebíveis para o homem moderno, quando ele perdeu a capacidade de pensar, em termos simbólicos, de estabelecer verdades em uma linguagem análoga.

Certo é que, dadas manifestações do Uno ajudam mais que outras, num determinado período histórico. Falam a uma época fixa e a uma necessidade específica desse instante. Segundo Artur Versluis, isso foi - e, talvez, ainda o seja - o que se passou com a citada deusa egípcia.

Pausânias conta as histórias de dois homens que desejaram descobrir, por simples curiosidade, os Mistérios da Deusa. Ambos castigados, ao fim das narrativas, o autor conclui: “Não faz bem à humanidade ver os deuses em forma corporal”. E nós corroboramos sua afirmativa, com a frase: “O Sagrado Conhecimento se protege a si mesmo”. Razão especial porque devemos nos aproximarmos desses deuses antigos, com o máximo respeito e devoção. Eles estiveram esquecidos há tanto tempo que, só gradual e humildemente, conseguiremos ganhar-lhes outra vez a confiança.

Se admitirmos o Arquétipo como preexistente a toda experiência humana, pelo fato de pertencer ao plano imaterial, fica estabelecido que “o homem não cria os seus mitos, mas simplesmente os intui”.

Louvor e Serviço, pois, Àquela que de Si disse: “Eu sou tudo o que foi, é ou será, e jamais houve alguém que tenha retirado meu véu”.

. Edna Duarte Dantas é advogada, escritora, cantora, artista plástica, teosofista, rosa-cruz e maçona ligada à Ordem Maçônica Mista Le Droit Human.



Publicado em:03.02.08

Egito Antigo - Terra dos Arcanos da Vida


Extraído do Site www.xamanismouniversal.com.br

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A imagem acima não consta do original

Palavras Iniciais

Como sabemos, quando nos envolvemos com esoterismo cada vez mais nos vemos ligados a mitologias, contos e lendas das Tradições antigas o que acaba, por vezes, nos confundindo. Assim, é sempre bom relembrar um pouco e ver as correlações existentes, lembrando que a mitologia Egípcia é a mais antiga e a mais bem documentada, origem de muitas Tradições em pleno vigor na atualidade. Como veremos mais adiante, teve bastante influência sobre o Templarismo.



Ptah-Hotep, vizir do Faraó, Dadkarê-Isési (V Dinastia - aprox. 2.700 a.C.), quase dois mil anos antes do esplendor da civilização Helênica, a qual foi herdeira de muitos conhecimentos egípcios, escreveu :

"Jamais reveles a outrem o que alguém te confiou, abrindo-te o teu coração. Se queres ser um homem perfeito, aperfeiçoa o teu coração. Diz aquilo que é, em vez daquilo que não é. A Amon aborrece o excesso de palavras. Se algo for contestável, não o digas. O teu silêncio é mais útil do que a abundância de palavras. Deixa o teu coração sofrer, mas domina a tua palavra. O segredo mais íntimo revela-se no silêncio. É vasta a influência do homem agradável ao falar. Mas, as facas estão afiadas para quem forçar a passagem, pois esta Só é permitida no devido tempo."

Atribuem à civilização egípcia um cunho sombrio e por diversas vezes associam a temática de seus escritos a respeito dos rituais e filosofia do seu povo à necrofilia. É necessária uma visão mais profunda e menos dogmática a respeito do pensamento e comportamento de um povo evoluído e não compreendido na sua proposta de entendimento da vida, da morte e do renascimento das cinzas materiais que nos cercam no plano físico, tal qual a Phoenix. Não vislumbramos, nem sequer enxergamos o que está por detrás dos suntuosos monumentos, dos magníficos papiros e dos relevos instalados na terra de Khan. Existe uma tendência que felizmente está degenerando-se no círculo acadêmico, em classificar as Civilizações Antigas como "primitivas".

Numa primeira observação, não compreendemos a razão de estruturas tão grandiosas. Quando nos damos conta que não existe uma pedra sequer remanescente de suas moradias, "lojas" e estabelecimentos, contrastando com monumentos erigidos para desafiar o tempo e às intempéries, indagamos estupefatos: Como? Porquê? A resposta encontramos na dedicação dos antigos egípcios à vida! Não a vida mundana e materialista a qual o ocidente tanto se apega, e valoriza (embora esta fosse celebrada constantemente). Mas a Vida como um todo; um fluxo contínuo onde o desenlace é apenas uma transição. Uma mudança de "estado" e de "ambiente".

Partindo deste princípio, podemos notar que mais de noventa por cento das construções que tinham por finalidade a reverência e exaltação da Divindade, estão ainda de pé! As Pirâmides, as Esfinges, os Obeliscos, os grandiosos Templos e outras tantas estruturas de Culto, Ensino e Ritos Iniciáticos (Casas da Vida) cujo objetivo final era Deus (sim, o Egito era monoteísta!), ainda resistem solenemente! Eles tinham de ser como o Creador: Incólumes e Eternos! Portanto, suas moradias e outros locais referentes à "passageira" vida mundana, eram construídos basicamente com adobe para que durassem justamente o fugaz período de uma existência. Faziam isso para lembrarem-se da temporaneidade e transitoriedade da vida, cujo objetivo final era RÁ (algo semelhante às mandalas tibetanas feitas com areia colorida que, uma vez terminadas, depois de longo e exaustivo trabalho, são destruídas com um simples "esfregar das mãos" de um Lama).

O BAH egípcio

Consideravam que, assim como o coração é o Altar, o corpo é o Templo de "Bah" (a Alma). Portanto, devia ser preservado até a entrada do "morto" pelo terceiro portal do Amentis até a entrada em Amduat ("Reino dos Mortos" ou plano Astral). Era incumbência da "Casa da Morte", sob os auspícios de Anúbis, o embalsamamento e mumificação do corpo, num processo iniciático complexo que incluía banhos com unguentos e essências aromáticas, unções alquimicamente preparadas (o Egito foi o berço da Alquimia) e entoação de mantras para cada parte do corpo. Este processo durava cerca de setenta dias que, segundo a filosofia e religião egípcia, era o tempo médio necessário para que o indivíduo "despertasse" e se conscientizasse de sua nova condição no "Reino dos Mortos". Isto mantinha o corpo etérico ainda "preso" para que a consciência tivesse uma espécie de "referência" em relação ao plano físico sem ser molestado pelos umbrais inferiores. Os sarcófagos também eram preparados uma vez que funcionavam como verdadeiras caixas orgônicas, dificultando, de uma certa forma, a rápida "volatização" do corpo etérico (em muitos sarcófagos, conseguiu-se mensurar padrões de frequência vibratória elevados em escala radiônica, semelhante à "Rede de Hartmman" que tarduzem os canais de força Cósmica e Telúrica que "vascularizam" energeticamente a Terra).

