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Tradição Essênica

3.1 - Os Essênios

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ESSENIOS

Em 1923, o húngaro Edmond Szekely obteve permissão para pesquisar os arquivos secretos do Vaticano. Estava à procura de livros que teriam influenciado São Francisco de Assis. Curioso e encantado, vagou pelos mais de 40 quilômetros de estantes com pergaminhos e papiros milenares. Viu evangelhos nunca publicados e manuscritos originais de muitos santos e apóstolos, condenados a permanecer escondidos para sempre. De todas essas raridades, uma obra em especial lhe chamou a atenção. Era o Evangelho Essênio da Paz. O livro teria sido escrito pelo apóstolo João e narrava passagens desconhecidas da vida de Jesus Cristo, apresentado ali como o principal líder de uma seita judaica até então pouco comentada - os essênios. Szekely não perdeu tempo. Traduziu o texto e o publicou em quatro volumes. Sentindo-se traída pelo pesquisador, a Igreja o excomungou.

Não foi uma punição tão grave. Considere o que aconteceu com o reverendo inglês Gideon Ouseley. Em 1880, ele achou um manuscrito chamado O Evangelho dos Doze Santos em um monastério budista na Índia. O texto em aramaico - a língua que Jesus falava - teria sido levado para o Oriente por essênios refugiados. Ouseley ficou eufórico e saiu espalhando que tinha descoberto o verdadeiro Novo Testamento. Afirmava que a Bíblia estava incorreta, pois Cristo era um essênio que defendia a reencarnação e o vegetarianismo. Se hoje essa tese soa estranha, dizer isso na Inglaterra vitoriana do século XIX era blasfêmia da pior espécie. Resultado: os conservadores atearam fogo na casa de Ouseley e o original foi destruído.

O mistério que envolve esses dois textos e o tom místico que os descobridores deram aos seus achados acabaram manchando seu crédito diante dos historiadores. Além do mais, teorias exóticas sobre Jesus é o que não falta. Em 1970, o pesquisador inglês John Allegro, que já havia estudado os essênios, tentou provar que Jesus nunca havia existido e que teria sido uma alucinação coletiva causada pela ingestão de cogumelos. Por motivos óbvios, essa teoria não foi muito bem aceita pelos seus colegas cientistas. Segundo eles, Allegro entendia mais de cogumelos do que de Cristo.

Para os historiadores, os essênios seriam até hoje uma nota de rodapé na História se, em 1947, dois pastores beduínos não tivessem por acidente levado a uma das maiores descobertas arqueológicas do século. Escondidos em cavernas próximas ao Mar Morto, em Israel, 813 manuscritos redigidos pelos essênios entre 225 a.C. e o ano 68 da nossa era guardavam as mais antigas cópias do Antigo Testamento, calendários e textos da Bíblia. Perto das cavernas, em Qumran, estavam as ruínas de um monastério essênio e um cemitério com cerca de 1 200 esqueletos, quase todos masculinos.

O achado deu início a um longo e árduo esforço de tradução dos manuscritos por teólogos e cientistas de várias universidades no mundo. Milhares deles estavam em pedaços minúsculos, menores do que uma unha. "Hoje, 90% dos textos já foram transcritos", diz o teólogo Geza Vermes, da Universidade de Oxford, que pesquisa os manuscritos. O que já é suficiente para moldar uma imagem mais precisa da história, da doutrina, da crença e dos hábitos essênios, que ficaram séculos a fio esquecidos nas ruínas daquele monastério.

O surgimento da doutrina essênia aconteceu em tempos conturbados. Os judeus viveram sob dominação de diversos povos estrangeiros desde 587 a.C., quando Jerusalém foi devastada pelos babilônios, habitantes da atual região do Iraque. Por volta do século II a.C., o domínio era exercido pelos selêucidas, um povo grego que habitava a Síria. A cultura helenista proliferava e a tradição hebraica sofria fortes ameaças. Para recuperar o judaísmo, os israelitas acreditavam na vinda do Messias que chegaria ao final dos tempos para exterminar os infiéis e salvar os seguidores da Bíblia. A chegada do Salvador poderia se dar a qualquer instante.

Os mais ortodoxos seguiam tão à risca os preceitos religiosos e buscavam a ascese e a pureza com tal fervor que ficavam chocados com os hábitos mundanos dos gregos e a presença de leprosos, cegos, surdos e cachorros passeando pela cidade e pelos templos. Entre eles estavam os essênios. Um dia boa parte deles, liderados por um sacerdote, partiu para o Deserto da Judéia (atual Israel) para orar, meditar e estudar as leis sagradas. Longe, bem longe, de tudo o que eles consideravam impuro. Surgia assim o monastério de Qumran, uma das primeiras comunidades monásticas do Ocidente.

A região escolhida para a construção do monastério é a de menor altitude no planeta - 400 metros abaixo do nível do mar. As chuvas são raras e o mar é tão salgado que é impossível mergulhar nele, pois a enorme densidade da água mantém o banhista na superfície. Para prosperar, os bens individuais e as tarefas foram divididos entre toda a comunidade e regras de disciplina e de hierarquia foram instituídas. A presença de mulheres em Qumran, por exemplo, era proibida. Transgressões eram duramente punidas. A interpretação das leis e profecias cabia ao mestre da justiça, o mesmo sacerdote que teria guiado os essênios até Qumran. Ele era respeitado e cultuado por todos e logo virou uma entidade mítica. O guardião, por sua vez, presidia as refeições e decidia as questões a respeito da doutrina, justiça e pureza. Essa figura inspirou a formação da palavra grega "epis copus" (aquele que olha de cima), que foi a origem de "bispo".

É possível conhecer o dia-a-dia dos essênios a partir do legado do historiador judeu Flávio Josefo (37-100). Aos 16 anos, Josefo recebeu lições de um mestre essênio, com quem viveu durante três anos. Os membros da seita acordavam antes do nascer do Sol. Permaneciam em silêncio e faziam suas preces até o momento em que um mestre dividia as tarefas entre eles de acordo com a aptidão de cada um. Trabalhavam durante 5 horas em atividades como o cultivo de vegetais ou o estudo das Escrituras. Terminadas as tarefas, banhavam-se em água fria e vestiam túnicas brancas. Comiam uma refeição em absoluto silêncio, só quebrado pelas orações recitadas pelo sacerdote no início e no fim. Retiravam então a túnica branca, considerada sagrada, e retornavam ao trabalho até o pôr-do-sol. Tomavam outro banho e jantavam com a mesma cerimônia.

Os essênios tinham com o solo uma relação de devoção. Josefo conta que um dos rituais comuns deles consistia em cavar um buraco de cerca de 30 centímetros de profundidade em um lugar isolado dentro do qual se enterravam para relaxar e meditar.

Diferentemente dos demais judeus, a comunidade usava um calendário solar de 364 dias, inspirado no egípcio. O primeiro dia do ano e de cada mês caía sempre em uma quarta-feira, porque, de acordo com o Gênesis, o Sol e a Lua foram criados no quarto dia. O calendário diferente trouxe vários problemas para os essênios. Outros judeus poderiam atacar o monastério no shabbath - o dia sagrado reservado ao descanso, no qual era proibido qualquer esforço, inclusive o de se defender.

A correta observação das regras garantiria a salvação dos essênios quando chegasse o apocalipse, que seria a vitória dos puros "filhos da luz" contra os "filhos das trevas". No mundo essênio, aliás, tudo era dividido segundo uma visão maniqueísta que tornava possível até mesmo determinar quantas porções de luz e de escuridão cada um possuía. Um sectário de dedos rechonchudos, coxas grossas e cheias de pêlos teria oito porções na casa das trevas para uma de claridade. No mesmo manuscrito, um outro membro obteve um placar mais favorável. Por ter olhos negros e brilhantes, voz suave, dentes alinhados, dedos longos e canelas lisas seu espírito foi condecorado com oito partes de luz para uma de trevas. Para os essênios, a beleza do corpo também era sinal de pureza espiritual.

Graças a essa organização toda, Qumran produzia tudo de que precisava. A dieta era vegetariana. Os essênios tinham um enorme respeito pela natureza. Nenhum homem poderia sujar-se comendo qualquer criatura viva. A regra permitia uma única exceção. Eles podiam comer peixe, desde que fosse aberto vivo e tivesse seu sangue retirado. As refeições eram frugais, com legumes, azeitonas, figos, tâmaras e, principalmente, um tipo muito rústico de pão, que quase não levava fermento. Eles possuíam pomares e hortos irrigados pela água da chuva, que era recolhida em enormes cisternas e servia como bebida. Além dela, as bebidas essênias se resumiam ao suco de frutas e "vinho novo", um extrato de uva levemente fermentado. No shabbath, os sectários deveriam passar o dia inteiro em jejum. Os hábitos alimentares frugais e a vida metódica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Josefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avançada.

A água também era canalizada para os banhos rituais, que eles tomavam duas vezes ao dia para se redimir dos pecados e das impurezas do corpo. O ritual consistia em relatar todas as faltas e então submergir. "Essa prática influenciou o batismo e a confissão dos católicos", diz a historiadora Ruth Lespel, da Universidade de São Paulo. Outro ponto em comum entre os essênios e o catolicismo seria a figura de São João Batista, o profeta que batizou Jesus Cristo. O santo promovia batismos no Rio Jordão numa região próxima a Qumran. Sua postura messiânica era muito próxima à dos essênios. Há quem acredite que, quando foi batizado, Jesus teria visitado o monastério e sido influenciado por sua doutrina.

Há outras relações entre essênios e cristãos. "Existem passagens dos Manuscritos do Mar Morto, aqueles encontrados em 1947 nas cavernas de Qumran, que soam como as do evangelho cristão", afirma James Vanderkam, da Universidade de Notre Dame, Estados Unidos. Traços da doutrina dos primeiros seguidores de Jesus - como o elogio de uma vida humilde, a proibição do divórcio e a invocação a Deus como um pai - têm ressonância na fé de Qumran. "É possível que essênios e cristãos tenham entrado em contato", diz o cônego Celso Pedro da Silva, do Mosteiro da Luz, em São Paulo.

Quanto a Jesus Cristo, apesar das descobertas e polêmicas levantadas por Ouseley e Szekely, não há nos manuscritos encontrados nas cavernas do Mar Morto uma única menção a ele. É por isso que a maioria dos pesquisadores duvida da teoria de que Jesus tenha se aproximado dos essênios. "Não existe nenhuma evidência concreta disso", diz o historiador Nachman Falbel, da USP. Para o exegeta Valmor da Silva, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Jesus pode ter recebido influência das mais diversas correntes do judaísmo, inclusive deles. "Mas não dá para garantir que ele tenha freqüentado uma de suas comunidades."

Afirmar que Jesus se alimentava apenas de vegetais é ainda mais complicado. "Eu duvido muito que Cristo tenha sido vegetariano, pois ele celebrou a páscoa judaica, que envolve alimentos como ovo, patas de cordeiro e frango", diz Vanderkam. Fernando Travi, líder da pequena igreja essênia do Brasil, tem um ponto de vista oposto ao de Vanderkam. "Cristo pregava o amor a todos os seres vivos e não matava animais para aliviar a sua fome", afirma. Assim como ele, os seguidores de Szekely e Ouseley duvidam da veracidade das passagens do Novo Testamento em que Jesus se alimenta de carne. Eles acreditam que essas histórias não passam de invenções criadas pelo apóstolo Paulo, já na segunda metade do século I. A doutrina do vegetarianismo não seria bem recebida pelos judeus, acostumados a fazer sacrifícios e a comer carne, e Paulo teria modificado os evangelhos para tornar o cristianismo mais popular. Um exemplo dessas alterações estaria na passagem do Novo Testamento em que Jesus multiplica pães e peixes para alimentar uma multidão. O Evangelho dos Doze Santos, encontrado por Ouseley traz uma outra versão desse milagre, na qual os peixes são substituídos por uvas.

No ano 68 o monastério de Qumran foi aniquilado numa devastadora investida do exército romano que arrasou a Judéia e destruiu Jerusalém. O ataque era dirigido principalmente aos judeus zelotes, que se insurgiram contra o domínio romano. Qumran, que não era nenhuma fortaleza, foi presa fácil para as legiões do César. Mas nem todos os essênios morreram aí.

Alguns fugiram para Massada onde, aí sim, no ano 73, descobriram o que é um final trágico. O esconderijo, uma fortaleza zelote ao sul de Qumran, localizada no alto de uma colina, parecia impenetrável. Mas 15 000 romanos fizeram um cerco que durou dois anos e metodicamente construíram uma rampa de terra e areia para alcançar o topo da fortaleza. Quando os soldados finalmente invadiram Massada tiveram uma surpresa: todos os 1 000 rebeldes estavam mortos. Em um sorteio, os zelotes haviam escolhido um grupo de soldados para assassinar todos os habitantes da fortaleza e, em seguida, cometer suicídio. Eles preferiram morrer entre os judeus a se tornar escravos dos romanos. Sobraram para contar a história apenas duas mulheres e cinco crianças, que haviam se escondido nos reservatórios de água. O episódio foi relatado por Josefo e provou ser verdadeiro em 1965, quando arqueólogos pesquisaram a região. Eles acharam as marcas dos oito acampamentos romanos e pedaços de cerâmica com inscrições dos nomes dos zelotes, utilizados no dramático sorteio.

Segundo Josefo, os essênios existiam em grande número em diversas cidades da Judéia. Mas algumas variações da seita podem ter ocupado regiões ainda mais distantes. Uma comunidade egípcia do século I, os terapeutas, possuía um modo de vida semelhante ao da seita de Qumran e a mesma divisão entre luz e trevas. Também é possível que ebionitas e nazarenos, duas das primeiras seitas cristãs, sejam descendentes dos essênios. Há quem acredite que os nazarenos formaram uma grande comunidade em Monte Carmel, no norte da Israel atual, que seguia os ensinamentos de Qumran, mas com algumas diferenças. As regras seriam muito próximas daquelas encontradas nos escritos de Szekely e Ouseley. Ao contrário de Qumram, eles não praticavam o celibato e até mesmo formavam famílias. Fanáticos pelo princípio de amar todos os seres vivos, eram muito mais rigorosos em relação ao vegetarianismo: não comiam peixes nem matavam os vegetais para comer (comiam folhas de alface, por exemplo, sem arrancar o pé!).

"Eles viviam em tendas, que mudavam de lugar freqüentemente, pois construções permanentes matariam a relva", afirma Fernando Travi. Ele acredita que Jesus, apesar de ter passado por Qumran, viveu muito mais tempo em Monte Carmel. A região em que teria existido essa comunidade está próxima ao local em que Jesus nasceu e realizou muitos de seus milagres. Afirma também que Cristo não era conhecido como "Jesus de Nazaré", mas sim como "Jesus, o Nazareno".

Algumas dessas comunidades essênias exisem, de certa forma, até hoje. Na região sul do Iraque e do Irã, cerca de 38 000 pessoas, os mandeans, mantêm uma tradição muito semelhante à doutrina essênia. Eles afirmam ser seguidores de João Batista e praticam o batismo. Sua origem, no entanto, ainda não é de todo compreendida.

No Ocidente, o essenismo surgiu com a divulgação dos escritos de Szekely e Ouseley. Na sua época, Szekely quase abandonou seus planos de difundir a doutrina quando a tradução rigorosa e detalhada que fez do segundo volume do Evangelho Essênio da Paz não contou com a aprovação de um amigo seu, o escritor Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo. "Isto está muito, muito ruim", disse-lhe Huxley, "é até pior do que o mais chato dos tratados enfadonhos dos escolásticos, que ninguém lê hoje em dia." Szekely ficou sem fala. Huxley continuou: "Faça-a literária, legível e atraente para os leitores do século XX. Tenho certeza de que os essênios não falavam uns com os outros em notas de pé de página". A crítica abalou Szekely e ele pôs de lado o trabalho durante muito tempo. Mas, anos mais tarde, seguiu o conselho do amigo e reescreveu o manuscrito inteiro em linguagem contemporânea, mais coloquial. Foi um sucesso. O livro, publicado em 1928, já foi traduzido para dezenas de línguas e vendeu milhões de exemplares em todo o mundo. Com o respaldo editorial, Szekely construiu em 1940 um spa no México onde praticava tratamentos com base nas práticas essênias. Cerca de 350 000 pessoas já se hospedaram no chamado Rancho La Puerta nos seus sessenta anos de existência. Até hoje, muitas pessoas vão ao lugar em busca de um estilo de vida baseado nos ensinamentos de Szekely, que inclui exercícios, meditação e, principalmente, dieta vegetariana. A alimentação possui um papel central na doutrina encontrada nos evangelhos de Szekely e Ouseley. Ao afirmarem que Jesus era frugívero, ou seja, que ingeria apenas alimentos que não significavam a morte de nenhum ser vivo, como folhas e frutos, eles pregam que as refeições devem ser um momento de compaixão e comunhão com Deus. O contato com a natureza é essencial. Tanto que os novos essênios possuem uma planta em todos os cômodos de sua casa.

Os essênios permanecem como um assunto vivo. Os pergaminhos e evangelhos que eles deixaram são exaustivamente estudados por cientistas e religiosos do mundo inteiro. Seus ensinamentos recrutam milhares de fiéis e, qualquer que seja a relação que mantiveram com Cristo, deixaram, sem dúvida, sua influência impressa no coração e na mente do cristianismo.



Para saber mais
Na livraria:

Os Manuscritos do Mar Morto, de Geza Vermes, Editora Mercuryo, São Paulo, 1997.

Os Homens de Qumran, de Florentino Garcia Martínez e Julio Trebolle Barrera, Editora Vozes, Petrópolis, 1996.

O Evangelho Essênio da Paz, de Edmond Szekely, Editora Pensamento, São Paulo, 1997.

Na Internet: www.essene.org



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4.2 - Doutrinas Secretas de Jesus

Doutrinas Secretas de Jesus

 

As doutrinas secretas de Jesus

 

 

H. Spencer Lewis, F.R.C., Ph.D.

 

 

 

1ª Edição Grande Loja do Brasil

 

 

 

 

 

Maio de 1988

 

 

DEDICO A

 

 

 

SAR HIERONYMUS DA BÉLGICA

 

Cuja postura e pureza de caráter emprestaram

 

Ilimitado encanto à magnificência de sua

 

Sabedoria.

 

 

 

 

 

Figura 1: Construção de antigos essênios. Perto do Mar Morto, na Jordânia, encontram-se as ruínas de um antigo dormitório e refeitório dos essênios. Perto dali estão localizadas as colinas em cujas cavernas foram encontrados os famosos Pergaminhos do Mar Morto.

 

 

 

 

 

 

Figura 2: Local da Última Ceia. As duas janelas, embaixo e no centro, deixam passar a luz para as antigas câmaras secretas do Conselho do Cristo Jesus

 

 

 

 

 

 

 

Figura 3: Igreja da Natividade, em Belém. Todas as seitas e autoridades concordam quanto à autenticidade desse edifício, cujo pátio ê freqüentemente usado como quartel.

 

 

 

Figura 4: A majestosa muralha e a torre do Rei David. Essas sombrias pedras cinzentas resistiram muitas vezes aos selvagens ataques dos filisteus e de outras tribos belicosas do passado.

 

SUMÁRIO

PREFÁCIO 7

CAPÍTULO I: Uma espantosa descoberta 12

CAPÍTULO II: A necessidade de sigilo 20

CAPÍTULO III: A grande escola secreta 24

CAPÍTULO IV: A missão secreta de Jesus 38

CAPÍTULO V: Administração e discipulado dos mistérios cristãos 46

CAPÍTULO VI: Missões secretas individuais 61

CAPÍTULO VII: Estranhas passagens da Bíblia 67

CAPÍTULO VIII: O maior dos milagres 85

CAPÍTULO IX: Mais comprovação bíblica 95

CAPÍTULO X: As doutrinas secretas 112

CAPÍTULO XI: Os grandes mistérios 127

CAPÍTULO XII: Modificações progressivas das doutrinas cristãs 139

CAPÍTULO XIII: A preservação dos ensinamentos secretos 146

 

 

 

PREFÁCIO

 

 

 

A discussão e a controvérsia não são os motivos principais deste livro, embora nele haja bastante argumentação, o que sem dúvida suscitará controvérsia.

Os fatos são teimosos. A verdade se revela mesmo que esteja oculta por trás de um véu ou misturada com alegorias, parábolas e estranhas interpretações. A maioria dos fatos contidos neste livro estão claramente revelados na Bíblia Cristã, particularmente no Novo Testamento. Este trabalho, entretanto, não é um exemplo da forma pela qual a Bíblia pode ser erroneamente interpretada, ou descuidada e arbitrariamente citada, em partes, para comprovar uma idéia, uma teoria ou uma postulação. Alguém já disse que praticamente qualquer teoria estranha ou proposição assombrosa pode ser provada tomando-se passagens desconexas ou não relacionadas da Bíblia e juntando-as de determinado modo, ou reforçando certas palavras, de maneira a formar uma idéia nova e totalmente incorreta.

As citações da Bíblia Cristã utilizadas neste livro são surpreendente e estranhamente esclarecedoras, quando usadas exatamente como aparecem no Novo Testamento e sem serem separadas do contexto geral. Elas contêm fatos que foram deliberadamente omitidos ou mal interpretados, pois não são suscetíveis de diferentes interpretações. Ou elas significam determinada coisa, ou não significam nada.

Quando o Novo Testamento afirma que Maria, a mãe de Jesus, era uma de suas discípulas secretas ou um membro do grupo de Seus discípulos que se reuniam em um local secreto, isto não significa nem pode significar que se tratava de uma outra Maria, ou que ela era membro de algum outro grupo de estudantes, ou ainda que era uma de Suas discípulas apenas espiritualmente ou alegoricamente. Muitas pessoas podem ficar surpresas em saber que Jesus tinha uma mulher entre seus seguidores, fosse ela Maria, sua mãe, ou qualquer outra. Mas só porque esse fato é surpreendente não há razão para duvidar de sua veracidade ou de sua implicação, seu significado claramente deliberado e seu significado subjacente.

Se Jesus tinha Sua mãe, como simples mulher, entre Seus estudantes particulares, Seus discípulos secretos ou Seu grupo de discípulos, isto é muito significativo, não apenas porque ela era Sua mãe, Maria. E se esse fato é surpreendente, que devemos então pensar de outras passagens do Novo Testamento que afirmam que havia outras mulheres além de Maria entre Seus discípulos particulares e que, portanto, nem todos os Seus discípulos ou estudantes escolhidos eram homens?

Não se trata de que esse fato seja suficientemente importante para se escrever um livro a respeito, pois, afinal de contas, muitas mulheres foram eminentes estudantes das grandes verdades da vida, grandes instrutoras e pregadoras, sendo com certeza tão qualificadas naquele tempo quanto o são hoje para serem discípulas iguais aos homens em quaisquer circunstâncias. A importância disto está no fato de que ou a Igreja ou seus representantes autorizados, ou alguns deles, ou o movimento cristão de séculos passados, deliberada ou inconscientemente omitiram esse significativo aspecto da grande obra de Jesus, o Cristo.

O mesmo se aplica ao fato de os irmãos e irmãs de Jesus terem sido membros de sua escola secreta, particular. Será que estamos dando excessiva ênfase a isso e aos incidentes até agora velados de Sua vida? Pensamos que não, diante do fato de que muitos grandes sermões foram pregados, panfletos foram escritos e capítulos de livros cuidadosamente preparados para interpretar a atitude de Jesus para com seus pais e seus parentes. Pensem por um momento nas milhares de vezes em que muitos clérigos, em sermões e por escrito, tentaram explicar a passagem do Novo Testamento que parece ser uma censura à Sua mãe por ocasião de Sua demora na sinagoga. Esse estranho incidente tem sido apresentado aos freqüentadores de escolas dominicais e a estudantes da Bíblia como indicação de que Jesus não tinha paciência com Seus pais, de que estes pouco ou nada compreendiam quanto a Sua missão na vida, e de que Ele podia até ser grosseiro, intolerante e sem consideração para com as mulheres e suas perguntas sobre Seus assuntos. Essas explicações e interpretações implantaram na mente de muitas pessoas a dúvida quanto a Jesus ser tão perfeito nas coisas humanas como o era nas coisas divinas. Será isso justo? São as interpretações daquele incidente corretas à luz dos fatos que mostram que Jesus tinha a mente aberta e suficiente compreensão para permitir que Sua mãe, Suas irmãs e outras mulheres fossem estudantes secretos dos grandes "mistérios" que Ele ensinava?

Se parecer que o autor deste livro está indo longe demais ao dar ênfase a quaisquer possíveis reuniões secretas de uma escola particular de discípulos, tenhamos em mente que a própria Bíblia é a melhor autoridade para comprovar essas afirmações, e vai longe no destaque que dá ao fato de que Jesus ensinava às multidões de um modo, ao círculo exterior de estudantes particulares de outro, e na intimidade ensinava e instruía a um grupo interior, uma escola secreta, de uma terceira forma. Temos também repetidas declarações do próprio Jesus de que os grandes mistérios, os grandes segredos que Ele ensinava a uns poucos em Seus discursos privativos e Suas reuniões secretas, não podiam ser revelados às multidões nem podiam ser compreendidos pelas pessoas comuns. Não obstante, a igreja cristã de nossos dias não esclarece às massas a existência de segredos, verdades e fatos que elas não compreendem porque são mesmo difíceis de compreender, mas que podem ser revelados e demonstrados aos dignos, aos preparados, e aos especialmente iniciados.

Esses fatos dão um colorido diferente ao quadro do cristianismo como sistema religioso, filosófico ou moral. Na verdade, eles nos ajudam a compreender que a instrução cristã original e verdadeira e as doutrinas cristãs originais eram coisas divinas não destinadas a todos os seres humanos, constituindo um sistema de verdades transcendentais, revelações esotéricas e leis divinas de ilimitada aplicação e onipotente poder. Cabe aos que contestam os fatos contidos neste livro provar seus argumentos. O autor apresenta seus fatos e as verdades por eles reveladas. Se as citações aqui utilizadas e os fatos nelas contidos revelarem verdades que contrariem os fatos contidos neste livro, então o leitor que contestar o livro deverá apresentar suas interpretações e demonstrar que são superiores às que aqui estão expostas.

Ou as muitas citações do Novo Testamento, as muitas sugestões, as muitas condições e situações reveladoras significam algo bem definido — ou não têm significação alguma.

O leitor de mente aberta e sem preconceitos será o melhor juiz de que:

A Ordem Rosacruz em todo o mundo, a Fraternidade Rosacruz da AMORC, inclusive suas alianças e afiliações, dedicada à perpetuação e constante revelação das antigas verdades pela cuidadosa disseminação a pessoas devidamente qualificadas, não separa as verdadeiras doutrinas de Jesus e Suas grandes verdades do sistema original do cristianismo. Este livro, portanto, não é, em sua natureza essencial ou em sua intenção, uma propaganda da Ordem Rosacruz, AMORC, e sim uma contribuição voltada unicamente para a literatura esotérica de milhares de anos passados e de hoje.

O AUTOR

 

 

 

Templo de Alden,

Parque Rosacruz,

San José, Califórnia

20 de janeiro de 1937

 

 

 

 

http://groups.google.com/group/digitalsource

 

CAPÍTULO I: Uma espantosa descoberta

Estamos certos de que muitos cristãos ficarão surpresos com a insinuação de que Jesus ensinou quaisquer princípios divinos secretamente, ou que praticou qualquer arte divina sem a revelar a todos.

O autor deste livro ficou espantado, a princípio, quando descobriu que isso era verdade. Como dedicado freqüentador de cultos religiosos cristãos por trinta anos ou mais, e após muitos anos de estudo da Bíblia dirigido por líderes do pensamento cristão protestante, parecia-lhes quase inacreditável que fatos tão importantes da vida de Jesus e da criação inicial das doutrinas e práticas cristãs tivessem passado despercebidos pelos mais aguçados e analíticos estudantes do cristianismo, ou tivessem sido deliberadamente ocultos do público por alguma razão que pudesse ter parecido boa e suficiente.

Assim que a chave para corroborar esses fatos se revelou inequivocamente em passagens do Novo Testamento e desvendou muitos mistérios da vida e das atividades de Jesus e Seus discípulos, as numerosas passagens intrigantes e até mesmo duvidosas da Bíblia se tornaram claras, compreensíveis, na forma de evidências positivas que vieram apoiar a descoberta.

Para que o leitor possa compreender claramente os segredos que Jesus transmitiu exclusivamente a Seus discípulos testados e comprovados, faz-se necessário resumirmos a história revelada por fatos descobertos tão gradativamente que pareceram uma revelação verdadeiramente divina e cósmica.

Eis os fatos: Jesus convocou muitas reuniões ou sessões secretas com Seus discípulos e fiéis companheiros, o que é sugerido em muitas partes do Novo Testamento. Existem evidências inequívocas deste fato.

Jesus possuía um conhecimento raro, secreto, divino ou espiritual e semi-científico, que Lhe permitia realizar milagres e transmitir Seu conhecimento e Seu poder secretos, o que é igualmente inegável se considerarmos conscienciosa-mente certas passagens do Novo Testamento.

Os primeiros cristãos, que constituíram a verdadeira base da religião cristã, eram capazes de realizar milagres ou aplicar princípios cósmicos ou divinos de maneira nova e diferente que jamais fora aplicada antes, o que se imprime em nossa consciência ao lermos e analisarmos os Evangelhos Sinópticos e outras partes do Novo Testamento.

A primitiva igreja cristã se dedicava a duas fases essenciais de atividade: pregação, ensino, postulação, e realização de curas e demonstrações, o que não se pode negar.

A igreja cristã de hoje não mais pratica ou demonstra os princípios de cura ou de inovação das leis divinas e naturais para ocasionar manifestações incomuns, concentrando-se quase exclusivamente na pregação e postulação, o que indica que a igreja cristã de hoje e dos últimos séculos ou abandonou toda uma fase de seu trabalho, ou algum conhecimento secreto que os antigos cristãos possuíam não foi transmitido através dos tempos, de sacerdote a sacerdote, de ministro religioso a ministro religioso, de seita a seita. 

As declarações acima constituem as chaves fundamentais para desvendar os mistérios da missão de Jesus, o Cristo, em Sua vida na Terra. Após cuidadoso estudo e extensas pesquisas dessas chaves e dos muitos fatos correlatos revelados por elas e através delas, o autor passa a resumir os surpreendentes argumentos que apresentará nos capítulos seguintes deste livro:

1. Jesus teve nascimento divino e, portanto, foi especialmente preparado (espiritualmente, mentalmente e por outros meios) para receber, testar e aplicar certo conhecimento secreto que O capacitaria a cumprir um ministério especial na Terra;

 

2. Tendo sido devidamente preparado de forma divina, espiritual, intelectual, e de outras maneiras, para essa grande missão, também foi decretado que Ele transmitiria esse conhecimento, bem como os poderes especiais nele desenvolvidos por esse conhecimento, a outros indivíduos que fossem capazes e dignos, a fim de que eles levassem avante Sua missão através das eras, e fizessem "coisas ainda maiores".

 

3. Durante os primeiros anos do ministério de Jesus, Ele procurou, encontrou, treinou e preparou esses homens e mulheres da Palestina, do Egito e da Síria, que se mostraram espiritualmente dignos, além de moral e eticamente qualificados para perpetuar o conhecimento que Ele trouxera à Terra e os poderes que Lhe tinham sido transmitidos através de Seu nascimento divino;

 

4. Essas pessoas, preparadas e treinadas, constituíram um grupo secreto de adeptos e servidores-companheiros, que se reuniam de tempos a tempos como um colégio secreto para fins de instrução, testes, provas e a prática conscienciosa dos princípios secretos;

 

5. Essa sociedade secreta foi formada por Jesus e mantida em contínuo funcionamento e operação nos últimos anos da vida de Jesus, não se extinguindo por ocasião da Crucificação e da Ascensão;

 

6. Os homens e mulheres ligados por juramento a essa sociedade secreta formavam um total de cento e vinte pessoas, não se limitando aos doze apóstolos ou discípulos, e este fato espantoso está claramente indicado no Novo Testamento;

 

7. Como qualquer outra sociedade secreta que tinha de proteger zelosamente seus ensinamentos, princípios, listas de membros, ideais e propósitos de perseguição política ou aristocrática, esse misterioso grupo de estudantes especiais tinha vários locais de reunião definidos, fixos e continuamente utilizados, em Jerusalém, com ramificações para reuniões ocasionais em outros distritos;

 

8. Seu principal local de reunião, ou "Templo" era guardado e bem protegido, tinha um nome secreto e era conhecido somente pelos membros testados, fato este também comprovado por passagens bem claras do Novo Testamento.