Anúbis

Eram assim enterrados sempre na margem esquerda do Nilo (o lado onde RÁ, o Sol, se põe) para que, durante a noite, após o "coração" do "morto" registrar leveza maior que uma pluma na balança do "Tribunal de Osíris", sua alma cruzasse o Rio Sagrado na "Barca de RÁ" a fim de "encontrar-se com RÁ" além da margem direita, onde RÁ se levanta. As Civilizações antigas, principalmente as orientais que até hoje mantêm este conceito de culto à ancestralidade, davam merecida importância à transcendência da Vida, ao seu processo de transição e aos seus antepassados. O conceito de "almas afins" e "Família Astral" eram muito bem entendidos e compreendidos.

Site-Meltingrot.Fortunecity
Naida



Publicado em:27.01.08

A Mãe Terrena


Extraído do livro O Evangelho Essênio da Paz, de Edmond Bordeaux Szekely

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A imagem acima não consta do original

Palavras Iniciais

A propósito do tema da atualidade – O Aquecimento Global - , vale lembrar uma oração Essênia de grande Sabedoria, que se tivesse caído na consciencia da humanidade nesses últimos quinhentos anos (início da era da Industrialização) não estaríamos passando pelo que está ocorrendo. Mas como sempre o $ifrão ensurdece os ouvidos da consciência....



Honra tua Mãe Terrena,
para que teus dias sejam longos sobre a terra.



A Mãe Terrena está em ti e tu estás nela.
Ela te deu á luz; ela te deu a vida.
Foi ela quem te deu o corpo,
Que a ela, u m dia, devolverás.

Bem-aventurado serás tu quando a conheceres
E conheceres o seu reino.
Se receberes os anjos de tua Mãe
E cumprires as suas leis,
O que faz essas coisas nunca verá moléstia.
Pois o poder de nossa Mãe está acima de tudo.

Ela tem o governo de todos os corpos dos homens
E de todas as coisas vivas.
O sangue que corre em nós
Nasceu do sangue de nossa Mãe Terrena.

O sangue dela cai das nuvens,
Salta do ventre da terra,
Murmura nos ribeiros das montanhas,
Corre, amplo, nos rios das planícies,
Dorme nos lagos,
Enfurece-se enormemente nos mares tempestuosos.

O ar que respiramos
Nasceu do sopro da nossa Mãe Terrena.
Seu alento é azul nas alturas dos céus,
Suspira no topo das montanhas,
Sussurra nas folhas da floresta,
Eleva-se sobre os trigais,
Descansa nos vales profundos,
Arde, quente, no deserto.

A dureza dos nossos ossos
Nasceu dos ossos de nossa Mãe Terrena,
Das rochas e das pedras.
Elas estão nuas debaixo dos céus
No cimo das montanhas,
São quais gigantes adormecidos
Nas encostas dos morros,
Como ídolos erguidos no deserto,
E estão escondidas nas profundezas da terra.

A delicadeza da nossa carne
Nasceu da carne de nossa Mãe Terrena,
Cuja carne se torna amarela e vermelha
Nos frutos das árvores,
E nos alimenta nas leiras dos campos.

A luz de nossos olhos,
A audição de nossos ouvidos,
Nasceram ambas das cores e dos sons
De nossa Mãe Terrena;
Que nos envolve
Como as ondas do mar envolvem o peixe,
Como o ar que turbilhona envolve o pássaro.

O Homem é o Filho da Mãe Terrena,
E dela o Filho do Homem
Recebeu todo o seu corpo,
Assim como o corpo da criancinha recém-nascida
Nasce do ventre de sua mãe.
Estás unido à Mãe Terrena;
Ela está em ti e tu estás nela.

Dela nasceste, nela vives,
E a ela voltarás outra vez.
Cumpre, portanto, as suas leis,
Pois ninguém pode viver muito, nem ser feliz,
Se não honrar sua Mãe Terrena
E não lhe cumprir as leis

. Pois o teu alento é o alento dela,
O teu sangue é o sangue dela,
Os teus ossos são os ossos dela,
A tua carne é a carne dela,
Teus olhos e teus ouvidos,
São os olhos e ouvidos dela.
Nossa Mãe Terrena!

Somos sempre abraçados por ela,
Sempre cercados pela sua beleza.
Nunca poderemos separar-nos dela;
Nunca poderemos conhecer-lhe as profundezas.
Ela está sempre criando formas novas:
O que agora existe nunca existiu antes
O que já. existiu não retorna.

Em seu reino tudo é sempre novo e sempre velho,
Vivemos no meio dela e não a conhecemos.
Ela fala conosco de contínuo, mas nunca trai os seus segredos para nós.
Sempre lavramos o seu solo e apanhamos as suas colheitas.
E,no entanto, não temos poder nenhum sobre ela..
Ela constrói sempre, ela destrói sempre,
E seu local de trabalho está escondido aos olhos dos homens.



Publicado em:20.01.08

A Simbologia do Trigo


Extraído da www.revistahermetica.org nº 35
Traduzido por João Baptista Neto
com autorização dos Editores

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Palavras Iniciais do Tradutor

Dentro do esoterismo, cuja linguagem principal é o símbolo, veremos que o trigo é o mais completo deles mostrando a evolução do espírito em diversos estágios de sua breve vida, com a culminação do renascer após sua morte.

Autor: Manuela Garijo


O trigo tem algo de emblemático.

O trigo simboliza a passagem do estado selvagem - quando o homem ainda não se havia tornado um sedentário e vivia da caça, pesca e de frutos selvagens -, para o domínio da natureza, seu controle e administração de um modo mais sustentável e sedentário.

A seguir virá a conscientização, pela seleção das espécies vegetais (“Separar o bom grão do joio”).

Foi um acontecimento considerável para a Humanidade. Nesse período se passou do paleolítico a uma nova era: o neolítico. Foi a “Revolução Neolítica”, que vai de 100.000 a 5.000 AC.

Foi com o trigo que se começou a semear, cultivar e colher, em todos os sentidos da palavra, tanto agrícolas como sociais. Novo sentido decisivo da civilização, pois foi a primeira vez que a espécie humana atuou sobre a natureza e o meio ambiente para melhorar notadamente sua subsistência e regularizar a produção em seu benefício.

O cultivo do trigo nada tem de espontâneo. Quanto mais se esmera, mais produz. Requer programar as colheitas, selecionar as sementes e as terras, trabalhá-las, proteger as culturas dos elementos naturais, tirar as “ervas daninhas”. Parece transmitir um sentido moral ao trabalho humano, transcendendo inclusive o aspecto físico para valores espirituais. Depois de colher o trigo, ainda se tem que selecionar os grãos, fazer farinha e transformar essa em pão ou outros alimentos.

É como uma obra alquímica pelos 4 elementos: produzido na terra, se lhe adiciona água (e ocasionalmente levedura), a seguir deixa-se que cresça (ar) e no final se utiliza o fogo para cozer a massa. Um verdadeiro tratamento simbólico!

Do contrário, o trigo não desenvolveria suas qualidades nutiritivas.

Pensemos também no símbolo da semente. Sem semear não se pode colher.

Se o trigo não “morre”, e apodrece na terra, sua semente não originará uma nova planta, uma nova vida vegetal.

Recordemos , a esse respeito, o culto a Demeter, na antiga Eleusis e, como não, nas festas dedicadas a Ceres dos Romanos, as famosas festas da colheita.

Plínio, o antigo, dizia que durante o inverno o trigo recém germinado “se nutre da terra”. Cabe compreender que aqui se trata nem tanto de um mecanismo de absorção comum, senão de uma ação aérea quase etérea no sentido antigo da palavra, ligada à natureza sutil do meio.

O cultivo das terras e o semear dão início a um calendário de trabalho do qual o homem dependerá constantemente do ritmo da terra e de acompanhar as estações. Recordemos o poema de Hesíodo nos albores da história grega intitulado “Os trabalhos e os dias”.

O gesto de semear trigo continuará sendo um dos mais simbólicos do homem, de agora em diante integrado na natureza domesticada. Movimento regular como o pêndulo de um relógio, evoca a medida do tempo que passa, a comunhão com o meio e o fervor por uma vida futura.. Gesto de eternidade, já não só se trata de uma técnica, senão de uma arte e de um rito.

Como canta Ricardo León no “Amor dos Amores”:

“Eu vi as juntas preguiçosas, lavrando o sulco e fender o escariador o torrão úmido, e cair, como uma chuva de ouro, a semente; vi a brotação das espigas e o encurvar-se ao bater o vento e o amadurecer ao sol, cair ao fio das foices, jazer amarradas no sulcos, balançando-se no carros gemedores e derramarem-se nos pátios, ranger sob os debulhadores, moerem-se no moinho d’água, tostarem-se no forno, converterem-se em branquíssimas broas...”

E a seguir chega a colheita..

“A meu redor, vejo tão-somente ouro por toda parte, a cor da colheita”. Paul Claudel.

Desde os afrescos egípcios, até os quadros contemporâneos, passando pelos impressionistas e a escola de Barbizon no século XIX, os pintores sempre tentaram plasmar em suas telas esse mágico momento da colheita do trigo. Sua cor dourada glorifica o trabalho humano: É o ouro da terra, o ouro do trabalho! O feixe de trigo sempre simbolizou prosperidade e felicidade. Como amuleto, coloca-se na parte da frente de uma casa nova, quando o serviço de carpintaria é terminado, ou acima da porta da casa.

Mircea Eliade considera o trigo como uma planta sagrada, em ‘História dos Mitos e das crenças religiosas’.

Entre os símbolos relacionados com a colheita, lembremos a própria ferramenta empregada, o alfanje que simboliza a morte.

No antigo Egito, esta dimensão sagrada, divina, do trigo tinha um valor ressurreicional. O encontramos por exemplo nos baixos-relêvos do Templo de Isis nos quais se pode observar a múmia de Osiris, com um sacerdote lançando o trigo, como símbolo de renascimento. Encontra-se novamente o mesmo símbolo nas estatuetas de argila de Osiris que contém grãos de trigo e que se colocavam nas tumbas, para garantir a sobrevivência dos mortos no além. Essa estreita vinculação entre a celebração das estações, a morte e o renascimento do deus e a possibilidade de uma vida, além da tumba, mostra claramente a estreita relação que existia entre o trigo e Osiris, o símbolo manifesto da ressurreição que guardava na religião egípcia.

Na simbologia cristã, o trigo e o pão são símbolos de fecundidade da terra, no Antigo Testamento [Gênesis 27, 28; Deuteronomio 8, 7-9]. É o obséquio de Deus, que também pode manifestar sua ira, retirando-o, com as más colheitas por exemplo. O Novo Testamento vincula o fruto da terra com um dom de Deus aos homens. Alegoricamente, mediante as parábolas, o trigo representa um dom de Deus no coração do homem (a graça), em particular na parábola do trigo e do joio (Mateus 13, 24-25).

Quanto ao pão, seguindo a tradição das antigas religiões, se converte no símbolo do dom supremo de Deus ao homem: a Vida eterna (Jonas 6), o Corpo de Cristo na Eucaristia: “A seguir tomou o pão, deu graças, o partiu e deu a seus discípulos, dizendo: “Este é o meu Corpo, que se entrega por vocês. Façam isso em minha memória”. (Lucas 22,19)”.

Pelo Pão da Vida alcançamos o acme da comunhão entre os homens, com a natureza, o Cosmos, para a glória do Pai, a que estamos unidos pelo Cristo, no Espírito Santo.

O pão representa desse modo a alimentação física, mas também e sobretudo espiritual, recordemos nesse sentido a multiplicação dos pães, representação da evangelização por Cristo e mais tarde, pelos apóstolos ou também o Pai Nosso.

Para criar um vínculo com o judaismo, recordemos que a hóstia que utilizamos para a Eucaristia é de pão ázimo ou sem levedura.

Antes de conhecer os métodos para fermentar a massa de farinha, era muito popular o consumo de pão ázimo.

No Antigo Testamento, o Eterno o maná aos Hebreus, enquanto atravessam o deserto [Êxodo]. Por isso, esse alimento simboliza o pão na Eucaristia e é um sinal de bondade de Deus para os homens. Hoje em dia os judeus celebram esse episódio bíblico na Páscoa ou Pesah, com um ritual que implica não utilizar leveduras. Recordemos também o significado em hebraico de Belem, a “Casa do Pão”.

Quanto a nós, o simbolismo do trigo talvez seja a mais bela representação de nossa vida eterna. Mas não como a imaginamos sob uma forma etérea, senão precisamente aceitando nossa finitude, crescer, amadurecer e por fim regressar à terra em um estado de putrefação. Dita finitude engloba paradoxalmente a promessa de vida eterna.

Se seguimos a metáfora do trigo para nós mesmos, seguimos o ritmo das estações, respeitando e cumprindo os ciclos da natureza e da terra. Tavez seja isso a vida eterna, não compreendida para si mesmo, senão para a humanidade. Do contrário, vemos as mudanças climáticas e como afetam e prejudicarão o planeta, gerando possivelmente que o homem desapareça da face da terra.