 

9. Essa sociedade secreta também utilizava palavras de passe, sinais, símbolos e outros meios de reconhecimento mútuo entre os membros, evitando que espiões ou perseguidores políticos se infiltrassem ou tomassem conhecimento de sua obra secreta, o que também é comprovado por citações do Novo Testamento;

 

10. Quando os membros dessa sociedade secreta eram convocados por Jesus, em ocasiões regulares ou especiais, tinham de se dirigir ao local secreto da reunião um a um, com grandes precauções, usando senhas secretas que eram modificadas de tempos a tempos;

 

11. Entre os cento e vinte membros contavam-se, além daqueles que se tornariam conhecidos como os doze apóstolos e que constituíam o comitê executivo dessa sociedade secreta, outros interessados no misterioso e secreto trabalho da sociedade, inclusive a mãe de Jesus e Seus irmãos e irmãs;

 

12. Durante o período de estudo e preparação para o trabalho secreto, Jesus não só lhes ensinou as lições secretas como os auxiliou a desenvolver no íntimo do seu próprio ser o mesmo poder misterioso, secreto e espiritual que Ele possuía e, feito isto, tendo assim preparado completamente os discípulos, conferiu-lhes a divina autoridade para usar o poder especial que haviam desenvolvido e representar Jesus e o Reino dos Céus pelos séculos afora;

 

13. Entre os cento e vinte estudantes secretos havia homens ricos do país e alguns que tinham poder e influência política, os quais vieram mais tarde em auxílio de Jesus em Suas horas de perseguição, realizando certas ações que tinham mutuamente prometido realizar em caso de emergência;

14. As parábolas e instruções alegóricas que Jesus transmitia ao público, especialmente às pessoas que o seguiam com certa cautela, eram verdades veladas e deliberadamente ocultas, que ainda hoje não podem ser compreendidas e adequadamente interpretadas a menos que se tenha um conhecimento básico dos ensinamentos secretos transmitidos ao Seu grupo de estudantes secretos;

 

15. Essa sociedade secreta pode ou não ter sido afiliada aos essênios, outra sociedade secreta com que Jesus estava bem familiarizado1;

 

16. Cada um dos ensinamentos secretos constitui uma lei divina espiritualmente aplicada e materialmente manifestada e é apresentado em detalhamento quase perfeito (oculto em passagens do Novo Testamento), de modo que pode ter suas partes unidas e concatenadas para que se chegue a uma compreensão completa e perfeita;

 

17. Esses ensinamentos e práticas secretos não estão incluídos nas instruções da igreja cristã de nossos dias e, pelo fato de algumas dessas verdades secretas terem sido descobertas por pessoas que não pertenciam à igreja cristã, surgiram várias seitas e cultos que passaram a utilizar esses conhecimentos secretos e se tornaram rivais da igreja cristã;

 

18. Se a igreja cristã da atualidade se instruísse nesse conhecimento secreto e se dedicasse a ensinar, preparar e qualificar certos estudantes devotados de todas as partes do mundo para praticá-lo e demonstrá-lo, tornar-se-ia a mais importante e poderosa influência em prol da paz, da felicidade, da saúde e do contentamento universal. Ela poderia eliminar a maioria dos problemas da vida e estabelecer o Reino dos Céus na Terra, pela supressão gradativa das guerras nacionais e internacionais, das incompreensões, disputas, rivalidades, erros e pecados.

 

Os fatos referidos serão apresentados nos capítulos seguintes deste livro. O resumo que demos representa o tema e os postulados do autor. Certamente esses fatos serão rejeitados pelos sacerdotes, pastores, ou religiosos em geral, e serão escarnecidos pela maioria dos cristãos. Por estranho que pareça, porém, os seguidores das chamadas religiões pagas, ou não-cristãs, estarão entre os primeiros a reconhecer a verdade deste livro, e a apresentar evidências que o apóiem, baseadas em sua própria experiência de vida e em seus arquivos. Os cristãos por nascimento ou inclinação, que aos poucos foram se afastando da senda cristã ou da igreja cristã, aclamarão este livro como a correta explicação do que consideram ser a fraqueza da igreja cristã de hoje, uma boa razão para o seu afastamento e sua indiferença às instituições cristãs.

Os estudantes de misticismo, metafísica, filosofia mística e leis cósmicas, como rosacruzes, teosofistas, maçons, herméticos e martinistas, receberão muito bem esta obra, por força de incidentes comuns em sua vida e dos antigos registros de suas organizações.

CAPÍTULO II: A necessidade de sigilo

 

 

 

A primeira pergunta que surge naturalmente na mente dos cristãos devotos e estudantes sinceros da Bíblia é: "Houve a necessidade de um instrutor secreto e da preservação do conhecimento secreto com relação à missão de Jesus?"

Uma segunda pergunta poderia ser a seguinte: "Se concordamos com a idéia de que Jesus foi divinamente predestinado a ser o Salvador da humanidade, além de professor e instrutor dos que buscavam a vida eterna pelas verdades divinas, então por que Ele teve de preservar o conhecimento e o poder em segredo, transmitindo-o apenas a uns poucos?"

As mesmas perguntas são feitas hoje por pessoas que têm preconceitos em relação a igrejas de qualquer denominação, e que acreditam que Deus deveria ter revelado todo o conhecimento a toda a humanidade, e deveria continuar revelando esse conhecimento, conferindo poderes mundanos e espirituais extraordinários a todos os indivíduos, e assim promovendo o Reino dos Céus mais rápida e seguramente.

Examinando a história passada, percebemos que em dezenas de ocasiões que remontam a uma grande antigüidade, Deus inspirou certas pessoas sábias e escolhidas para servirem como reveladores ou avatares, para ensinar e pregar o conhecimento necessário a elevar a consciência do homem a um plano mais alto e tornar sua compreensão mais ampla, aproximando-o da harmonização com os princípios da vida e da verdade eternas. Cada uma dessas grandes Luzes contribuiu para o avanço da civilização e para o desenvolvimento moral do homem. Entretanto, esse processo sempre foi lento e pouco eficiente. O aumento da população do mundo, acompanhado de uma crescente influência desmoralizadora de natureza satânica, e da rápida deterioração de princípios sólidos responsáveis pela estabilização da moral entre homens e mulheres, tornou necessário enviar à Terra um Salvador que fundasse ou organizasse um sistema permanente de orientação e instrução que abrangesse o mundo inteiro.

É uma verdade fundamental,.tão verdadeira hoje quanto o era há dois mil anos, que nem toda a humanidade está preparada e qualificada em qualquer sentido para receber ou compreender e utilizar as verdades mais elevadas da vida e o miraculoso poder que provém desse conhecimento. Deus deve ter compreendido, então como hoje, que enquanto o indivíduo não se torna espiritualmente digno, e digno também no sentido intelectual e social, não merece e não pode absorver nem aplicar adequadamente as verdades superiores que tornam o homem livre e o iniciam na senda da vida eterna. As próprias experiências de Jesus no cumprimento de Sua missão nos oferecem excelentes razões para justificar o princípio do sigilo. Mesmo entre os que foram cuidadosamente testados, preparados e qualificados, alguns se tornaram céticos, outros procuraram utilizar o conhecimento e o poder para objetivos pessoais e egoísticos,.e ainda outros se tornaram espiões, inimigos e traidores da causa.

A perseguição e depois a execução de Jesus provam que havia uma razão muito boa para que se guardasse sigilo.

Embora seja verdade que a missão de Jesus terminou cedo, quando Ele atingia a flor da vida; embora seja verdade que os perseguidores e executores fizeram o possível para destruir o conhecimento e o poder que Jesus tinha trazido para a humanidade, vestígios da verdade e vagos elementos do miraculoso poder que Ele transmitia chegaram até nós, atravessando os séculos, e têm servido como meios de redenção gradual do homem. Se não fosse o sigilo, a organização secreta, b cuidadoso teste de cada pessoa transformada em guardiã dos mistérios, a Grande Luz que veio à terra nos primeiros trinta anos da Era Cristã teria se apagado no momento da Ascensão de Jesus, o Cristo, e hoje os ensinamentos e práticas que Ele tornou reais e universalmente aplicáveis às necessidades do homem teriam sido perdidos, a humanidade teria regredido aos erros do passado e o mundo de hoje não veria sequer um desmaiado brilho daquela Grande Luz.

A primitiva igreja cristã, após a transmissão das "chaves" de São Pedro para os líderes cristãos que o sucederam, afirmou ter preservado cuidadosamente, por um século ou dois, o espírito da organização secreta fundada por Jesus. A história das primeiras atividades da igreja cristã mostra que, embora a massa da população constituísse um grande círculo exterior de devotos e estudantes dos ensinamentos cristãos, ela recebia apenas uma forma velada e cuidadosamente moderada dos princípios cristãos; já num círculo interior secreto, um limitado número de candidatos era conduzido passo a passo através dos grandes mistérios e ensinamentos secretos a um grau de desenvolvimento e desabrochar que os preparava para continuar o trabalho que Jesus havia iniciado e transmitido a Seus discípulos. 

Mas, com o passar dos séculos, os ensinamentos secretos se tornaram cada vez mais exclusivos, enquanto as alegorias e os incompreensíveis princípios da instrução velada foram sendo distorcidos, ritualizados, morrendo nas mentes obscurecidas das massas.

É verdade inquestionável que, nos arquivos da Santa Igreja Católica Romana, bem como no coração e na mente de grandes, sinceros e santos líderes de séculos passados, os verdadeiros ensinamentos secretos e poderes divinos transmitidos por Jesus foram preservados, sendo conscienciosa-mente utilizados, de modo limitado, para reforçar o poder daquela igreja e a proteção de sua elevada autoridade. Mas também é verdade que, nas fileiras da fraternidade cristã de hoje, tanto católica como protestante, esse grande conhecimento secreto é desconhecido e até insuspeitado. Vemos, portanto, que em todos os sentidos, as chaves para a Igreja do Cristo (transmitidas por Jesus a Pedro, líder de sua grande Escola de Discípulos) eram de fato chaves reais que deveriam passar de cada sucessor de Pedro ao próximo responsável pela preservação e explicação da verdade; não eram simples chaves alegóricas, e sim as chaves de ouro que destravam os portões (abrem os portais) de todos os templos e tabernáculos cristãos, de todos os corações ou almas, de todas as escolas de vida que hoje existem.

CAPÍTULO III: A grande escola secreta

 

 

 

Tendo descoberto as chaves que confirmaram a existência da sociedade secreta, não foi difícil voltar a atenção para antigos arquivos e registros, para escritos históricos e Escrituras não incluídas na Bíblia, e para muitas passagens do Novo Testamento, aos quais, reunidos como as contas de um rosário, dão nos, um quadro bem claro do modo pelo qual Jesus agiu para cumprir Sua grande missão na vida.

Em primeiro lugar, devemos ter em mente que houve amplos precedentes para guiar Jesus no problema da organização de um corpo físico ou terreno como o grupo secreto que estamos descrevendo. Ao longo dos séculos anteriores tinha havido no Egito, na índia, na Pérsia e em outras regiões do Oriente Próximo, escolas e movimentos secretos dedicados à preservação e perpetuação da sabedoria revelada. Na maioria dos países progressistas do Oriente Próximo havia um sacerdócio oficial dedicado à difusão de religião oficial e à preservação das tradições religiosas e das crenças antigas. Também havia, em cada um desses países, uma ou mais organizações secretas compostas de livres pensadores, filósofos, místicos iluminados e devotos religiosos que buscavam a verdade dos mistérios da vida e preferiam as revelações espirituais e cósmicas que lhes vinham como bênçãos de Deus e dádiva à humanidade, e que, pouco a pouco, deixavam de lado as antigas tradições, superstições e crenças mitológicas de seus ancestrais. Portanto, em todas as terras houve, por muitos séculos, uma rivalidade entre os buscadores da verdade revelada e os protetores das formas antigas e errôneas de religião.

Como era de esperar, o sacerdócio oficial tinha todas as vantagens de ordem física e terrena para impor suas crenças e práticas às massas, enquanto que os buscadores, céticos, heréticos e iluminados, muitas vezes tiveram de sacrificar a vida e os bens mundanos para preservar as grandes verdades que lhes tinham sido reveladas e que tinham descoberto pelo uso de chaves reveladas.

A acirrada luta entre o culto de Amenhotep IV e o sacerdócio oficial do Egito é um exemplo típico dessa contínua rivalidade entre a Luz e as Trevas. A grande iluminação que recebeu o Faraó Amenhotep IV, tornando evidentes para ele, pela primeira vez na história da civilização, os verdadeiros princípios da existência de um só e eterno Deus, e a falsidade da multiplicidade de deuses, constituiu um despertar e uma chocante reação por todo o país. Era inevitável que, embora ele doasse seu tempo, sua fortuna e seus melhores interesses ao desenvolvimento da nova revelação, dessa religião monoteísta, embora construísse templos e relicários ao Deus eterno, destruindo estátuas, templos, tabuletas e afrescos relativos à antiga crença, sua vida fosse tirada e os astuciosos sacerdotes conseguissem subverter o que consideravam um movimento rival perigoso. Embora esse Faraó sofresse intensamente e fosse impelido a uma transição prematura, realizou tanto pela disseminação nacional de sua religião que centenas, talvez milhares de anos tenham passado sem esmaecer o brilho de suas doutrinas e preces ao Deus de todas as criaturas, nem torná-las perdidas para a posteridade.

Depois que Jesus recebeu o batismo e o Espírito Santo desceu sobre Ele, preenchendo o Seu ser com a sabedoria e o poder divinos que o transformaram de alma encarnada no Cristo redentor do mundo, ele não poderia ter deixado de compreender que cada revelação, cada impulso divino, cada visão, cada mensagem falada que vinha da boca dos anjos ou do próprio Deus, conduziam-no pelo mesmo caminho de sofrimento, intrigas, traição e finalmente crucificação, que todos os Seus predecessores haviam testemunhado em suas jornadas de Luz entre os homens.

Os registros das atividades de todos os líderes anteriores do pensamento divino, criadores de organizações secretas de preservação e perpetuação dos ensinamentos divinos, devem ter propiciado a Jesus um excelente mapa e um quadro impressionante da senda que Ele teria de trilhar no cumprimento de Sua missão.

Não me deterei na educação e treinamento preliminares que certamente devem ter sido administrados a Jesus para torná-lo tão brilhante intelectualmente já aos doze anos, quando causou espanto aos Anciãos da sinagoga de seu país; também não me referirei à educação terrena e espiritual superior que lhe foi dada na juventude, no início de Sua missão, capacitando-o a usar analogias, alegorias e metáforas relativas a assuntos pessoais, ocupações, interesses, desejos, esperanças, provas e tribulações de pessoas de muitas nações, muitas profissões e ocupações, além de muitas posições sociais. Aquele jovem, nascido no lar de um carpinteiro de condição muito modesta, não poderia ter adquirido todo o seu conhecimento nas primitivas escolas de Sua própria terra, e não poderia ter sido mandado para um país distante a fim de freqüentar uma escola particular, pela simples falta de recursos. A preparação que Ele recebeu como menino e depois como rapaz não foi apenas resultado de visões e mensagens inspiradoras vindas a Ele através do Cósmico, da consciência de Deus, pois Seu desenvolvimento, treinamento e educação foram de natureza dual. Ele conhecia os hábitos e costumes, os artifícios, as crenças hipócritas, as tentações mundanas e as fraquezas dos povos de muitas terras; também parecia possuir um conhecimento ilimitado de leis espirituais e divinas e de grandes verdades cósmicas que não poderia ter aprendido a não ser colocando-se total e entusiasticamente em harmonia com Deus, Seu Pai, que Lhe ordenara que deixasse o Reino dos Céus e fosse ao reino da Terra, para transformá-la em local de paz, como o Reino dos Céus na Terra.

Não se pode questionar Sua educação espiritual, Sua preparação e iluminação quanto às coisas mais elevadas da vida. Sem dúvida, tratava-se de sabedoria revelada, religião revelada, lei revelada. De nenhuma outra fonte poderia ter provindo uma tal sabedoria. Mas também é verdade que Seu conhecimento mundano, tão detalhadamente compreendido em sua verdadeira relação com as coisas profanas da vida, como provam centenas de Suas alegorias e metáforas, só poderia ter sido obtido pelo contato pessoal com as situações mundanas, com pessoas profanas de idéias profanas.

A educação inicial de Jesus (conhecido pelo nome "José" até o Seu batismo) foi tratada amplamente em meu livro anterior, A Vida Mística de Jesus, de modo que não há necessidade de fazer maiores referências à importância desse Seu treinamento inicial. Mas não podemos deixar passar o fato de que parte desse treinamento inicial incluiu o estudo das provações e sucessos, dos fracassos, esperanças e aspirações daqueles que haviam formado e organizado ou apoiado escolas e movimentos secretos em terras próximas, pessoas que haviam assim agido com um propósito mais ou menos semelhante ao que impeliu Jesus nas ocasiões em que passou a perceber vividamente os contatos espirituais que estava fazendo e as obrigações que logo teria de assumir.

Não ficamos surpresos, portanto, ao descobrir que, ao cumprir os desejos de Seu Pai e organizar uma sociedade secreta, além de protegê-la e desenvolvê-la, Jesus se serviu de muitos pontos e princípios de organização já estabelecidos em escolas secretas do Extremo Oriente e do Oriente Próximo. Até mesmo alguns termos e símbolos secretos que Jesus usou e a que se referia veladamente em Suas conversas, pregações e histórias alegóricas, eram idênticos aos de outras escolas e imediatamente reconhecíveis para os membros de movimentos estrangeiros ou distantes, sendo ainda usados nos dias de hoje.

E assim descobrimos, pela conscienciosa análise de antigos registros de vários arquivos do Oriente Próximo, em que foram preservadas referências a Jesus, e pelo exame de passagens isoladas e especialmente salientadas do Novo Testamento, que logo após Seu batismo e o influxo do Espírito Santo que deu início à Sua missão na vida, Ele se misturou a ricos e pobres, bons e maus, cultos e publicanos, virtuosos e pecadores, e muito aprendeu conversando e discutindo com todos eles, a respeito das religiões estabelecidas e dos costumes de Seu tempo. Dotado de profundo discernimento interior e de um especial dom divino de recepção intuitiva de conhecimento provindo da mente de Deus e do homem, e tendo apenas a honestidade para servir e a verdade para revelar, Ele gradualmente foi reunindo nos olivais e nos campos ao longo das grandes estradas da Palestina, homens e mulheres que mostrassem alguma inclinação para ouvi-Lo pregar. Ao término de um breve período de instrução, Ele repentinamente fazia perguntas aos Seus ouvintes, como se desejasse que argumentassem com Ele ou discutissem os pontos importantes, mas sempre com a idéia de aprender como a mente do ser humano estava assimilando e aceitando os princípios racionais e futurísticos que Ele defendia como vitais para a salvação do homem. Por causa da oposição política, e sabendo o que havia acontecido nos séculos anteriores, Ele fazia quase todas as reuniões preliminares com o intuito de testar e selecionar discípulos dignos nos campos próximos das estradas, onde o soldado romano, o oficial judeu, o árabe desconfiado e outras pessoas podiam ouvir o que Ele dizia sem descobrir em Suas palavras qualquer erro técnico, qualquer crime contra o Estado, qualquer insulto grosseiro contra as religiões estabelecidas, e qualquer violação dos regulamentos militares.

A princípio, muitos ridicularizavam Suas afirmações amplas e positivas, que eram como proclamações e profecias, enquanto outros sorriam de Suas descrições da infelicidade que adviria aos ricos, aos preguiçosos e negligentes. Os homens cultos da sinagoga, os dirigentes religiosos, os que detinham o controle político, riam com desprezo do crescimento e desenvolvimento de Seu pequeno bando de seguidores. Ele era encarado como um radical ou extremista inofensivo que poderia atrair e manter o interesse de um punhado de pessoas por alguns minutos. Mas no pensamento daqueles que eram sinceros, pessoas que em toda geração ou época são os verdadeiros buscadores da verdade, havia algo singular e místico em Seu modo de falar, em Seu método de demonstração das simples porém misteriosas leis da natureza.

Assim, não tardou muito para que Jesus se visse cercado de duas classes de homens e mulheres — os que duvidavam e escarneciam, e os que acreditavam Nele e em Seus ensinamentos, embora temessem pela própria vida caso se mostrassem sinceros tanto diante dos que Lhe eram fiéis como diante dos que eram contra Ele. 

Jesus logo achou necessário desenvolver seu trabalho de maneira dual. Seria necessário continuar as reuniões abertas, as demonstrações públicas de milagres nas margens das estradas, na presença das multidões; mas também seria necessário reunir-se, em ocasiões variadas de cada mês, com Seus sinceros e honestos colaboradores, que Ele havia escolhido nos últimos meses para levar adiante Sua grande obra. Nisso Jesus percebeu que a experiência de avatares e líderes anteriores era de grande valor, e os antigos registros indicam que ele não se desviou muito dos métodos que esses líderes haviam utilizado, no que se referia aos detalhes do reconhecimento físico e mundano.

Evidentemente, havia dois tipos de homens e mulheres que eram admitidos a Suas escolas secretas ou a Seus locais secretos de reunião. O primeiro grupo consistia de pessoas que estavam sinceramente interessadas em conhecer os fatos, mas que deliberadamente tomavam esses fatos com certa restrição e exigiam sinais e demonstrações de tempos a tempos. Essas pessoas tornaram-se estudantes sinceros no que concerne ao desejo de dominar os princípios dessas demonstrações, já que esse domínio lhes permitiria curar os doentes, fazer andar os aleijados e dar visão aos cegos, como Jesus havia feito, mas não estavam ansiosas para seguir Seus preceitos espirituais e modificar o curso de sua vida pessoal de modo que pudessem alcançar o estado ideal que Jesus defendia como o objetivo maior de Sua missão.

A outra classe aceitava com sincera fé todas as grandes verdades postuladas por Jesus e pouco ou nada se importava com demonstrações contínuas de Seu poder, encontrando na virtude de uma vida mais aprimorada toda a recompensa que desejava.

Essas duas facções de Seu grupo fizeram Jesus ir a extremos para lhes transmitir a importância da obra que tinha de realizar e que Ele sabia que deveria ser continuada por Seus seguidores no futuro.

Não foi fácil o trabalho que Jesus teve para organizar a instituição ou escola que Ele visualizava, e temos várias provas de que Ele se retirou para a solidão ou para o silêncio muitas vezes, para chorar, orar e pedir a Deus que Lhe desse orientação especial. Os pecados do mundo não O entristeciam tanto quanto a indiferença e falta de sinceridade dos que eram verdadeiramente dignos de se tornar Seus grandes discípulos, mas que ainda se apegavam aos prazeres do mundo e não podiam se dar total e completamente ao novo movimento.

Entretanto, percebemos que com o passar do tempo Ele reuniu cento e vinte seguidores e estudantes para formar Sua sociedade secreta. Houve alguns que Ele teve de deixar de parte, no círculo exterior de membros, pois representavam os buscadores insinceros ou superficiais da verdade. Hoje em dia temos o mesmo tipo de pessoas indo de um lado para outro para ouvir palavras de sabedoria de grandes pregadores e oradores, comprando livros e manuscritos, sempre procurando, conforme elas mesmas dizem, as grandes verdades da vida. Mas no santuário de seu coração, nas horas silenciosas de meditação e auto-analise, elas classificam as verdades recebidas e as analisam à luz de suas próprias crenças anteriores, especialmente à luz de suas crenças e convicções mais convenientes. Criam uma filosofia, um código de vida, um credo próprio que e' uma mistura, de suas próprias crenças e daquelas que acharam mais convenientes e passíveis de aceitação, provindas de mentes e corações alheios. Essas pessoas jamais descobrem ou compreendem real e interiormente as grandes verdades que estão buscando. Encerram sua vida ainda convictas de que o grande mestre que poderia lhes ter revelado todas as verdades que elas poderiam aceitar e que lhes seriam inequivocamente provadas não apareceu, e que em algum lugar esse grande mestre devia existir, enquanto elas buscavam aqui e ali, passando diariamente pelo portal do templo que tanto esperavam encontrar.

Para evitar que os indignos e aqueles que se encontravam no círculo exterior de membros participassem das instruções secretas e revelações divinas que Deus prometera a Jesus que seriam dadas a Seus discípulos, nada mais natural que Jesus decidisse que Ele e Seus cento e vinte discípulos qualificados se reunissem secretamente, mediante um sinal ou palavra de passe com que se identificassem.

E assim, no próprio coração de Jerusalém, numa rua que não despertava suspeitas e onde estava garantida a proteção contra interferências dos soldados romanos, eles adquiriram e mantiveram um local secreto de encontros, com um nome vago que era conhecido somente por Jesus e seus cento e vinte associados.

Tudo isso pode parecer ficção ou imaginação, mas demonstrarei mais adiante que essas declarações são fatos apoiados por provas inquestionáveis no Novo Testamento, em frases, parágrafos e palavras que não podem ter outra interpretação ou significado, e que têm sido considerados estranhos e misteriosos para os estudantes da Bíblia, até agora.

Assim, em certas noites, de acordo com as fases da Lua e com os regulamentos relativos a feriados judeus e romanos, com os quais não desejavam entrar em conflito para não chamar a atenção, e seguindo antigos costumes de avatares anteriores, que conheciam o valor dos aspectos benéficos e harmônicos das condições celestes e cósmicas, esses cento e vinte estudantes e seu divino líder se reuniam em ocasiões previamente acertadas, sem qualquer notificação especial; em ocasiões especiais, causadas por uma emergência ou uma grande revelação vinda a Jesus em algum momento do dia ou da noite, eles eram avisados de uma reunião por meio de uma mensagem codificada que circulava entre eles.

Foi dessa forma que Jesus gradualmente expôs a Seus estudantes selecionados as grandes verdades secretas sobre os mistérios da vida e da morte, os valores espirituais da Terra e do Reino que estava por vir. Foi nessas reuniões que Ele provou e demonstrou que Suas doutrinas não eram apenas filosóficas, religiosas, morais ou de mero valor ético, mas tinham também valor prático nos assuntos diários da vida. Ele lhes ensinou a natureza da doença, sua causa e sua cura. Ensinou-lhes o quanto era falaz depender exclusivamente de ervas, drogas, bruxarias ou encantamentos e outras formas de tratamento, quando havia um grande poder divino que poderia ser e seria exercido através deles, tendo por elemento essencial o poder criativo usado por Deus no começo dos tempos e na criação do universo e de tudo que existia acima e abaixo da superfície da terra. A transformação de água em vinho, o fazer jorrar sangue da pedra, a restauração instantânea de ossos quebrados e tecidos dilacerados, a volta do batimento a um coração sem vida, a doação da luz ou da visão dos olhos cegos, a preparação de pão e maná a partir de elementos invisíveis do espaço, e centenas de demonstrações semelhantes da lei natural e divina agindo em uníssono, faziam parte dos procedimentos de cada uma dessas reuniões secretas. O caminho para a vida eterna, a verdadeira imortalidade da alma, a purificação do corpo e do Eu Interior, a consecução da beleza espiritual, do poder divino e da harmonização com Deus eram cuidadosamente explicados, passo a passo, em lições coletivas e instrução pessoal. A Lei do Triângulo e o significado da Trindade eram básicos em todas as discussões filosóficas e demonstrações alquímicas ou físicas das leis universais de Deus.

Podemos fechar os olhos e ver, possivelmente com nossa visão mística, o local mais importante dessas reuniões. Deve ter sido bastante amplo para acomodar cento e vinte pessoas, e ter espaço para as demonstrações. Sabemos com certeza que esse local foi reservado para o uso exclusivo de Jesus e seus estudantes por um longo período de tempo e que ele tinha um nome significativo, um nome que significava algo bem definido para os discípulos mas, obviamente, significou muito pouco para os estudantes de cristianismo no passar dos séculos. Poderemos ver mais adiante que o nome desse local poderia ter fornecido uma das importantes chaves para a situação, embora tenha sido negligenciado, como chave, nos últimos dezenove séculos. A maioria dos templos secretos e locais de encontro de filósofos místicos de séculos anteriores ficava em cavernas ou espaços subterrâneos em ruínas, onde estava assegurado o sigilo e onde o silêncio era um fator importante.

Um pequeno número desses locais, entretanto, ficava na superfície, às vezes até acima do primeiro andar de alguma velha estrutura; neste caso particular, verificamos que Jesus e seus discípulos escolheram uma grande sala acima do primeiro andar, onde os transeuntes de Jerusalém nada veriam de suspeito, especialmente se os discípulos seguissem as instruções rigorosas de entrada no local um a um, enquanto um guardião observava secretamente a rua, avisando se algum estranho se aproximava. Com as janelas totalmente fechadas por cortinas mas um grande quadrado no teto aberto para o céu estrelado, um altar central com velas suficientes para iluminar o local, nenhuma luz podia ser vista de fora.

Talvez a coisa mais espantosa a respeito dessa sociedade e suas reuniões seja o fato de que, quando Jesus escolheu, com muito cuidado e certamente através de orientação espiritual e revelação, os cento e vinte discípulos dignos a quem podia confiar a própria vida, incluiu Sua própria mãe, além de Seus irmãos e irmãs. Digo espantosa, não pelo fato de Jesus ter considerado dignos Sua mãe, irmãos e irmãs, mas porque os estudantes da Bíblia e os cristãos em geral questionarão o fato e dirão que ele é impossível por não estar revelado pela palavra de Deus na Bíblia. Mas a verdade é que isso é revelado no Novo Testamento de modo tão claro que não pode ser questionado. Esse fato pode ser encontrado em diversas passagens que citarei mais adiante, e torna claros e compreensíveis outros incidentes da relação de Jesus com Seus pais quanto à Sua missão, os quais não são compreensíveis sem que se tenha conhecimento dessa associação com Jesus na sociedade secreta. Na verdade, muitos cristãos lerão este livro e negarão que Jesus tivesse irmãos e irmãs. Minha afirmação neste sentido foi questionada tantas vezes em palestras públicas e em discussões em igrejas, que aprendi a consultar rapidamente várias partes do Novo Testamento e ler as declarações que a confirmam para meus surpreendidos ouvintes.

Não é de admirar, portanto, que o estudante cristão da Bíblia esteja tão pouco familiarizado com grande parte do trabalho secreto de Jesus durante Sua missão na Terra.

Se a Bíblia pode ser lida por tantos milhões de pessoas e analisada por tantos pregadores e intérpretes eruditos, e se tanta coisa pode ser escrita e afirmada a respeito da vida de Jesus sem que se torne de conhecimento geral o fato de que Jesus teve irmãos e irmãs nascidos depois Dele (se devemos acreditar em muitas passagens da Bíblia) ou alguns nascidos antes e outros depois Dele, se decidirmos crer em outros registros, então não devemos nos surpreender com o fato de que o verdadeiro e secreto propósito, as verdadeiras e secretas leis, ideais e doutrinas de Jesus tenham se perdido para os cristãos modernos.

Jesus manteve Seus estudantes e Sua escola secreta até a última hora de Sua vida. Ele havia dito muitas e muitas vezes a Seus discípulos o que os grandes mestres de todas as eras haviam dito aos discípulos sinceros: que chegaria o tempo em que a perfeição ou maestria desceria como que do céu e ficaria com eles como resultado de sua dedicação aos estudos e sua paciência quanto às lições e demonstrações. Jesus assegurou aos discípulos que chegaria o tempo em que Deus cumpriria Sua promessa e faria o Espírito Santo descer sobre eles como havia descido sobre Ele próprio, e que, com essa bênção de Deus, Ele, como mestre-instrutor, também lhes outorgaria autoridade para sair pelo mundo e não só pregar e ensinar como Ele havia feito, mas fazer ainda milagres como Ele havia feito e realizar coisas ainda maiores. Ano após ano aqueles estudantes esperaram ansiosos por esses exercícios mais elevados, pelo maior dos dias de formatura, quando o milagre dos milagres seria realizado neles. Mas Jesus também os advertiu de que antes que isso pudesse ocorrer, Ele teria de descer ao inferno e carregar Sua cruz, sacrificar Sua vida terrena, ser crucificado e sepultado. Ele sabia, pelo conhecimento da vida de anteriores Luzes do mundo, pelas profecias dos grandes patriarcas, pelas visões que Deus havia Lhe revelado, que deveria sofrer perseguição justamente nas mãos daqueles que Ele se dispunha a auxiliar, e que seria traído por alguém em quem muito confiava; e que, tal como mostravam milhares de exemplos na história de civilizações passadas, um traidor teria de estar entre os leais e sinceros, para exemplificar o espírito das trevas e o caráter de Satã. 

Chegou então a hora negra e tudo que havia sido profetizado se cumpriu.