Publicado em:13.01.08

Resenha Histórica da Serpente Emplumada

Matéria extraída da Revista Hermética nº 38
http://www.revistahermetica.org
Tradução e publicação autorizada pelos Editores.
Traduzido por João Baptista Neto para o Site:
http://www.cavaleirotemplario.net

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Nota: A gravura acima não é a que consta do Original(Protegida)

Palavras Iniciais

Resolvi colocar a presente matéria na seção de Esoterismo por causa do estreito paralelismo que existe no relato da vinda do Salvador tolteca Se Akati, e do cristão Nosso Senhor Jesus Cristo. O interessante nesse relato é que é datado de 982 de nossa era, portanto, aproximadamente 500 anos antes da chegada (oficial) dos cristãos à América. Outro ponto interessante da matéria são os símbolos, que são quase todos coincidentes com os do cristianismo.

Autor: Frank Diaz

As tradições contam que Se Akati era filho adotivo de Mishkoatl, o grande rei de Tula, e de Chimalma, uma humilde jovem provinciana. Como ocorreu o encontro de ambos?

Diz-se que Mishkoatl organizava uma expedição militar quando viu a jovem se banhando num rio. Ficou enamorado de sua beleza, mas por causa de sua honra como Cavaleiro Águia quis casar-se com ela antes de toma-la como mulher. Então a enviou aos sacerdotes de um templo próximo para que a treinassem em suas funções como futura rainha tolteca.

Um dia, enquanto Chimalma meditava em uma gruta, apareceu-lhe um peixe que a anunciou um milagre: a vinda à terra de uma nova encarnação de Ketslkoatl. Como sinal de sua mensagem o peixe a entregou um rosário de jade. Ela guardou o rosário em sua boca; mas quando regressava ao templo o engoliu acidentalmente, do qual ficou grávida.

Certamente, a história é simbólica. O peixe significa o Espírito fecundador de Ometeotl, o Ser Supremo. Não só aparece na lenda nawati, como também em outras tradições da terra. Jesus foi chamado também de Ben Nun, “filho do peixe; Zoroastro recebeu o apelido de Oannes, “marinho”, e um dos nomes avatáricos de Vishnu é Matsya, “o peixe”.

O rosário de jade é emblema do precioso entre os preciosos e tem sentido hieroglífico: Chalchiu’tlikue, Senhora Vestida de Jóias (um dos nomes divinos de Chimalma). Chimalma em si é protótipo da Lua como Senhora dos Nascimentos, enquanto que seu real esposo simboliza o fogo, o Sol e a Via Láctea.

Pouco antes de nascer o menino, seu pai adotivo foi assassinado. Os príncipes que usurparam o trono de Tula enviaram a ela umas parteiras para auxiliar à mãe, mas com o propósito real de sacrificarem a criança.

Em seu intento homicida, o lançaram sobre um pé de agave; ao invés de ferir-lhe a planta o acolheu e protegeu. A seguir o abandonaram sobre um formigueiro; as formigas o alimentaram com com uma massa de milho. Finalmente o lançaram à água do rio. Mas a água era um elemento afim ao menino, que na realidade se tratava do filho de Tlalok, o Senhor das Chuvas, de modo que a corrente o ninou e depositou suavemente na margem, onde foi apanhado por um lenhador oriundo do povoado de Yauhtepec. A partir daí o jovem foi criado em segredo por seus avós.

Desde seu nascimento até princípios da adolescência, o pequeno Se Akati, apelidado E’ekapitontli, Menininho do Espírito, recebeu a educação habitual de um jovem tolteca, baseada na fé em Ketsalkoatl como Espírito Criador e o respeito aos Wewetla’tollis, as Palavras dos Anciãos. Conta-se que era um menino bastante travesso; seu prazer, caçar coelhos.

Aos nove anos fez diversas indagações e conseguiu recuperar os restos de seu pai, que haviam sido enterrados superficialmente pelos sicários na costa do Golfo. Então pediu a seu avô, que era uma pessoa proeminente na hierarquia sacerdotal da região, que se erguesse uma tumba a seu pai no Monte de Mishkoatl.

Quando tinha treze anos sentiu que era tempo de vingar a morte de seu pai. Foi a Tula, apresentou-se frente aos príncipes usurpadores e, mediante um estratagema, os fez cair do alto de uma pirâmide íngreme. Ambos morreram despedaçados. Diante desses fatos o povo, que já estava cansado de sofrer a tirania dos príncipes toltecas, aclamou o jovem Se Akati como novo caudilho.

No ano correspondente ao 960 da era cristã, foi admitido no Grande Colégio Sacerdotal de Xochicalco. Se Akati conseguiu passar nos difíceis exames rapidamente, o que provocou um grande constrangimento entre as autoridades eclesiásticas, pois viam que seu ciclo estava se acabando.

A partir de Xochicalco sua vida se tornou mais e mais intensa. Aos vinte e seis anos foi considerado apto para ingressar no colégio de estadistas de Tulantsinko, onde se educavam os futuros ministros do reino. Quatro anos mais tarde o elegeram como rei de Tula.

O reinado de Se Akati foi breve: só nove anos. A lenda o descreve como um governante muito humano, hábil construtor de pirâmides e palácios.Parece que foi ele quem atraiu os ourives das longínquas montanhas andinas a fim de ensinar os centro-americanos o trabalho com os metais. Também promoveu uma grande reforma no calendário.

Não obstante, o brilhante estadista estava obsedado por seus deveres como sacerdote. Passava demasiado tempo trancado, meditando, e não gostava que pessoas viessem até ele. Isso desagradou os deuses. Foi então quando a calamidade se abateu subitamente sobre seu reino.

A crise foi provocada por certos sacerdotes adeptos dos sacrifícios humanos. Repetidamente pediram permissão para perpretar suas más ações, mas a permissão lhes foi negada. Vendo que o rei era inflexível nesse assunto, decidaram iniciá-lo em um de seus conhecimentos: o segredo do cogumelo alucinante.

Certa manhã apareceram defronte da porta da casa real na forma de anciãos anacoretas e pediram ser admitidos perante o rei. Uma vez em sua presença, o pressionaram psicologicamente, o hipnotizaram, enganaram-lhe fazendo beber vinho (substância que ele não conhecia), e finalmente lhe mostraram sua verdadeira missão dizendo-lhe:

‘Contra tua vontade hás de pisar aquele país, o mundo da cor negra, da cor vermelha. Lá te espera desde o começo dos tempos um senhor ancião, teu verdadeiro pai. Ele te dará como herança um novo reino, melhor que este que aqui possuis’.