Em silêncio, a maioria de Seus estudantes, que haviam penhorado a própria vida ao sigilo, afastaram-se das hordas de tagarelas espectadores, com uma compreensão que outros jamais alcançariam, e observaram o cumprimento dramático do antigo princípio cósmico de que o Mestre deve levar Sua cruz ao local do suplício, nela sofrer e ser sepultado com os mortos, e assim se preparar para a ascensão final ao reino de perfeita paz e perfeito amor. Os doze estudantes especiais que eram Sua guarda pessoal e Seu grupo executivo, e que seriam conhecidos do mundo como Seus únicos seguidores secretos, cumpririam seu dever durante as horas do martírio, enquanto os outros cem ou mais, inclusive Sua mãe, cumpriam suas tarefas em silêncio, sempre atentos ao olhar observador do inimigo. Um de Seus membros secretos mais ricos se apresentou (como se tivesse recebido uma inspiração repentina) oferecendo-se para tomar conta do corpo, no momento exato em que a lei decretara que alguém deveria cumprir essa formalidade.

Então desceu o pano sobre aquela drástica cena, sem que os soldados e políticos, os zombadores, os críticos e os que haviam atirado pedras em Jesus e cuspido Nele, ficassem sabendo que um grupo de cento e vinte pessoas havia cercado o palco do Gólgota, formando um círculo místico cujo poder elevou Jesus para além do sofrimento humano e da profanação humana; que, longe de ter sido aquele o ato final e o fechamento da tumba que encerraria a carreira de um misterioso fazedor de milagres, tratara-se apenas do fechamento temporário de uma tumba que seria novamente aberta e da qual se ergueria o grande Redentor da humanidade, cujo poder ascendera enquanto Ele estava na cruz mas que desceria novamente, não sobre um só, mas sobre o número místico de cento e vinte seguidores; e que, pela transformação do homem Jesus e pela transferência de Seu poder, ocorreria no mundo o início de um novo Reino que seria eterno na Terra.

CAPÍTULO IV: A missão secreta de Jesus

 

Foram feitas constantes referências, nos capítulos anteriores, à grande missão que Jesus deveria realizar em Sua vida na terra. Como essa missão esteve fortemente associada ao segredo e ao mistério, talvez seja adequado fazer uma pausa e apresentar algumas considerações sobre a própria missão.

Já nos referimos ao fato de que, no decorrer de séculos anteriores a Jesus, haviam surgido personalidades iluminadas que tinham espargido luz e revelações divinas sobre povos de várias nações. Mesmo que hesitemos em aceitar pelo que parecem ser as estranhas declarações dos registros mitológicos de antigas filosofias e religiões, e mesmo que descontemos os exageros de afirmações alegóricas na história das religiões egípcias e hindus, por exemplo, ainda assim nos resta uma quantidade de fatos que indicam claramente que as populações daqueles países acreditaram por muitos séculos que os grandes líderes que surgiram em seu meio e os guiaram para fora das trevas espirituais, levando-os para a luz, haviam tido nascimento divino e tinham sido divinamente predestinados para cumprir uma missão de iluminação.

Como indiquei em meu livro sobre a vida mística de Jesus, houve muitas personalidades sobre as quais se fizeram afirmações de concepção imaculada ou concepção e nascimento divinos, havendo registros que são praticamente semelhantes às histórias sobre a concepção e o nascimento de Jesus. Mesmo que não aceitemos esses registros históricos como verdadeiros, mas apenas como alegóricos, não podemos fugir à conclusão de que, entre os povos antigos, havia a crença comum de que esses filósofos místicos e "sábios" iluminados eram a representação de seu deus ou deuses, indicados singular e espiritualmente para surgir entre os homens em diversos estágios de civilização para apontar o próximo caminho, ou o próximo caminho superior, e a melhor maneira de abandonarem a situação em que se encontravam, em troca de outras mais nobres e melhores. E podemos facilmente compreender como os admiradores e mesmo adoradores sectários de cada ciclo de tempo inventaram ou criaram histórias exageradas ou fantásticas sobre a extrema divindade e singularidade desses "sábios", depois que tais líderes morreram. Mesmo em nossa época somos dados a transformar em heróis extraordinários pessoas que tenham alcançado destaque em algum campo de empenho humano; ainda tendemos a encarar toda mente muito iluminada como um ser não só destinado a cumprir uma missão iluminadora, mas, também um ser incomum, mesmo num sentido físico, mental e biológico.

Essa tendência a atribuir aos sábios e iluminados líderes da humanidade certas qualidades diferenciadoras que não são comuns a todos os seres humanos continua a existir, por exemplo, entre os cristãos devotos que acham que cada um dos discípulos de Jesus deve ter sido cosmicamente concebido como uma alma, e nascido fisicamente no plano terreno de maneira singular, para ter alcançado as grandes alturas de sua nobre posição na religião cristã. Apesar do fato de que a literatura cristã e os registros cristãos nos contam por exemplo que São Mateus, antes de se converter ao cristianismo, era um publicano ou cobrador de impostos residente em Cafarnaum, e que depois de se tornar um grande pregador e uma grande luz entre os homens (deixando vários registros espirituais imortalizados na Bíblia) ele morreu de morte natural, os cristãos parecem achar que ele merece o título de santo, não por causa do bem que realizou na última fase de sua vida, como discípulo e missionário, mas devido a algumas qualidades singulares que devem ter sido atribuídas à sua alma ou personalidade antes que ela se projetasse do Reino dos Céus ou espaço cósmico para o pequenino corpo físico nascido na Terra, e porque até o seu nascimento deve necessariamente ter sido acompanhado de incidentes ou condições singulares que não são comuns a todos.

Embora os registros cristãos nos digam claramente, sem qualquer intenção de pintar uma imagem fantástica, que São Marcos tinha na realidade o nome de João e o sobrenome Marcos, e apesar de pouco se saber de sua vida pessoal antes da conversão ao cristianismo, e de que não lhe seja atribuído nenhum fato que pudesse chamar a atenção do público antes que ele começasse a pregar associando-se aos outros discípulos, os cristãos tendem a visualizá-lo como uma criança santa e devota que cresceu e alcançou a idade adulta com magnífica espiritualidade, predestinada a ser uma grande luz na igreja cristã, um santo. O mesmo se repete com todas as personalidades ligadas à história cristã.

Mas uma coisa é certa quanto aos antigos registros relativos aos avatares e grandes luzes que precederam Jesus: eles de fato cumpriram uma missão, a despeito de terem sido divinamente predestinados ou não, ou de terem nascido de maneira singular ou não. Não é porque esses filósofos místicos e homens sábios tenham pretendido ou declarado que foram divinamente enviados que a história contemporânea e moderna os aclama como divinamente inspirados e designados para uma missão singular, mas por causa do que eles efetivamente realizaram e fizeram pela civilização, e por causa da iluminação que irradiaram entre os homens.

Ao estudarmos e analisarmos os escritos ou ensinamentos desses antigos filósofos, verificamos que a verdade revelada e a sabedoria inspirada constituem o tema de suas contribuições perenes para o pensamento moral e espiritual de sua época. De onde veio esse maravilhoso conhecimento, e o que é que eleva um homem de uma situação comum de vida, fazendo-o renunciar a todas as oportunidades de conforto pessoal e consecuções individuais, para trabalhar diligente e longamente em favor da espiritualidade, ou pelo menos da moral e da ética, fazer sacrifícios para elevar a humanidade e sofrer corajosamente a recompensa final e suprema que a humanidade insiste em dar aos que mais a auxiliam? Com efeito, a história registra claramente que os Duminados do passado sempre sofreram traição, suspeita, inveja e ciúme de certas seitas e classes de pessoas de seu tempo, e na maioria dos casos passaram pela transição como seres incomuns, pendurados numa cruz alegórica, senão real, e escarnecidos por aqueles que deveriam ser os mais reconhecidos por sua obra.

Nada senão um plano cosmicamente esboçado, algum esquema divinamente previsto, alguma idéia concebida por Deus e por Ele autorizada, poderia ser responsável pela posição especial ocupada por esses filósofos antigos em sua época e pela grande sabedoria que eles legaram ao mundo, preservada em impressionantes registros. Esses ensinamentos mostram claramente que a revelação de grandes verdades da vida não só proveio de uma fonte divina mediante mensagens e visões, motivações e impulsos, mas também que as verdades assim reveladas e apresentadas à humanidade foram progressivas, como passos para a frente e para o alto, rumo aos planos superiores de existência e compreensão consciente. Cada um desses avatares pareceu lançar uma base e sobre ela erigir uma estrutura que se ergueu até que elevou a consciência da humanidade a um ponto ou plano além do qual não poderia passar naquele ciclo de desenvolvimento da civilização e do progresso espiritual na Terra.

Então, após um longo período de silêncio, outro avatar surgia e levava o desenvolvimento a um outro plano superior. Ao analisarmos os ensinamentos daqueles antigos místicos e sábios, percebemos que o último deles levara o desabrochar da consciência espiritual, bem como da compreensão ética e moral do homem, a um ponto em que a humanidade estava preparada para os surpreendentes e chocantes princípios e verdades que Jesus revelaria já em seus primeiros discursos. Quando Jesus declarou aos seus seguidores sinceros que lhes trazia um Novo Caminho para a vida eterna, que lhes trazia a realização e o cumprimento das profecias dos sábios do passado, Ele queria dizer precisamente o que disse, e o desenvolvimento do cristianismo e dos princípios cristãos nos revelou, nos quase dois mil anos que se passaram desde então, que talvez Ele tenha falado com mais sabedoria do que imaginava, ou de fato sabia bem o que dizia, graças a Sua preparação e Seu treinamento para o ministério e a missão de Sua vida.

Qual era então essa missão? Deveria ela ser como a missão dos sábios Iluminados anteriores? Deveria Jesus erguer-se nas trevas do ciclo do tempo e elevar a consciência da humanidade um grau acima do que os outros haviam feito, e evitar que a humanidade tropeçasse no caminho ou voltasse a antigas crenças e práticas? Deveria Ele afinal ser apenas mais um dos salvadores divinamente inspirados e predestinados que surgiram com o passar dos ciclos de tempo?

Como quer que vejamos Sua genealogia e as condições imediatas que cercaram Sua concepção e Seu nascimento físico, persiste o fato de que Jesus, como a mais nova e maior das Luzes divinas, surgiu em meio a um povo que aparentemente não precisava de uma religião nova, mais elevada ou mais sincera. Se por um lado analisamos a religião judaica dominante em Sua época, percebemos que, com exceção de algumas crenças que os cristãos hoje consideram talvez falhas em sinceridade, não se pode questionar a sinceridade geral dos seguidores da religião judaica, particularmente no que concerne à adoração do "Deus único e eterno". E se analisamos outras religiões que existiam em Seu local de nascimento, verificamos que nelas não faltavam seguidores ardorosos e profunda devoção. 0 fato de que um grande Messias era esperado não era indicação de que se esperava ou necessitava de uma nova religião, nem de que fossem consideradas necessárias mudanças radicais. Na verdade, foi porque Jesus anunciou logo no início de Sua missão que não concordava com as idéias incorporadas à fé judaica, e que não podia apoiá-las, que Ele atraiu antagonismo fazendo a maioria dos judeus achar que Ele não poderia ser o Messias esperado. 

Só unia vez na história da civilização viera à Terra um líder e instrutor espiritual cujos ensinamentos e práticas tinham sido tão radicalmente diferentes e cujo primeiro passo fora contestar as crenças religiosas da época. Essa única e grande luz fora o faraó egípcio Amenhotep IV, mais tarde conhecido como Akhenaton, que desviara as meditações do homem da multiplicidade de deuses simbólicos para o "Deus único e eterno".

Vemos, portanto, que Jesus nasceu em um país comparativamente novo, onde uma nova religião, ou uma revisão da religião existente, parecia não ser necessária, e que Ele falou desde o início como um puro modernista. Que podemos então dizer sobre a missão desse grande modernista? Encontramos a resposta simbolizada em uma de Suas declarações, quando Ele afirmou que viera como um mensageiro de Deus para ser o redentor e Salvador dos homens. Ele não veio com uma espada para destruir a vida, mas com uma espada flamejante para destruir o mal e dar maior poder à verdade. Ele veio para assegurar que as leis reveladas ao homem em todas as eras não fossem mais ignoradas e abolidas à vontade, ou negadas, e sim obedecidas e cumpridas.

Não obstante, Ele tinha uma missão secreta, que explicou em detalhes para Seus estudantes em Sua escola secreta. Essa missão, como veremos em capítulos posteriores, consistia em sofrer vicariamente pelos pecados de todos os homens, assim purificá-los de todo mal, inclusive do pecado original herdado pela humanidade, além de sofrer e dedicar Sua missão terrena e sua divindade para que os homens pudessem receber o Espírito Santo e estabelecer na Terra o Reino dos Céus.

Que missão maravilhosa e única!

Haverá alguma razão para nos perguntarmos por que Ele envolveu Sua missão em mistério e segredo? Não teria Ele de revelar ao homem o maior de todos os mistérios, e não eram esses mistérios secretos? Não era essa missão cheia de perigos e terríveis conseqüências para todos os padrões e práticas políticos, religiosos e sociais de todo o mundo?

Percebemos, pela análise de Sua missão, e tomando Suas próprias palavras e combinando-as para compará-las com Suas práticas e instruções particulares, que além de se apresentar ao povo como a Luz dos Homens, como um outro João Batista, um outro Amenhotep, ou um outro líder do desabrochar espiritual, pregando aberta e publicamente, Ele iria lançar o alicerce (o estranho e misterioso alicerce) da superestrutura invisível que deveria constituir o milagre dos milagres, a Remissão dos pecados dos homens e a purificação de suas almas pelo "Sangue do Cordeiro".

Através das eras o cordeiro fora o símbolo de um grande mistério, e seu sangue sempre fora reservado para sacrifício especial, em épocas e locais dos ciclos de civilização em desenvolvimento em que o povo nunca compreendera o significado espiritual ou místico da cerimônia, de modo que ele permanecera como o mistério dos mistérios, não revelando sequer às grandes Luzes que haviam apenas sugerido sua significação. Era parte da missão de Jesus não continuar mistificando Seus seguidores com o símbolo do cordeiro, ou com referências ao seu sangue ou referências maiores à possibilidade da completa redenção e purificação do homem, mas demonstrar o mistério, erguer o véu e expor à alma de toda a humanidade o processo da purificação e o caminho da salvação.

Uma missão tão tremenda tinha de ser realizada com o mais alto grau de sigilo e cuidado em sua fase inicial. Uma revelação prematura dos fatos, uma descoberta extemporânea de Seus planos, uma aplicação profana de Seus princípios místicos, teriam tornado Sua missão mais árdua, teriam frustrado muitas de Suas mais caras esperanças e desejos; pior que isso, teriam impedido a demonstração final e decisiva de Seus ensinamentos, pela qual a fé do mundo foi atraída para Ele e Seus ensinamentos e a "rocha" de Sua igreja firmemente colocada nos ciclos adequados da evolução humana.

Assim, verificamos que Sua divina e predestinada missão, Seu nascimento e Sua preparação terrena como o maior de todos os líderes da humanidade, ocorreram exatamente no ciclo histórico, exatamente no período de desabrochar e desenvolvimento do ser humano, exatamente no local e nas condições precisas em que o máximo de bem poderia ser realizado. Só a compreensão disto deveria bastar para que todo cristão (todo pensador analítico) acreditasse que Jesus fora singularmente concebido e nascido para cumprir uma missão única, e para manifestar ao mundo o mistério secreto, o mistério dos mistérios.

CAPÍTULO V: Administração e discipulado dos mistérios cristãos

 

 

Os cristãos em geral ficarão sem dúvida surpresos ao lerem que as verdadeiras doutrinas e práticas cristãs estão repletas de mistérios reais e que a missão secreta de Jesus e Seus discípulos consistia em primeiro praticar e aplicar esses mistérios e depois revelar as leis secretas neles envolvidos aos discípulos dignos, capacitando-os assim a cumprir suas missões especiais em todo o mundo. A igreja cristã de nossos dias, com seus rituais e doutrinas modernizadas, deixa na mente de seus seguidores sinceros a impressão de que todos os mistérios do cristianismo pertencem aos sacramentos e às características do ritual, não tendo ligação com as leis naturais ou divinas aplicáveis aos assuntos práticos e naturais do dia a dia.

Após fazer minuciosa pesquisa sobre a compreensão de milhares de cristãos nos últimos anos, concluí que essas pessoas, a despeito de longo e detalhado estudo da Bíblia e sincera análise dos princípios cristãos, têm a idéia geral de que quaisquer mistérios que tenham sido associados a rituais e doutrinas religiosos, faziam parte de antigas idéias e ensinamentos pagãos, e de que tais mistérios foram abandonados ou classificados como secretos, e na maioria dos casos tornados inconseqüentes e totalmente transparentes pelas revelações de Jesus ao mundo. Em outras palavras, essas pessoas parecem pensar que nos ensinamentos pagãos, primitivos e mitológicos da índia, do Egito, da Pérsia e de outras nações, havia afirmações tidas como estranhas e misteriosas e demonstrações pretensiosas, freqüentemente dramatizadas e apresentadas em ambientes impressionantes e hipnóticos, chamadas de "mistérios" para confundir e atordoar os participantes desses rituais e conduzi-los cegamente, ou seduzi-los a uma forma de devoção que os manteria eternamente no escuro com relação à verdade desses chamados "mistérios". As pessoas que têm essa crença concluem logicamente que a vinda do cristianismo e a difusão de nova Luz por Jesus e Seus discípulos afastaram esses mistérios que eram tomados como fatos pelas massas, livrando-as de continuarem escravizadas a falsas crenças e poderes misteriosos que não eram divinos nem sobrenaturais, e sim mágicos, sendo produzidos ou manifestados por meio de truques para enganar os ingênuos.

A verdade é que as primitivas doutrinas e práticas cristãs continham mais mistérios e segredos genuínos relativos a leis e princípios misteriosos do que os pagãos jamais haviam conhecido. Embora seja indiscutivelmente verdadeiro que nas primitivas religiões pagas encontramos muitos chamados mistérios que não passam de inteligentes disfarces da verdade de manipulações mágicas da lei natural, muitos deles eram baseados em verdades fundamentais representativas de genuínos mistérios da vida. Os iluminadores ensinamentos de Jesus e Seus discípulos desfizeram os engodos de muitos mistérios pagãos, mas Jesus também trouxe uma nova luz para a compreensão desses antigos mistérios, e com isto fez com que eles evoluíssem para sublimes e transcendentais revelações e demonstrações da verdade.

Os mistérios que Jesus ensinou a Seus discípulos, e que foram por eles usados em seus trabalhos missionários específicos, nunca estiveram separados da igreja cristã e nunca deixaram de ser elementos essenciais da teologia cristã e da doutrina cristã. Entretanto, é verdade que, à medida que a religião cristã foi sendo sistematizada, ritualizada e modernizada, os mistérios transcendentais que Jesus veio para revelar e que constituíram o mais elevado elemento espiritual de Seus ensinamentos e práticas, perderam-se para o círculo exterior de membros da antiga igreja cristã, tornando-se finalmente desconhecidos até mesmo para os mais avançados e proficientes criadores e instrutores dos Evangelhos cristãos.

Indaga-se hoje se os primeiros Padres da Santa Igreja Romana conheciam alguma coisa daqueles sublimes mistérios além do fato de que Jesus os havia demonstrado e revelado a Seus discípulos, utilizando-os para fazer Seus milagres e cumprir Seus compromissos como mestre e missionário. Provavelmente é verdade que nos mais sigilosos arquivos da Santa Igreja Romana estão preservadas as verdades desses grandes mistérios e das leis que tornam possível ao indivíduo altamente espiritualizado demonstrá-los e manifestá-los. Na verdade, alguns desses mistérios, que utilizam leis naturais e divinas para sua manifestação, foram aplicados em séculos passados pelos mais altos dignitários eclesiásticos do círculo interior da Igreja Católica Romana e foram colocados à disposição de muitos cardeais e servidores especiais. Temos certamente o direito de presumir que o círculo interior da Igreja, conhecido como o Colégio dos Cardeais, esteja de posse da sabedoria e do conhecimento relativos a esses grandes mistérios e possa aplicar as leis e realizar aparentes milagres quando achar necessário. Se esses eminentes Sacerdotes da igreja cristã não conhecem esses mistérios e o modo de aplicá-los, então são mais passíveis de crítica por essa falta de conhecimento e sua ineficiente direção da Igreja.

Nas observações levemente veladas mas freqüentemente claras feitas pelos apóstolos do Novo Testamento, vemos que as doutrinas e mistérios secretos que Jesus veio demonstrar, revelar e ensinar, foram um dom transcendental de Deus aos apóstolos escolhidos e nomeados, que deveriam se considerar os administradores dessas coisas e não receptores pessoais de uma bênção individual. Seria seu dever transmitir essas verdades e mistérios como seus curadores e não mantendo o conhecimento e a sabedoria em sua própria consciência, como uma legítima posse pessoal.

Vemos nessa idéia um dos mais antigos princípios místicos, totalmente conhecido e mantido como lei e prática fundamentais pelos devotos seguidores de várias fraternidades e organizações místicas do nosso tempo. A rara sabedoria e o conhecimento divino que vêm ao místico sincero através de revelações, ou através do estudo de antigos manuscritos disponíveis nos arquivos de sua fraternidade, não existem para serem incorporados à consciência do estudante e do adepto como um poder intelectual ou como dádivas para o fim de aumentar sua proficiência pessoal e servi-lo egoisticamente em seu domínio da vida. Esse místico aprende, desde os primeiros estágios de seu desenvolvimento, que, se ele for considerado digno de receber esse conhecimento e compreensão dos mistérios, e desenvolver algum grau de capacidade na aplicação da lei natural e divina à revelação, demonstração e manifestação ou uso dos mistérios da vida, ele o fará apenas como um canal, um instrumento ou servo labutando na vinha da humanidade, realizando suas demonstrações e aplicando seu conhecimento em favor da Consciência de Deus, da divina Consciência universal. Assim sendo, qualquer tentativa de reter secretamente esse conhecimento no interior da consciência individual, de deixar de oferecê-lo aos que são dignos, mesmo sem utilizá-lo egoisticamente, constitui o não cumprimento dos deveres e obrigações do ministério; e isto é um pecado maior do que permitir o uso demasiadamente freqüente do conhecimento, a tal ponto que possa ocasionalmente redundar em benefício para o indivíduo que esteja agindo como instrumento ou servidor. 

Não podemos conceber, portanto, qualquer afirmação satisfatória que explique a falta da prática e revelação dos mistérios na igreja cristã de hoje com base em que os padres da igreja ignoram esses mistérios ou preferem ocultá-los.

A falta de referência a esses mistérios nos ensinamentos e práticas da igreja cristã de hoje constitui a base para as mais severas críticas feitas contra ela, tanto na versão protestante como na católica. Embora o devoto comum da religião cristã não saiba quais foram esses grandes mistérios que foram ocultos ou restritos, e possa até duvidar de que tais mistérios tenham existido, ele está se tornando mais familiarizado com o fato de que muitos cultos e seitas fora das igrejas cristãs ortodoxas estão utilizando o que denominam leis e princípios divinos e mistérios cristãos, para com eles realizarem aparentes milagres e executarem em prol da humanidade práticas que simulam as dos primeiros discípulos cristãos. O fato de esses cultos utilizarem uma sabedoria ou um conhecimento que chamam de místico ou metafísico, divino ou cristão, e de realizarem extraordinárias demonstrações de cura e domínio dos problemas da vida, não só tem causado séria diminuição nas fileiras das igrejas cristãs ortodoxas, enfraquecendo-as, como também tem levado muitas mentes analíticas a pelo menos suspeitarem de que deve ter havido sabedoria, conhecimento e poder conhecidos de Jesus, de Seus discípulos e provavelmente dos primeiros padres cristãos, que não estão incluídos na igreja cristã de hoje nem são utilizados pelos cristãos como parte de seus deveres.

Essa infeliz situação, causadora de muitas divisões na igreja cristã e do aumento de afiliação aos cultos e sociedades místicos e metafísicos, foi considerada deplorável por muitos teólogos cristãos importantes do século passado. Muitos deles indicaram que a ausência de características místicas, dos mistérios genuínos e de práticas divinas nas igrejas cristãs de nossa época constitui a verdadeira razão do crescimento lento e do grande abandono das denominações cristãs por parte de seus membros.

Embora eclesiásticos de todas as denominações religiosas tenham se expressado freqüentemente sobre a influência dessas múltiplas seitas, cultos e escolas secretas contra o crescimento e desenvolvimento da igreja cristã, e tenham admitido que esses novos movimentos representam uma séria forma de rivalidade para com a igreja cristã, não conseguiram perceber que o erro está em sua própria igreja e que, se essa igreja despertasse e ativasse o espírito dos mistérios e práticas cristãos que Jesus ensinou a Seus discípulos, e que eles utilizaram em seu trabalho missionário, os movimentos e sistemas rivais não teriam razão de existir e mesmo desapareceriam, devido ao imediato retorno ao seio da igreja cristã de milhões de pessoas que se tornaram indiferentes ou desanimadas.

Um dos maiores teólogos e analistas espirituais modernos foi o falecido Dr. Robert Norwood, que foi pastor de uma igreja que crescia rapidamente na Filadélfia, e mais tarde foi escolhido para ser a grande Luz da Igreja de São Bartolomeu, em New York. Durante um conclave de eclesiásticos episcopais reunidos para discutir assuntos da igreja e resolver seus problemas mais prementes, o Dr. Norwood afirmou que "a maior necessidade da igreja cristã de hoje é o retorno aos ensinamentos místicos e às revelações dos mistérios do verdadeiro fundamento do cristianismo".

Que os discípulos de Jesus sabiam que estavam lidando com mistérios que eram secretos e com doutrinas novas e portanto ainda não reveladas, verifica-se em todas as suas falas registradas no Novo Testamento. Basta atentarmos para as seguintes declarações de Jesus e Seus discípulos: "A vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus; a vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus; falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério; e somos os dispenseiros dos mistérios de Deus e compreendemos todos os mistérios; tendo nos dado a conhecer os mistérios; tendo sido recebidos nos mistérios e sendo conhecedores deles, tornamos conhecidos os mistérios dos evangelhos e o mistério que foi oculto das eras; guardando o mistério da fé em uma pura consciência" etc. Frases como estas, e muitas outras de teor semelhante, poderão ser encontradas em Mateus 13:11; Marcos 4:11; Lucas 8:10; Romanos 11:25, 16:25; 1 Coríntios, 2:7, 4:1; 13:2, 14:2, 15:51; Efésios 1:9, 3:3, 3:4, 3:9, 5:32; Colossenses 1:26, 1:27, 2:2, 4:3; Timóteo 3:9, 3:16; Apocalipse 1:20, 10:7, 17:5, 17:7.

Neste início de nossa discussão desta questão, procuremos uma compreensão correta dos termos "mistério" e "mistérios", conforme foram usados por Jesus e pelos apóstolos no Novo Testamento. Não devemos acreditar que a palavra "mistério" se referisse a qualquer ocorrência ou princípio incomum ou extraordinário que mediante uma simples explicação deixaria de ser um mistério ou uma lei difícil de compreender. Uma das mais eminentes autoridades em análise de palavras e termos usados pelos autores dos livros da Bíblia foi Robert Young, cuja concordância analítica da Bíblia, publicada em 1893, continua sendo uma fonte sem igual de informações confiáveis sobre esses assuntos. Ele afirma que a palavra "mistério", como foi usada pelos autores do Novo Testamento, significava "aquilo que só é conhecido pelos iniciados".

Outra fonte de informações confiáveis sobre este ponto é o excelente livro comentado sobre termos expositivos e explanatórios, escrito e editado pelo Reverendo Robert Jamison da Igreja de São Paulo em Glasgow, Escócia; pelo Rev. A. R. Fausset, de St. Cuthberfs, York, Inglaterra, e pelo Rev. David Brown, Professor de Teologia em Aberdeen, Escócia. Em seus exaustivos comentários sobre o uso dos termos "mistério" e "mistérios" por Jesus e Seus discípulos, eles nos esclarecem que a palavra "mistérios", nas escrituras, não é usada no sentido clássico de "segredos religiosos", nem tampouco de coisas incompreensíveis ou difíceis de compreender por sua própria natureza, mas sim no sentido de coisas relacionadas com revelação puramente divina e, geralmente, coisas obscuramente divulgadas segundo os antigos padrões de parcimônia, e obscuramente compreendidas durante todo aquele período, mas completamente publicadas nos evangelhos... Os "mistérios do Reino dos Céus", portanto, significam as gloriosas verdades evangélicas que, naquele tempo, somente os discípulos mais adiantados podiam compreender, e apenas parcialmente.

Pela explicação dada pela primeira das autoridades citadas, que emprega a palavra "iniciados", e pelas explicações das outras autoridades, em que é usada e expressão "discípulos mais adiantados", percebemos que esses autores evidentemente discerniram a grande verdade representada pelo termo mistério.

Os mistérios que Jesus ensinou a Seus discípulos, e que eles mantinham em grande segredo e estudavam diligentemente a fim de manifestá-los, demonstrá-los e aplicá-los em seu trabalho missionário, constituíam revelações ou operações sobrenaturais ou transcendentais da lei que somente os iniciados ou os discípulos mais adiantados podiam compreender ou aplicar. Veremos em capítulos posteriores que esses discípulos de Jesus (os cento e vinte que formavam Sua escola secreta) eram iniciados, pois passavam por uma cerimônia de iniciação e tinham meios secretos de identificação, como palavras de passe, sinais e símbolos. Eles eram os mais adiantados entre os milhares de seguidores de Jesus, representando aqueles que haviam hipotecado sua própria vida ao apoio da obra de Jesus, e cada um dos quais tinha recebido uma missão especial, o que os distinguia dos outros seguidores que não passavam de ouvintes casuais, muitos dos quais egoisticamente buscavam alívio para seus sofrimentos físicos ou tinham a esperança de se engrandecerem pela associação a um novo movimento, um surpreendente sistema de pensamento.

Nas antigas escolas pagas, e nos antigos sistemas místicos ou mitológicos de estudos secretos, era prática generalizada a referência a seus mistérios secretos por meio de símbolos, bem como falar dos ensinamentos secretos em parábolas, para impedir que as massas não iniciadas descobrissem as verdades secretas.

Quando Jesus, ainda menino, foi levado para o Egito por Seus pais, era jovem demais para compreender que estava entrando numa terra onde quase todas as grandes verdades da vida estavam gravadas em pedras ou pintadas em paredes na forma de símbolos ou desenhos alegóricos que revelavam grandes princípios em parábolas. Mas quando sua educação se desenvolveu o suficiente para que Ele, aos treze anos, causasse espanto aos Anciãos de Seu país, então Ele aprendeu que a única maneira segura de preservar verdades e transmiti-las aos dignos, ocultando-as aos egoístas e indignos, era usar símbolos na escrita e parábolas e alegorias na fala. Não deveríamos portanto nos surpreender de que, tendo-lhe sido revelado o maior de todos os mistérios, e tendo a mais elevada sabedoria sido transmitida à Sua consciência por Deus, a fim de que Ele pudesse ser um mensageiro para comunicar essas verdades, Jesus adotasse prontamente o sistema de falar por parábolas e alegorias, bem como de sinais e símbolos, para ocultar aos não iniciados aquilo que somente os obreiros iniciados e devidamente preparados poderiam compreender em todos os detalhes.

Alguns dos mais antigos símbolos de mistérios e sinais secretos usados em escritos e ensinamentos alegóricos e místicos eram o triângulo, a cruz, o círculo, o quadrado, e seus componentes, como linha reta vertical, linha reta horizontal, linha diagonal e linha curva. Jesus não adotou arbitrariamente esses antigos símbolos em Seu sistema de comunicação secreta de conhecimento, ou na apresentação de parábolas e alegorias, nem os adotou apenas porque eles estavam convenientemente à disposição. Ele os adotou porque cada um deles representava uma verdade fundamental e sublime que fora revelada por Deus às grandes Luzes de eras passadas, no transcurso de seu trabalho preliminar de iluminação da humanidade, e Jesus sabia que as grandes verdades simbolizadas dessa forma continuavam a ser as grandes verdades da vida e tinham significado para as mentes iniciadas, para mentes inspiradas ou harmonizadas, mas nada significavam para os indignos, os irrefletidos e os não evoluídos. E assim vemos Jesus usando esses antigos símbolos do mesmo modo como eles haviam sido usados por muitos séculos para representar uma verdade fundamental. Mas à luz das novas revelações e dos novos mistérios que Ele deveria transmitir aos Seus discípulos, esses símbolos (e as alegorias em que eles estavam inseridos para formar uma história aparentemente clara) adquiriram uma nova luz, um novo poder de tocar a alma e a mente. É por essa razão que encontramos no Novo Testamento tantas referências dos discípulos ao fato de que Jesus "disse-lhes muitas coisas em parábolas".

A propósito dessas parábolas, as eminentes autoridades que já citamos declararam em seu livro que "essas parábolas são sete e é notável que, sendo sete o número sagrado, as primeiras quatro parábolas foram transmitidas às massas, ao passo que as outras três foram comunicadas em particular aos doze discípulos, e essa divisão em quatro e três é em si mesma notável na aritmética simbólica das Escrituras". Vemos nisso uma referência ao fato de que, nos mistérios que foram revelados por Jesus a Seus discípulos, houve a continuação do uso dos sete números sagrados que tinham sido usados nos antigos mistérios, e de que o número sete era considerado o número sagrado por Jesus e Seus discípulos, e não apenas um número sagrado, como é tido hoje pelas fraternidades místicas que estão tentando preservar e perpetuar para sempre os genuínos mistérios e as doutrinas secretas do cristianismo. Vemos, além disso, como esses números de um a sete facilmente constituem a primeira parte dos símbolos já referidos, 1 representando uma das linhas retas, 2 representando duas linhas, 3 representando o triângulo, e 4 o quadrado. Notamos, também, que esses autores usaram a expressão "aritmética simbólica das Escrituras". 

Quando lemos atentamente os ensinamentos e pregações de Jesus quando Ele estava cercado de apenas alguns discípulos, ou quando estava em meio a multidões, percebemos que Ele usava parábolas, a não ser quando falava no círculo privativo e secreto de Sua escola de cento e vinte estudantes iniciados e qualificados. Quando Ele caminhava pelas estradas da Palestina e encontrava uma rocha ou um monte conveniente, de onde pudesse ter uma boa visão dos grupos de pessoas que se reuniam aos poucos no local ou atrair a atenção dos que passavam montados em seus jumentos, com freqüência sentia que era necessário que transmitisse Sua mensagem, que imprimisse Seu breve sermão com profundeza naquelas mentes, por meio de uma história que interessasse imediatamente aos transeuntes porque se relacionasse com seus problemas pessoais, com coisas que lhes fossem familiares e não abstratas e especulativas.

Jesus estava sempre acompanhado de um ou dois discípulos, especialmente os doze apóstolos que representavam uma espécie de guarda pessoal e círculo mais íntimo ou comitê executivo, como poderíamos dizer na linguagem de hoje; em todas as comunidades havia um ou dois membros de Sua escola secreta que se postavam no meio ou na orla do círculo crescente de ouvintes, a fim de aproveitarem as demonstrações que Jesus fazia quanto à atitude e à postura adequadas ao pregar, bem como as corretas vibrações espirituais a serem emitidas a fim de que os ouvintes pudessem sentir Seu amor espiritual e Sua autêntica preocupação com o bem-estar de todos eles. Podemos facilmente visualizar as multidões heterogêneas, com suas vestes, faixas e toucados multicoloridos, formadas por muitas pessoas paupérrimas, apenas algumas muito ricas, a maioria da classe média trabalhadora. Quase todas tinham alguma instrução, especialmente quanto às doutrinas de sua religião, o que as tornava familiarizadas com certos termos teológicos, de modo que muitas delas estavam prontas para rir e zombar de qualquer idéia ou pensamento que parecesse contrariar suas convicções religiosas, tal como acontece ainda hoje em qualquer aglomeração de pessoas.

Assim, Ele falava a essas multidões em parábolas, primeiro escolhendo como abertura da palestra uma ou duas palavras-chave que atrairiam a atenção vacilante daquelas pessoas e tornariam Suas sugestões atraentes e familiares para elas. Ele não falava de maneira difícil demais nem simplificada demais, pois criava, mesmo na mente das pessoas importantes e cultas, a impressão de que era uma mente extraordinariamente brilhante. Se Ele tivesse tentado baixar o nível da palestra ao nível de inteligência da multidão que O ouvia, teria dado a impressão de ser pessoa de pouca instrução e qualificação para manter a atenção de qualquer grupo. Mas Ele tinha a mágica habilidade, sem dúvida de inspiração divina e cuidadosamente desenvolvida e treinada, de inventar parábolas que lidavam com os problemas imediatos dos ouvintes. Algumas parábolas envolviam os problemas daqueles que viviam em terras distantes, revelando claramente que em Sua juventude, antes de iniciar Seu ministério no mundo, Ele devia ter vivido e estudado nessas outras terras, junto ao povo a que se referia e de cujos problemas falava com imagens detalhadas e precisas. Quando falava para homens e mulheres cujo interesse principal era a pesca, Suas parábolas giravam em torno de histórias e incidentes de pescadores. Quando falava a pessoas cujo trabalho diário estava ligado ao fabrico de vinho, Ele usava uma parábola que se referia aos princípios dessa profissão.

Se lembramos que a linguagem usada por Ele também se adaptava à natureza, à compreensão intelectual e à nacionalidade do Seu povo, como o hebraico ao falar para os judeus, e o aramaico quando falava com os gentios e outros, percebemos que Ele utilizava todos os meios que o auxiliassem a transmitir simbólica e alegoricamente as verdades que os ajudariam, sem colocar em suas mãos as verdades e doutrinas secretas que poderiam usar e aplicar erroneamente, e que provavelmente não poderiam compreender corretamente. Ele fazia certos sinais com as mãos que pareceriam aos transeuntes casuais meros gestos para acompanhar Sua oratória, mas que para os estudantes iniciados eram vistos como sinais reveladores de verdades simbólicas. Nas parábolas havia palavras e expressões de duplo significado. A palavra vinho significava um produto comercial para os plantadores de uva e fabricantes da bebida, mas para os iniciados tinha o sentido que sempre tivera nos mistérios e nos ensinamentos sagrados do lado espiritual do homem. Quando Ele falava do pescador e suas redes, com os rasgões que precisavam ser consertados, transmitia duas idéias diferentes às duas classes de ouvintes, os iniciados e os não iniciados.

Infelizmente muitos erros foram cometidos pelos tradutores dos escritos dos apóstolos, nos tempos modernos, por não estarem eles familiarizados com os significados correntes ou possivelmente com o significado vernáculo de algumas das palavras usadas naquela época. Por este motivo, há certas referências secretas e místicas em Suas parábolas que não são facilmente discernidas nem mesmo pelos mais profundos sacerdotes e pregadores religiosos. Algumas palavras que Jesus usava em aramaico tinham um significado ligeiramente diferente de uma palavra semelhante na língua hebraica. Um excelente exemplo disso está em Sua declaração alegórica de que é mais difícil um homem rico entrar no reino dos céus do que um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Essa declaração simbólica ou alegórica sempre representou um enigma para os estudantes de alegorias ou metáforas. Que relação poderia haver entre um camelo e o buraco de uma agulha? Até uma criança se surpreenderia com uma referência assim, já que ela não se relacionava com nenhum problema ou dificuldade que aqueles a quem Ele pregava tivessem vivido.

Se paramos para pensar no fato de que essa declaração alegórica era feita a homens e mulheres ligados à indústria da pesca, e se reparamos que um de seus problemas era o conserto diário de redes rasgadas, e que uma grande esperança era encontrar um cordão forte mas suficientemente fino para passar pelo buraco de uma agulha de consertar redes, podemos compreender que essa metáfora em particular destinava-se a causar uma grande impressão nos pescadores

e em suas esposas, que eram responsáveis pelo conserto das redes. A referência ao camelo, entretanto, continuaria a ser incoerente.

Na língua aramaica que Jesus usava, verifica-se, através de cuidadosa tradução, que a palavra relativa a "camelo" podia ser interpretada como camelo em certos círculos, mas que para os pescadores ela significava corda. Portanto, o que Jesus dizia a essas pessoas preocupadas com o problema de encontrar um cordão forte que pudesse ser enfiado na agulha de consertar redes, era que seria mais difícil um homem rico entrar no reino dos céus do que uma corda passar pelo buraco da agulha. A palavra corda lhes suscitava a idéia de uma peça grossa e pesada de fibra trançada, muitas vezes maior do que a própria agulha, de modo que a metáfora era pessoal, podendo ser seguramente empregada, ao passo que a referência a "camelo" passando pelo buraco de uma agulha não teria sentido para aquelas pessoas.

Todas as parábolas continham referências muito precisas, além de palavras e termos secretos que tornavam cada parábola ou alegoria rica nas mais vitais verdades dos grandes mistérios; e se um ouvinte era uma dessas pessoas extraordinárias que Jesus esperava encontrar de tempos a tempos, e que tivesse olhos para ver e ouvidos para ouvir, então Ele teria conquistado mais um discípulo, ou pelo menos colocado mais uma inteligência desperta no caminho correto.

Mesmo Sua alegoria sobre lançar as sementes ao solo, e o modo como algumas caíram em pedras fora da leira, enquanto outras caíram em solo fértil e lançaram raízes, representou o problema que Ele enfrentava ao falar às massas.

Mas, em capítulos posteriores, veremos que todos os princípios desenvolvidos em Sua igreja, relativamente aos rituais e sacramentos, como a base de Seus ideais e práticas cristãs, estiveram fundamentados em segredos que ainda têm significado místico, interpretação secreta, além de uma sublime e transcendental aplicação pouco conhecida ou sequer suspeitada pelos cristãos em geral e que não foi incorporada ao sistema de instrução cristã adotado pelas modernas igrejas cristãs.

CAPÍTULO VI: Missões secretas individuais

 

 

À medida que estudamos e analisamos minuciosamente as atividades dos discípulos e apóstolos, e dos membros da grande escola secreta formada por Jesus, percebemos que, embora cada um tivesse se comprometido a dedicar sua vida ao cumprimento de uma grande missão, e cada um tivesse recebido especial "autoridade e poder", a missão confiada não era a mesma em todos os casos.

Inquestionavelmente, a missão de Jesus foi a mais complexa e pesada que poderia ser dada a um ser humano; desde o início, Jesus deve ter previsto e compreendido que a complexidade de Sua missão, a diversidade das ações que ela exigia, as muitas responsabilidades em que implicava e, acima de tudo, o fato de que Ele estaria constantemente se colocando no centro das atenções, iriam trazer-Lhe a mais terrível punição após as mais severas críticas. Nunca na história da civilização um homem assumira com tanta boa vontade uma missão de vida tão grandiosa. Jesus a assumiu, embora ela tivesse sido predeterminada. Ele sabia que não podia recusar; portanto, não recusou, pois ela era Seu dever divino e a única razão para que o Verbo de Deus se fizesse carne e Sua alma e consciência se encarnassem na Terra.

Não podemos imaginar (com toda a nossa capacidade de inventar e imaginar qualquer caso possível de ação humana) o que teria ocorrido no processo da civilização terrena e no avanço do crescimento espiritual do homem na Terra, se Jesus, ao alcançar a idade adulta e tomar consciência do que O esperava, tivesse se recusado a participar daquela cerimônia de batismo no Rio Jordão, quando o Espírito Santo desceu sobre Ele transformando-o no Salvador dos Homens, no Redentor, naquele que deveria arcar com todos os pecados do homem e ser sacrificado por sua salvação.

Mas verificamos que, ao desenvolver o trabalho de Sua escola, Ele não jogou nos ombros e na consciência de qualquer de Seus discípulos ou apóstolos todas as responsabilidades, todos os detalhes da missão que Ele próprio havia assumido. Jesus provavelmente compreendeu que nenhum indivíduo além Dele mesmo, que havia nascido singular e divinamente para isso, poderia assumir essa posição na vida. Mas é provável que Ele também tenha percebido que a maior eficiência, os maiores resultados, e a mais perfeita compreensão dos passos para trazer o Reino dos Céus à Terra, seriam cumpridos após Sua crucificação, pela divisão de Suas responsabilidades, de Suas próprias características de trabalho missionário e Seus próprios esforços, entre os cento e vinte, tornando cada discípulo ou obreiro um especialista em um ou dois requisitos ou necessidades específicas.

Parece, portanto, que Ele dividiu Seu próprio programa de atividades terrenas em doze partes, escolhendo dez discípulos e estudantes para cada uma dessas doze partes. Em outras palavras, para cada categoria de atividade especializada haveria exatamente dez homens ou mulheres. Isto Lhe daria um número redondo de cento e vinte obreiros. À frente de cada classe ou grupo Ele colocou um dos apóstolos como presidente, digamos, ou consultor-chefe. Com isto formou-se uma junta de consultoria ou grupo de conselheiros formado pelos doze apóstolos. 

Alguns desses obreiros foram enviados para o campo ou para países estrangeiros logo no início do grande esquema, já que o trabalho que tinham de fazer não exigia o mesmo tempo de preparação e estudo na escola secreta que era necessário para outros. Alguns desses cento e vinte obreiros deveriam permanecer desconhecidos para sempre, como peças especiais de Seu grande plano. Na realidade, alguns deles foram levados a jurar segredo tão absoluto, e tal sigilo de detalhes, que nunca deveriam ser vistos junto a Ele no decorrer de Seu ministério, nunca deveriam mostrar qualquer interesse particular em discussões e demonstrações ao longo das estradas ou veredas, e nunca deveriam ser vistos conversando com os outros discípulos ou obreiros a não ser por comentários casuais sobre negócios ou assuntos do dia a dia. Nenhum deles deveria jamais usar vestes especiais, exceto aqueles que indicassem que eles pertencessem a um ou mais dos cultos existentes na época e que tinham como aparente propósito a reforma cultural, moral, ética e espiritual.

Era comum as pessoas em geral, da Palestina e da Síria, naquela época, pertencerem a uma classe, seita ou grupo (talvez de natureza espiritual, social ou comercial), o que não é raro mesmo hoje em dia. Se visitássemos os escritórios de um grande edifício comercial de qualquer cidade ocidental de hoje e nossas perguntas fossem respondidas, ficaríamos sabendo que um executivo é rotariano, outro é sócio do Kiwanis Club, outro da Câmara de Comércio, e outros de muitas outras associações, inclusive escolas místicas como a Ordem Rosacruz. Na verdade, um dos problemas que Jesus enfrentou foi a análise dos vários cultos e organizações, logo no início de Seus anos de preparação. Primeiro, Ele teve de conhecer o que cada seita ou culto representava ou declarava defender. Depois, teve de se familiarizar com alguns de seus meios secretos de trabalho, meios secretos de identificação, e outros motivos ou planos secretos ou inconfessados que tivessem em mente. Encontramos muitas referências feitas por Jesus a essa multiplicidade de interesses pessoais, privativos ou secretos, e Ele teve de passar essa informação a Seus discípulos.

Por outro lado, muitos de Seus apóstolos, discípulos e obreiros, não tiveram de jurar guardar tão grande segredo (com exceção, talvez, da missão real que tinham em mente). Estes podiam encontrar-se com Ele, ou podiam ser vistos falando com Ele ou se unindo às fileiras de Seus outros seguidores em qualquer grande reunião a céu aberto ou qualquer realização de milagre.

Alguns detalhes secretos dessas missões individuais são muito interessantes; falaremos deles nos capítulos dedicados às doutrinas secretas. Alguns discípulos juraram trabalhar somente entre os deprimidos e desesperançados. Outros tiveram de trabalhar entre os chamados radicais, ou seja, aqueles que estavam prontos a derrubar e destruir as boas instituições da época, junto com as más, animados tão-somente do desejo de fazer algo de cunho heróico. Outros tiveram de trabalhar junto aos hipócritas da sinagoga, que estavam deliberadamente disseminando falsas idéias entre os devotos, na esperança de obterem benefícios pessoais dos resultados que pudessem advir de suas ações. Havia outros ainda que tinham de passar muito tempo tentando conhecer oficiais romanos, dirigentes judeus ou pessoas que ocupavam cargos de serviço aos oficiais romanos, a fim de que essas importantes personalidades fossem devidamente informadas, em conversas casuais, sobre o que se passava.

Se lemos os escritos sobre os dias e semanas mais cruciais da vida de Jesus, encontramos nas entrelinhas que alguém sempre informava os oficiais romanos do que se passava aqui, ali e acolá. De início, tem-se a impressão de que alguns espiões infiltrados no grupo de apóstolos e discípulos deliberadamente davam informações aos romanos e judeus da cúpula sobre a obra de Jesus, para que O perseguissem e condenassem. Mas à medida que penetramos no estudo dessas ocorrências, e notamos o bem que adveio diretamente de muitas dessas situações, concluímos que provavelmente havia um plano de informação sistemática aos romanos para evitar que eles enviassem investigadores não confiáveis ou outros que poderiam lhes dar informações errôneas.

A organização como um todo era muito mais complexa do que afirmam as igrejas cristãs de hoje. Mas essa complexidade se devia quase que integralmente ao fato de que as doutrinas secretas que Jesus desejava ensinar e demonstrar (e depois implantar na vida dos homens) eram tão simples, tão infantis em sua natureza fundamental, e tão facilmente aplicáveis se devidamente compreendidas, que era necessário um sistema mais complicado de apresentação das instruções do que num caso em que ocorresse o contrário. Em outras palavras, uma das coisas mais importantes que Jesus tinha de estabelecer na mente das pessoas era a/á Ele tentou convencê-las, em muitas ocasiões, de que a fé era responsável por tudo o que Ele fazia, e de que se elas tivessem fé poderiam remover montanhas. O povo nunca tinha conhecido uma fé assim. Era uma fé infantil, como a da criança que acredita que seus pais são capazes de qualquer feito, por serem tão grandes e maravilhosos.

Entretanto, para estabelecer essa fé, fazia-se necessário estabelecer um sistema bastante complexo, que manteria sempre a simplicidade das idéias para o público; do contrário, a análise e a discussão dos princípios por parte dos ignorantes teria levado a discussões dialéticas e dissertações filosóficas, que poriam a perder toda a simplicidade das doutrinas de Jesus.

Quando Jesus tentou informar aos que O seguiam, e pararam para observar a mulher beijando a fímbria de Suas vestes, que apenas a fé dessa mulher era responsável pela reação causada por aquele beijo, viu-se frente a frente com um dos mais difíceis problemas psicológicos do homem.

Uma tendência primitiva que herdamos é o desejo de atribuir o que é incomum ao sobrenatural, e essa tendência é tão forte que há muitas pessoas ainda hoje que veriam a ação de acender um fósforo esfregando-o na lateral da caixinha, não como uma simples demonstração científica, mas como algo sobrenatural, um milagre. E o estranho disso tudo é que essas pessoas prefeririam acreditar que fosse sobrenatural e não científico, prefeririam buscar e exigir a explicação complexa, hipotética, que envolvesse todas as crenças antigas no sobrenatural, ao invés de aceitar os simples fatos. Assim sendo, para podermos compreender as doutrinas secretas de Jesus, tais como Ele as ensinou aos discípulos, tais como foram divulgadas pela igreja cristã em seu início, analisaremos primeiro Sua escola e o modo como se reuniam os estudantes, para depois analisarmos as doutrinas como foram ensinadas e aplicadas pelos diversos apóstolos e discípulos.

CAPÍTULO VII: Estranhas passagens da Bíblia

Podemos encontrar toda a história da missão secreta de Jesus, da escola secreta, de Seus discípulos secretos e suas secretas atividades, nos Evangelhos do Novo Testamento. Muitos versículos e parágrafos aparentemente inocentes foram lidos muito superficial e irrefletidamente por milhares de estudantes da Bíblia. Foram lidos e citados, e até parcialmente analisados, por clérigos cristãos das mais diversas denominações de todo o mundo. Por outro lado, milhares de cristãos sinceros ficaram intrigados com as estranhas idéias expressas em alguns desses versículos, e até chegaram a suspeitar que eles continham um significado oculto.

Em todas as minhas pesquisas, encontrei apenas um ou dois teólogos eminentes, especialistas em interpretação bíblica, que tentaram desvendar ou separar os significados duplos ou ocultos que os intrigaram. Ouvi alguns clérigos dizerem, ao usarem alguns desses versículos como temas e tentarem explicá-los, que provavelmente havia um outro significado a ser descoberto, mas que não lhes parecia "não ser da vontade de Deus, naquela ocasião, torná-lo claro aos homens". Entretanto, é desses versículos e parágrafos, espalhados profusa, coerente e deliberadamente pelos livros do Novo Testamento, que podemos extrair um bom quadro da origem, natureza e das atividades da escola secreta de sabedoria divina dirigida por Jesus, além de Seus métodos secretos de apresentar essas doutrinas.

Pretendo apresentar ao leitor, neste ponto, a descrição de um incidente particular da história e das atividades dessa escola secreta. Escolhi um momento muito auspicioso da vida de Jesus e da História de Sua escola. Escolhi a ocasião da mais importante de todas as reuniões da escola secreta, aquela em que Ele deveria outorgar o Diploma Divino aos Seus graduandos, além de certificados de autoridade, como ponto culminante de Seu processo de lhes conferir o conhecimento e o poder para desempenharem missões individuais.

Essa ocasião ocorreu apenas um dia ou dois depois que Jesus presumivelmente atingiu o auge do Seu antagonismo para com as tradições e práticas hipócritas de alguns líderes da fé judaica. Ele estivera no templo e dele havia escorraçado os cambistas, purificando assim o templo, mas ao mesmo tempo fazendo um inimigo na pessoa de um dos líderes da sinagoga, que obtinha uma renda pessoal do lucro das práticas desonestas envolvidas na troca de dinheiro. Ele fizera com que judeus e romanos se unissem numa idéia: "Já é tempo de apanhar esse sujeito, dominá-lo e colocá-lo em seu devido lugar". E isso aconteceu apenas algumas horas antes do momento determinado para Ele ser traído e para a Sua inevitável crucificação.

Não devemos pensar, nem por um instante, que Jesus foi subitamente surpreendido ou inesperadamente chocado pela traição de Judas ou por planos secretos tramados contra Ele para desgraçá-Lo publicamente após um julgamento claramente ilegal. Durante semanas e meses, as autoridades legais que puderam ser subornadas ou induzidas a colaborar tinham estado preparando os documentos para um julgamento como os romanos nunca tinham ouvido falar, e como os judeus esperavam nunca mais testemunhar. Sem dúvida a cruz estava sendo preparada secretamente, assim como todos os instrumentos de tortura. Todo o procedimento que pareceu eclodir como o súbito e estupendo clímax de Sua vida foi um drama bem elaborado, planejado semanas, meses, anos, e mesmo séculos antes, na malévola consciência daquela parte da natureza humana que detesta a exposição da verdade, a vinda da Luz, a dispersão das trevas e a vitória da espiritualidade. Jesus sabia em Sua juventude, desde os primeiros dias de Sua preparação para o ministério, que tudo acabaria como de fato acabou. Mas sabia também que em certo número de anos, meses, semanas, dias e horas, teria de cumprir a grande missão de Sua vida, não permitindo que o grande clímax ocorresse antes que Ele estivesse preparado.

Então, naquela noite em particular, quando Ele vivia em Betânia e ainda proclamava Sua mensagem e Seu desafio durante o dia, providenciou a última e decisiva assembléia terrena dos apóstolos que constituíam o Conselho Consultivo de Sua escola secreta. Ele havia lhes prometido certas recompensas preciosas por seus estudos e práticas, por sua fé e lealdade, como concretização de seus anseios de cumprirem suas respectivas missões. Havia prometido a eles, como a mais rica recompensa, a transferência do alto, a cada um individualmente, do necessário poder para continuar o trabalho que Ele iniciara, e para fazer coisas ainda maiores. Durante os anos em que Sua escola secreta funcionou, Ele seguira coerente e perfeitamente um currículo definido, um curso definido de estudo que incluía palestras privadas, secretas, demonstrações particulares em seus locais secretos de encontro e em espaços abertos muito bem escolhidos no campo, com demonstrações Suas em várias ocasiões em que ocorria uma situação complicada ao Seu redor, de modo que os estudantes se acostumassem a enfrentar e superar atitudes e interferências antagônicas das multidões, em suas próprias atividades missionárias. 

Ele relembrou o início de Sua campanha, quando começou a fazer os primeiros discursos públicos, do topo de uma colina perto do Mar da Galiléia, nos arredores de Cafarnaum. Aquelas primeiras preleções foram devidamente preparadas para atrair a atenção das mentes reflexivas e dos seguidores das doutrinas galiléias que buscavam algo mais que um simples luminar da igreja como Messias, alguém que viesse dotado de grande sabedoria.

Embora Ele quisesse que Suas verdades alcançassem os pobres e ignorantes e lhes fizessem um grande bem, procurou ao mesmo tempo interessar os intelectuais, os poderosos, para que fossem atraídos para Ele e dessa forma mostrar aos demais que ali estava uma mensagem que não era apenas um consolo para os pobres ou uma esperança para os enfermos, nem um pouco de ânimo para os hipócritas da fé.

Enquanto.Ele viajava ao redor do Mar da Galiléia, passando pelos velhos e familiares distritos, e depois mais para o sul em direção a Jerusalém, estudava e analisava as multidões que se reuniam à Sua volta.

Após muitas semanas Ele pôde escolher uns poucos de vários lugares, que reconheceu como seguidores constantes. Alguns deles tinham começado a segui-Lo em Cafarnaum, outros tinham se unido a Ele na Tibéria; outros ainda apareceram pela primeira vez em Suas concentrações de pessoas no local hoje chamado Nazaré e perto do poço de Maria. Ele reconheceu um punhado deles que tinham vindo de Nabulus e que eram samaritanos denotavam todos os sinais e indicações de inteligência e percepção espiritual. Com esses seguidores persistentes, que sacrificavam muito do seu tempo e conforto e mesmo de seus assuntos materiais para ouvi-Lo falar e estar perto Dele, Jesus fez uma reunião especial em certa ocasião, contando-lhes secretamente que gostaria de lhes falar mais em particular, tornando-os estudantes pessoais se eles tomassem a si uma parte da responsabilidade e do fardo de Sua missão. Gradativamente, sem revelar todos os fatos, Ele uniu alguns deles a Si em segredo, com todo o amor e devoção que esperava neles encontrar. Foi depois de Suas muitas visitas a Jerusalém e aos locais do Sul que Ele finalmente completou o número místico de cento e vinte estudantes, de doze unidades com dez membros cada uma, para formar o círculo universal do discipulado; feito isso, após vários anos Ele estaria pronto para transmitir aos líderes desses estudantes fiéis e leais amigos as últimas instruções, testemunhando sua ordenação e seu batismo espiritual, com o comando final de partirem para sua missão.

A essa altura os estudantes, assim como as multidões e os críticos representantes da fé judaica que tinham ouvido suas pregações e cuidadosamente observado Suas demonstrações, tinham aprendido que Jesus falava com um poder e uma autoridade que nenhum pregador havia demonstrado anteriormente. João Batista tinha realizado muitas manifestações maravilhosas de poder divino, mas em nenhum momento convencera suas testemunhas da natureza e fonte de seu poder, como fez Jesus em poucos anos. Jesus não implorava, não suplicava aos ouvintes que seguissem Seus conselhos para seu próprio bem. Ele não lhes indicava simplesmente o Caminho que poderia levar ao estabelecimento de um novo reino ou conduzi-los para a frente em sua jornada pela vida, rumo à mais elevada meta de seus anseios espirituais. Ele veio para modificar o modo de vida deles, e disse isso de um modo que convenceu a maioria de que Ele poderia ir ao ponto de forçá-los a obedecer e tornar necessário que o fizessem, pela realização de milagres maiores do que levantar os mortos ou curar os doentes. Ele poderia até fazer com que seus templos ruíssem sobre suas cabeças; poderia até fazer os rios secarem e lagos ficarem rasos, e fazer com que os ventos e as tempestades se abatessem sobre as terras.

Seus discípulos, bem como as multidões, passaram a acreditar que o poder exercido por Jesus era um poder divino singular, proveniente de uma fonte incomum, para além de sua compreensão. Ao mesmo tempo, Seus estudantes também compreenderam, por sua fé e devoção, que aquele poder miraculoso e divino (ou autoridade) que Jesus possuía, poderia ser-lhes outorgado. Por isso os apóstolos esperavam ansiosamente aquela grande reunião final de suas atividades oficiais como conselheiros consultivos de Sua escola secreta.

Naquele dia em particular, justamente nas horas dedicadas à Páscoa judaica, enquanto toda a oficialidade discutia nervosamente Seus atos ousados e desafiadores (como a expulsão dos cambistas do templo e as estranhas profecias sobre a destruição do templo e sua reconstrução), Seus apóstolos se comunicaram e foram ao local secreto onde Jesus passava a noite, perguntando-Lhe para onde deveriam se dirigir com vistas àquela importante reunião, e o que deveriam fazer.

A cada semana eles obviamente tinham se reunido em diferentes locais, ou pelo menos tinham mudado seu local secreto de encontro com suficiente freqüência para evitar que os oficiais e inimigos ficassem sabendo dele, e também nunca se dirigiam a nenhuma de suas reuniões sem antes aprenderem aonde deveriam ir e como deveriam chegar até lá sem chamar atenção e tornar o local inseguro.

Nessa ocasião particular, portanto, vemos que Pedro e João encontraram Jesus e Ele lhes disse que avisassem os demais e se preparassem para a Páscoa, que celebrariam de um modo bem diferente da Páscoa da população em geral. Os fatos aqui descritos foram tirados do capítulo 22 do Livro de Lucas e de passagens semelhantes dos Livros de Marcos, Mateus e João.

Quando Pedro e João perguntaram a Jesus como deveriam se preparar para essa ocasião especial, para essa Páscoa especial, e onde encontrariam o local secreto de reunião, Jesus lhes disse para entrarem na cidade de Jerusalém, de um em um ou de dois em dois, e irem andando pela rua principal como de costume, procurando um homem que se aproximaria deles com um jarro de água. Quando ele se aproximasse, virasse e caminhasse em outra direção, eles deveriam segui-lo.

Pela leitura de outras citações, parece que às vezes os estudantes secretos da escola esperavam um homem com o pé esquerdo descalço, tendo assim uma aparência estranha, ou com a veste arranjada de tal modo que os joelhos e as pernas estivessem expostos, ou cuja veste estivesse tão rasgada que o lado esquerdo do peito estivesse à mostra. Em cada caso, a vestimenta, condição ou ação do importante guia era não só incomum mas significativa conforme uma antiga simbologia relativa a personagens das antigas escolas secretas.

Dessa vez eles deveriam seguir o homem com o cântaro de água e observar em qual porta ele se deteria, fazendo uma pausa, voltando depois para a rua principal. Os discípulos deveriam ir até aquela porta, dar uma batida simbólica e, quando a porta fosse aberta, cada um deveria dizer ao guardião: "Nosso mestre nos disse para falar o seguinte: onde fica a câmara dos convidados, para que possamos comer a ceia da Páscoa?". Jesus tinha lhes explicado que o guardião os deixaria entrar após ouvir a pergunta de identificação, acompanhando-os a uma grande sala de reuniões completamente mobiliada e pronta para a cerimônia especial.

Os doze apóstolos chegaram aos poucos, de acordo com esse sistema secreto, e foram admitidos. Se o guardião tivesse impedido sua entrada, como devia ter ocorrido uma ou duas vezes anteriormente, eles saberiam que um espião, inspetor ou representante dos inimigos ou das autoridades romanas tinha estado investigando e o local não era mais seguro.

Na ocasião que estamos descrevendo, os doze apóstolos entraram e esperaram por Jesus, que finalmente se juntou a eles, anunciando que tinha aguardado ansiosamente aquele encontro e esperava que tudo corresse bem, permitindo que se unissem e completassem a culminação de Seu grande trabalho secreto antes de Sua prisão, sofrimento e provável crucificação. Levantando-se, Ele declarou preliminarmente que a ocasião tinha muito a ver com a concretização de Seus planos para o estabelecimento do reino dos Céus na Terra.

Após essas palavras preliminares, Jesus encheu um grande cálice de vinho, bebeu um pouco e passou-o para os apóstolos, dizendo que deveriam partilhar o vinho entre todos, cada um bebendo um pouco. Depois explicou o simbolismo de Sua prece e da partilha do vinho, dizendo-lhes que Ele não beberia do fruto da videira outra vez na companhia deles ou de qualquer outra maneira, até que o Reino de Deus estivesse estabelecido na Terra. No ato de beber vinho de uma taça sagrada, os discípulos reconheceram um símbolo secreto muito antigo de ordenação e bênção, e também um símbolo de igual poder e posição, qualquer que fosse o trabalho ou a missão solenizada pela ocasião.

Então Jesus tomou um pedaço de pão, proferiu uma outra prece ou invocação pedindo a bênção especial de Deus para o mesmo, e depois partiu-o em pequenos pedaços, dando um a cada apóstolo e explicando: "Esta forma material que agora lhes sirvo simboliza o meu corpo, que ofereço e divido entre vocês, e dela vocês se servirão para se lembrarem de mim dividido por todos, uno com vocês e um de vocês".