Esse brusco fluxo de luz sobre a alma complexa de Se Akati teve o efeito de redirecionar sua energia num sentido que os toltecas jamais tinham imaginado. De repente, o monje-rei rompeu os cânones da vida civilizada, cometendo violações graves para sua época; não contente com isso, renegou os ensinamentos esotéricos aprendidos nos templos, e finalmente abandonou suas funções reais e sacerdotais. Esse acontecimento transcendental ocorreu no dia da Casa Cinco do ano da Casa Um, correspondente ao princípio de 977 depois de Cristo.

A transformação do ‘príncipe penitente’ produziu um terrível efeito de abatimento moral no povo; momento de que se aproveitaram os sacerdotes sacrificadores para fazer prosélitos, até mudar o equilíbrio da força espiritual em todo o Reino. Os ministros do estado interpretaram os acontecimentos como uma imperdoável transigência de Se Akati para com o partido dos sacrificadores e o expulsaram de Tula.

Frente a seus pecados, seu caráter foi violado. Conta-se que em certo momento pediu que construíssem um sarcófago. Mas uma voz interior lhe disse que, para morrer em paz, antes era necessário que cumprisse sua missão. Então se despojou de todas as jóias, queimou seus livros, perdeu sua honra, seu trono e sua vida principesca, e partiu pelo mundo como um humilde peregrino.

Ao chegar ao reino dos mayas Se Akati pediu asilo político; concederam-lhe, a ele e a seus seguidores, residência temporária na cidade de Tihó (atual Mérida). Ali conheceu os Sacerdotes Supremos da sabedoria Anawak, os quais lhe orientaram em sua missão como novo mensageiro solar.

Segundo a lenda, depois de sua iniciação Se Akati fez frequentes viagens por diversas localidades da América Central; recordam sua passagem pela Guatemala e Nicarágua. Em seu contato com grupos étnicos de todo tipo foram se somando pessoas, as quais ordenou formalmente como embaixadores de sua mensagem.

Depois de alguns anos retornou à região tolteca, vindo a se radicar na cidade de Cholula, onde se dedicou ao trabalho pedagógico até seu desaparecimento. Eis aqui como o descrevem as crônicas:

‘Depois de sua volta foi tido no México por um de seus deuses e lhe deram o Nome de Quetzalcohatl; em Yucatán também o tiveram por deus’. (Diego de Landa, Relación de las Cosas de Yucatán).

‘Chegou a esta terra e começou a juntar discípulos, e faziam milagres’. (Diego Durán, História de las Índias).

‘Verdadeiramente, era um rei milagroso. Sete dias subia aos céus, e sete dias Caminhava pelo reino dos mortos; outros sete dias se convertia em tigre, e Por sete dias era uma serpente. Esse foi o princípio da grandeza do Quiché’. (Popol Vuh IV).

‘Foi Quetzalcoatl homem virgem, penitente, honesto, moderado, religioso e Santo. Predicou a lei natural e a apoiou com seu exemplo. Os índios o creem Deus, e dizem que desapareceu às margens do mar’. (López de Gómara, História General).

Se Akati desenvolveu numerosas técnicas tomadas do antigo xamanismo siberiano-americano e as adaptou às condições da vida moderna. Por esse trabalho foi chamado por seus discípulos Nawalteku’tli, o que projeta seu duplo. [NT: duplo etérico ou corpo astral].

Em certo momento uma visão divina o fez dirigir seus passos para a costa, ao lugar que posteriormente foi chamado de ‘O Crematório’. Alí ‘morreu’, se é lícito usar esse termo com respeito ao que lhe ocorreu.

Se a lenda não mente, a extinção física de Se Akati foi um acontecimento extraordinário. Enquanto se encontrava no cume de um monte ardeu de repente com um fogo interior e ascendeu ao ar convertido em uma nuvem radiante. Momento em que aproveitaram as almas dos mortos para se levantarem e vir rodeá-lo convertidas em aves e mariposas. Essa lenda reflete nitidamente o mito solar universal.

‘Segundo sabiam, foi ao céu e entrou no céu.Diziam os velhos que se converteu Na estrela que sai à aurora; e dizem que apareceu quando morreu Quetzalcotl, A quem por isso lhe deram o nome de Senhor da Aurora. Diziam que quando Morreu, só durante quatro dias não apareceu, porque então foi morar entre os Mortos. E que também durante (outros) quatro dias proveu-se de flechas (no céu), Devido as quais apareceu ao fim de oito dias apareceu a grande estrela que Chamavam Quetzacoatl. E acrescentam que (só) então se entronizou como Senhor’. (Anais de Cuauhtitlan).

Existem duas outras versões a respeito de seu desaparecimento, que não contradizem, antes complementam a anterior. A primeira nos diz:

‘Vendo-se tão perseguido pelos de Tezcatlipoca, foi a um deserto, atirou uma flecha a uma árvore e se enfiou na fenda da flecha; assim morreu’. (Teogonia e História dos Mexicanos).

A interpretação dessa história não é difícil: a “árvore ferida” é o hieróglifo de Tamoanchan, a Casa de Nossa Origem. O mito não é naturalista; descreve a reabsorção da consciência de Se Akati no lugar de onde havia partido.

Algo mais difícil de conciliar é outra lenda, segundo a qual sua desaparição não esteve associada ao elemento Fogo, senão à Água:

‘Chegando à praia, mandou fazer uma barca de couro de serpentes e entrou Nela sentando-se com em uma canoa, e assim foi navegando pelo mar. Não Se sabe como e de que maneira chegou à Tlapalla (o Sítio da Luz)’. Sahagún, livro III).

Posto que ambas desaparições estão claramente associadas com Se Akati de Tula, e ser difícil de se entender que uma pessoa haja partido duas vezes, os investigadores desse tema costumam adotar uma ou outra versão de acordo com suas preferencias. Outros resolvem a aparente contradição supondo que Se Akati se lançou à água e, uma vez mar adentro, incendiou-se a si mesmo. Mas a lenda especifica que sua auto-incineração ocorreu sobre uma montanha (por mais sinais, próximo ao Pico de Orizaba).

Como conciliar esses dados? Recorrendo à Teologia comparada e ao simbolismo universal. As iniciações posteriores pelo fogo e pela água são parte integral do mito solar. No caso de Jesus Cristo o fogo é simbolizado pelo sangue da cruz, e a água pela nuvem que o recebeu no alto. Os gêmeos do Popol Vuh foram queimados, e a seguir de cairem suas cinzas na água se transformaram em homens-peixes. De Buda se conta que morreu de uma indigestão (fogo) e posteriormente foi transportado por um arco-iris (água). Krishna foi flechado contra uma árvore (fogo) e posteriormente ressuscitou e partiu para uma viagem para o ‘outro lado do mundo’ (água). E assim com todos.