Por fim Jesus levou o grande cálice sagrado novamente aos lábios, explicando que aquele era o cálice da nova aliança, que continha simbolicamente o Seu sangue, que seria derramado por eles e através deles para a salvação e redenção dos pecadores do mundo.

 

Sorver o vinho de um cálice sagrado ou graal continua sendo uma cerimônia simbólica entre as escolas secretas do Extremo Oriente e do Oriente Próximo, e até entre algumas escolas de sabedoria espiritual e sagrada no mundo ocidental. O procedimento de partir o pão e beber vinho não foi uma idéia original de Jesus, mas uma idéia muito antiga e sagrada que Ele aplicou de maneira nova, pois toda a Sua missão na Terra era uma missão nova baseada em antigos e sagrados símbolos e cerimônias. Comer o pão dessa maneira era partilhar o corpo físico do Cristo, e beber o vinho era beber o Seu sangue, e assim ficar não só em sagrada comunhão com Ele, mas como uma parte Dele em qualquer trabalho sagrado que Ele lhes determinasse e transferisse.

Foi naquela ocasião de Sua última ceia que Ele lhes revelou de novo por que estivera ansioso por muitos dias para providenciar aquela cerimônia especial. Em seguida explicou que, embora os oficiais da região estivessem à Sua procura, tentando encontrar Seu esconderijo para prendê-lo e falsamente condená-Lo e crucificá-Lo, somente nas horas da manhã ou tarde da noite um de Seus próprios apóstolos, supostamente leal, O trairia.

A maioria de Seus apóstolos sabia também das ameaças que haviam sido feitas e dos perigos que O cercavam, e por isto não ficaram surpresos com essas palavras, mas ficaram muito espantados quando Ele lhes disse que um deles, sentado ali na mesa com Ele naquele momento, participando daquela última grande cerimônia, seria o Seu traidor. Ficaram tão surpresos que começaram a questionar Jesus sobre quem poderia ser o traidor, e ficaram muito excitados afirmando que cada um deles era o maior em sinceridade e lealdade ou o discípulo escolhido para representar o grande trabalho no futuro e, portanto, não poderia ser culpado de um crime daqueles. No desejo de estabelecer a superioridade, lealdade e fidelidade individual, perderam consciência da importância do fato de que um deles provaria antes do amanhecer que era o menos digno de afirmar seu alto grau de fidelidade. Jesus argumentou com eles e os censurou pela maneira como estavam analisando a situação.

Finalmente, Ele lhes disse que aquela era a ocasião em que cumpriria Suas promessas anteriores a todos eles, e que naquele momento mesmo Ele lhes reservava um reino como o que Seu Pai no Céu Lhe havia reservado, e por esse motivo eles iriam comer e beber à Sua mesa, em Seu reino; em outras palavras, eles passariam a ser iguais a Ele nesse novo reino dos Céus na Terra, governando-o, dirigindo-o e estabelecendo-o para todo o tempo futuro. Como as doze grandes Luzes e os líderes da escola secreta, orientando as dezenas de outros estudantes fiéis treinados por Jesus dia após dia, eles deveriam continuar levando a cabo Sua grande missão no futuro como se Ele estivesse presente, pronunciando palavras de autoridade assim como Ele as pronunciava, e demonstrando poderes que lhes seriam conferidos, do mesmo modo como Ele havia demonstrado nos últimos anos. 

Todos nós sabemos, pelos vários relatos dos Evangelhos, o que ocorreu após aquela grande cerimônia e reunião secreta. Ele previu que um deles até O negaria várias vezes antes do nascer do sol, ou antes que o galo cantasse. Descreveu para eles as terríveis conseqüências do dia seguinte e explicou como seria o Seu dia de agonia, e que esse dia seria seguido pelo maior sacrifício que Ele poderia fazer, o de entregar o Espírito Santo como o filho de Deus e o Cristo na Terra, sendo enterrado como um homem comum, enquanto que Seu grande poder e autoridade continuariam na pessoa deles e com eles. Em algumas versões desse encontro, tal como nos é narrado por Mateus e Marcos, há ligeiras modificações nos detalhes menores, mas em geral a história é a mesma, com todas as evidências de que os apóstolos e Jesus se reuniram na qualidade de representantes de uma escola secreta ou de um divino sistema secreto de preparação, e de que eles se reuniram num local secreto especialmente escolhido, e ainda de que Ele considerou essa ocasião o ato culminante de transferência do poder e autoridade sagrados, Dele para os doze apóstolos. Essa transferência de poder e autoridade talvez esteja expressa com mais beleza por Mateus, capítulo 26, versículo 29, onde ficou registrado que Jesus disse: "...até o dia em que eu beberei de novo convosco no reino de meu Pai". Aquele cálice de vinho seria o último dos apóstolos e também o último de Jesus naquelas circunstâncias; eles nunca mais beberiam juntos enquanto o Reino de Deus não estivesse estabelecido.

Houve uma ocasião anterior em que fora realizada uma reunião secreta como aquela, com o objetivo de encerrar o curso sistemático de instrução e a série de demonstrações que Ele fizera em particular aos seus estudantes, e essa reunião terminou com uma cerimônia especial de transferência de poder e autoridade. Talvez tenhamos a melhor narrativa dessa ocasião no capítulo 9 de Lucas, sem recorrermos a registros mais antigos fora da Bíblia cristã-. Nessa passagem, vemos que Jesus chamou Seus discípulos e lhes deu poder e autoridade sobre todos os demônios e poder para curar doenças, enviando-os para proclamar o Reino de Deus e para curar os enfermos.

É interessante verificar que a transferência de poder e de autoridade constitui dois procedimentos separados. No caso, o poder não significa autoridade ou privilégio. O poder de curar e sobre os espíritos impuros se refere a um processo divino definido, aplicando princípios e leis divinos a condições materiais, físicas ou espirituais, no homem e ao redor do homem. Os estudantes tinham de ser preparados para receber esse poder, a fim de que pudessem compreendê-lo e utilizá-lo com inteligência. Não se tratava de uma simples fórmula ou encantamento, nem um processo de necromancia, magia negra ou branca, como os pagãos utilizavam.

O poder que Jesus possuía era único, a grande dádiva de Deus Pai que O havia enviado. Consistia em um conhecimento que os prepararia, em dias, semanas e meses de prece e meditação que os purificariam, tornando-os receptores dignos e canais adequados para o influxo e a irradiação de um princípio divino que se manifestaria na forma de um poder singular e sagrado para fazer determinadas coisas. E a autoridade que Ele lhes outorgou, junto com o poder, também provinha de Deus, pois sem a autoridade o poder não teria sido liberado para eles nem continuaria a fluir através deles.

Quanto às instruções secretas que eles deveriam obedecer quando usassem essa autoridade e esse poder, verificamos que na ocasião em que os convocou para a transferência de Suas atividades, Ele efetivamente os qualificou para curar os doentes e limpar do mal os leprosos, despertar os mortos e expulsar demônios. Todas as autoridades bíblicas concordam em que aquela foi verdadeiramente a ocasião em que a transmissão de um poder sobrenatural foi feita pela primeira vez na história da civilização. Chamo a atenção para o fato de que um dos pontos principais da autoridade que lhes foi outorgada, conforme Lucas, foi o de que teriam poder sobre todos os demônios, e, de acordo com outras autoridades, o domínio sobre os "espíritos impuros".

Aqui temos referência a uma das doutrinas secretas, e parece mais lógico tratar dessa verdade aqui e agora do que colocá-la entre as outras doutrinas secretas nos capítulos finais deste livro.

Entre os pagãos ignorantes e sem educação dos tempos antigos havia a crença comum de que a doença de qualquer espécie, especialmente aquela que parecia destruir a saúde das partes internas do corpo, ou a integridade da mente e do cérebro, era causada por uma forma de obsessão, ou pela presença no corpo e no cérebro de um espírito maléfico ou demônio, que havia entrado deliberadamente no corpo físico e tentava destruí-lo. A princípio, somente aqueles que sofriam do que poderíamos chamar de epilepsia ou ataques, com estranhos desvarios e rodopios, atirando-se no chão, eram manifestações de "possessão". Por muitos séculos, aqueles que não tinham a mente sã e falavam de modo estranho, ou cuja memória falhava, ou que eram imbecis ou pareciam próximos do descontrole mental, eram suspeitos de estarem possessos por demônios ou estarem sendo controlados por espíritos malignos. Com o tempo, todas as formas de doença foram atribuídas a algum contato com espíritos imundos.

Os pagãos haviam se servido de práticas muito estranhas e supersticiosas na cura das vítimas dessas condições. Uma grande maioria era tida como caso perdido, indigna de ser curada ou purificada, e era enterrada viva, queimada viva, ou torturada até a morte. Acreditava-se, inclusive, que aproximar-se de alguém que estava doente por possessão poderia causar a transferência dessa condição. Por isso era difícil encontrar alguém que pelo menos tentasse ajudar ou tratar essas pessoas. Em alguns países acreditava-se que, se a sombra de um possesso caía sobre o corpo de outra pessoa, esta ficava contaminada. Conclui-se também da leitura de antigos registros que certos homens e mulheres que pareciam compreender que essas crenças eram supersticiosas e desejavam comercializar essa compreensão classificavam-se como mágicos curadores dos possuídos. Eles se ofereciam, mediante grandes quantidades de bens materiais, para levar um doente para sua própria casa, afastando-o da família, a fim de tratá-lo e curá-lo, ou pelo menos cuidar dele até que ficasse bom ou morresse. Analisando as formas de tratamento que eram aplicadas a esses infelizes, podemos deduzir que esses mágicos e curadores profissionais, por mais inteligentes que fossem, eram enganadores e charlatões. Sempre que um deles achava necessário dar uma demonstração de seus métodos de tratamento em local público, colocava uma infeliz vítima sobre um colchão de palha no centro de um grande círculo de testemunhas populares, inclusive parentes do enfermo, e entoava estranhos e místicos encantamentos, sempre andando ao redor do doente, aspergindo água supostamente benta e outras coisas simbólicas sobre o corpo. Levava então o doente para casa e o mantinha em reclusão por uma semana ou dez dias, exibindo-o depois ao público como perfeitamente curado.

A multidão sempre se espantava com esses procedimentos, e quanto mais freqüente era a demonstração, mais famoso ficava o mágico e maior o seu lucro. Entretanto, ao que parece, esses charlatões só escolhiam os doentes cujo mal fosse do tipo que a natureza amenizaria com o tempo, ou que pudesse ser curado com ervas medicinais, pois esse era o único tipo de paciente que eles exibiam em público. Quanto aos que eles eram chamados a curar mas que pareciam ter uma doença incurável, ou apresentavam uma condição que a natureza não poderia corrigir rapidamente no curso de seus processos usuais, eles se recusavam a curar em público; levavam-nos para sua própria casa, onde os mantinham por muito tempo e, ou acabavam liberando como curados, ou devolviam aos parentes ou para a pira funerária.

Foi através das práticas desses charlatões, entretanto, que o uso de certas ervas, a aspersão de água e a entoação de encantamentos, tornaram-se procedimentos padrões, assim como temos procedimentos padrões hoje em dia, na cura de certas enfermidades.

Esses encantamentos, entoados cuidadosamente de acordo com certas regras e leis pagas, utilizavam certos sons vocálicos conhecidos pelos antigos como calmantes dos nervos e relaxantes, provocando o sono. Essas fórmulas ou entoações de sons vocálicos místicos, compostos principalmente das vogais de nomes muito sagrados e santos, que o público não tinha direito de usar sob pena de terrível punição, formaram a base de certas fórmulas, preces e métodos de entoação de cânticos, adotados mais tarde por sistemas teológicos mais desenvolvidos, que os introduziram nas sinagogas pouco antes da era cristã, e que mais tarde foram adotados pela igreja cristã, sendo até hoje preservados na forma de hinos e cantos sagrados.

Até que ponto estavam errados os discípulos de Jesus e o próprio Jesus em acreditar que demônios e espíritos imundos podiam tomar posse do corpo físico e do cérebro, provocando doenças e estados físicos e mentais insanos? A igreja de hoje ignora esta questão e o cristianismo de nossos dias abandonou completamente qualquer consideração sobre a crença em maus espíritos e demônios tomando posse de um corpo sadio e nele causando doenças. É nisso que vemos grandes verdades ocultas sob o manto de antigas crenças e assim jogadas no esquecimento.

Os psicólogos e psiquiatras de hoje sabem que o cérebro humano pode se tornar possuído ou obcecado por certas crenças e idéias que se fixam gradativamente na consciência humana e a dominam. Mas eles de modo geral concordam em que essas obsessões só afetam a saúde mental e produzem certos graus ou estágios de insanidade. Para além disso nenhum médico ou psiquiatra moderno ousa dar opinião. Mas os que são estudantes profundos do misticismo e das leis místicas do universo, que se tornaram especialmente familiarizados com os mistérios da mente humana, sabem que é um fato que não só a mente humana pode se tornar gradativamente possuída por idéias fixas, e portanto aparentemente obcecada para além de qualquer controle exterior ou interior, mas também que essa possessão ou obsessão pode causar e freqüentemente causa distúrbios físicos que mais tarde se manifestam na forma de doenças crônicas, degeneração de tecidos, funcionamento anormal de órgãos, e finalmente a morte do corpo. É portanto um fato que muitas formas de enfermidades e condições anormais na parte puramente física do corpo podem ser remediadas ou inteiramente eliminadas retirando-se da mente o "demônio" ou "diabo" que a possui, ou as idéias obsessivas fixadas no cérebro.

E possível remover essas possessões ou obsessões mentais, essas idéias e crenças fixas na mente humana, em um piscar de olhos, ou em poucas horas, se o procedimento correto é seguido. Já foi demonstrado, e pode ser facilmente demonstrado por um prático treinado e experiente, que um pensamento maléfico, que podemos chamar de demônio ou "idéia possessiva", e que é como uma alucinação ou um demônio encarnado na mente, pode ser removido em questão de dias ou mesmo algumas horas, resultando em imediata mudança no estado físico do paciente.

Quando as doutrinas da Ciência Cristã tentam explicar a causa da doença física como um pensamento mortal manifesto no corpo por causa de sua fixação possessiva na mente, elas estão apresentando uma antiga crença em roupagem modificada e com nova forma, e estão corretas ao afirmar que, como instituição religiosa cristã, é essa igreja a única representante das doutrinas cristãs que tenta realizar a obra dos primeiros apóstolos. Mas não é verdade que seja essa igreja a única a ter estudantes e praticantes do antigo sistema de purificar e limpar a mente e o corpo desses males, e de expulsar esses demônios que causam muitas formas de doenças físicas e mentais. A Antiga e Mística Ordem Rosa-cruz (ou os rosacruzes), além de outras escolas secretas de verdadeira metafísica e compreensão mística, em várias partes da Europa e do mundo, praticam as antigas doutrinas e ensinamentos de Jesus e Seus discípulos, sem se tornarem movimentos religiosos e sem se denominarem uma nova igreja ou uma nova forma de religião. 

O poder secreto dessa doutrina repousa no fato de que, se o indivíduo enfermo tem fé na prece a Deus (ou a Jesus, o Cristo, ou a Seus apóstolos), para purgá-lo dos demônios que o estão possuindo, sua harmonização com Deus em sincera oração, ou sua cooperação sincera com um médico, um prático ou um místico que está orando por ele e com ele, provoca em primeiro lugar uma mudança na condição mental que causa o problema, e logo em seguida no corpo físico onde se manifestam os resultados finais dos demônios que estão em sua mente e consciência.

A prece e a fé, nessas circunstâncias, constituem um processo de purificação, e esse grande segredo que Jesus ensinou aos Seus discípulos e que eles praticaram, representa em verdade um dos grandes segredos da cura cristã e de todas as curas puramente metafísicas.

Os discípulos aprenderam de Jesus que preces em forma de um cântico, utilizando os sons vocálicos que têm um efeito positivo sobre a consciência e o sistema nervoso do paciente, são um auxílio valioso; é por essa razão que nas escolas místicas de nossos dias, o que perpetuam as doutrinas secretas de Jesus, e nas igrejas que tentam perpetuar os antigos princípios dos discípulos, a entoação de sons vocálicos e as orações em forma de cânticos continuam sendo um processo curativo muito importante. Vemos então que Jesus ensinou algo secretamente aos discípulos, que Ele não divulgou às massas, e que não foi transmitido aos nossos dias pela religião cristã, como parte fundamental de seus ensinamentos.

Mais uma vez repetimos que é fato que muitas formas de doenças mortais e físicas são verdadeiramente resultado de obsessões e alucinações, e podem ser classificadas como obsessões e possessões. Nesses casos, será inútil tentar tratar o corpo e o cérebro com remédios ou outra forma de terapia, sem antes purificar a mente pela aplicação das leis secretas que Jesus conhecia tão bem e que utilizou tão profissional e eficientemente em Sua missão e ao longo dos anos em que realizou Sua grande obra.

Devemos agora passar à análise de outras provas da existência da escola secreta e do trabalho nela realizado por um número maior de discípulos e estudantes do que os doze que constituíram Sua assembléia particular ou sua junta secreta de conselheiros.

CAPÍTULO VIII: O maior dos milagres

 

Houve um milagre realizado por Jesus que foi o maior de todos, seja qual for a perspectiva com que o analisemos. O poder de realizar o mesmo milagre foi transferido aos discípulos por Jesus, ficando compreendido que o poder de retransferi-lo passaria para eles, e que de mestre a estudante e de discípulo a discípulo, através dos séculos, esse poder de realizar o maior dos milagres seria a herança divina daqueles que seguissem Seus ensinamentos, desenvolvessem Suas doutrinas e evoluíssem para o status de fraternidade cristã. Nas pregações das doutrinas cristãs modernas, salienta-se bastante a promessa de que a vida dos redimidos, a vida dos seguidores das doutrinas cristãs, é imortal, de modo que a morte causará apenas uma mudança de lugar e de condição de existência. Não há nada de novo nessa doutrina da imortalidade, pois há muitas referências a ela e muitas formas de fé na imortalidade entre os mais antigos ensinamentos e rituais místicos e espirituais. Mas a maneira como Jesus revelou a lei da imortalidade e depois a demonstrou em Sua própria vida deu à doutrina uma nova forma e interpretação.

Não é surpreendente, portanto, que a última grande lição que Jesus ensinou a Seus estudantes secretos e demonstrou diante deles estivesse intimamente ligada ao Seu ensinamento sobre a doutrina da imortalidade. Com efeito, Jesus salientava constantemente o fato de que o homem podia viver e haveria de viver de novo, e continuamente, desde que O seguisse na Senda, rumo à perfeição espiritual. A crucificação de Jesus Lhe deu a gloriosa oportunidade de provar Sua sinceridade, Seu valor e Sua fé absoluta nas doutrinas que transmitia. Permitiu-Lhe demonstrar ao Seu grande número de estudantes, particularmente aos apóstolos, que Ele estava disposto a fazer o maior de todos os sacrifícios em prol da mensagem e missão divinas que era Seu propósito revelar aos que estivessem preparados para recebê-las.

Enquanto estava na cruz, sofrendo os mais terríveis tormentos físicos, e sendo ao mesmo tempo vítima da tortura mental e da humilhação que os acompanhavam, Ele se expressou em palavras e termos destinados a avivar e fortalecer a fé que Seus estudantes tinham em Seus ensinamentos e no cumprimento de uma das maiores promessas que Ele lhes fizera.

Jesus lhes prometera o milagre dos milagres, a garantia de um poder como o Seu, e uma autoridade divina semelhante, pela qual, e através da qual, eles poderiam fazer as mesmas coisas que Ele havia feito, e até coisas maiores.

Em torno Dele, naquela multidão mortal de gente de bom e mau caráter, de almas desventuradas, mentes duvidosas, testemunhas zombeteiras, oficiais temerosos e crentes espantados, havia alguns que tinham razão para pensar que aquela era a ocasião de encerramento do capítulo final da vida de Jesus, cortando pela raiz a gloriosa carreira que eles tinham previsto. Verdadeiramente, Seus estudantes e discípulos sinceros tinham vivido, tinham existido Nele, por meses e anos. Sua fé no futuro era uma parte da própria fé do Mestre. Sua esperança era baseada nas esperanças do Mestre.

Suas ambições, Seus desejos, Sua determinação de ensinar e demonstrar Suas doutrinas no futuro, dependiam do sucesso de Sua missão na Terra. Mas ali, naquela hora, o homem que havia expulsado demônios, que havia tirado demônios de corpos torturados, que fizera os coxos caminharem direito, os cegos enxergarem, e até mesmo os mortos se levantarem e viverem novamente, estava prestes a ser aniquilado e removido para sempre da face da Terra por Seus inimigos, contra os quais Ele parecia impotente para Se proteger ou defender Sua fé e Suas doutrinas.

Tudo estava prestes a ruir enquanto Seu corpo se tornava lasso e sem vida. A centelha de poder divino que Ele mantinha em Sua consciência estava para ser extinta. Em pouco tempo um deles, um dos mais devotados e leais estudantes secretos, chamado José, cumpriria sua promessa de proteger secretamente aquele corpo ferido e mutilado, colocando-o num túmulo cuidadosamente preparado, e o fechamento desse túmulo marcaria o final do livro da vida, dos ensinamentos, das doutrinas e dos milagres daquela que era a maior de todas as escolas secretas. Não é de admirar que os céus escurecessem, que as nuvens se fundissem pesadamente, os raios riscassem o espaço e o trovão retumbasse! No dia seguinte começaria um ciclo negro no desenrolar da existência humana na Terra. Seria o início do fim, e o homem desceria aos infernos como tinham profetizado as Escrituras.

Mas antes que a consciência no corpo crucificado adormecesse e os lábios silenciassem, Jesus pronunciou mais uma vez a promessa de que entraria no Reino dos Céus e continuaria a viver, e de que Seu compromisso para com Seus estudantes secretos seria cumprido.

Em silêncio e profunda compreensão mística, Seus muitos estudantes e apóstolos afastaram-se da multidão e, por trajetos indiretos, chegaram ao local de reuniões secretas, para se unir em oração e esperar o que estavam certos de que ocorreria no dia seguinte.

E então, quando chegou o outro dia, souberam que Jesus tinha desaparecido do túmulo!

Podemos compreender a surpresa dos que haviam zombado, e dos oficiais que perceberam que a responsabilidade por esse inesperado acontecimento poderia recair sobre seus ombros. Podemos compreender o espanto na mente e no coração daqueles que haviam sido tentados a crer, mas que precisavam apenas de mais essa demonstração para se convencer. Também podemos compreender o silêncio e a crescente fé que invadiu a alma e o coração dos estudantes reunidos em oração, não muito distante do local da crucificação. Eles sabiam que, se Jesus não estava mais no túmulo, então não estava mais inconsciente, não mais estava "morto" no sentido proclamado pelos oficiais e que a lei considerava suficiente. Sabiam que Ele continuava a viver e que no devido tempo, de acordo com um antigo ritual de ressurreição que eles haviam realizado muitas vezes, simbolicamente, em seu templo secreto, Jesus apareceria entre eles.

O fato de Ele continuar invisível para a multidão reforçou a crença da mesma. De acordo com o antigo Livro dos Mortos, e com todos os antigos rituais que eles haviam revisado em seus estudos secretos, certo número de dias e noites deveria passar antes que o Cristo vivo fosse novamente visível. E assim aconteceu que, após o devido número de dias, Jesus se tornou visível à consciência objetiva e material do homem, e foi primeiro visto por alguém que muito O amava, uma mulher. Sua notícia desse fato realimentou a fé e a esperança dos discípulos, que se reuniram apressadamente para esperar a chegada do Mestre. E assim, enquanto eles estavam reunidos, cem ou mais no total, à exceção de Judas, com as portas e janelas fechadas e todos os pontos do local sob severa observação e proteção, Jesus apareceu entre eles. Eles Lhe perguntaram se era aquela a hora do cumprimento de Sua grande promessa, da demonstração do milagre dos milagres, e Ele respondeu em termos que só estudantes dos antigos mistérios poderiam compreender então como agora. Respondeu Ele: "Não vos cabe conhecer a hora ou a estação que o Pai colocou sob Seu próprio poder". Em outras palavras, Ele lhes explicou que não lhes cabia compreender naquele momento em que hora ou estação, que dia ou momento, o grande milagre seria realizado, pois não possuíam o poder que Seu Pai do Céu possuía e que Ele possuíra até a hora da crucificação e entregara enquanto estava na cruz. Aquele poder havia retornado à sua fonte divina e nenhum homem o possuía naquele instante.

Entretanto, Jesus falou mais uma vez, assegurando-lhes que isso não significava o abandono de Seus planos nem a morte das esperanças dos discípulos. Suas palavras foram simbólicas mas categóricas: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo que descerá sobre vós;e me sereis testemunhas em Jerusalém, e em toda a Judéia è na Samária, até os confins da terra". (Atos, Capítulo I). Estas palavras estão expressas de forma semelhante em diversos registros e contêm as chaves místicas de uma grande fórmula divina. Ele os havia saudado com a saudação mística "A paz esteja convosco!", ilustrando de modo típico o que quisera dizer em uma cerimônia mística anterior. Mostrou-lhes então as partes feridas e mutiladas de Seu corpo para provar que o corpo estava efetivamente "partido" como Ele havia partido o pão e lhes dado para comer, e também mostrou-lhes o sangue fluindo de Seus ferimentos, conforme fora simbolizado pelo vinho que Ele havia derramado do cálice.

Em seguida, Ele realizou a primeira parte do milagre dos milagres. Não foi o ato culminante que todos aguardavam, e sim o primeiro passo de um procedimento cerimonial cujo ritualismo estava inscrito na consciência de Deus e por Ele fora decretado. Enquanto eles se mantinham ajoelhados formando dois triângulos entrelaçados dentro de um círculo, como haviam feito em muitas outras ocasiões, Ele elevou as mãos, de pé no centro daquele desenho místico formado pelos estudantes, e mais uma vez disse: "A paz esteja convosco; assim como meu Pai me enviou, assim eu vos envio agora". São estas as palavras de São João no capítulo vinte, mas em outros registros lê-se que Jesus disse: "A paz esteja convosco! Assim como meu Pai me enviou e para mim transferiu o poder do Espírito Santo, assim eu agora vos ordeno e preparo para receberdes o poder do Espírito Santo que era meu".

De acordo com os Livros do Novo Testamento, Jesus então soprou sobre eles e lhes disse: "Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, aqueles a quem redimires, estarão redimidos". 

Soprar sobre eles foi um procedimento muito sagrado e divino. Essa foi a única vez durante toda a história da vida de Jesus e durante todo o Seu ministério em que Ele soprou sobre qualquer outro ser humano, e foi a única ocasião em que Ele disse oficialmente, com relação a uma cerimônia, "Recebei o Espírito Santo!". Este foi o primeiro ato do milagre dos milagres. Deve-se notar que Jesus não disse: "Eu vos outorgo o poder do Espírito!" nem "Eu vos transfiro de mim o poder do Espírito Santo e ele agora habita em vós". Jesus não tinha mais o Espírito Santo, com o seu poder, pois Ele o havia entregue na cruz. Mas, como mensageiro divino do Pai, Ele foi o canal através do qual o Espírito Santo passou do Pai para os discípulos. Soprar sobre eles foi tão-somente a preparação para a descida e entrada do Espírito

Santo, e Jesus simplesmente lhes disse que eles se aperceberiam imediatamente de tê-lo recebido.

O restante da fórmula usada por Jesus quanto à remissão dos pecados era parte das doutrinas secretas que eles compreendiam claramente. A chave para a explicação dessa fórmula só poderá ser encontrada na doutrina do Carma conforme Jesus a ensinou secretamente aos discípulos e conforme citou alegoricamente em algumas parábolas e injunções às multidões.

Deve-se observar que em todas as interpretações estritamente ortodoxas dessa fórmula mística, tal como é discutida, analisada e comentada pelos mais autênticos e reconhecidos comentários e enciclopédias bíblicas, tomou-se a atitude de que a fórmula não conferiu aos apóstolos o direito de perdoar ou redimir pecados. Argumentaram os autores desses livros tão reverentes que o poder de redimir pecados nunca foi exercido pelos apóstolos e que nunca eles próprios entenderam que possuíam esse poder ou que ele lhes tinha sido transmitido. Algumas autoridades eclesiásticas vão ao ponto de dizer que "o poder de intromissão nas relações entre o homem e Deus não pode ter sido outorgado por Cristo a Seus ministros a não ser num sentido ministerial ou enfático".

Mas isto é um erro de opinião devido ao fato de que a natureza mística da fórmula foi oculta pelos próprios discípulos, sendo apenas uma entre as muitas doutrinas secretas de Jesus que a igreja cristã moderna esqueceu ou interpretou incorretamente. Essa compreensão errônea ou interpretação incorreta da fórmula é parcialmente responsável pela opinião de muitos milhares de cristãos de que o sacerdote da Igreja Católica Romana tem o poder de perdoar ou redimir pecados em nome de Jesus, o Cristo. Entretanto, se esse poder nunca tivesse sido transferido para os discípulos, não poderia ter sido transferido para fundadores da Igreja Católica Romana e por estes aos padres.

De acordo com a Lei do Carma, uma das doutrinas secretas, Jesus disse aos Seus discípulos, no tocante à chegada desse poder do Espírito Santo que lhes permitiria fazer milagres e dar prosseguimento à grande missão, que aqueles cujos pecados eles perdoassem, teriam esses pecados redimidos como um débito cármico pelo qual deveriam fazer compensação; que, embora os pecados fossem perdoados, não seriam esquecidos, e não poderiam ser completamente redimidos até que os próprios indivíduos tivessem feito compensação por cada pecado; e, por outro lado, aqueles pecados que eles perdoassem ou deixassem de perdoar, os próprios discípulos teriam de assumir como débito cármico pelo qual teriam de fazer compensação ou ajustamento. Em outras palavras, se os discípulos perdoassem os pecados de um indivíduo, o indivíduo teria a responsabilidade da compensação como sua cruz, e até que ele aliviasse o fardo dessa cruz pela completa compensação, os pecados remidos continuariam a pesar sobre ele. Mas, se o discípulo, por seu critério, se recusasse a perdoar os pecados de qualquer indivíduo, decidindo que eram pesados demais, ou que o indivíduo era indigno e não merecedor dessa remissão ou desse perdão, esse discípulo, por agir como juiz e julgar outrem, assumiria a responsabilidade da dívida cármica juntamente com o pecador.

Nas doutrinas secretas ensinadas por Jesus, e mais tarde transmitidas às escolas secretas até os nossos dias, a mesma fórmula é expressa da seguinte maneira: se a pessoa dotada do poder e do Espírito Santo para auxiliar e assistir o pecador puder indicar-lhe o modo de purificar-se de seus pecados pela compensação, assim removendo a mancha de sua alma e consciência, ela transferirá o fardo do pecado da divina consciência ou registro divino para a consciência do pecador, entendendo-se que, se o pecador se purificar de seus pecados fazendo a devida compensação, livrar-se-á da cruz ou fardo cármico, ficando puro e preparado para a redenção. Mas aquele que ousar negar o conhecimento e o conselho que possam capacitar o pecador a se purificar fazendo compensação e purgando sua alma de pecados, formando assim juízo final e determinando-o indigno de redenção, tornar-se-á portador dos pecados não redimidos e do débito cármico, de modo que ele próprio terá oportunamente de fazer compensação por aqueles pecados ou sofrer as conseqüências junto com o pecador.

Nessa fórmula se expressa a antiga e mística injunção segundo a qual aquele que está na Senda ou caminhando na Luz, capacitado para dar orientação e auxílio espiritual a outrem, e ousa julgar o outro e decidir que um pecador ou outro é culpado demais para alcançar a redenção, ou está além dos limites da remissão de seus pecados, torna-se não só um pecador, mas, ousando julgar seu próximo, assume uma responsabilidade e deve carregar junto com o outro o fardo do carma que obteve para si mesmo por seu julgamento. Ele é exortado, portanto, a não tentar julgar (ou condenar) seus semelhantes, a não tentar dizer que um pecador qualquer é indigno da remissão de seus pecados, pois desse modo se tornará imediatamente culpado pelos mesmos pecados e deverá partilhar com o outro pecador o peso de sua cruz.

Depois dessa instrução específica, eles caminharam em silêncio com Jesus para a quietude do pôr-do-sol e reuniram-se novamente numa gruta embaixo de uma grande rocha, onde foram realizados os rituais finais daquela cerimônia mística, seguidos de preces, entoações e atos cerimoniais.

Depois, a grande assembléia se dispersou e Jesus mais seus onze apóstolos, ficando sozinhos, foram para o alto da rocha sob a qual havia sido feita a reunião, e formando um círculo com Jesus no centro. Enquanto cruzavam os braços em mística saudação, com a mão direita sobre o lado esquerdo do peito e os pés em posição adequada, como símbolos do seu ritualismo, formou-se uma nuvem no centro do círculo. Isto não os surpreendeu, pois a formação dessa nuvem já havia sido testemunhada em muitas ocasiões anteriores e eles conheciam a lei segundo a qual era ela formada, e sabiam que, depois que o poder para fazer isso e outras coisas lhes fosse conferido, também eles formariam a nuvem em determinadas ocasiões. As antigas escolas de misticismo e ciência divina têm praticado a formação dessa fórmula por muitas eras, e seu segredo ainda está em prática nas escolas místicas de hoje. Quando essa nuvem é formada, os que estão envoltos por ela ficam invisíveis, mas nesse caso Jesus não só ficou invisível como pareceu elevar-se com a nuvem. A certa altura, a nuvem foi se dissolvendo e a forma espiritual e física de Jesus desapareceu.

Enquanto observavam essa estranha demonstração de poder divino, os apóstolos sentiram como que um influxo do poder divino do Espírito Santo, que desceu sobre eles como havia descido sobre Jesus na ocasião do Seu batismo.

Esse foi o milagre dos milagres, pois com a descida do Espírito Santo os onze apóstolos se tornaram os herdeiros vivos do poder divino que Jesus havia possuído e que eles poderiam transferir do mesmo modo a todos os que fossem dignos, bem como usar para expandir sua missão e a missão de Jesus pela redenção do homem.

CAPÍTULO IX: Mais comprovação bíblica

 

 

 

É evidente que muitos leitores e possivelmente um grande número de cristãos dedicados questionarão a autenticidade de minhas declarações sobre o número efetivo de discípulos ou estudantes e fiéis seguidores que participaram da escola secreta organizada e dirigida por Jesus.

Acredita-se comumente que Jesus tinha doze companheiros que não só eram os doze apóstolos mas também os únicos estudantes pessoais e particulares instruídos por Ele, sendo, portanto, os únicos que poderiam ter posse de quaisquer ensinamentos secretos que Ele pudesse ter revelado. Assim sendo, minha afirmação de que havia cento e vinte membros em sua escola particular, inclusive os doze apóstolos, exige comprovação bíblica.

Espero ser perdoado, neste ponto, por divergir momentaneamente do assunto geral para um assunto paralelo, qual seja, a exigência de autenticação e comprovação exclusivamente pela Bíblia.

Muitos eminentes eclesiásticos (e centenas de dedicados estudantes da Bíblia) que leram meu livro anterior, A Vida Mística de Jesus, escreveram longas cartas exigindo que eu fornecesse provas ou alguma forma de confirmação de muitas das declarações feitas nesse livro. Mas em todos os casos eles exigiram que a comprovação, autenticação ou os elementos de apoio parcial, fossem tirados da Bíblia cristã ou "das Escrituras Sagradas", como preferiam denominar essa fonte de informação.

Achei estranho que alguém que estivesse exigindo a verdade, ao mesmo tempo restringisse sua fonte e limitasse o canal de sua expressão. Afinal de contas, não haveria outras fontes de dados históricos, outras formas de conhecimento autêntico sobre o tempo dos cristãos e as doutrinas cristãs, a não ser as que se encontram na Bíblia cristã ou nas Sagradas Escrituras? Se isso fosse verdade, por que então estariam os teólogos e patriarcas cristãos, e os mais eminentes pesquisadores teológicos do mundo, vasculhando todos os pontos da história antiga e todas as regiões de países antigos para encontrar o que chamam de evidências cumulativas ou evidências mudas que comprovassem as declarações feitas na Bíblia? Se é possível encontrar provas fora da Bíblia cristã, por que então limitar a autenticação ou a sustentação das afirmações históricas cristãs única e exclusivamente à Bíblia? Se nada é confiável a não ser o que está escrito na Bíblia cristã, ou aceitável em relação à vida do Cristo e Seus ensinamentos e atividades, então por que toda essa pesquisa, essa busca tão antiga, essas custosas explorações, esses laboriosos estudos e análises de escritos antigos, na esperança de encontrar mais e mais fatos que lancem luz sobre a história cristã e as doutrinas cristãs?

Se tudo o que se refira à vida do Cristo e das instituições cristãs tem de se basear na Bíblia cristã para que seja autêntico e confiável, então nada além da Bíblia cristã precisaria ser escrito sobre a vida de Jesus e Seus ensinamentos. No entanto, milhares de livros já foram escritos interpretando, analisando e explicando passagens da Bíblia, e outros milhares de livros foram escritos em todas as línguas citando evidências históricas, evidências mudas e todas as outras formas de evidência encontradas fora da Bíblia cristã, apoiando ou tendendo a apoiar e lançar nova luz sobre as afirmações da Bíblia cristã.

Muito já foi escrito por autoridades em Bíblia relativamente aos escritos históricos de Josephus, e uma lente de aumento já foi aplicada a todos os trechos de suas obras, acompanhada de argumentos sobre se eles confirmam ou não as declarações da Bíblia cristã sobre Jesus e Sua grande obra. Por que estudar o livro de Josephus e por que mesmo citar qualquer coisa que ele tenha dito, se afinal a única prova confiável pode ser encontrada no Novo Testamento? 

Certamente, é uma idéia errônea, daqueles que estabeleceram uma atitude preconceituosa para com este assunto, a de que as únicas comprovações aceitáveis são as que se encontram na Bíblia. Muitas coisas contidas na Bíblia cristã não poderiam ser compreendidas hoje em dia se não fosse pela luz lançada sobre muitas de suas passagens por dados externos. A pesquisa histórica e, aliás, a pesquisa em todos os ramos das ciências e das artes, tem tendido a lançar nova luz sobre a Bíblia e dado ensejo a comprovações ou modificações de trechos obscuros. Quase mensalmente, e com certeza anualmente, no decorrer dos últimos séculos, explorações geológicas, geográficas, astronômicas e históricas têm nos oferecido muitos conhecimentos novos ou têm comprovado antigas informações relativas a Jesus e Seu tempo, Seus ensinamentos e Sua maravilhosa missão. Mas aqueles que têm preconceitos, mas ao mesmo tempo se consideram sinceros e honestos estudantes da pesquisa bíblica e das verdades cristãs, recusam-se a aceitar qualquer comprovação ou evidência externa que não apóie e confirme minuciosamente cada palavra e cada trecho das versões antigas e modernas da Bíblia cristã.

Não obstante, a própria pesquisa bíblica, levada a cabo durante séculos por grupos acompanhados de tradutores e intérpretes oficialmente escolhidos, tem constantemente produzido novas interpretações, versões e nova compreensão de muitas passagens da Bíblia. A versão do Rei Jaime, tão comumente aceita agora, representou uma apreciável modificação de alguns pontos importantes de interpretações e versões dos Livros da Bíblia que eram anteriormente aceitas. Em épocas muito recentes, muitas palavras ou passagens importantes e significativas dos Evangelhos Sinópticos foram bastante modificadas e alteradas, às vezes a um grau extremo. Se essas modificações são aceitáveis ou permissíveis, então temos de admitir que todos os períodos, vírgulas e palavras de muitas versões antigas e recentes podem um dia ser contestadas, de modo que não devem hoje ser aceitos como a verdade inquestionável, tal que alguma evidência externa, ou a comprove completamente, ou seja completamente rejeitada. Exigir que um livro como este ou como A Vida Mística de Jesus só contenha declarações conformes com a Bíblia cristã significa que o autor deveria simplesmente ter reescrito a Bíblia, exatamente com as mesmas palavras, ou então não ter escrito nadai Essa atitude exclui a possibilidade de se lançar nova luz sobre os múltiplos mistérios que cercam a vida e os ensinamentos de Jesus, o Cristo.

Voltando ao nosso assunto principal, sentimos que é uma felicidade que neste caso particular haja evidências, nas versões geralmente aceitas e adotadas da Bíblia cristã, que apóiem e comprovem minhas afirmações sobre o número real de estudantes e colaboradores íntimos na escola secreta dirigida por Jesus.

Se procurarmos no Livro dos Atos dos Apóstolos, começando no versículo doze do primeiro capítulo, o que os discípulos e seguidores passaram a fazer após a crucificação, o sepultamento e a Ascensão de Jesus, verificaremos que um certo dia eles deixaram o Monte das Oliveiras e secretamente se dirigiram para seu local privativo de reunião e estudos, onde se reuniram da maneira usual. O 13º versículo desse capítulo indica claramente que eles retornaram ao local costumeiro, naquele período. Em outras palavras, eles não se reuniram em um novo local, e sim no local onde tinham se encontrado por algum tempo. Não está indicado se foi no local onde ocorreu a Última Ceia, ou onde cerimônias foram realizadas em segredo, mas eles não se reuniram em um novo local. Os versículos 13 e 14 nos dizem quais eram os discípulos principais que lá se encontravam: "Pedro e Tiago, João e André, Felipe e Tome, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão o zelador, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente em oração e súplicas, com as mulheres, e Maria mãe de Jesus, e com Seus irmãos".

Vemos nesses versículos que não só os apóstolos estavam presentes, mas também "as mulheres", e Maria mãe de Jesus e Seus irmãos (irmãos de sangue de Jesus).

Talvez muitos cristãos fiquem surpresos com as palavras acima, pois no versículo 14, acima citado, há três verdadeiras surpresas para muitas pessoas. A primeira é a de que entre os apóstolos e discípulos de Jesus que se reuniam secretamente havia mulheres. Várias passagens da Bíblia sugerem que as mulheres não haviam sido excluídas do discipulado secreto da escola original criada por Jesus.

Faz algum tempo, numa discussão sobre a vida e as atividades de Jesus com um patriarca eminente e sacerdote da Igreja Católica Grega, perguntei-lhe qual era, em sua opinião, uma característica notável ou singular da igreja cristã, em comparação com as antigas religiões e religiões contemporâneas de Jesus. Após alguns minutos de profundo pensamento, ele disse acreditar que era a posição que a igreja concedia às mulheres e o reconhecimento da igualdade de direitos que a igreja cristã deu às mulheres graças à atitude de Jesus com respeito a elas. Quanto mais analisamos esta resposta, mais evidentemente verdadeira ela se torna. Até que Jesus aceitasse as mulheres em base de igualdade com os homens sob Seu manto, levando-as em consideração como seres humanos dotados de alma, elas tinham uma posição muito baixa, humilde e mesmo não reconhecida na maioria das religiões e dos movimentos religiosos da Palestina.

Comentou-se muitas vezes que Jesus nunca amou ninguém ou então amou tão profundamente que não Se permitiu referir-se a isso como emoção humana. Leitores irrefletidos das doutrinas cristãs, ou pessoas que leram a Bíblia através de óculos coloridos, têm afirmado que Jesus nunca devotou um só pensamento humano às mulheres. Outros têm declarado que Jesus as encarava com absoluta indiferença. Outros ainda tentaram dar importância extraordinária ao fato de que uma mulher banhou Seus pés em certa ocasião, e de que, na crucificação, mulheres demonstraram seu amor e adoração por Ele. Há passagens na Bíblia cristã que indicam que houve ocasiões em que Jesus se sentiu bastante chegado a certas mulheres, e falou com elas de modo a demonstrar que as tinha em mais alta estima do que a maioria dos homens daquele tempo. Também devemos lembrar que Ele se deixou ver primeiro por uma mulher, após a crucificação e ressurreição. Pode-se considerar esse encontro "casual", mas esse tipo de pensamento diminui todos os poderes de Jesus, pois à luz de Seus outros milagres e centenas de outros atos, devemos estar convencidos de que Ele poderia ter evitado esse encontro "acidental" com uma mulher, se tivesse preferido fazer sua primeira manifestação de ressurreição a um de Seus apóstolos.

Não somente Sua atitude em relação à adúltera demonstra que Ele tinha uma compreensão compassiva dos problemas das mulheres, especialmente naquele tempo e relativamente aos códigos civis e morais da época, e que Ele sentia ternura e bondade por todas as mulheres, especialmente as infelizes, como muitas outras passagens indicam que as mulheres tinham um lugar muito especial de consideração em Sua vida, embora Ele percebesse suas limitações dentro dos códigos então existentes. Apesar de toda a compreensão e o poder, a autoridade e a instrução que Ele lhes pudesse dar, ainda assim elas teriam sido incapazes de levar adiante Sua missão com a mesma liberdade de movimento e expressão que era comum aos apóstolos.

Assim, a surpresa desse versículo pode estar na afirmação de que havia mulheres entre Seus muitos estudantes secretos. Com base em todos os antigos registros relativos à organização e manutenção de escolas secretas, não podemos duvidar de que havia um número equivalente de homens e mulheres nessa escola cristã, e de que, exceto pelo grau de apostolado que era limitado aos doze pelos códigos, costumes e regulamentos do país, Jesus teria dado poder e autoridade às mulheres qualificadas, em igualdade com os homens.

A surpresa seguinte é que entre essas mulheres da escola secreta estava Maria, Sua mãe. Essa é a última menção à Maria na Bíblia cristã. O fato de que ela era uma estudante capaz, qualificada mesmo desde o nascimento para se tornar apóstolo ou discípulo como qualquer outro que Ele escolhesse, é demonstrado em meu livro, A Vida Mística de Jesus. Indivíduos que pretendem ser, ou dizem que são profundos estudiosos da Bíblia, declaram que Jesus era totalmente indiferente às mulheres, preferindo não tê-las por perto, e para apoiar esse argumento salientam que Ele chegou a censurar Sua mãe em certa ocasião, dizendo-lhe que não O aborrecesse insistindo para que ela fosse para casa, e que seguisse seu caminho e O deixasse em paz, pois Ele tinha importantes negócios para resolver com relação às instruções de Seu Divino Pai. Essa aparente censura, feita quando Ele era muito jovem, costuma ser ampliada e exagerada com uma interpretação totalmente errônea.

Se não fosse por aquele versículo do primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos, talvez fosse interessante citar muitas outras passagens mostrando que Jesus não estava grosseira e impacientemente censurando Sua mãe quando lhe falou daquele jeito durante sua visita à sinagoga. O fato de que Maria era um de seus estudantes secretos, particulares e de confiança, no mesmo nível dos demais, indica indubitavelmente que Ele nunca era impaciente com ela e não a considerava indigna de Sua companhia nem incapaz de compreender Sua missão na vida.

A terceira surpresa do versículo 14 está nas quatro últimas palavras: "e com Seus irmãos". Em muitas partes da Bíblia cristã há referências aos irmãos de Jesus, e tem sido prática comum de muitos teólogos, pregadores e analistas das Escrituras, tentar explicar que toda a humanidade representava os "irmãos" de Jesus, de modo que Ele costumava Se referir a todos que estavam por perto e pertenciam ao sexo masculino como Seus irmãos, e Se referia particularmente aos discípulos e apóstolos como Seus irmãos, jamais querendo dizer irmãos de sangue. No caso em pauta, entretanto, Jesus não estava usando a palavra irmãos; foi um dos Seus seguidores que empregou o termo tal como é empregado em várias outras partes da Bíblia e de um modo que não pode ser interpretado senão da maneira correta. Se consultamos, por exemplo, o capítulo 13 de Mateus, versículo 55, lemos o seguinte: "Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama Sua mãe Maria, e Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?"

Para os que ficaram surpresos com o fato de Jesus ter vários irmãos, haverá uma nova surpresa ao nos referirmos a Suas irmãs. No entanto, logo no versículo seguinte do capítulo 13 de Mateus, lemos: "E não estão entre nós todas as suas irmãs?"

No capítulo 7 de João, lemos no versículo 10: "Mas quando Seus irmãos já tinham subido à festa, então subiu Ele também, não manifestamente, mas como em oculto". Aqui temos novamente uma referência inquestionável a Seus irmãos de sangue. Para comprovar isto, lembremos a história que nos conta o capítulo 7 de João.

Como acontece em muitas famílias em que há um profeta ou um gênio, um sábio ou uma Luz entre os homens, os outros membros da família podem encarar com dúvida e ceticismo suas afirmações, pretensões, e mesmo seus atos manifestos de sabedoria, e este foi o caso de Jesus. Logo no início de Sua carreira, os membros de Sua família, exceto Sua mãe, provavelmente questionaram a grandeza e divindade de Sua missão. Podem mesmo ter zombado e ridicularizado Suas primeiras pregações. O capítulo de João acima citado nos conta como Jesus agia abertamente mesmo após ter sido avisado de que os judeus e outros procuravam matá-lo. Assim, o terceiro versículo desse capítulo nos diz o que Seus irmãos Lhe disseram: "Sai daqui e vai para a Judéia a fim de que também Teus discípulos vejam as obras que fazes”.

No versículo seguinte vemos que "Seus irmãos" disseram: "Porque não há ninguém que procure ser conhecido que faça coisa alguma em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo". No versículo seguinte, o quinto, lemos: "Porque nem mesmo Seus irmãos acreditavam Nele".

Nesses versículos verificamos que há uma clara distinção no versículo 3 entre Seus irmãos e Seus discípulos, e a alusão ao fato de que Seus irmãos não acreditavam Nele não poderia ter se referido aos discípulos. No versículo 8 Jesus diz aos Seus irmãos para irem à festa e que Ele apareceria lá mais tarde. 

Levando em consideração tudo o que foi dito, vemos que os versículos 13 e 14 do primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos nos dá provas consideráveis com respeito ao que ocorria nos períodos particulares da vida de Jesus, quando Ele estava fazendo Seus planos e realizando Sua missão em segredo através de Sua escola.

Se o leitor está surpreso ao verificar que Sua mãe e muitas outras mulheres, bem como Seus irmãos, e sem dúvida Suas irmãs, faziam parte de Seu grupo de estudantes particulares, a próxima grande surpresa estará provavelmente no seguinte versículo, de número 15, onde vemos: "E naqueles dias, levantando-se Pedro no meio dos discípulos (ora, a multidão junta era de quase cento e vinte pessoas)..." Antes de expormos o que Pedro lhes disse, notemos a clareza com que este versículo apresenta o fato de que o número de pessoas nessa reunião secreta, inclusive a mãe e os irmãos de Jesus, e mulheres em geral, era cento e vinte. Isso certamente não limita esse número aos doze, e também vemos nesse versículo que Pedro levantou-se em meio aos "discípulos", que incluíam os irmãos de Jesus, conforme explica o versículo 14. A distinção entre esses dois termos é mais uma vez bastante significativa.

Ora, o motivo dessa reunião de todos os membros da escola secreta era um assunto muito importante. Notamos que o versículo 14 diz que todos os que estavam assim reunidos "perseveravam unanimemente em oração e súplicas". No primeiro versículo do capítulo 2 dos Atos encontramos outra referência ao fato de que "estavam todos reunidos no mesmo lugar", e no versículo 46 lemos que eles continuaram "unânimes todos os dias no templo". Em outros pontos temos referências a essa reunião "no templo", como por exemplo no versículo 53 do capítulo 24 de Lucas.

Esse local de encontro num aposento superior, conforme diz o Livro dos Atos, esse local secreto de reunião para onde eles estavam acostumados a se dirigir, era seu "templo secreto", termo usado na antigüidade por todas as escolas secretas. Na verdade, o termo templo, usado para indicar um local de encontros restrito, segregado e sagrado, foi usado primeiramente pelas primitivas escolas secretas, e a palavra por elas utilizada é corretamente traduzida para a palavra moderna, derivada do latim, templo. É por esta razão que na maioria das sociedades e fraternidades secretas do mundo moderno, especialmente nas que se dedicam ao estudo das filosofias e dos mistérios sagrados, o sanctum sanctorum é denominado templo.

A finalidade dessa reunião especial era a eleição de um novo apóstolo para substituir Judas, que havia traído Jesus e sofrido a perda de sua vida terrena, em decorrência de sua tentativa de escapar à sua própria consciência. Então vemos que Pedro se levantou em meio aos presentes e falou-lhes, depois de longas preces e súplicas, sobre os seguintes pensamentos: "Era necessário que as Sagradas Escrituras do passado e as profecias de nossos dias antigos fossem cumpridas como o Espírito Santo nos havia revelado pela boca de Davi, a respeito de um Judas que guiaria os inimigos para o local correto onde encontrariam nosso grande líder e salvador, Jesus”. Essa terrível manifestação de falsidade e traição, deslealdade e inimizade, tinha de ser cumprida. Fora decretado que Jesus deveria chegar oportunamente à Sua morte pela traição de um Judas. Este era um de nós, nosso companheiro, nosso associado de confiança, mas ele tinha o seu papel com relação ao serviço que deveríamos prestar individual e coletivamente. Ocorreu então que um de nossos companheiros praticou o necessário mas lamentável ato e, com o dinheiro recebido por sua iniqüidade, com as moedas que lhe deram, comprou um campo. E ao correr por esse campo para escapar daqueles que o poderiam ver e reconhecer, e também para escapar às censuras de sua consciência, atravessou o campo correndo para se esconder e caiu e se feriu, o que lhe trouxe a morte; ele sangrou profusamente naquele campo, a tal ponto que todos que ouviram esses fatos passaram a chamar o campo de Acéldama, que significa "campo de sangue".

"Lembrai-vos", disse Pedro à assembléia, "que está escrito no Livro dos Salmos: fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite, e tome outro o seu bispado".

Pedro explicou então que a vaga entre eles deveria ser preenchida por alguém que pudesse dar testemunho de todos os atos de Jesus, inclusive a crucificação e a ressurreição Deveriam eles escolher, portanto, para suceder a Judas, um homem que tivesse sido companheiro deles durante todo o tempo em que Jesus estivera por perto e no meio deles. Então escolheram dois que tinham condição de preencher o cargo vago, um era José, chamado Barrabás, com o sobrenome de Justo, e outro chamado Matias. Depois de fazerem novas preces pedindo a Deus, que conhecia o coração de todos eles, que lhes mostrasse qual dos dois fora escolhido no alto para assumir a parte do ministério e apostolado que Judas havia desertado, finalmente fizeram a votação e Matias foi eleito e considerado um apóstolo entre os doze, completando assim este número.

Se pudéssemos saber os nomes de todos os membros da escola secreta, muitos mistérios ligados à vida de Jesus seriam esclarecidos. Descobrimos, por exemplo, que José de Arimatéia foi discípulo de Jesus mas sob grande sigilo, de acordo com João, capítulo 19, versículo 38.

Segundo outras fontes de informação, esse José era um israelita rico e piedoso, que teve o privilégio de realizar os últimos atos de dever e afeto com relação ao corpo de Jesus. Ele é claramente distinguido de qualquer outro José pela adição de seu local de nascimento ao nome. Em Marcos, capítulo 15, versículo 43, verificamos que José era um senador muito honrado, e por isto devemos entender que ele fazia parte do Grande Conselho do Sinédrio. Isto justifica a razão do sigilo de sua ligação com a escola de Jesus, e porque ele é citado como discípulo secreto. Em Lucas, capítulo 23, versículo 50, vemos que José de Arimatéia era um homem bom e justo, e um daqueles que, tendo no coração as palavras dos antigos profetas, aguardavam o Reino de Deus. A Bíblia nos diz claramente que José não concordou com os conchavos e atos de seus colegas na conspiração para provocar a morte de Jesus. Mas parece que lhe faltou a coragem que o levasse a protestar abertamente contra essas decisões. Por outro lado, conhecendo o acordo e a promessa secretamente feitos por todos os discípulos da grande escola, sabemos que houve ocasiões em que eles foram forçados a guardar silêncio e em que lhes foi proibido protestar e especialmente exercer qualquer poder ou influência de natureza política que desviasse o curso cósmico dos acontecimentos.

Se a crucificação, a ressurreição e a ascensão de Jesus foram predeterminadas, assim como até mesmo Sua traição, de pouco valeria que José revelasse seu relacionamento com Jesus e Sua escola secreta, protestando em vão contra um acontecimento predeterminado. Mas hoje podemos compreender porque José se apresentou ousadamente diante de Pílatos e pediu que o corpo de Jesus lhe fosse entregue, e algum dia talvez possamos saber por que Pilatos foi tão relutante em efetuar a grande farsa de um julgamento, com o crime que disso resultou, e também por que ele consentiu tão prontamente em satisfazer o pedido de José.

Outro ponto importante ligado aos serviços prestados por José é de interesse dos rosacruzes e de todos os místicos das antigas escolas de mistérios. Segundo se informa, esse homem rico possuía um grande túmulo cavado numa rocha, no qual "nenhum cadáver humano tinha sido ainda enterrado", e que estava situado em um jardim que também pertencia a José e ficava "próximo do local da crucificação". O simbolismo disso não deve ser esquecido. O túmulo (onde ninguém até então havia sido enterrado) escavado numa rocha, em um jardim, era mais do que um túmulo comum. Em muitos séculos as escolas de mistério usaram esses túmulos onde só os corpos de seus grandes líderes eram colocados para depois ressuscitarem. O túmulo onde o corpo de Jesus foi colocado por José fora em parte reservado para a escola secreta. Talvez estivesse localizado num jardim de propriedade de José, e pode ser que, sendo um membro rico e piedoso da escola secreta, ele tivesse doado esse túmulo à escola, mas uma parte dele jamais foi destinada a uma pessoa comum ou a um sepultamento comum, de modo que se sabia naquela época que José e seu amigo Nicodemos "envolveram o corpo de Jesus na mortalha de linho (sabendo) que Jesus se levantaria do túmulo".

Apenas de passagem, poderá ser interessante observar que esse mesmo José foi enviado à Grã-Bretanha pelo apóstolo Felipe, mais ou menos no ano 63, estabelecendo-se em Glastonbury com alguns outros discípulos da escola secreta. Lá ele deu continuidade às missões especiais a eles atribuídas por Jesus, e à representação das instituições cristãs, além do lançamento das bases para os ensinamentos e práticas das doutrinas secretas.

Creio que apresentei neste capítulo suficientes provas bíblicas sobre a existência de uma sociedade ou fraternidade singular, as quais poderão satisfazer os mais analíticos estudantes da Bíblia. Mas não tenho esperança de ter satisfeito os clérigos ou padres cristãos.

Verifiquei por meio de cuidadosas pesquisas que muitos teólogos do passado aventuraram a opinião e muitas vezes a declaração positiva de que o número real de verdadeiros seguidores ou discípulos de Jesus era 70. Este número proveio de certas declarações da Bíblia que foram erroneamente interpretadas ou aceitas sem levar outros fatos em consideração. Além disso, contradiz a afirmação que citamos mais acima, relativa à presença de cento e vinte discípulos quando houve a eleição do sucessor de Judas. Alguns teólogos admitiram ter encontrado evidências, na leitura e releitura dos antigos registros judaicos e gregos, de que José de Arimatéia foi um dos setenta discípulos secretos.

Mas parece muito claro que, além dos doze apóstolos de que muito se fala em todas as modernas pregações cristãs, havia um grande número de outros discípulos que não tinham o cargo oficial de apóstolo. O fato, então, de que os seguidores de Jesus estavam divididos em um grande corpo de discípulos com um círculo interior de doze apóstolos, de imediato nos apresenta um quadro claro do antigo sistema de sociedades secretas e afiliação secreta. Qualquer argumento que possa vir dos críticos deste livro no sentido de que a única razão de Jesus ter discípulos secretos era que Ele estava se escondendo ou tentando Se esconder dos inimigos, e de que Seus discípulos também tinham de se ocultar para proteger a própria vida, tem em contrapartida o fato de que somente no período final de Suas atividades Jesus tentou qualquer sigilo quanto ao Seu paradeiro ou julgou necessário que Ele e Seus discípulos agissem em segredo. Contudo, esses cento e vinte discípulos foram tão bem treinados e qualificados que receberam autorização e poder para continuar Suas atividades, cumprir Sua missão e fazer as coisas milagrosas que Ele tinha feito.

Deveremos então acreditar que esses cento e vinte discípulos secretos só se tornaram discípulos secretamente no último ano de vida de Jesus? Deveremos acreditar que eles poderiam ter sido treinados e qualificados em menos de um ano? A única explicação possível para o poder e a autoridade que lhes foram conferidos, e a relação íntima que tiveram com Jesus até o último dia, é a de que eles foram treinados e instruídos por um longo período, e se assim foi, por que não se mencionam as atividades desses cento e vinte discípulos nos primeiros anos da vida de Jesus, enquanto eles eram Seus alunos e colaboradores? A única conclusão é que eles foram membros secretos desde o início e não se desejava que fossem feitas referências a eles em relação à obra de Jesus até que surgisse no último ano a condição que tornasse necessária a revelação de sua existência e suas atividades, bem como de sua participação nos últimos acontecimentos de Sua vida. Se essa é a verdade, Seu grupo de discípulos constituiria uma autêntica sociedade secreta, uma escola secreta típica; e o ritualismo de suas cerimônias, seus métodos de entrada no local secreto de reuniões, os estranhos sinais que utilizavam para identificação e saudação, tudo isso faz lembrar e mesmo repete os processos, cerimônias, sinais e saudações das mais antigas escolas de mistérios, que eram sem dúvida sociedades secretas que ensinavam e propagavam a antiga sabedoria e as antigas doutrinas secretas. 

Essa conclusão é reforçada ainda pelas próprias doutrinas que Jesus pregou abertamente e nas quais as parábolas e alegorias contêm símbolos reconhecíveis, além das doutrinas que Ele ensinou aos discípulos e que eles praticaram e preservaram como as bases da atual igreja cristã. Assim sendo, nossa próxima obrigação será examinar essas antigas doutrinas e nelas encontrar a clara relação com os antigos ensinamentos secretos, a inquestionável fundamentação nos mistérios de outras escolas, e o segredo do poder que o cristianismo possuía nessas doutrinas, que não foram inculcados nem postos em prática nas formas modernas da religião cristã.

CAPÍTULO X: As doutrinas secretas

Seria necessário um volume muito grande, do tamanho e forma de uma enciclopédia, para expor todas as doutrinas e princípios secretos explanados e demonstrados por Jesus em Sua escola secreta, no decurso de Sua existência. Há alguma evidência de que um grande número de princípios menores foram abandonados nos primeiros meses de existência da escola, enquanto um número elevado de outros princípios menores foram unidos em tríades ou grupos de três princípios para formar uma doutrina fundamental, e várias doutrinas principais foram eventualmente modificadas e postas à parte porque não eram apropriadas, propícias ou aplicáveis às peculiaridades de condições e épocas, e teriam pouco ou nenhum valor em outros países em anos futuros.

A melhor maneira de tratar completamente deste assunto e oferecer ao leitor e estudioso uma compreensão básica e abrangente dos segredos essenciais, consiste em escolher as doutrinas que vieram até nós através dos séculos, seja em sua forma prístina ou original, ou ligeiramente modificadas, ou as que foram retiradas do conhecimento público a partir do segundo ou terceiro século e foram mantidas exclusivamente dentro de um certo círculo interior da hierarquia ou do clero cristão.

Talvez o mais fundamental, o mais interessante e o mais revolucionário princípio ensinado por Jesus e que se tornou a base de várias doutrinas Suas tenha sido o que diz respeito ao Seu código moral. De modo generalizado, é reconhecido o fato de que o elemento moral do cristianismo é mais ou menos ideal, mas sem dúvida é uma característica importante, praticável com sutis qualidades e efeitos, mas não compreendida pela média dos cristãos e com certeza revelada incompleta e inadequadamente pelos pregadores e instrutores cristãos.

Desde o início do trabalho missionário de Jesus e no decorrer de toda a Sua carreira, Ele deu grande ênfase à questão da moralidade. Mas Seu código moral parecia espantosamente estranho para os velhos filósofos e religiosos. Talvez só os místicos daquele tempo puderam reconhecer em Seu código moral um princípio muito familiar. Mas era por esse código moral que Jesus avaliava o padrão e a qualidade do caráter e da natureza dos indivíduos que admitia na escola secreta. Esse código era a medida pela qual Ele determinava a aptidão das pessoas que se interessavam por Seus ensinamentos e expressavam um interesse suficiente para lhes garantir o convite para se unirem aos demais num contato mais pessoal e íntimo com Sua sociedade.

Os analistas das doutrinas cristãs expressaram o pensamento de que, comparados com as antigas religiões pagas, a religião e os ensinamentos de Jesus constituíram uma moralidade mais elevada do que a já estabelecida ou reconhecida pelos pagãos ou povos tribais de todo o mundo. Mas esta é uma idéia errônea, devido a uma compreensão incorreta da verdadeira natureza do antigo código moral e do real elemento de mistério presente no código moral estabelecido por Jesus. Veremos que não foi Jesus o criador desse código moral, que o mesmo não era peculiar a Ele, já que existia havia muitas eras nas escolas de mistério, embora fosse algo passível de ser compreendido e aplicado somente por pessoas dotadas de desenvolvimento espiritual e desabrochar místico. Pregar esse código de forma sutil e gradativamente estabelecê-lo como código geral entre pessoas comuns foi verdadeiramente uma tarefa grandiosa e aparentemente impossível que Jesus Se impôs (ou que foi predeterminada para Ele).