Em cada caso o tema da ignição precede o da imersão, formando em seu conjunto o que os toltecas chamavam Atl-tlachinolli, Água Queimada: um símbolo da fusão irreduzível dos complementares.



Segundo o Autor: Texto extraído da obra Los Mensajeros de la Serpiente Emplumada de Frank Diaz (um estudo crítico sobre a ideologia tolteca). Editora Ce-Nahuacalli, México 2005.

Sobre o Autor: É investigador de origem cubana das culturas do México antigo. Realizou estudos de pós-graduação em antropologia física, cultural e legal em diversas instituições de Cuba. Desde 1998 está radicado no México, onde se especializa na teologia e filosofia toltecas.


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Na Penumbra da Cripta

Publicado em:06.01.08

Matéria Extraída da Revista Hermética nº 34 - www.revistahermetica.org
Traduzido por João Baptista Neto mediante autorização dos Editores

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Palavras Iniciais

O texto abaixo, além de muito rico em simbologia, nos mostra que a devoção Mariana é também uma via de Iniciação. Estabelece também relações com as antigas Escolas de Mistérios onde as Iniciações eram dadas em locais escuros e subterrâneos em estreito contato com as energias telúricas.


Autor: Roland Berman


A cripta é esse lugar escuro sob a terra e que tão bem evoca por sua penumbra as sombras por vezes destrutivas e geradoras. É principalmente nesse lugar onde eram veneradas as Virgens Negras originalmente. Não antes que séculos mais tarde é quando serão retiradas daí para colocá-las nos santuários da superfície. Numerosas Virgens Negras levam nomes que evocam esse mundo subterrâneo. Para não citar mais que a mais célebre dentre elas, a Virgem de Chartres era chamada na Idade Média “A Bendita Dama Subterrânea” antes de ser conhecida com o nome de Nossa Senhora de Sob-a-Terra, e esse nome voltará a ser encontrado em numerosas estátuas que foram descobertas nas grutas cuja cripta é uma figuração. Nessas criptas, a Mãe Universal se faz presente no seio da Mãe Terra, a Nova Eva, espera alí o peregrino na suave penumbra. A cripta é uma imagem do útero e por Sua presença, essa imagem capta força.

A localização de preferência de Nossa Senhora a Negra é o lugar calmo e tranquilo em que não entram os ruídos do mundo. Qualquer um pode se recolher ali sem ser perturbado e distraído pelas pressões externas. É preciso tão pouca coisa para que o espírito flutue e se desvie de sua meditação! Pascal dizia: “Não é necessário o ruído de um canhão para interromper os pensamentos; basta o ruído de um cata-vento ou de uma polia”. Em outra parte dirá que o zumbido de uma môsca basta para fazê-los derivar, tão grande é nossa debilidade e frágil nossa capacidade de concentração. A cripta é verdadeiramente esse lugar onde a alma pode encontrar a paz em uma atmosfera propícia e elevar-se livre de perturbações, para o mundo sagrado. “A cripta é o lugar do mundo onde alguém pode se encontrar em antecipação aos pensamentos e sentimentos, quer dizer a mais íntima experiência de convicção”. (Dom Jean Nesmy. O Mundo das Criptas).

Houve toda uma evolução na utilização da cripta. No início, era a tumba de um santo ou de um mártir sobre a qual havia sido construído o santuário. Era então quase inacessível aos fiéis comuns. Era sobretudo o caso das igrejas românicas primitivas desde a liberação dos cultos com o édito de Milão em 313. Mais tarde, nas novas igrejas, as criptas continham simplesmente um relicário. Eram chamadas de confissões essas tumbas ou a esses relicários, já que aquele que alí repousava, ou cujas relíquias estavam assim conservadas e protegidas, havia confessado sua fé em palavras e em atos. A igreja em cima, na qual o altar se encontra normalmente no eixo da cripta, é como que sustendado por ela, por essa confissão, encontrando nela sua fonte e seus fundamentos. Encontra-se então orientada segundo os seis eixos do espaço.

No plano simbólico, não há diferenças essenciais entre a cripta, a gruta e a caverna. Não há aí mais que um jogo de matizes secundários e podem ser considerados como praticamente intercambiáveis quanto à sua significação. As tres são os emblemas de uma única e mesma “idéia”, no sentido dado por Platão, a esse termo. A única e verdadeira diferença que merece aqui ser sublinhada é que a gruta ou a caverna tem uma origem natural, enquanto que a cripta é feita pela mão do homem. Porém essa diferença se apaga em grande parte, e perde sua importância, quando se sabe que com muita frequencia as criptas foram construídas para simular a gruta antiga que foi, ela também, lugar de sepultura e de culto. Além do mais, não faltam templos nem igrejas, tanto no Oriente como no Ocidente, cujas criptas sejam, em sua origem, excavações naturais modificadas e arranjadas pelo homem para faze-las mais adequadas ao uso litúrgico que lhe era destinado. Com frequencia também o primeiro recinto para o canto dos clérigos da igreja era alojado em uma cavidade rochosa, como por exemplo no Monte St. Michel. Estava logo atrás da elevação do edifício o recinto original que fora convertido em cripta.

Tradicionalmente esses espaços subterrâneos possuem uma dupla função. Em todas as mitologias é o ponto de contacto com o mundo ‘ctonico’, a porta de acesso ao mundo dos mortos, é o ponto de união dos dois universos. É isso o que encontramos na origem da cripta cristã. É também o lugar de volta às origens, o lugar de onde surge a energia primordial durante muito tempo considerada unicamente sob sua forma telúrica. É o lugar que deve permitir uma regeneração – “reencontrar as raízes” – e religar o alto com o abaixo. A gruta ou a caverna, e portanto a cripta, não podem se dissociar do conceito da Mãe Terra. É o lugar propício por excelência ao nascimento e à regeneração. É descendo às entranhas da terra que alguém pode se elevar ao céu. Fazê-lo não é outra coisa que materializar a investigação interior que deve ser feita: descer ao mais profundo de si mesmo para encontrar ali sua realidade e por aí aceder à verdadeira luz. Se o grão não morre, a que fruto poderia dar à luz? É pela enorme potência da imagem, pela escuridão e a profundidade do mundo físico que se podem encontrar os princípios metafísicos.

Estamos distantes de Nossa Senhora e da Virgem Negra? Não parece; todo novo nascimento e toda revelação passa por uma permanência nas entranhas da Imaculada Conceição, que tem o rosto negro não só do caos original senão que também da Tradição Primordial.