Entre os povos antigos e entre os pagãos, mesmo na época de Jesus, o código moral geralmente aceito e aplicado tinha a forma de regras ou regulamentos ditando aos indivíduos que respeitassem as necessidades mais ou menos gerais da comunidade. Esse código moral constituía uma espécie de dever cívico para com o próximo ou para com a comunidade. Era uma coisa totalmente impessoal, baseada no fato de que o elemento essencial da existência humana, no tocante à conduta pessoal, era o Eu exterior e objetivo do homem. Eram os prazeres da carne, naturais ou não, normais ou anormais, que tentavam os homens à maioria dos pecados que eles cometiam e levavam ao maior grau e às maiores manifestações de imoralidade. Em quase todas as escrituras antigas podem ser encontradas alegorias de alguma espécie, muitas vezes quase idênticas à da queda do homem descrita no Velho Testamento. A tentação de provar dos frutos da terra através dos intrigantes sussurros e incitações da serpente (criatura que no simbolismo sempre representou a voz sutil das coisas terrenas e a natureza sutil das manifestações mundanas), exemplificava o pensamento e a idéia de que todo pecado, e com certeza toda imoralidade, provinham do homem exterior através de Seus sentidos mortais e terrenos. Mesmo o "pecado dos pecados”, o maior de todos eles, e qualquer um chamado de "pecado contra um deus", provinham do Eu exterior.

Entretanto, faz-se necessário compreender que, no entendimento dos povos pagãos e povos primitivos, e da maioria das pessoas inteligentes e filosóficas daquela época, não havia um termo de distinção como Eu exterior. Só existia um ego manifesto, tangível e visível. Era o corpo com o cérebro e os sentidos humanos mortais. A existência de uma alma nesse corpo era uma idéia antiga e uma crença geralmente aceita pelos que haviam estudado as antigas filosofias, os antigos mistérios e revelações espirituais. Essa alma, entretanto, não constituía um "Eu" na mente das pessoas, no mesmo sentido em que o corpo constituía um "Eu", e a alma era considerada incapaz de imoralidade ou pecado. Todos os ensinamentos de mistério antigos afirmavam que a alma estava tão intimamente associada com o Espírito Santo, com o sopro da vida, que era algo divino, imortal e perfeito, que entrava no corpo do homem como uma parte de Deus, ou da consciência e do reino de Deus, ficando ali aprisionada com pouca ou nenhuma possibilidade de se expressar, a não ser em casos de grande pressão emocional ou êxtase espiritual, em oportunidades extremas. Acreditava-se e reconhecia-se que o espírito no interior do homem, a alma no interior de seu corpo, poderia ser levada a se expressar de vez em quando; e por causa dos mistérios que envolviam a natureza e a finalidade da alma no homem, as mentes não místicas e não treinadas acreditavam que, quando a alma de fato se expressava, isso provavelmente acontecia de acordo com o próprio mistério que a envolvia. Por conseguinte, suas expressões se dariam através de estranhas contorções do corpo, de sons esquisitos emitidos pela boca, ou de um balbuciar de palavras representativas de línguas desconhecidas, ou ainda, em algumas ocasiões, de movimentos rítmicos e balanços do corpo, ou também do poder de curar os doentes, despertar os mortos e fazer milagres.

Acreditava-se, igualmente, que a realização de milagres e a cura dos enfermos eram expressões da alma que só poderiam ocorrer aos que tivessem desenvolvido um elevado grau de harmonização espiritual e fossem mensageiros de Deus a um grau extremo. Não obstante, muitos acreditavam que quando grupos de pessoas se reuniam em sessões espirituais ou sob o transe da tensão espiritual, o estado de êxtase que nelas ocorria se revelaria mais facilmente através dos murmúrios e balbucios da estranha língua da alma, ou do peculiar controle dos movimentos do corpo pela alma. Por esse motivo, muitas seitas ou cultos cresceram e se desenvolveram entre povos pagãos, e mesmo entre os judeus, e temos muitos registros desse tipo de reunião em que essas expressões extremas da alma constituíam o ritualismo do serviço religioso. E, por estranho que pareça, esses cultos e seitas existem até hoje.

Só o Eu objetivo e mortal do homem tinha condição de ser imoral ou cometer pecados. Por essa razão, havia em muitos países sistemas exóticos de desenvolvimento religioso e desabrochar espiritual em que a tortura do corpo constituía o meio e o método para o crescimento espiritual. Até que todas as paixões do corpo (significando o cérebro e os sentidos naturais) fossem dominadas, até que os instintos herdados e adquiridos pela carne fossem completamente controlados, até que todos os estímulos e reações inconscientes do sistema físico fossem cercados, tornando o sistema físico imune aos estímulos dos poderes terrenos da própria natureza, o homem não podia tornar-se um ser moral.

Enquanto o homem se mostrava capaz de reagir a estímulos mundanos ou aos desejos e impulsos da carne, de ceder às tentações do mundo exterior ao seu corpo, não estava qualificado para cumprir seus deveres cívicos ligados à comunidade. Os atos reprováveis ou proibidos de seu ser mortal eram considerados perniciosos para a comunidade, visto que constituíam elementos, problemas e fatores que tornavam a comunidade desagradável, infeliz, doentia e frágil para combater seus inimigos naturais e preservar sua existência.

O único pecado possível contra os deuses dos pagãos era negar a existência, o poder ou a possível ira do deus da comunidade ou da tribo. Tudo o mais que alguém fizesse a outro ser humano era imoral porque ia contra os interesses da comunidade ou era contrário ao dever cívico do indivíduo para com a maioria. Luxúria, adultério, assassinato, roubo, a prática de perversões, a apropriação das posses ou de direitos de outro indivíduo, o uso de palavras proibidas e centenas de outros atos não eram classificados como pecados contra o deus tribal ou comunitário, nem pecados contra os indivíduos envolvidos nesses atos, e sim como crimes contra a comunidade, a tribo ou a nação.

Vemos, portanto, que o código moral não se fundamentava em mandamentos ou convenções divinas, em onipotentes proibições ou proscrições de deuses. Tratava-se de um código criado, reconhecido e aceito gradativamente pelos legisladores e dirigentes da comunidade e seus bons cidadãos. O comportamento imoral representava um desafio às regras e regulamentos cívicos, atraindo para o seu perpetrador a punição física nas mãos dos cidadãos ou das pessoas autorizadas a cumprir as exigências do código nesse sentido. Atos imorais e pecaminosos, portanto, não atraíam para o pecador nenhuma condenação divina, nenhuma exclusão espiritual, ou discriminação crítica num sentido religioso. Se o corpo sofria tortura e punição suficientes pela violação do código de moral cívica, considerava-se que uma compensação satisfatória havia sido feita e que o pecado estava apagado.

Conforme dissemos acima, a única exceção era o pecado contra Deus ou os deuses, que constituía blasfêmia e negação da existência e do poder do deus ou dos deuses, e nesse caso o pecador tinha de ser executado para satisfazer as exigências especiais do código espiritual pelo qual se expressava a ira divina. Esse tipo de morte liberava imediatamente a alma do corpo e o executado deixava de existir na terra como indivíduo; vemos então que a total aniquilação da individualidade era o preço supremo para um pecado contra Deus. 

Ora, se analisamos o código moral a que Jesus se referiu em tantas parábolas e alegorias, vemos de imediato que havia uma grande diferença entre o Seu código moral e o que havia existido antes por tanto tempo. É verdade que o código moral transmitido por Jesus continha muitos elementos iguais aos que compunham o código judaico, mas os judeus não ensinavam, nem aos seus mais eruditos discípulos, o elemento místico subjacente ao código, pelo qual esse código tornava-se verdadeiramente moral e espiritual. Em primeiro lugar, Jesus distingue Seu código moral tornando claro aos Seus discípulos e estudantes secretos que a moralidade consiste num dever para com Deus e não para com a comunidade. Jesus esforçou-se constantemente, em Suas parábolas e alegorias públicas, em Suas pregações e ações, e em Seus ensinamentos e demonstrações particulares, para demonstrar que a moralidade era um dever para com Deus por ser um assunto particular entre o Eu interior do homem e seu Deus, que o verdadeiro código moral não era um simples assunto ou sistema público, e que a principal inspiração do código moral não era o princípio de cooperação com o semelhante ou de auxiliar um irmão terreno, e sim de salvar a própria alma.

Esse código moral, como foi expresso por Jesus, tentava introduzir de maneira muito sutil a idéia de que o homem era dual num sentido diferente de um simples corpo feito de elementos terrenos e uma alma espiritual nele aprisionada. Ele tentou estabelecer a compreensão de que, assim como o homem tinha um Eu exterior com todos os seus impulsos, sensações e sua suscetibilidade à influência do raciocínio, do pensamento e do impulso e da tentação mundana, tinha também um outro eu, o Eu interior, distinto do corpo e apenas parcialmente associado à alma.

A despeito de ter a igreja cristã moderna salientado bastante a ressurreição final do corpo e sua possível entrada no Reino de Deus, e a despeito de certas seitas cristãs terem desenvolvido uma concepção errônea da idéia subjacente à Ressurreição, a ponto de considerarem o corpo físico sagrado, recusando-se a aceitar a cremação, e em alguns casos recusando mesmo a autópsia ou qualquer forma de lesão física aos ossos e tecidos, por acreditarem que isso interferiria na ressurreição final do corpo e sua entrada no Reino dos Céus, Jesus não ensinou, não insinuou, nem mesmo acreditava que o corpo físico do homem fosse mais do que um envoltório mortal feito do pó da terra e totalmente sem importância no esquema geral das coisas. Isto pode parecer chocante para muitos cristãos ortodoxos, mas qualquer outro ponto de vista seria totalmente incoerente com as doutrinas secretas ensinadas e praticadas por Jesus.

Em nenhuma parte dos ensinamentos e práticas de Jesus podemos encontrar a menor insinuação de que Seu grande sistema tivesse a finalidade de salvar o corpo físico do homem. Nem a salvação da alma foi ensinada por Jesus, e todas as referências da Bíblia cristã à salvação da alma constituem uma interpretação errônea do princípio secreto ensinado por Jesus. Ele se atinha rigorosamente, como o fizeram todos os místicos de Seu tempo e dos séculos que O precederam, ao fato de que a alma do homem era imortal, mais que perfeita, e divina, composta da consciência de Deus, e insuflada no corpo físico do homem para torná-lo "uma imagem viva de Deus". Sempre que Jesus enfatizava a salvação da parte espiritual, psíquica, do homem, referia-se à terceira parte, ao homem interior, distinto do Eu exterior e apenas associado temporariamente à alma enquanto esta estivesse encarnada no corpo físico.

Esse Eu interior constituía a individualidade universal, a entidade distinta, o caráter, o Eu perpétuo. Certamente, se a alma do homem tinha origem e fonte na consciência e mente de Deus, era não só imortal como imune a qualquer contaminação, qualquer pecado, qualquer condenação. Não poderia, portanto, ser salva de coisa alguma, e Jesus não veio à Terra, nem pregou e fez demonstrações, sofreu na cruz e ofereceu Sua vida, para "salvar" a alma humana.

Como o público, os Seus ouvintes não treinados e preparados, não podiam fazer uma correta distinção entre alma, o Eu interior e o Eu exterior, eles não foram capazes de discernir a verdadeira mensagem secreta de Suas doutrinas sobre a moral.

O leitor não deverá inferir dessas palavras que Jesus negava a idéia da cooperação e a importância do auxílio ao próximo, pois Ele ensinou e demonstrou o princípio de que cada um é o guardião e servidor de seu irmão. Não obstante, mais importante do que estabelecer e manter um código cívico cujo maior propósito ou único objetivo fosse tornar possível a vida comunitária, uma nação ideal, um sistema cooperativo entre os homens, era a salvação do Eu interior de cada um através de um código moral baseado no dever individual para com Deus, o Criador, o Pai de todos.

Um ponto importante na implantação desse novo código moral era a sagrada obrigação, a ser assumida por todos os que fossem aceitos pela escola secreta, de renunciar ao mundo e desenvolver um amor puramente espiritual. Esses dois princípios permitiriam ao indivíduo livrar-se dos poderes escravizadores do mundo e tornar-se imune às tentações da carne.

As escolas de mistério haviam ensinado por muitos séculos que, até que o homem aprenda a encarar a Terra e todas as suas dádivas como um reino intermediário, um degrau criado apenas para servir ao homem e não para escravizá-lo, e até que o homem aprenda a expressar e responder a um grau maior de amor espiritual do que de amor físico ou mundano, ele não poderá salvar seu Eu interior da inevitável destruição ou aniquilação. O Eu interior, ao contrário da alma, não é essencialmente imortal a não ser por suas virtudes, sua moralidade, e sua consecução espiritual. A alma do homem é eternamente imortal e divina. O homem interior é livre para escolher a consecução ou se deixar devorar pelo fogo do inferno, onde será dissociado da alma e para sempre separado da expressão física.

E o Eu interior como entidade que pode se elevar em ressurreição ao Reino dos Céus, enquanto o corpo físico retorna ao pó da terra e perde sua identidade, individualidade, seu caráter e sua natureza.

Através dos princípios secretos envolvidos no código moral proclamado por Jesus, o caráter, a individualidade do homem que constitui o Eu interior seria salva, de modo que era dever de cada um para com Deus levar ao Reino dos Céus, e à harmonização com Sua sublime presença, o Eu interior, como entidade digna de perpétua existência e contínua perfeição.

Jesus ensinou secretamente, e tentou revelar sutilmente em Suas parábolas e alegorias, que era o Eu interior, o caráter ou a personalidade dentro do corpo, que cometia os pecados que constituíam violações do verdadeiro código moral. Ele ensinou aos Seus discípulos, de modo bastante privativo, os estranhos segredos do funcionamento da mente humana, bem como dos desejos e impulsos do corpo físico, e do raciocínio ou pensamento errôneo do cérebro mortal, pelo qual ele oferece ao Eu exterior em evolução tentações para pecar e também impulsos para fazer o bem; mas esses desejos, impulsos e tentações são transmitidos ao Eu interior, para ele decidir e escolher. E, segundo suas decisões, e as ações disso resultantes, esse Eu interior tem de assumir a responsabilidade, não só de seus atos, mas também de seus próprios pensamentos. Jesus tornou isso claro em um notável exemplo, quando explicou que o simples olhar e pensar com luxúria e imoralidade com relação a uma mulher era o mesmo que cometer um ato imoral.

Jesus ensinou que o corpo físico, com toda a sua mortalidade, não podia ser considerado responsável por seus atos pecaminosos, por não possuir qualquer grau de consciência divina ou iluminação espiritual que lhe permitisse determinar ou decidir o que era mau ou errado, ou o que era certo. Não podia ser condenado a sofrer punição em qualquer tempo no futuro, porque não tinha futuro, mas apenas um breve momento de existência.

Esse ponto está relacionado com outra de Suas doutrinas secretas, na qual Ele revelou aos discípulos que a parte física do homem estava se modificando continuamente, que o corpo do homem hoje não era o corpo de ontem ou do ano anterior; que a cada sete horas o sangue do corpo ficava tão diferente em natureza física e química que talvez nem pudesse ser identificado como o mesmo sangue; que os tecidos externos do corpo descamavam-se constantemente; que esses tecidos eram compostos de células que morriam e desapareciam; que, assim como os cabelos sempre voltavam a crescer, o mesmo acontece com todas as partes do corpo do Homem. Jesus ensinou esses fatos a propósito de Seus métodos secretos de curar doenças e provocar mudanças rápidas na natureza física ou material do corpo e no seu funcionamento.

Assim sendo, o corpo físico do homem não podia ser responsabilizado pelos pecados que o homem cometia, nem podia prestar contas em um futuro distante pelos pecados de hoje, pois o corpo de hoje não seria o mesmo dentro de um mês ou um ano. E, como a alma não podia cometer pecados e não podia portanto prestar contas dos mesmos, então só o Eu interior em evolução, aquilo que distinguia o homem do animal, que distinguia um indivíduo de outro em características de natureza e em personalidade, podia ser responsabilizado e um dia ajustar contas pelos pecados do homem.

Outro ponto secreto de Suas doutrinas, freqüentemente citado com grande ênfase pelos modernos pregadores cristãos, é a idéia de que Jesus era a Senda ou o Caminho da salvação do homem. Esta idéia é aceita e interpretada de duas formas. Uma é a interpretação filosófica segundo a qual Jesus queria dizer que não era Ele como indivíduo, mas como mensageiro, que representava o modo e o curso para o viver correto; e que, como exemplo vivo e demonstrador, Ele se tornara o Caminho para a eterna alegria e a felicidade espiritual. A interpretação ortodoxa nos incita a compreender que isso significa que devemos aceitar Jesus como nosso Salvador, nosso Deus, nosso Senhor, nosso único meio de salvação através de Sua Crucificação, do sangue que Ele derramou e de Seu corpo martirizado, e que Ele morreu para que pudéssemos ser salvos vicariamente.

Mas para os místicos de Sua escola, e para os poucos místicos estranhos a ela que ocasionalmente iam à Palestina e ouviam Suas parábolas e alegorias, e voltavam para suas próprias escolas de sabedoria para explicar que um novo mensageiro de Deus estava na Terra, as palavras citadas na página anterior tinham outro significado, que os místicos de hoje aceitam como o significado verdadeiro, sem deixarem completamente de lado as outras interpretações.

Ao deixar transparecer que Ele era o Caminho ou a Senda, Jesus quis dizer que as revelações que Ele fazia, a revelação da existência dentro de Seu corpo de um Eu altamente evoluído, que não era nem o eu físico nem a alma, constituía um caminho ou um meio para o homem descobrir o mistério de sua própria existência, dando-lhe a oportunidade de se aperfeiçoar e se assegurar de sua entrada no futuro Reino, onde seria preparado e qualificado para continuar sua evolução espiritual.

Quase todas as frases pronunciadas por Jesus, e quase todos os pensamentos expressos por Ele em alegorias, parábolas ou instruções explícitas, lançaram luz sobre algum grande mistério. O próprio Jesus esteve entre os homens como um mistério. Para as multidões, Ele representava o mistério dos mistérios. Mesmo para Seus inimigos, que O condenavam e acusavam de charlatão, embusteiro, falso profeta, político intrigante e hipócrita, Ele foi muito mais do que tudo isso — foi um homem-mistério. No fundo do coração eles não acreditavam que Seu único propósito na vida fosse o charlatanismo que eles alegavam ter reconhecido em Sua conduta. E nem todos eles acreditavam totalmente que ele fosse um embusteiro sem qualquer poder ou autoridade. Nem os políticos e os dirigentes acreditavam totalmente que a missão de Sua vida girasse unicamente em torno de um esquema político. Havia mistério demais em Seus atos e em Suas declarações públicas. Havia mistério demais em Seu comportamento geral. Além disso, havia o mistério de Seus seguidores, que eram tão numerosos que os políticos não se sentiam seguros em confiar uma mensagem secreta mesmo aos mais íntimos companheiros e colegas. Havia, ademais, o mistério de Suas estranhas profecias e predições. Que queria Ele dizer, por exemplo, quando declarava que, se o templo fosse derrubado, Ele poderia reconstruí-lo em três dias? Isto não era um pronunciamento arrogante, feito sem pensar, pois nunca se vira Jesus fazer declarações sem fundamento e arrogantes desse gênero. 

O fato de que havia um mistério envolvendo Jesus, Seus ensinamentos e Suas práticas, é comprovado não só pelas declarações de Seus discípulos, apóstolos e seguidores, e por testemunhas imparciais, mas também por aqueles que O odiavam e aqueles que estavam prontos para apedrejá-Lo até a morte ou pregá-Lo na cruz. Mesmo durante o Seu julgamento, quando esses inimigos estavam prontos a apontar-Lhe o dedo e acusá-Lo de todas as coisas sórdidas, desprezíveis, baixas e pérfidas que a imaginação humana pudesse inventar, eles ainda estremeciam quando Jesus se aproximava e enchiam-se de temor quando Seus olhos se fixavam neles, murmurando entre si e fazendo queixas a Pilatos para que se precavesse contra qualquer truque misterioso e súbito que Ele pudesse fazer. Isso nos é revelado pelo modo de Pilatos chamar atenção para Jesus, de pé diante deles, perto da grande janela que dava para a multidão, dizendo: "Eis o homem!"Era o mesmo que dizer: "Aqui está Ele, despido de Suas vestes, de modo que todos possam ver Sua carne. Ele não tem pernas ou braços ocultos. Ei-Lo diante de vós, desnudado de todo o mistério físico e mundano. Olhai! Ele é apenas um homem Como vós; contudo, vós Lhe atribuístes todos os poderes, todos os atos, todas as capacidades de um super-homem ou de um monstro, e agora pedis Sua morte!"

Se pudéssemos ter em registros acurados em algum lugar um quadro verdadeiro e perfeito do que Seus inimigos pensavam Dele e temiam Nele na hora do julgamento, teríamos um retrato preciso do que Jesus realmente era, em Seu Eu interior. Mas tudo que temos é o que seus detratores disseram, pensaram ou alegaram sobre Seu eu exterior e, revertendo uma vez mais às antigas idéias pagas, desejaram ver aquele eu exterior destruído, pensando que assim a entidade viva, o ser vivo desse misterioso Jesus seria completamente aniquilado. O que aconteceria com Sua alma não lhes interessava nem um pouco. Era uma coisa imortal, divina, como a alma de Seus inimigos e amigos e de todos que ali estavam. Em Sua alma, Ele não era diferente dos judeus e dos gentios nem dos romanos que eles odiavam. A alma podia voltar para sua fonte original. Era incapaz de pecado, imoralidade ou pretensão, hipocrisia, conchavos políticos ou qualquer outra coisa a que eles poderiam objetar. Era o eu exterior que eles pensavam que temiam e era isto que queriam ver destruído, para que nunca mais ensinasse, pregasse ou demonstrasse as estranhas leis e princípios que estavam no cérebro físico de Seu corpo material, exterior.

O Homem dos Mistérios estava para deixar de ser um mistério pelo simples sofrimento e a morte do eu exterior. Compreender esta idéia é perceber a incoerência do ponto de vista daquelas pessoas e o fato de que deve ter havido alguma outra idéia secreta em Seus ensinamentos, quanto à natureza trina da existência do homem, o corpo, a individualidade interior, e a alma. Nisso encontramos a antiga, mas verdadeiramente cristã, idéia secreta da trindade.

CAPÍTULO XI: Os grandes mistérios

 

 

Sem dúvida, muitos leitores continuarão argumentando que não há uma boa razão para se acreditar que Jesus não tenha revelado conscienciosamente ao público todas as leis e princípios que Deus havia implantado em Sua consciência. Provavelmente dirão que Deus enviou Seu filho à Terra encarnado em forma humana e com capacidades humanas para falar e fazer demonstrações, a fim de que as massas e todos os que estivessem ao alcance de Suas palavras recebessem todo o conhecimento e a sabedoria que a consciência de Deus havia acumulado na memória e inteligência de Jesus. Argumentar que o único propósito da encarnação de Jesus na Terra foi revelar e não ocultar, é esquecer que grandes verdades podem ser destruídas por uma divulgação trivial e por sua classificação na categoria de fatos rotineiros facilmente adquiridos e compreendidos, sem esforço ou merecimento.

Lançar pérolas aos porcos sempre foi um método seguro não só de perder a maior parte delas, mas de fazer com que os porcos e outras criaturas não valorizem o que lhes é oferecido. Há uma tendência na natureza humana, provavelmente desde os tempos de Adão e Eva, de valorizar as coisas pela dificuldade para obtê-las ou alcançá-las. Aquilo que é oferecido gratuitamente só vale o esforço de pegar. Pensar que Jesus desconhecia esse princípio fundamental do pensamento humano é subestimar Seu maravilhoso conhecimento de psicologia humana. Tudo que Jesus oferecia ao público e aos Seus discípulos era mantido nas alturas, colocado numa posição difícil de alcançar. A própria salvação, aquilo que o homem mais desejava e que Jesus oferecia tão liberalmente, exigia sacrifícios e esforços. Embora muitos pensassem que o Caminho para a salvação indicado por Jesus parecia simples demais, comparado com a complicação das exigências ritualísticas e práticas das outras religiões contemporâneas, tanto os pobres quanto os ricos logo verificaram que o método cristão era o mais difícil de todos, e aqueles que efetivamente desejavam a purificação, o desabrochar e a elevação espiritual que lhes era oferecida, passaram a lutar por isso simplesmente porque as dificuldades aparentemente intransponíveis faziam a recompensa parecer extraordinariamente valiosa.

Jesus precisava de líderes para levar avante Sua missão e sabia que esses homens teriam de ser entusiastas e atribuir um alto valor à confiança que Ele oferecia. Foi por isso que Ele utilizou muitos métodos, especialmente o antigo sistema de escolher cuidadosamente discípulos particulares, secretos, que seriam eficientemente treinados e enviados como verdadeiros representantes de Seu divino plano e objetivo.

Para responder aos que ainda possam argumentar que não havia realmente mistérios envolvidos no que Jesus ensinou, e que é um erro considerar quaisquer de Suas doutrinas ou demonstrações verdadeiros mistérios, permitam-me dizer que quando o termo mistérios é usado no Novo Testamento e em todas as escrituras sagradas e outros escritos de Seu tempo e posteriores, esse mistério não se refere a alguma coisa sobrenatural e aparentemente incompreensível. Refere-se a uma revelação secreta, a algo que é uma grande verdade mas que tem sido oculto, embora seja passível de compreensão apenas por parte daqueles que se tornaram iniciados, preparados ou qualificados, e que talvez tenham sido purificados, purgados e tocados pelo Espírito Santo, para receber as jóias raras da verdade.

Precisamos não confundir o termo mistério com o significado desta palavra tal como ela é usada nos tempos modernos, e não devemos confundi-lo com o termo "magia" dos tempos antigos.

Jesus não poderia ter interessado as multidões, muito menos as mais cultas, em qualquer sistema novo de mistérios mágicos ou truques. Hoje em dia, o mundo moderno encara espantado os trabalhos profissionais de magia e prestidigitação não somente como um grande entretenimento mas também como algo realmente misterioso e quase sobrenatural. Entretanto, mesmo o maior dos intrigantes e misteriosos truques do mágico moderno teria sido recebido com um sorriso ou mesmo com escárnio pelos homens cultos e pelo público em geral na época da missão de Jesus na Terra. O Egito e a Índia, bem como outras terras do Extremo Oriente e do Oriente Próximo estavam acostumados a espetáculos misteriosos, a manifestações da chamada "magia branca", a tal ponto que os adeptos que ainda perpetuam esses mistérios nos tempos modernos espantam e causam perplexidades aos magistrais magos científicos de hoje.

Mesmo armados com nossos chamados milagres científicos, que achamos que teriam espantado e até assustado os povos antigos, não podemos duplicar, à maneira dos ilusionistas profissionais, as façanhas das leis naturais e divinas que eram comumente demonstradas nos anos que precederam o nascimento de Jesus. Até a ressurreição dos mortos não era uma coisa incomum ou surpreendente antes de Jesus, e se Ele tivesse tentado converter as massas a Suas doutrinas ou ao Seu divino sistema religioso somente com base no despertar dos mortos ou na cura dos cegos e aleijados, não teria alcançado maior sucesso do que outros anteriores a Ele.

Os mistérios com que Jesus lidava eram de natureza transcendental e revelavam princípios divinos e um poder especial para fazer demonstrações, que os estudantes das antigas sabedorias e revelações espirituais tinham sempre entendido como existentes em algum lugar ou como potenciais em Deus e provavelmente transferíveis a um avatar ou mensageiro divino dotado de qualificações especiais, mas não demonstradas nem ensinadas a não ser a uns poucos escolhidos.

Quando Jesus disse àqueles em quem confiava e que estava preparando, "Vim para mostrar-vos um mistério", Ele quis dizer algo muito diferente de qualquer coisa que eles tivessem visto ou ouvido no passado, e nós, que hoje tentamos penetrar nesses mistérios e vislumbrar pelo menos uma pequena parcela de seu poder e sua magnificência transcendental, compreendemos claramente que os mistérios ensinados por Jesus tão secretamente e demonstrados tão discretamente são na verdade merecedores de contínua proteção contra a mentalidade e os olhos profanos do povo curioso.

Não só acreditamos que esses grandes segredos foram cuidadosamente preservados e são suscetíveis de compreensão e repetição, como também acreditamos que coisas ainda maiores podem ser realizadas através dos mesmos princípios que Ele ensinou, embora o estudante e praticante tenha de se demonstrar digno, de estar comprometido a guardar segredo e de ter alcançado o verdadeiro discipulado.

Essa necessidade de cuidadosa seleção é salientada em tantas passagens do Novo Testamento que é absurdo afirmar que o estudante analítico das doutrinas cristãs ou o leitor cuidadoso da Bíblia cristã possa acreditar que a igreja cristã de hoje e todos os seus representantes estejam informados sobre as verdadeiras doutrinas secretas e os reais mistérios representados pela escola secreta de Jesus.

Os judeus de Seu tempo reconheceram o fato de que aquilo que Jesus estava ensinando e demonstrando não era o resultado de mera compreensão e cultura intelectual. Devemos lembrar sempre que Ele era atentamente observado pelos judeus mais eruditos e Suas doutrinas eram esmiuçadas pela mente sagaz daqueles que queriam descobrir nelas alguma falha de filosofia mística comum. Ele não só surpreendeu os doutores com Seu profundo conhecimento de assuntos geralmente desconhecidos dos jovens e até de pessoas cultas, como também Sua inteligência perspicaz e Sua evidente harmonização com a Consciência Divina permitiram-Lhe resolver os mais difíceis problemas teológicos, filosóficos, morais e éticos.

Consideremos por exemplo a ocasião em que Ele foi ao Templo e ali ensinou por vários dias. No versículo 15 do capítulo 7 do Livro de João, vemos que os judeus se espantaram com Seus maravilhosos ensinamentos, dizendo: "Como sabe este as letras não as tendo estudado?" Eles se referiam ao fato de que mesmo o mais superficialmente preparado de seus eruditos tinha de passar metade de uma vida não só em profunda meditação e análise dos escritos sagrados do passado, mas memorizando-os e examinando cada pensamento e idéia de todos os ângulos possíveis, e tornando-se aptos a responder centenas de perguntas feitas de todos os pontos de vista, sobre todos os princípios. O mesmo capítulo nos conta que Jesus lhes respondeu e disse: "A minha doutrina não é minha, mas Daquele que me enviou".

Repetidamente Jesus explicou com franqueza e modéstia que as coisas que ensinava e as coisas que fazia não eram o resultado da maestria de Seu próprio intelecto, mas sim de inspiração e revelação divinas e de uma preparação especial, que constituíam um messianismo divino. 

Tomemos outro exemplo de Seu modo secreto de lidar com esses assuntos. No capítulo 4 de Marcos temos uma história interessante sobre os ensinamentos públicos de Jesus através de parábolas, símbolos, alegorias e frases veladas, e nos versículos 10 e 11 lemos que "E quando se achou só, os que estavam junto Dele com os doze interrogaram-no acerca da parábola. E Ele disse-lhes; A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas".

Uma leitura atenta de toda a história demonstra que a multidão ficava por perto e ouvia muitas de Suas parábolas e, quando Ele aparentemente terminava seu período de instrução por aquele dia, a multidão se afastava, e as pessoas murmuravam entre si e perguntavam o que significava tudo aquilo e se Ele merecia confiança, e se algumas observações feitas por Jesus referiam-se sarcasticamente a eles ou a certas outras pessoas do país e, quem sabe, se eram críticas a suas crenças religiosas. Os zombadores e os meio-descrentes, junto com os mal-intencionados e os presunçosos, iam embora, pouco ou nada aproveitando das parábolas que tinham ouvido. Hoje encontramos duplicatas perfeitas desse quadro!