Por todas essas razões, esse lugar sempre teve uma função de centro, como expõe René de Guénon. A cripta é também, simbolicamente falando, análoga ao atanor do alquimista onde deve se produzir a transmutação da matéria vil em ouro puro, em ouro espiritual. Se queremos “modernizar” essa imagem, diríamos que ela simboliza o lugar da interiorização que permite à pessoa começar um processo de individuação.

Os antigos mistérios que davam iniciações sempre se realizavam em “lugar escuro” do qual a cripta, suporte do Templo, é a representação mais perfeita. Pode-se assinalar que no livro do Gênesis os enterros importantes, tais como o de Adão, Sarah, Abrahão, Jacob, etc., se realizavam nas cavernas. Como não estar convencido disso por essas palavras do profeta Isaías: “Eu te darei os tesouros da escuridão e as riquezas escondidas em um lugar secreto para que tu saibas que eu sou o Eterno” (Is. 45,3). As riquezas de se fala não podem ser outras que a pura potência não manifestada, potanto não compreensível diretamente pela inteligência humana. A escuridão é a fonte da Luz Sem Limites. O abismo, que é o lugar secreto deignado nesse versículo, é com freqüência chamado “água profunda”. É a água profunda incluída no próprio nome de Myriam, nome original de Nossa Senhora cujo nome começa e termina pela letra hebraica Mem, símbolo das águas primordiais, as maïm. Por sua dupla presença em seu nome ela significa a reunião das águas superiores e das águas inferiores separadas no primeiro capítulo do Gênesis.

As lendas falam das Virgens Negras como “Virgens encontradas” (tronco de uma árvore, mata de espinhos, subsolo..). Essas “Virgens encontradas” o são sempre em um lugar natural onde estão escondidas desde tempos desconhecidos. Podemos ver através das lendas como elas não aceitam ser desalojadas, voltando sempre ao lugar de origem.

Esse lugar constitui de alguma maneira um centro. É esse lugar central o que é esse ponto tão particular onde se devem tradicionalmente ancorar-se as coisas, os seres e os acontecimentos. Um lugar tal não poderia ser único. Se, para o pensamento tradicional, existe um centro primordial, desse centro emanam centros secundários que tem vocação de permitir uma transmissão. Esses centros tradicionais são de ordem espiritual, mas se conformam, se ancoram nos lugares materiais. Desde sempre essa foi uma das funções reconhecidas da cripta. É uma imagem da natureza e está enterrada na mãe terra. Seu enterro no seio da terra fecunda faz dela um lugar privilegiado de renascimento. Na escuridão da cripta nos situamos na fronteira do mundo dos vivos e do mundo dos mortos, na fronteira do conhecido e do desconhecido. Quem não percebeu a atmosfera particular que reina em uma cripta, e por pouco que se tenha deixado levar, detendo todo pensamento parasita, quem não sentiu a paz que emana desse lugar? Porque nos monastérios como de São João de Benoit sobre o Loire, para não citar mais que um, as vésperas e as missas dos monges se desenvolvem na cripta? Não é necessário considerar isso como uma supervivência ou uma transposição dos mistérios antigos, senão como uma necessidade ontológica.

A Virgem Negra se mantem entre um e outro mundo, o de acima e o de abaixo. Por vezes ela foi inclusive chamada de Nossa Senhora da Boa Morte (Clemont-Ferrand, Billom..), independentemente da lenda que relata seu descobrimento. Ela está situada alí para incitar o homem a situar-se no centro e provocar um renascimento, um novo nascimento que possa permitir ao que reza deixar seu lixo mental. O peregrino se situa num ponto de equilíbrio de sua existência espiritual. Está sobre uma verdadeira linha fronteiriça entre o que era e o que pode vir. A Virgem Negra está ela própria situada em um lugar da divisa, em uma fronteira, ela reune tudo aquilo que pode e deve ajudar a vasculhar, à realização de uma metanoia. Nas cerimonias dos mistérios antigos, a busca iniciática conduzia para o renascimento espiritual e essa busca era a única que dava acesso aos Mistérios. O pedido dirigido à Mãe negra condensava toda a esperança do postulante. A Virgem Negra, a continuação da grande deusa, condensa isso em um nível completamente diferente. Ela nos exorta a engendrar o homem o homem novo que recapitula o passado e abre o futuro verdadeiro, esse futuro que deve se situar no mundo estando por sua vez completamente fora do mundo. Está aí uma das formas do segundo nascimento.

A penumbra da cripta tem sua função própria. Não sendo nem completamente luz, nem completamente escuridão, é ela a imagem de um ponto de passagem, de uma porta. Essa penumbra nos obriga, para compreender porque ela era estimada como necessária, a voltar sobre o papel das sombras evocadoras da cor negra. Ela é de alguma maneira, uma figuração materializada da via eleita.

A via mariana, porque é totalmente dela o que aqui se trata, é considerada como uma via iniciática direta comportando uma verdadeira transmissão. Recordemos que iniciação: “deriva do latim initium e que essa palavra significa propriamente entrada e começo de uma nova existência no transcurso da qual serão desenvolvidas as possibilidades de outra ordem que aquelas a que está estritamente atada a vida de um homem comum; e a iniciação assim entendida em seu sentido mais estrito e mais preciso, não é em realidade nada mais que a transmissão inicial da influência espiritual em estado de germem”. (René Guenon, Iniciação e Realização Espiritual).

Assim, tradicionalmente, toda mudança de estado, e é isso que realiza uma iniciação efetiva, se considera que só pode se realizar na escuridão. Os mais antigos mistérios, pelo que chegou até nós, nos provam. O candidato à iniciação deve passar pela escuridão antes de aceder à luz, não à luz do mundo que não é mais que glória efêmera, senão à luz verdadeira que só o coração é sucetível de perceber. É nessa fase de escuridão que se pode efetuar “uma espécie de recapitulação dos estados antecedentes, pelo qual as possibilidades que se relacionam com o estado profano serão definitivamente esgotados com o fim de que possam se desenvolver livremente as possibilidades de uma ordem superior que o (o candidato à iniciação) leva em si mesmo”.(Ibid).

Dirigindo-se à cripta, o peregrino penetra no nível das profundidades terrestres onde tudo está todavia indiferenciado, o lugar onde a dualidade se encontra em estado latente. É nesse nível onde se encontram o fruto da virtude da Esperança, já que ele contém a paz, o repouso verdadeiro. O peregrino espera se encontrar aí consigo mesmo. Surgido da terra, ele sabe que a ela retornará um dia. O peregrino vem do mundo exterior onde essa dualidade é ativa e onde os opostos se combatem e se separam por vezes, perfeita imagem do combate que se desenvolve, de ordinário, na alma do homem. Mas veio aqui para aceder ao terceiro nível, o nível superio, o nível celeste onde os opostos são “reconciliados”, onde a dualidade se reabsorve na unidade, já não mais diferenciada senão plena e viva. É o nível da vitória do homem sobre o homem.

O peregrino deverá seguir todo um caminho para chegar à cripta, aos pés da estátua da Virgem. Ele vai passar figurativa e materialmente do mundo profano ao mundo sagrado. Ele antes de tudo abrirá o caminho até o portal da igreja e, atravessando o átrio, mudará de universo. Depois percorrerá o vão central da nave para chegar à encruzilhada do cruzeiro que divide em dois a igreja, separando definitivamente o profano do sagrado antes de aceder ao recinto. Chegará à porta baixa que, por uma escada estreita, o fará se enterrar nas entranhas da terra. Essa escada ele a vai percorrer duas vezes. Vai descer para voltar a subir. E quando volta, ele será mais rico do que o era ao chegar. ”Quem se eleva será rebaixado, quem se rebaixa será elevado” dizem em tres ocasiões os Evangelhos. Esse limite ultrapassado é de alguma maneira uma etapa sobre o caminho do conhecimento que simboliza a escada. Tradicionalmente, o descer representa a busca do conhecimento esotérico e a subida o do conhecimento exotérico; assim sendo não há conhecimento mais completo do que quando se reunem os dois. O descer se interpreta também, aqui, como uma tomada de consciência. A subida seria sua posta em prática depois da volta para a luz do mundo profano que o peregrino reencontrará após haver percorrido de novo os diferentes espaços da igreja, mas no outro sentido essa vez. E esse mundo profano, ele, o peregrino havendo recebido nas profundezas da terra uma parcela de saber e uma chispa da luz escondida, deverá contribuir para transformá-lo. Deve fazê-lo, porque ele viveu de alguma maneira um renascimento por uma adesão ao real situando-se em outro plano e mais além das coisas.

J. Bonvin, em sua obra (Virges Noires, la réponse vient de la terre), diz haver constatado que nas igrejas em que as Virgens Negras ocupam ao contrário do lugar que lhes era primitivamente outorgado (o que está longe do que ocorre hoje em dia), elas estão orientadas de tal maneira que ficam de frente para o quadrante noroeste. Quer dizer que elas olhavam para o ponto de saída do sol no solstício de verão.

Não seria de nada surpreendente que essa constatação corresponda a uma realidade voluntariamente querida, dada a quantidade de elementos simbólicos que rodeiam nossas estátuas. Recordemos rapidamente que os dois solstícios, “Porta dos Céus” para o de verão e “Porta dos homens” para o de inverno, estão em relação ao esoterismo cristão e na tradição iniciática com os dois São João. A estátua da Virgem faz assim frente à saída do sol no dia da luz maior, no dia em que a noite é mais curta. A escuridão está como que escondida no instante nele que vai recomeçar a lenta descida para as sombras da terra, quando se abre a “Porta dos homens”. É o banho da luz celeste em seu máximo de potência que deve iluminar o ser interior realizando, simbolicamente, a conjunção dos contrários (luz-sombras) assim como o mostra a cripta e a cor negra com relação ao solstício.

No oráculo sobre a Babilônia, cidade emblema das nações perdendo-se na materialidade, onde os homens não tem já a luz do saber iluminando o cotidiano, quer dizer o âmbito de múltiplo, está escrito “O sol em sua saída está sombrio” (Is. XIII, 10). Porém o mesmo profeta evocando a prosperidade futura de Sión enuncia “a luz da lua se fará como a luz do sol” (Is. XXX, 26) enquanto que, nós o sabemos, “Aquela que surge do deserto é bela como a lua” (Cant. 1,10). E essa luz é a do conhecimento que se vive no interior, é o âmbito da unidade.

Esse Quadrante noroeste teve sempre uma importância particular. É o lugar do amanhecer, o da passagem entre a noite e o dia, o que nos deve lembrar essa “aurora” do Cantar dos Cantares. Faz-se aí uma imagem da conversão pela acolhida da luz nascente. Era o lugar onde se punha a primeira pedra, da pedra fundamental sobre a qual ia se ancorar o edifício. As pedras dos outros ângulos eram a continuação situadas situadas sucessivamente no sentido da marcha aparente do sol. É nesse ângulo onde era erguido o primeiro muro atrás do qual se abrigaria o depósito dos materiais de construção e onde se realizavam os planos necessários para a construção e onde se ensinava a arte do traçado considerado como um segredo de ofício. Nossa Senhora a Negra, Aquela que é “como a aurora, bela como a noite” (Canto. 6, 10), oferece a possibilidade de se acercar da verdadeira luz encerrada nas sombras (Jo 1,5) e da qual é a depositária. Ela está ali, na cripta aprazível, pronta a dar sem medida a quem venha com o coração puro. (“Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” – Mt. 5, 8 e Sl 51, 12-13). A escuridão, na verdade, corresponde menos a uma ausência de luz que a uma luz escondida e essa luz invisível aos olhos dos insensatos, dos homens divididos em si mesmos, essa luz não brilha mais que para aqueles que chegaram às misteriosas bodas, às Bodas da Unidade.

Cripta, imagem da gruta. Cripta, lugar escuro situado nas entranhas da terra, figuração do ventre materno que nos leva de múltiplas maneiras ao conceito arcaico da Deusa Mãe, cripta que se situa na fronteira do mundo dos vivos e do mundo dos mortos, lugar onde nossos distantes ancestrais buscavam a comunicação para estabelecer uma espécie de continuidade mais além da temporalidade. Cripta, lugar de excelência para buscar e tentar reencontrar a paz e a plenitude da alma e do espírito. Não é natural que haja sido o santuário da Dama Negra?

(Fragmentos extraídos de: “Realités e Mystères des Vierges Noires”).

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Simbologia Oculta do Baluarte Templário

Texto extraído e traduzido da Revista “Cuadernos Medievales” Nº 3, da FICEM–Fundación Instituto Campomanes de Estúdios Medievales- Espanha, por João Baptista Neto, com autorização.

Publicado em: 30.12.07

Autor: Jesús Arcos


Nota: Ver matéria em "Artigos Templários"



O Espírito que São Bernardo Legou ao Templo

Publicado em:26.12.07

Texto extraído da “Revista Hermética” nº 26 – www.revistahermetica.org – Espanha, e traduzido por Cavaleiro Templário.

Autor: Antonio Galera Gracia

Nota: Ver matéria em "Artigos Templários"
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