Somos informados de que, quando Ele finalmente ficava sozinho, havia algumas pessoas ao Seu redor, inclusive os Doze, que começavam a Lhe fazer perguntas sobre as parábolas que Ele tinha acabado de contar. Essas palavras do versículo 10 indicam claramente que havia dois grupos ou duas espécies de pessoas presentes quando Ele Se considerava "sozinho''. Havia o grande círculo de ouvintes interessados e crentes, e o círculo menor constituído dos doze apóstolos. Isso nos dá mais uma idéia dos cento e vinte discípulos ou estudantes da escola secreta, com os doze apóstolos como conselheiros e líderes. Agora podemos compreender porque Jesus lhes respondeu dizendo que, para aqueles que estavam à Sua frente e ao Seu redor naquele grupo secreto de cento e vinte estudantes, estava escrito que eles finalmente conheceriam "os segredos" do Reino de Deus, enquanto que para os que estavam de fora, os que estavam excluídos do discipulado de Seu corpo secreto de estudantes e representavam o círculo mundano exterior de transeuntes comuns, tudo seria revelado somente por parábolas.

Seus discípulos haviam visto tantos mistérios demonstrados que jamais questionavam Suas explicações, embora muitas aparentemente contradissessem o pensamento científico da época. Contudo, mesmo algumas das escolas de mistérios deste período do século vinte estão ensinando e demonstrando leis e princípios que se mostram contrários aos postulados teóricos da ciência. A tentativa de reduzir todos os milagres da Bíblia e todos os mistérios da vida a teoremas simples, naturais, científicos, está rapidamente se tornando insatisfatória para as mentes inteligentes.

Consideremos, por exemplo, ocorrências da Primeira Guerra Mundial. Milhares de mães de várias partes do mundo tiveram experiências que lhes provaram, a despeito de qualquer argumento científico ou contestação erudita, que tempo e espaço não existem no mundo espiritual e que a consciência de um ser humano pode se projetar pelo espaço e se fazer objetivamente percebida por aqueles que estão sendo lembrados pela pessoa que assim está projetando seu Eu real a distância.

Lembrando o fato de que Jesus estava ensinando secretamente a existência de um Eu interior independente do ser físico exterior e peculiarmente relacionado com a alma, vemos que Ele provou sua posição a este respeito por demonstrações reais. Em mais de uma oportunidade Ele apareceu no meio dos estudantes, enquanto, em todos os sentidos físicos e materiais, Seu corpo e Sua mente, assim como Sua alma, estavam distantes. Por isto Seus discípulos não se espantaram, mas até já contavam com a experiência da aparição de Jesus no aposento fechado após a Ressurreição. As Sagradas Escrituras do Novo Testamento deixam bem claro que eles estavam reunidos em uma sala fechada, na qual nenhum corpo físico podia ter entrado, mas que Jesus apareceu no local, não como quem passa de um recinto para outro, mas gradativamente, numa forma visível bem no meio deles.

O pensamento transmitido pelo registro desse acontecimento é o de que o Eu espiritual que apareceu entre os discípulos aumentou em substância ou em visibilidade diante de seus próprios olhos, como se uma nuvem mística se fosse tornando mais densa e mais definida em forma, tomando finalmente o aspecto objetivo e as características de um corpo físico. E para provar que não se tratava de uma simples aparição, Ele lhes mostrou que aquilo era efetivamente uma projeção da forma física, da consciência espiritual de Seu corpo, pois havia os ferimentos nas mãos e nos pés, as cicatrizes na testa e o corte no lado do corpo. Se essa aparição tivesse sido meramente uma "projeção da alma", ou uma "projeção espiritual da alma", conforme os modernos espiritualistas nos pedem para compreender e aceitar, as chagas em seu corpo carnal não estariam aparentes, pois não podemos inverter toda a nossa compreensão de princípios fundamentais e acreditar que um ferimento na carne e nos tecidos do corpo físico produza um ferimento idêntico na alma.

Além disso, havia a fórmula secreta que era dada com tanta clareza aos que compreendiam, e que era interpretada simplesmente como uma declaração alegórica pelos que se encontravam fora do círculo secreto. Jesus lhes explicara não somente como a consciência podia ser projetada a um ponto distante, tornando-se visível, mas também como cada um deles poderia comunicar-se com o Eu interior de uma pessoa distante e trazê-lo à sua presença, ou como poderia se harmonizar com o Eu distante de tal forma que esse Eu distante se tornaria visível ou tangível no próprio aposento do indivíduo ou grupo de indivíduos que o chamasse.

Sabemos hoje que para compreender esse grande mistério da projeção da consciência e projeção do Eu, ou dar o primeiro passo nesse processo místico, precisamos dominar muitas lições cuidadosamente preparadas, relativas a leis divinas e naturais básicas. Existem hoje em dia pessoas que praticam esse procedimento com reverência e profunda compreensão intelectual, pessoas que sabem que não se trata da violação de qualquer lei natural, como muitos poderiam pensar, e sim a aplicação de uma lei natural com elevada compreensão e a aplicação de princípios verdadeiramente divinos.

Ao transmitir a fórmula aos Seus discípulos alegoricamente, Jesus a associou ao ato de orar, pois a fórmula pela qual uma projeção de um ponto distante é provocada, ou pela qual o Eu se prepara para estender sua consciência a um ponto distante, é como fazer uma petição. Jesus lhes disse então que, quando orassem e quisessem sentir êxito em suas preces e se unificar novamente com Ele em corpo e espírito, conforme Ele lhes explicara na Ultima Ceia, deveriam orar em Seu nome, e sempre que dois ou mais se reunissem, em privacidade e isolamento do burburinho dos assuntos mundanos, e orassem "em Seu nome", ou O invocassem através da fórmula mística, Ele estaria entre eles.

Fazer e dizer certas coisas, e orar por certas coisas "em Seu nome" não significava o que geralmente se diz. Todo estudante dos antigos princípios místicos cristãos compreende muito bem o que significa a fórmula "em Seu nome". Em nome do Christus, em nome do Cristo, em nome do Espírito Santo, em nome da Santíssima Trindade, em nome do Logos, do grande Amém, tudo isto representa uma fórmula muito definida praticada por Jesus e Seus discípulos e privadamente praticada ainda hoje pelas escolas secretas de sabedoria antiga. A explicação disso tudo e da prática dos princípios pelos quais os estudantes de esoterismo preparavam-se e qualificavam-se para sair pelo mundo e se tornar visíveis aqui e ali, entrar nos lugares através de portas e janelas trancadas, ou através de paredes de pedra ou tijolos, ou ainda através de barras de aço ou ferro, constitui outra grande doutrina secreta.

A transformação da água em vinho, a multiplicação dos pães para alimentar multidões, a transmutação de coisas grosseiras em coisas mais refinadas, a alquimia do espírito, o desenvolvimento do poder da fé, a expansão da aura humana, pela qual as radiações espirituais e divinas da consciência de Deus no interior do homem podem curar, eram outras doutrinas secretas que foram preservadas, não só nos velhos e embolorados arquivos existentes nas criptas das primeiras igrejas cristãs, mas também nos ensinamentos práticos e místicos das escolas secretas de nosso tempo que representam a Grande Fraternidade Branca.

Todas as escolas secretas de hoje que podem ser classificadas como iniciáticas (porque seus estudantes devem primeiro ser preparados e depois iniciados esotérica e espiritualmente antes de receberem a Verdade) estão associadas em uma organização ou federação secreta, para o intercâmbio de sugestões e idéias úteis, relativas aos meios e métodos não só de perpetuar as doutrinas secretas ensinadas por Jesus, mas também o modo de selecionar os discípulos e apóstolos finais que serão enviados ao mundo, não para destruir a fé e as religiões do mundo, mas para realizar a grande missão para a qual Jesus foi preordenado e predestinado a tornar-se um Filho de Deus encarnado.

O fato de as igrejas cristãs e os seguidores de seus grandes líderes aceitarem ou não essas idéias e perceberem a verdade oculta neste livro é irrelevante para o sucesso do Grande Trabalho que está sendo realizado pelos perpetuadores e conservadores da divina ordenação. Eles não levam espadas, nem brandem uma coluna de fogo, mas em paz e secreto contentamento dedicam sua vida à disseminação do conhecimento aos que são merecedores. Sua forma exotérica de propaganda não é mais jactanciosa, bombástica e radical do que a propaganda feita pelo próprio Jesus quando Ele subia ao alto das rochas ou dos montes e, contemplando a multidão, proclamava a chegada de um novo reino, a vinda do céu à terra, a auto-condenação dos pecadores, a salvação dos que seguissem a Senda e O aceitassem como "o Caminho" para a vida eterna.

Esses instrutores e líderes de que falamos constituem uma hierarquia que governa um enorme império invisível, cuja existência é quase desconhecida dos zombadores, dos céticos, dos vaidosos. Eles não reivindicam nenhum nascimento singular nem poderes sobrenaturais. Apenas repetem a antiga, muito antiga afirmação de que são Mensageiros da Luz que trazem para a Terra a mensagem Daquele que os inspirou, e estão na realidade desenvolvendo o trabalho do Espírito Santo que desceu sobre seus antecessores no momento em que Jesus soprou sobre eles e pediu a Deus que os ordenasse.

Eles continuam utilizando parábolas e alegorias quando falam ao público e a chamar atenção para sua grande mis são por todos os meios disponíveis, a exemplo do que Jesus mesmo fez. Sofrem as censuras e a condenação das multidões, as punições físicas e materiais dos inimigos da Luz. Contudo, seus seguidores aumentam em número, eles vivem em paz e felicidade, crescem em sabedoria e no Espírito Santo, e representam hoje a verdadeira fraternidade humana, trabalhando para o estabelecimento na Terra do Reino de Deus. Através de livros e panfletos, da voz do rádio, de reuniões públicas e discursos privativos, eles abrem os portais àqueles que são sinceros; e nas entrelinhas de suas mensagens, seja qual for a forma de transmissão, revelam, como que através de um véu, o resumo simples das verdades que o buscador é convidado a estudar; e quando o estudante se sentir preparado, ou revelar seu preparo por sua atitude inquiridora e sua receptividade, o mestre instrutor aparecerá e o Caminho lhe será mostrado com toda clareza.

 

CAPÍTULO XII: Modificações progressivas das doutrinas cristãs

 

 

Nos últimos anos temos ouvido falar muito sobre revisões, alterações, modificações e supressões nos rituais, doutrinas e regras da igreja cristã; mas talvez não tenhamos consciência de que todo esse processo de alteração ou modificação tem estado em andamento desde o primeiro século após a passagem das Chaves a São Pedro, e de que o processo sempre foi bastante amplo para incluir as doutrinas fundamentais dos ensinamentos do Cristo e de Seus discípulos oficiais.

Na realidade, muito poucas doutrinas essenciais, fundamentais, da seita cristã original chegaram até nós em sua prístina pureza.

Os chamados fundamentalistas, que sustentam que estão se esforçando para conservar os fundamentos do cristianismo e proteger a religião contra as intrusões do pensamento moderno ou as modificações dos pensadores liberais, pouco sabem sobre o que era fundamental e o que é uma invenção de séculos posteriores. O que a maioria deles está se esforçando para conservar em sua "forma pura" está muito longe de ser verdadeiramente cristão em espírito ou forma.

Em todos os séculos desde a real fundação da igreja cristã, tem havido os chamados fundamentalistas, protestando contra qualquer modificação e insistindo na obediência rígida a certas doutrinas e princípios que afirmam ser "originais" e puros. Contudo, a maioria dos princípios e doutrinas assim classificados por eles, foram criados por decreto de um conselho ou por invenção arbitrária. Por exemplo, o que estava sendo protegido pelos fundamentalistas no século oito depois de Cristo como ditames originais do Cristo, eram em muitos casos invenções e decretos arbitrários dos patriarcas da igreja e altos conselhos do século anterior.

Os fundamentalistas de hoje tentam proteger doutrinas e princípios que foram criados, inventados ou arbitrariamente adotados em muitos conselhos eclesiásticos e "decretos oficiais" dos últimos oitocentos anos.

Tomemos como exemplo a doutrina da "Santíssima Trindade", que é considerada pelos fundamentalistas um dos originais e mais sagrados fundamentos cristãos. Entretanto, foi somente no século XII de nossa era que os patriarcas da igreja, em um concilio lateranense, discutiram a formação, ou real invenção da Trindade mais ou menos em sua forma atual, e a proclamaram como fundamental!.

É verdade que, no sentido místico, o triângulo sagrado fazia parte do simbolismo secreto da seita cristã original, durante a vida de Jesus; e fora um símbolo sagrado por muitos séculos antes de Jesus nascer; e continua sendo um símbolo sagrado de uma elevada e essencial doutrina de muitas religiões místicas. Era um símbolo dos "mistérios" a que Jesus se referiu muitas vezes e que nunca foram revelados ao círculo exterior de seguidores cristãos. Mas a doutrina da Trindade, como a temos hoje (com muitos acréscimos e modificações em seu espírito) não foi conhecida nem adotada pela igreja cristã senão no século XII, tendo pouca semelhança com a antiga e mística compreensão do simbolismo do sagrado triângulo.

A religião cristã de nossos dias, e dos últimos cinco séculos, está repleta, em suas doutrinas, rituais, regras e conduta, de conceitos extraídos liberalmente do paganismo. Esta declaração pode ser chocante para a maioria dos cristãos sinceros, e deveria ser esclarecedora para os fundamentalistas, que insistem em não permitir divergências com relação aos ensinamentos prístinos de Jesus.

Como exemplo, consideremos o muito importante, sagrado e fundamentalmente puro dia santo da Páscoa. Se se tratasse do aniversário de um acontecimento histórico, como se supõe que seja o Natal, deveria cair sempre na mesma data do ano. Entretanto, essa data é móvel, sendo determinada anualmente por ocorrências astrológicas ou astronômicas, de acordo com um sistema pagão muito antigo. Na verdade, o Dia da Páscoa é um feriado pagão tão antigo (e de significado místico e mitológico) que sua origem se perdeu nos tempos. Quanto ao Dia do Natal (dia do nascimento do Cristo), a primitiva igreja cristã utilizou várias datas diferentes para essa celebração sagrada e houve constantes disputas, durante os primeiros cinco séculos, sobre qual data de dezembro, janeiro e até fevereiro, deveria ser decretada oficialmente como a data verdadeira do nascimento de Jesus. Finalmente, foi adotado um feriado muito antigo dos pagãos (um feriado de natureza mitológica e mística), que caía no dia 25 de dezembro.

Quase todas as datas dos Dias Santos cristãos foram fixadas em antigos dias santos pagãos, com interpretações novas, originais e puramente arbitrárias. Poucas dessas datas têm qualquer relação ou fundamento em doutrinas, ensina mentos ou práticas de Jesus enquanto Ele esteve na Terra ou durante a vida de Seus discípulos iniciais.

Pela leitura dos cuidadosos registros das discussões feitas pelos concílios cristãos dos séculos III, IV, V, e séculos seguintes, ficamos sempre impressionados com a posição arbitrária assumida por muitos Conselheiros, e com a argúcia da votação do Concilio. A política explícita da "necessidade eclesiástica" parece ter sido a única regra e orientação pelas quais as doutrinas e os princípios ritualísticos eram rejeitados, modificados, alterados ou hipocritamente inventados.

Não era a interpretação puramente mística ou espiritual dos ensinamentos de Jesus, não era aquilo que poderia desenvolver e desvendar Seus sagrados princípios, que determinava o que deveria ou não ser acrescentado ou eliminado do conjunto de assuntos tradicionais em consideração, mas aquilo que tornaria a igreja uma organização física maior e mais poderosa, e que mais convenientemente serviria às necessidades do igrejismo era só o que recebia consideração. Uma distinção bem clara deve ser feita entre cristianismo e igrejismo, ao considerarmos a evolução da religião cristã. Hoje em dia, tudo que se refere à religião cristã é subserviente ao igrejismo ou cristianismo de igreja. Será então de admirar que o espírito místico, as doutrinas e práticas místicas da seita cristã inicial sejam quase totalmente desconhecidas dos seguidores da igreja cristã no mundo inteiro, seja católica ou protestante?

É consenso geral de autoridades conscienciosas da igreja cristã que muitas doutrinas e ensinamentos atuais foram inventados ou extraídos de religiões pagas, unicamente por razões de "necessidade eclesiástica" ou "conveniência".

Um exemplo é a doutrina fundamental do pecado original. Se a igreja tivesse defendido a idéia de que todos os homens devem ser salvos ou redimidos de pecados por eles mesmos cometidos e de que são culpados, isso teria eliminado a necessidade de redimir aqueles que tivessem vivido uma vida boa e sem pecado, particularmente milhares de recém-nascidos e crianças pequenas que nunca teriam cometido qualquer pecado ou ação de que pudessem se sentir "culpados".

Para aumentar o número de fiéis da igreja, para torná-la cada vez maior na forma puramente física, toda a humanidade, de todas as crenças, de todas as idades, inclusive bebês e crianças, teriam de encontrar a redenção e a salvação exclusivamente na igreja cristal As criaturas mais devotas, as mais inocentes crianças, tinham de ser compelidas à igreja para serem salvas — de quê? Não bastava que só fossem salvos aqueles que, com conhecimento de causa ou não, tivessem cometido um ou mais pecados da crescente lista de pecados feita pela Igreja; todas as criaturas vivas, mesmo as que tinham sido criadas à imagem e semelhança de Deus, tinham de ser salvas e redimidas.

A doutrina do pecado original foi criada por "necessidade eclesiástica", sendo totalmente inventada e oficialmente decretada como princípio fundamental. Por mais curta a vida terrena que uma pessoa pudesse ter vivido, mesmo que apenas uma breve hora, por mais perfeita e devotadamente que ela tivesse vivido, ainda assim estava amaldiçoada pelo pecado, pela herança do pecado original. Ninguém podia escapar dessa herança, nem mesmo o bebê cuja alma acabava de se projetar da Sublime Consciência de Deus!

Essa doutrina era sem dúvida uma "necessidade"! Ela acabou sendo a mais inadmissível de todas para milhões de homens e mulheres reflexivos, especialmente os pais que pegavam nos braços o primeiro filho recém-nascido com toda a sua inegável pureza.

Não obstante, dizem-nos que Deus é justiça, misericórdia e amor! Mas os inocentes têm de herdar, pela Vontade desse Deus, um pecado que condena a alma ao castigo eterno — a menos que ela seja redimida.

Em nenhuma parte dos ensinamentos de Jesus existe essa doutrina descrita na forma que lhe deu a igreja. Ela é a mais gritante das muitas doutrinas incoerentes e contraditórias da religião cristã de nossos dias.

A religião cristã (a forma cristã do igrejismo), é um dos mais complexos sistemas de nosso tempo, em comparação com a extrema e magnífica simplicidade do sistema revelado por Jesus. Seus seguidores (e muitos de Seus críticos mais ferrenhos) enfatizavam o fato de que Seu sistema de salvação, Seu Caminho, era tão fácil de compreender, tão direto e lógico, tão fácil para uma pessoa sincera adotar e seguir, que ou era evidentemente divino ou então ridiculamente infantil, de acordo com a opinião do comentarista.

Antes que Jesus expusesse Suas doutrinas simples e revelasse a reta e estreita Senda, o povo para quem Ele pregava tinha lutado com complexidades e elaborados procedimentos em religião, a tal ponto que somente os Altos Sacerdotes compreendiam todos os princípios, leis, rituais e práticas prescritas e proscritas. Nas religiões chamadas pagas havia uma multiplicidade de deuses, um número imenso de "indulgências simbólicas" e um fluxo contínuo de novas e arbitrárias regras, doutrinas e interpretações. Na religião de Israel, o ritualismo, as doutrinas e práticas, tinham se tornado tão complexas que era necessário toda uma existência de estudos para encontrar um código perfeito de vida.

Assim como um grande clarão de relâmpago desfaz a escuridão, as surpreendentes mas simples declarações de Jesus reveláramos fundamentos das leis de Deus. "Ama o teu próximo; sê como uma criança; faze aos outros o que queres que te façam; abandona as coisas vãs do mundo; busca o Reino dos Céus em teu interior; eleva tua consciência a Deus em prece e comunhão", e outras regras de fácil compreensão constituíram a verdadeira Senda para a Vida Eterna.

Hoje, encontramos na igreja cristã uma semelhante multiplicidade de deuses (chamados Santos) e um número constantemente crescente de novas e modificadas doutrinas, regras e práticas. No que se refere à prece e à comunhão divina, ao invés das instruções simples de Jesus para que orássemos diretamente e em particular ao "Nosso Pai que está nos Céus”, vemos que o sistema atual de preces é um complicado programa ritualístico, com instruções no sentido de dirigirmos nossas orações a um grande número de Santos mediadores. A injunção "Não terás outros Deuses diante de mim!" perdeu-se de vista na complexidade do ritualismo; e o sublime e místico privilégio da comunhão direta com Deus é prejudicado pelo pesado sistema do igrejismo.

Exatamente nesta hora, e em todas as horas de cada ano que passa, em algum lugar, nos numerosos grupos de divisões cristãs sectárias, há indivíduos ou pequenas comissões e conselhos de líderes eclesiásticos debatendo o aumento ou a modificação das doutrinas cristãs, e trabalhando arduamente para emprestar novas e mais modernas interpretações às verdades simples (inalteráveis) enunciadas por Jesus a Seus discípulos.

A religião cristã, em sua forma popular atual, não é mais a religião divinamente inspirada de Jesus, e sim um sistema humano de idéias pagas e modernas cuidadosamente tecidas para ocultar, e não revelar, as jóias transcendentais do diadema de prístinos ensinamentos de Jesus, o Cristo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO XIII: A preservação dos ensinamentos secretos

 

Nada do que dissemos no capítulo anterior deve ser entendido no sentido de que, com a passagem dos séculos, os ensinamentos puros e originais de Jesus tenham se perdido para o mundo, ou de que Suas doutrinas, práticas e métodos secretos não sejam mais do conhecimento do homem. Também não se deve pensar que a contínua modificação, alteração, interpretação e invenção de tantos princípios novos e incoerentes tenham obscurecido para sempre a verdade que Ele ensinou em Sua escola secreta.

Sem sombra de dúvida, a Igreja Católica Romana preservou em seus arquivos secretos em Roma, ou outro local, muitos manuscritos sacros que contêm os ensinamentos essenciais de Jesus em Sua forma inicial e quase pura. Existem muitas evidências indicando que no interior de suas caixas-fortes subterrâneas, inacessíveis a não ser a uns poucos, estão certos documentos originais escritos e assinados durante o tempo de vida de Jesus. Alguns outros documentos raros conservados no Vaticano, ou dentro dos muros da Cidade do Vaticano, são cópias de documentos originais, além de registros que são preservados em arquivos que estão fora do controle da Igreja Romana.

Em outros locais, arquivos reforçados de grande antigüidade guardam outros documentos e registros; e nos arquivos secretos de várias ordens monásticas de natureza não sectária estão preservados, e são abertos ao escrutínio ocasional de autoridades competentes, os manuscritos de pessoas, em grande parte testemunhas fidedignas que viveram nos anos do ministério de Jesus.

Dessas fontes é possível reunir fatos bastante esclarecedores sobre a vida e os ensinamentos de Jesus, especialmente as verdades que Ele ensinou em Sua escola secreta.

Acreditar que os criadores da igreja católica romana não fizeram um exame exaustivo dos manuscritos e registros que possuíam, ou que procuraram por meio de agentes em todas as terras, é ignorar o fato de que seus próprios registros de seus debates em concílios revelam o cuidado com que pesavam cada referência às doutrinas, ensinamentos, demonstrações e práticas de Jesus e Seus discípulos. Durante dias inteiros eles analisavam minuciosamente cada princípio sagrado, cada preceito, cada expressão citada dos ensinamentos de Jesus, bem como cada demonstração ou aplicação do Seu poder místico. Cada ato e pensamento era pesado na balança; se não se encaixava, como o elo de uma corrente, no sistema de teologia que estavam criando, era rejeitado ou "interpretado oficialmente". Onde elos estavam faltando ou eram "incompatíveis", novos elos eram inventados.

Ano após ano, século após século, esses debates continuaram, e seus registros mostram claramente que os Conselheiros tiveram diante deles muitos registros raros que proclamaram oficialmente como "falsos", perigosos, secretos, ou contraditórios em relação aos princípios da teologia cristã que eles estavam gradativamente estabelecendo.

Já fizemos referência em "A Vida Mística de Jesus", às muitas alterações que foram feitas ao longo de muitos anos no chamado "Credo dos Apóstolos". Os debates sobre este importante assunto mostram que os patriarcas da igreja romana em ascensão possuíam muitos registros raros dos verdadeiros ensinamentos cristãos, e também registros confiáveis do que havia efetivamente ocorrido durante a crucificação, o "sepultamento" e a Ascensão de Jesus. Mas os fatos verdadeiros foram deliberadamente ocultados.

A seleção dos manuscritos que constituem os "Livros da Bíblia" oferece um excelente quadro de como esses altos conselhos arbitrariamente escolheram ou rejeitaram fontes de informação autênticas e confiáveis que tinham à sua disposição. Os relatórios explicando por que certos manuscritos admitidos como genuínos foram rejeitados, e outros que ainda estão envoltos em mistério e dúvida foram finalmente votados como os únicos a constituir a Bíblia oficial, lançam muita luz sobre a questão de os ensinamentos originais de Jesus e Seus discípulos terem sido ou não preservados após a Ascensão de Jesus.

Mas não foi somente nos arquivos lacrados do Vaticano, nem nos arquivos de antigas ordens monásticas, que os segredos da escola de Jesus foram preservados.

Embora a Bíblia crista fale bastante sobre o trabalho missionário dos discípulos principais (os líderes dos doze grupos de estudantes bem preparados na escola secreta de Jesus), pouco ou nada diz sobre o trabalho dos outros obreiros secretos, que eram em número de cem ou mais.

É inconcebível que Jesus tivesse tido tanto trabalho para estabelecer e manter, à custa da própria vida e da liberdade, uma instituição como Sua escola, dedicando-lhe muitas horas do dia e da noite durante anos para preparar adeptos bem escolhidos e testados, sem ter nenhum plano ou programa para o futuro.

Obviamente, se havia um plano, um esquema para O Grande Trabalho, ele deve ter sido baseado na necessidade da continuação de Sua instituição (seja ela chamada de igreja, escola, ou ordem) após Seu afastamento. (A própria Bíblia cristã, assim como outros registros sacros, menciona as muitas ocasiões em que Jesus sugeriu claramente que Seus esforços terrenos seriam interrompidos ainda na Sua juventude. Portanto, Ele deve ter tomado alguma providência para a continuação do trabalho por Ele estabelecido. Doze homens apenas, os apóstolos, não poderiam ter cumprido, após Sua "crucificação", o que exigia mais de cento e vinte homens e mulheres durante Sua liderança ativa).

É absurdo pensar que o julgamento, a crucificação, o sepultamento e a ascensão trouxeram um fim absoluto a Seus planos secretos e Sua esmerada instituição. Que aconteceu com os cem ou mais adeptos testados e verdadeiramente preparados? Poderia Jesus ter escolhido para Sua escola pessoas tão fracas, tão pouco sinceras e tão facilmente desencorajadas que perdessem todo interesse, esquecessem todas as suas promessas e abandonassem todo o seu poder, divinamente outorgado em uma ocasião inesquecível, apenas porque seu líder tivesse sido perseguido? As pessoas não esquecem facilmente uma dádiva divina, uma herança sublime, que lhes permite irradiar Luz, Vida e Amor entre as massas. Existem suficientes evidências para provar que Seus cem ou mais adeptos continuaram a se reunir em sessões secretas da escola, a iniciar novos candidatos e levar a sagrada obra a terras muito além dos horizontes da Palestina. Há registros em muitos países do Mediterrâneo, e até da China, mostrando que esses primeiros adeptos e seus sucessores visitaram essas terras e ali estabeleceram ramos da Grande Escola, sempre cumprindo o trabalho missionário na forma de um círculo externo maior de estudantes e buscadores em geral e um círculo interno de adeptos iniciados.

Naturalmente, a necessidade de preservar as verdades que Jesus havia ensinado, e especialmente conservar em sua prístina forma as divinas fórmulas que Jesus usava e demonstrava secretamente na realização de milagres e "mistérios", fez com que elas fossem registradas na forma de símbolos, cifras e signos. Somente por transmissão oral e instrução pessoal, atrás de portas fechadas e guardadas, essas coisas foram sendo transmitidas de iniciador para iniciado, ano após ano, século após século.

Usando vários nomes simbólicos, os ramos da Grande Escola continuaram a existir através do tempo. A Grande Escola estava pouco preocupada com a fundação posterior de uma igreja sectária que afirmava ser total e puramente cristã, embora diferisse em doutrina do que Jesus havia ensinado. A Grande Escola não tinha interesse na construção de grandes edificações para culto, na criação de rituais elaborados para reuniões públicas, nem na invenção de sistemas teológicos próprios do igrejismo. A senda indicada por Jesus devia ser seguida por cada indivíduo em privacidade e silêncio. A salvação, o desenvolvimento espiritual e a harmonização divina eram qualidades pessoais, individuais, e não consecuções coletivas, de grupos.

Era inevitável que uma grande separação ocorresse entre os adeptos e seguidores da Grande Escola e o movimento conhecido como igreja cristã. Esta última estava sempre adotando e desenvolvendo características que a tornavam rival das religiões pagãs e judaica; a Grande Escola permaneceu sempre como o Reino Invisível do Céu na Terra.

Através dos séculos, o trabalho da Grande Escola continuou. Tomou várias formas, como assembléias secretas, ordens monásticas e fraternidades ocultas, adaptando suas operações às necessidades, limitações e condições específicas de época e lugar.

Várias formas exteriores de organização foram gradativamente estabelecidas para conservar e propagar os ensinamentos secretos de Jesus. Uma delas foi a Ordem da Rosa-Cruz (Ordem Rosacruz), à qual foi confiada a preservação e prática das fórmulas científicas, espirituais e divinas da Grande Escola. Outra foi a ordem semi-monástica do martinismo (Ordem Martinista), à qual foi confiada a preservação, e prática dos ensinamentos puramente religiosos de Jesus, o Cristo.

Nos nossos dias, em todo o mundo, essas duas organizações, que operam com ligeiras variações de denominação por questões lingüísticas e outras condições de cada país, mas seguindo as antigas regras e ditames do conselho internacional da Grande Fraternidade Branca, estão cumprindo os inalterados objetivos da escola secreta fundada por Jesus. Nenhuma dessas organizações constitui uma igreja, no sentido geralmente aplicado a essa palavra em nosso tempo, nem procura suplantar as igrejas estabelecidas de qualquer credo ou nação. Seu trabalho consiste em complementar o trabalho de todas as igrejas e movimentos religiosos, pelo ensino e estabelecimento das doutrinas, verdades e princípios eternos que foram eliminados ou modificados nos sistemas de religião arbitrariamente formados que existem em todo o mundo.

Nos círculos internos da Fraternidade Rosacruz encontram-se as Sagradas Assembléias que deram força ou poder espiritual à Grande Escola original. Aqueles que buscam o conhecimento dos mistérios do homem e de sua vida na Terra, no passado, no presente e no futuro, encontrarão o que procuram, gradativamente e segundo seu merecimento, na Ordem Rosacruz. Aqueles que buscam conhecer os mistérios das divinas revelações de Jesus, feitas de Seu modo original e crístico, encontrarão isso pela preparação e orientação no círculo da Ordem Martinista. Esta organização tem sua sede mundial nos Estados Unidos, com ramos autorizados e organizações ativas em várias partes do mundo. Só pode participar da mesma quem está preparado e é convidado no devido tempo.

 

 

 

 

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1 A descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto confirmou a referência feita pelo autor aos essênios e seus ensinamentos secretos, que precederam o cristianismo e que Jesus deve ter conhecido bem. Um relatório parcial sobre essa descoberta, do arqueólogo inglês G. Lankester Harding, Diretor do Departamento de Antigüidades da Jordânia, diz o seguinte:

"A mais espantosa revelação dos documentos essênios até agora publicada é a de que os essênios possuíam, muitos anos antes de Cristo, práticas e terminologias que sempre foram consideradas exclusivas dos cristãos. Os essênios tinham a prática do batismo, e compartilhavam um repasto litúrgico de pão e vinho presidido por um sacerdote. Acreditavam na redenção e na imortalidade da alma. Seu líder principal era uma figura misteriosa chamada o Instrutor da Retidão, um profeta-sacerdote messiânico abençoado com a revelação divina, perseguido e provavelmente martirizado”.

"Muitas frases, símbolos e preceitos semelhantes aos da literatura essênia são usados no Novo Testamento, particularmente no Evangelho de João e nas Epístolas de Paulo. O uso do batismo por João Batista levou alguns eruditos a acreditar que ele era essênio ou fortemente influenciado por essa seita. Os pergaminhos deram também novo ímpeto à teoria de que Jesus pode ter sido um estudante da filosofia essênia. É de se notar que o Novo Testamento nunca menciona os essênios, embora lance freqüentes calúnias sobre outras duas seitas importantes, os saduceus e os fariseus." — O Editor.

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